Perspectiva

18 Inesperado


Notas iniciais
Este é o capítulo que nos mostra como Rosálie começou a seinteressar por coisas do universo masculino. Carros e beisebol vão começar a povoar sua mente. pelo menos Edward vai ter algo diferente para ver.

PDV Edward

Estávamos perto de nossa formatura e eu tentava lutar contra minha natureza, essa decaída natureza vampiresca que me consome. Carlisle me encontrou em seu escritório lendo um compêndio sobre cardiopatias. Quando o vi, fiz menção de levantar de seu lugar, mas ele disse sorrindo:

- Pode ficar, fica muito bem desse lado da mesa Dr. Cullen.

Pude ver em seus pensamentos a enorme satisfação da minha escolha em seguir sua profissão, seu orgulho com os elogios que recebia de meu desempenho, a confiança imerecida em meu controle. Ele estava muito feliz.

Me senti ainda mais envergonhado de meus instintos, de meu lado mais animalesco. Claro que jamais me compararia a Carlisle, mas ele consegue clinicar. Por que eu sentia tanta dificuldade?

Como se lesse meus pensamentos, ele disse:

- Levei anos para colocar meus conhecimentos em prática.

- É tão difícil, acho que é porque provei sangue humano. Para você é uma suposição, para mim é uma lembrança. Eu tentei racionalizar.

- Eu já provei sangue humano Edward. Ele disse com muita calma.

- Como? Quis saber, era uma novidade para mim.

Ele repassou mentalmente minha transformação, o sangue amargo, maculado pelo láudano e pelo quinino (medicações muito comuns na época). O sangue de Esme, doce, mas sem volume, já que havia perdido muito na queda (era como se bebesse em conta gotas). O sangue de Rosálie, mais cítrico, provocou uma ardência gostosa na base da língua e o fez querer muito tomar o resto. Mas esse foi o que ele menos absorveu, ela já havia perdido tantas coisas para aqueles homens e estava tão assustada. E enfim o sangue de Emmet, encorpado, como se fosse cremoso, doce e frutal. Ele também absorveu pouco, ele havia perdido mais sangue que Esme.

Ele sorriu e mostrou minha expressão de susto ao ouvi-lo dizer que já havia provado sangue humano.

- Te peguei. Concluiu irônico.

- Foi um susto e tanto. Concordei sorrindo.

- Você me tem em alta conta, considera-me melhor do que sou Edward.

Eu não concordava com aquilo. Na verdade Carlisle era modesto, quase nunca aceitava elogios. Para ele todas as suas qualidades eram apenas uma obrigação, diante da falta de humanidade de nossa nova natureza.

- O senhor também. Não sou tão controlado, nem tão honrado. Passo uma boa parte do meu tempo pensando em alimentar a sede. Imagino tantas possibilidades, existem tantos pacientes que ninguém sentiria falta, ou para quem a morte seria uma dádiva.

- O que fazemos é ir contra a nossa natureza Edward. Pensar em como seria melhor ceder é muito natural. Há uma passagem na bíblia que define exatamente como me sinto, como acredito que se sente. Ela foi escrita por um homem que dedicou sua vida a se aproximar mais de Deus, que provou sua coragem e seu desprendimento para se dedicar a cumprir sua vontade. Ele deixou seu status, seu círculo de amigos, sua posição de poder no reino, e possivelmente sua família, ele era um homem muito honrado.

- Fala de Zaqueu? O cobrador de impostos que devolveu o que roubava dos pobres depois de conhecer Jesus em vida?

- Não. Falo de Paulo, o apóstolo. Ao falar sobre si mesmo ele disse: O bem que eu quero, esse não o faço. Mas o mal que eu aborreço, esse eu faço. Acho então essa lei em mim; que querendo fazer o bem, o mal está comigo.

- Sim, esse sou eu. Confessei rendido.

- Paulo falava sobre a luta entre seu espírito, que queria cumprir a vontade de Deus, e sua carne que queria apenas desfrutar a vida. Nossa luta é parecida, é nosso instinto e nossa consciência travando uma batalha ferrenha. Sabe? Quase no final desse texto Paulo parece ser um homem sem esperança. Ele chega a se maldizer: Miserável homem que sou. Quem me livrará desse corpo de morte? Ele se pergunta.

- Quem me livrará desse corpo que nem pode morrer? Parafraseie a pergunta do tal Paulo da bíblia.

Carlisle me sorriu com seu jeito terno e compreensivo e disse:

- Mas ele encontrou esperança, e venceu sua carne. Tanto é, que mesmo depois séculos, sua memória ainda está muito viva. Paulo encontrou um motivo de ter esperança.

- O quê? Perguntei ansioso.

- Fé. Fé em um Deus muito generoso. Ele sabia que apesar de sua humanidade levá-lo sempre a inclinar-se para o mal, havia em seu coração o espírito de Deus que o ajudava a achar forças para praticar o bem. Mesmo que isso significasse negar sua natureza. Ele cria que a carne, a humanidade o conduzia para a morte, mas o espírito vivificava tudo.

- Quer que eu tenha fé? Sequer temos almas Carlisle.

- Não. Minhas crenças são minhas, filho. Jamais pediria a você para que seguisse aquilo em que creio. Sabe que o livre arbítrio sempre foi muito apreciado em nossa família. Estou te dizendo que em algum lugar em você há forças para resistir e negar a sua natureza. Se não fosse assim, não voltaria para casa. Ainda estaria vagando pelo mundo se alimentando de forma regular.

- Eu ouvia o que eles pensavam antes de morrer. Eles me fizeram sentir medo de mim, do monstro que viam em mim. Eu não quero ser um monstro. Disse convicto.

- Muito bem, então aí está a fonte de suas forças. Sempre que estiver prestes a se desviar de sua dieta pense nisso. Assim como Paulo pensava em sua vontade de estar mais perto de Deus.

- Em quê pensa? Perguntei curioso.

- Ainda não percebeu?

- Em Deus? No que acontecerá com sua alma? Se é que tem uma? Perguntei incrédulo,

Carlisle era tão instruído. Como podia acreditar nessas coisas? Foi então que percebi o grande segredo de meu Pai, ele cria em Deus. Ele cria na existência de sua alma, e na possibilidade de salvá-la. E por mais que isso possa parecer incrível, visto de sua perspectiva, não era de modo algum ridículo.

Ele se levantou e foi em direção à porta, depois se virou para me olhar e disse:

- Filho, não precisa provar nada. Nem para mim, nem para você mesmo. Precisei de quase cem anos para criar a coragem de clinicar. E mais um século para me sentir seguro em relação à minha natureza dentro de um hospital. Existem outras opções, tantas opções...

Sua irmã acha que já é tempo de mudarmos. Talvez ela tenha razão.

Dizendo isso ele se foi e eu fiquei imerso em meus pensamentos. Sorri involuntariamente ao ver o rosto de Esme, ela parecia iluminada. Em sua mente a enorme satisfação de encontrar mais similaridades entre mim e Carlisle. Ela caminhou lentamente me apresentando as inúmeras vezes em que viu Carlisle na mesma posição, com a mesma expressão.

- Tudo bem?

- Sim. Só os velhos dilemas de sempre.

- Filho, sei que não sou instruída como seu pai. Mas se quiser saber minha opinião, eu acho que não devia sofrer tanto.

- Você me ama muito, nunca vai desejar que eu sofra. Mas eu preciso crescer, todos amadurecem um dia. Até mesmo o Emmet, ele é um respeitável senhor de família.

- Vocês se enganam com o Emmet. Sabia? Todos acham que ele é um meninão incorrigível. Mas a verdade é que ele é um homem da montanha. Na montanha você aproveita bem os melhores dias, porque quando a tempestade vem você precisa estar forte para resistir. Emmet é muito maduro, sempre foi. Ele só não desperdiça energia tornando as coisas mais complexas, como vocês “pensadores” fazem.

- Não sou um pensador. Me defendi.

- É sim, está há dias se torturando porque não consegue clinicar. O sangue humano é muito atrativo para você, acha que mataria mais que curaria. Quando deveria estar feliz porque sabe muitas coisas sobre o corpo humano, porque se formará com louvor, porque tem pais orgulhosos de você, e irmãos que te apóiam, porque você fez isso. Porque é médico.

- De que me serve ser médico?

- De que me serve ler tanto sobre arquitetura? Serve para mim saber que li, que conheci coisas novas, que consigo ler uma planta, ou identificar os elementos de uma escola só em ver um prédio.

- O que quer dizer?

- Já disse. Aproveite o gostinho de dever cumprido. E amanhã se matricule no curso de filosofia, e depois no curso de matemática e depois no de psicologia e depois no de engenharia e depois no de biblioteconomia. E quando cansar de se matricular, viaje. E quando cansar de viajar se apaixone. E quando se apaixonar não me esqueça.

Eu me levantei e a abracei, depois descansei no aconchego de seu colo maternal e disse:

- Nunca vou te esquecer.

- Vai sim. É só arranjar uma barra de saia.

- Vai ficar com ciúmes D. Esme? Sorri ao perguntar, mas ela franziu o cenho.

- Não. Ah! Você lê pensamentos. Sim.

Eu ri.

- Filho, sei que não sou tão inteligente...

Eu a interrompi.

- Esme, algum dia já se viu no espelho? É tão inteligente, tão sábia. Estudei com um monte de homens cheios de títulos estúpidos, eles não chegam a seus pés. O que quer me dizer?

- Desculpe o trocadilho barato, mas cresci ouvindo um provérbio. “O que não tem remédio, remediado está”.

- Entendi.

Refleti um pouco e decidi que eles estavam com a razão, eu realmente precisava aceitar minhas limitações. Impor o rigor de nossa dieta em um ambiente cheio de sangue era muito para mim. Esperei pelo momento de conversarmos sobre a nossa mudança, já era inevitável. Os dias passavam rotineiramente, a eternidade lhe traz a sensação de repetição às vezes. É tudo novo de novo, pelo menos para alguém solitário como eu. E minha família estava imbuída de suas próprias vidas.

Carlisle estava fascinado com os avanços em cirurgias cardíacas, desde que os médicos Dr. Alfred Blalock e a Dra Helen Taussig fizeram uma cirurgia pioneira realizada no famoso Instituto Johns Hopkins. Eles romperam com o mito de que o coração e o cérebro são intocáveis. Eles não só tocaram em um coração como o consertaram, até eu me maravilhava do fato. Havia algo muito interessante em Carlisle, apesar de ser o mais velho de nosso clã, ele era o mais atemporal, ele acompanhava a modernidade. Sua mente nunca se negava ao novo, ao desconhecido, acho que é isso que o torna tão interessante. Carlisle reúne em si a sabedoria que acumulou ao longo do tempo com um espírito sempre jovial, aventureiro. Havia notado sua inclinação em ir ver pessoalmente os avanços, especialmente conhecer o tal assistente de que tanto falavam. O tal Sr Thomas era além de técnico de laboratório, o produtor de alguns instrumentos cirúrgicos usados nas operações.

Minha mãe está dividida entre seus paradigmas e a modernidade. Apesar de estudar avidamente tudo que está relacionado à arquitetura e se identificar com os vanguardistas “Le cobusuier” e Niemeyer, os preceitos de sua rígida educação ainda estavam arraigados demais em seus costumes. Ela ainda ficava demasiadamente envergonhada em ter momentos íntimos com Carlisle comigo em casa, mesmo que ele afirmasse veementemente que eu sabia que aquilo era comum entre casais. Criticava o comportamento libertino das mulheres que bebiam e fumavam em público e ficou escandalizada com as notícias de desquite pós-guerra. Ela dizia: ”Isso é apenas uma desculpa para a falta de vergonha de hoje em dia. As mulheres de antigamente enfrentaram muitos anos de guerra e nem por isso largaram os maridos”.

Mas a situação mais engraçada que D. Esme me proporcionou foi seu contato com as calças.

Flashback

Rose tentou convencê-la a incluir essa nova vestimenta do universo feminino em seu guarda roupa. Primeiro tentou convencê-la de que era moda.

- As meninas lá da Weslesley usam, e até algumas professoras também. Tem bom caimento e valorizam nosso corpo.

Mas ela arregalou os olhos para Rose vestida com uma e disse:

-“Pouca vergonha”.

Minha irmã, que tem uma inclinação a fazer prevalecer seu ponto de vista, se aventurou pelo viés da praticidade.

- Esme, se sentiria muito mais à vontade. Pode subir nas árvores sem se preocupar com suas roupas de baixo sendo vistas. Pode correr sem se preocupar com o vento suspendendo a saia. Pode ampliar seus movimentos de caça. E ninguém vê nada do que não deva ser visto.

Rose pulou no sofá inclinando seu corpo para frente e esticando uma de suas pernas quase perpendicularmente à parede enquanto flexionava a outra como se praticasse a tal ioga. Mas D. Esme foi inflexível:

- Isso porque esta calça, que é roupa de homem, já desenha todo o seu corpo. Imagina só? Dá para ver tudo, seu corpo fica todo à mostra. Não é possível usar combinação, ou anágua com esse troço. Aliás, dá até para perceber o tamanho da nossa lingerie, fica mostrando a costura debaixo do tecido. Além do mais tem esse gancho pegando no meio das pernas da gente, bem lá...

Minha mãe disse quase corando, se não fosse vampira já estaria vermelha.

- Não incomoda, mãe. E não dá para ver nada. Não desenha tanto o corpo, é folgadinha. Não é Edward?

- Eu não vejo nada que não deveria, ou já tenha visto. Respondi de meu quarto.

- Mentiroso!

Ela olhou feio para o espelho projetou essa imagem em pensamentos e completou:

- Ai que vergonha, mas já deve ter me visto nua. Seu pai deve ter pensado, ou eu mesma. Então já deve ter me visto pior do que com essa roupa escandalosa.

- Não Rose, nem pensar. Se quiser pode usar esses trajes para caçar, mas eu não vou vestir. É indecoroso. Imagina se um homem, que não seu pai, me vê assim. È muita vergonha, sou uma mulher do século passado. Deixo essas modernidades para as jovens.

Rose se deu por vencida pela primeira vez em nossa eternidade. Ela jamais contrariaria Esme, ou diria algo que a magoasse. Mesmo que em sua mente palavras como “ultrapassada”, aparecessem em meio à discussão.

Flasback Off

Emmet estava muito feliz com sua universidade, ele se saiu muito bem, apesar de não ter estudado muito enquanto humano. Ele freqüentou a escola até o ginásio e depois, como era comum, abandonou os estudos para trabalhar. Ele ajudava a família em uma fazenda familiar. Vê-lo estudando com Esme era ao mesmo tempo hilário e terno. Hilário, porque um homem daquelas proporções com medo da bronca de uma figura tão delicada como Esme era risível. Terno, porque Esme se realizava como mãe, para ela era como se fosse um filho a quem ensinava o dever de casa. A escolha de Emmet foi magnífica, pois apesar de não ter muito a ver com a tão amada arquitetura de Esme, envolvia os benditos “cálculos de área”. Esme se tornou muito hábil nesse assunto ao estudar os livros que Carlisle lhe presenteava, então Emmet recorria a ela para tirar dúvidas.

Rosálie se formou há um ano, agora ela e Emmet vivem mais como um casal do que nunca. Ainda espero o ardor da paixão acabar, mas é inútil. Devo confessar que me odeio um pouco, parte dela vem do tal presente que dei a meu irmão. E a casa então? Pobrezinha, vive sendo reformada, para a felicidade de Esme e sua ansiedade em testar seus novos conhecimentos.

A primeira vista tudo parece muito normal, mas tenho a sensação de que há algo estranho. Rose quase sempre está pensando em si mesma, ou admirando sua beleza, o que é muito comum. Mas sinto nessa repetição de pensamentos uma intencionalidade, é como se ela usasse isso para me distrair. Às vezes ela se distrai e a vejo cogitando possibilidades de conseguir dinheiro, especialmente nas quinzenas mensais. Só não entendo o motivo.

Apesar de gastar boa parte de sua energia em futilidades como roupas, sapatos e essas feminilidades, ela nunca foi muito ligada a isso. Para Rose dinheiro sempre foi um utilitário, como escovas, ou vassouras. Sempre que necessitava, estava à mão. Contanto que não lhe faltassem os mimos, ela sequer parecia notar que era necessário trabalhar para consegui-lo.

Então de repente ela resolveu trabalhar, disse que queria se sentir produtiva. Emmet se opôs veementemente, como um típico homem provinciano. Esme (que sempre fazia qualquer coisa que deixasse Rose mais feliz) tentou argumentar com ele e lhe lembrou que Rose jamais desrespeitou o casamento deles, mas ele respondeu com um clichê:

- Eu confio plenamente em Rose, é nos homens em quem não confio. Já é difícil para um imortal não admirá-la, imagina um humano?

Carlisle me surpreendeu ao pensar:

- Se Esme quisesse trabalhar eu não me oporia.

Apesar de ser bem mais velho que Emmet, ele mostrou-se muito mais receptivo a modernidade do que meu irmão cabeça dura. Carlisle é mesmo muito interessante, ainda não consigo entender como ele consegue assimilar tão rapidamente as idéias dos novos tempos. Esse é um conhecimento que preciso adquirir, porque no fundo concordo com Emmet. Se tivesse uma companheira não gostaria de vê-la trabalhando fora de casa, só porque as feministas dizem que é o certo.

A uma semana da formatura Carlisle nos reuniu para decidirmos o rumo de nossas vidas. Senti que Emmet estava inclinado a morar mais longe de nós, a universidade deu a ele vontade de provar ser capaz de manter sua própria família. Mas Esme faria uma cena se soubesse que Rose iria para longe. Mesmo que tudo parecesse normal, assim como eu, Esme também percebeu que havia algo errado. Na verdade Carlisle havia dito que ela estava se preocupando a toa com Rose. Segundo ele minha irmã estava mais próxima dela, mais dócil e acessível, mesmo que a relação delas não houvesse voltado a ser como era antes da guerra. Mas Esme sentia algo em seu olhar, na forma como seu semblante se modificava a depender da hora do dia, no modo como seus olhos perdiam o brilho em frações de segundos. Mas infelizmente, jamais quando eu estava perto, por isso jamais puder responder a essa inquietação de minha mãe. Comecei a perceber que minha irmã era muito mais do que a menina superficial e fútil que demonstrava ser.

Carlisle começou seu discurso:

- Sei que já se adaptaram a este lugar, mas não há mais como nos mantermos aqui. Precisamos considerar um lugar onde possamos ir.

Esme que quase nunca se pronunciava sobre essas coisas disse:

- Gostaria de ir para New Haven, não é muito distante daqui e a adaptação seria muito fácil.

- New Haven? Emmet perguntou curioso, ele percebeu que Esme tinha algum interesse.

- É que o Sr. Niemeyer virá para ministrar na faculdade de arquitetura de Yale. Eu pensei que já que Rose se sente sozinha quando estuda, e apesar de já ser velha para essas coisas algumas mulheres já estão fazendo faculdade, talvez eu possa fazer um curso lá. Eu fico sozinha quando vocês estão na faculdade e seu pai trabalhando, então...

- Me faria companhia e estudaria comigo. Rose disse solidária percebendo o quanto ela queria aquilo. Ela podia ser egoísta, mas ela amava Esme.

Depois vi na mente de Esme uma cena de Rose a incentivando a estudar, dizendo que seria bom para ela ter um diploma, que isso a faria se sentir mais realizada. Não era uma projeção, era uma lembrança eu tinha certeza, Rose estava vestida como eu a vira há quatro dias. Minha irmã era uma criaturinha egocêntrica e narcisista, talvez houvesse algum interesse a mais, ou eu estava enganado e ela realmente só quis incentivá-la.

Mas o que mais me impressionou foi o fato de Carlisle não ter gostado da idéia. Logo ele que sempre me pareceu tão receptivo aos novos tempos, que incentivou Esme comprando livros sobre o assunto. Mas então ele se traiu por apenas um milésimo de segundo e eu pude ver. Ciúmes, Carlisle estava com ciúmes. Ele pensava em como os elogios eram todos para ele, o interesse era todo para ele, a atenção era toda para ele antes do tal Sr. Niemeyer aparecer.

Esme o olhou apreensiva, ela não sabia como ele reagiria. Mas ele se recuperou rapidamente e tratou o assunto como se fosse apenas mais uma sugestão:

- New Haven. Mais alguma sugestão? Carlisle inquiriu parecendo desinteressado.

Rosálie que estava projetando-se mais uma vez, e isso agora me irritava um pouco disse:

- Se Esme gosta da idéia acho que devemos ir. Teremos que mudar de sobrenome, porque será fácil para Yale cruzar os dados com Havard, elas são da Ivy League. Logo, será fácil localizar o histórico de Edward e Emmet.

- É verdade. Eu concordei com ela, o que era raro.

Ela pensou um pouco e eu sorri da idéia que estava tendo. Agora eu colocaria em prova a modernidade de Carlisle.

- Já que o desejo de morar em New Haven é da Esme, que tal se adotássemos seu sobrenome?

- Evenson? Esme perguntou surpresa.

- Ou Platt. É seu sobrenome de solteira não é? Rose continuou.

- Sim. Esme disse olhando Carlisle de forma questionadora, como se desejasse sua aprovação.

- Não vejo motivo algum que nos impeça. Carlisle concordou com o sobrenome, mas ainda era reticente á Yale.

- Então Yale. Emmet, sempre muito prático, bateu o martelo.

- Finalmente irei à faculdade. Rosálie concluiu animada.

No mudamos uma semana após a formatura, minha família prestigiou minha colação de grau com o mesmo entusiasmo que as outras, como se eu fosse um humano normal prestes a clinicar. Eu fiquei muito mais feliz do que esperava, Esme percebeu isso e me abraçou com a maternalidade que lhe era tão familiar:

- Parabéns filho. Estou tão orgulhosa de você, não imagina o quanto me sinto feliz ao te ver tão alegre e realizado. Ela disse em meu ouvido

- Daqui a cinco anos será a senhora. Dra. Esme Cullen. Disse sorrindo.

- Não Dra. Esme Platt. Rose me corrigiu.

Nos olhamos por um momento, nem em meu momento de regozijo deixávamos de nos implicar. Mas no fundo vi o mesmo orgulho de meus pais em seu pensamento e a gratidão por ajudar Emmet a se controlar perto dos humanos.

- Parabéns! Ela me disse ao lado do marido.

Mas eu a surpreendi, abraçando-a.

- Obrigado! Respondi.

Esme e Carlisle me olharam extasiados, era o primeiro gesto de carinho que trocávamos desde a casa na Polônia. Desde então ela só falava comigo apenas quando não havia outro jeito, ou para corrigir-me de acordo com seu ponto de vista. Esme disse-me em pensamento:

- Obrigado filho. Muito obrigado.

Depois de nos instalarmos em New Haven, Carlisle consegui um emprego em uma clínica como clínico geral, ele também se matriculou como aluno especial em uma turma de cirurgia cardiotorácica, que havia sido revolucionada pelos médicos do Jonhs Hopkins.

Esme foi aceita no curso de arquitetura, era a primeira mulher a fazê-lo em Yale. Jamais vi minha mãe tão excitada como no primeiro dia de aula. Ela chegou em casa em estado de graça, falando com tanto encanto do seu primeiro dia que quase me mudei para seu curso. No entanto o tal arquiteto brasileiro que nos levou a morara ali nunca chegou. A faculdade de arquitetura lamentou muito o fato dele não ter conseguido o visto para morar nos E.U.A. Esme ficou triste ao saber da notícia, mas continuou a estudar.

Eu segui o conselho de minha mãe e me matriculei no curso de filosofia, foi interessante conhecer múltiplas possibilidades de conceber a vida humana. Eram tantos filósofos e tantas escolas, que meu mundo aos poucos foi deixando de ser tão “preto no branco” e eu me permitir questionar meus paradigmas.

Emmet agora fazia administração urbana, algo que complementava seus estudos em engenharia de estradas e rodagens. O que tornava as discussões dele com Esme muito interessantes. Ela era a favor do pensamento minimalista de “Le cobusuier”, já Emmet estava convencido que o mundo deveria investir na magnitude dos prédios modernos e mais tecnológicos. Ele discursava

- Veja a televisão. Há uma década quem imaginaria que poderíamos sentar em frente a um aparelho que mostrasse uma imagem feita no outro lado do país? Quem imaginaria uma modernidade dessas? Esme o mundo precisa de tecnologia. Daqui a alguns anos você poderá sair e deixar uma máquina lavando suas roupas, uma outra varrendo a casa. Você verá.

Já Rosálie entrou para a prestigiosa escola de direito de Yale, havia apenas cinco vagas destinadas às mulheres e uma pertencia à Escola de Weslesley. Ela obviamente ocupou essa vaga. No início do curso havia outras quatro mulheres juntamente com ela, mas o preconceito era tão grande por parte de professores e colegas que duas desistiram.

Foi então que descobri outra faceta da personalidade de minha irmã, ela era uma pessoa teimosa, incrivelmente voluntariosa. Eu pensei que ela mataria metade dos colegas e uma boa leva de professores tamanha a raiva que ela voltou para casa nas primeiras semanas. Alguns professores fingiam que elas não estavam lá, outros faziam comentários machistas, poucos aceitavam de fato a presença delas.

Mas os colegas eram os piores, diziam que elas estavam na faculdade porque os maridos não as ocupavam devidamente de deveres maritais (vocês entendem); outros diziam que elas estavam ali para preencher números; que se tivessem que passar pelos mesmos requisitos que os homens, não entrariam; que eram solteironas feias e frustradas que como não se casaram resolveram fazer coisas de homens (claro que esse argumento não cabia para minha irmã, ela realmente era muito bonita). Se fosse eu, depois de tantas piadas não voltaria, mas em Rose isso provocou a reação contrária. Ela sempre entrava em casa pensando:

- Vou provar que sou tão boa quanto eles ou não me chamo Rosálie Hale.

Ela se dedicava muito aos estudos, não havia uma só prova que ela não acertasse todas as questões. E infelizmente, isso não significava A+, alguns professores sabotavam as mulheres reduzindo suas notas. Mas ela não desistia, sempre ficando entre as primeiras da turma. Foi quando uma guerra se estabeleceu, pois um dos professores chamou para estagiar em seu escritório. Emmet foi contrário a decisão dela em aceitar o convite, e Carlisle também. O marido por causa do ciúme, ele achava que o professor estava tentando tirá-la do meio acadêmico para seduzi-la.

Já Carlisle temia que o título de primeira advogada mulher a trabalhar na prestigiosa “Green, Rease & Reed” chamasse atenção para nós. Ele lembrou a Rose (que estava muito nervosa) que nossa família se misturava aos humanos exatamente para passarmos despercebidos, aparecer nas páginas do jornal estava fora de questão. Ela reclamou, se lamuriou, teve acessos de raiva, mas aceitou.

Mas então os colegas a levaram ao extremo questionando a liberdade de escolhas que ela tanto pregava na faculdade. Disseram que não valia muita coisa cursar uma faculdade se o marido a proibia de trabalhar, e duvidaram de sua capacidade. Alguns disseram que ela não aceitou, pois não era capaz, que suas boas notas vinham das noites que passava na cama dos professores. Nesse momento eu achei que ela mataria todos eles, ela quebrou metade de uma floresta tentando controlar sua fúria. Emmet chegou a considerar conversar com Carlisle e fazer acordos de proibição de uso da imagem para que ela trabalhasse. Mas ela nos surpreendeu controlando-se rapidamente depois de uma crise de choro, decidindo que eles não a venceriam.

Eu saí para caçar e quando voltei meu carro estava todo desarmado na garagem.

- Mas que diabos aconteceu aqui? Eu perguntei irritado.

- Melhor medir as palavras mocinho. Não quero o diabo em minha casa. Esme me repreendeu.

Carlisle me olhou calmamente e disse:

- Um colega de Rose disse que ela não era capaz de dirigir e que mulheres deveriam continuar a pilotar fogões. Que nunca deveria ter saído de casa para a faculdade. Então ela resolveu aprender a dirigir.

- E conseguiu tornar-se uma excelente motorista em um dia, diga-se por passagem. Emmet interrompeu a explicação.

- Quando o tal colega disse que ela não até podia fingir que sabia dirigir, mas que não conseguiria trocar um pneu. Ela resolveu entender o funcionamento de todo o carro. Desarmou o seu e está armando novamente.

- Porque meu carro? Perguntei desesperado.

- Era o único que não estava em casa para defender o seu.

Emmet disse sorrindo da situação e saiu correndo. Ele viu o instinto sanguinário aflorado em minha expressão. Como ele permitiu que ela destruísse meu caro? Que espécie de irmão era aquele? E Carlisle e Esme? Porque não impediram isso?

Quando enfim o alcancei, fingimos uma briga violenta e voltamos sorrindo, meu carro já estava armado e polido na garagem. Avistei Rose sentada no sofá com aquela aparência irretocável. Eu avancei para matá-la, mas Esme me impediu com um olhar. Ela continuou folheando a revista e disse-me sem levantar os olhos:

- Seu Cadilac é uma máquina interessante. Foi um pouco complicado entender essa coisa de mecânica, mas quando você entende o princípio tudo fica muito fácil. Dei uma balanceada no motor, acho que agora ele fará menos barulho ao acelerar. Agora vou desmontar o de Carlisle.

Carlisle arregalou os olhos, mas Esme o repreendeu da mesma forma que a mim, apenas com um olhar. Devo admitir que realmente meu carro ficou muito melhor, quem diria que ela conseguiria. Foi só então que eu percebi algo que desconsiderei durante décadas. O motivo de sua sobrevivência. Apesar de afirmar veementemente que preferiria a morte, ela resistiu. Acho que em seu inconsciente ela deve ter se recusado a perder a batalha, deve ter se recusado a permitir que Royce lhe tirasse a vida. Rose é antes de tudo uma guerreira nata, ela é “boa de briga”.

Só que esses colegas de Rose não tinham a menor idéia do lugar onde estavam se metendo. Eles questionaram mais uma de suas habilidades e essa seria mortal. Eu evitava discordar dela, mas eles a levaram a uma situação que poderia fugir completamente do controle. Poderia haver morte.

PDV Esme

Eu saí da aula cheia de idéias, gostava da amplitude dos pés direitos altos e das inovadoras paredes de vidro. Pena que até agora isso só se aplicava aos prédios. Quando cheguei, Edward e Rosálie se digladiavam na sala:

- Não pode fazer isso Rose, é uma loucura.

- Posso sim.

- Quer colocar tudo o que construímos em risco? Não vê como Esme está feliz? Ela nunca exige nada, mas ela pediu para vir para cá e está tão realizada estudando. Como pode ser tão egoísta a ponto de por a felicidade dela em risco?

- Não vou prejudicar Esme.

- Vai sim, é geniosa demais. Vai se descontrolar e usar toda a sua força para atingir seus objetivos. Nunca vai aceitar uma derrota, fará tudo para vencer. Você sempre quer vencer, e isso significa que fará o que é humanamente impossível para triunfar.

Eles vão desconfiar que você não seja normal. Aliás, essa sua mania de não aceitar as provocações deles já chama bastante atenção. Aprender a dirigir, trocar pneus tudo bem. Mas uma mulher não pode criar uma força extraordinária da noite para o dia.

- Nunca provei sangue humano, posso me controlar.

- Nunca vou te compreender, você e eu somos tão diferentes. Diz que ama Esme, mas vai colocar em risco esse momento que ela está adorando só para provar para um bando de humanos que é melhor que eles. É assim que a ama?

Não é só você, se eles desconfiarem de você, desconfiarão de todos nós. Somos pálidos, não comemos, somos inumanamente lindos, não envelhecemos.

Esme terá que abandonar a escola de arquitetura por um capricho seu. Sua menininha mimada e egoísta. Devia olhar para os lados, vai perceber que o mundo é muito maior do que o espelho onde apenas se reflete.

- Posso me controlar, não vou colocar Esme em risco. É uma decisão minha e você não pode fazer nada para impedir.

- Posso e vou. Eu vou procurar Carlisle agora mesmo.

Edward passou por mim como um relâmpago, nem notou minha presença. Ou não queria que eu colocasse panos quentes. Por que certamente eu o faria. Encontrei Rose sentada na sala chorando. Ela sentou-se com as costas retas, numa postura incorrigível. Eu me sentei ao seu lado e segurei sua mão, mas ela a recolheu e também engoliu o pretenso choro (como vampiros não podemos derramar lágrimas).

- O que aconteceu filha?

- Nada.

- Isso não me pareceu nada. O que O’keef quer agora? Como foi que ele te insultou desta vez?

- O’keef é um gentleman se comparado ao Edward. Ela se lamentou e levantou.

Eu me postei em sua frente e a interrompi:

- Não vai a lugar algum sem me explicar o que aconteceu. Disse autoritária.

- Ele disse que mulheres são boas parideiras apenas, que todo o esforço que podem fazer é abrir as pernas para gemer e depois para fazer força. Que homens gastam suas energias de melhor forma: pensando, trabalhando, construindo máquinas e jogando beisebol.

- Devia levá-lo ao conselho de ética. Ele não pode sair por aí dizendo coisas tão grosseiras. Ou ao menos pedir que Emmet a leve para a faculdade de vez em quando.

Todo valentão é covarde, quando ele vir o tamanho de seu marido vai parar de te desrespeitar. Eu sugeri.

- É exatamente o que ele espera. Se eu fizer isso ele vai dizer que sou uma mulherzinha que não pode resolver seus problemas e por isso precisa da ajuda dos homens.

- O que você respondeu? Sei que respondeu, nunca foi de levar desaforo para casa.

Ela ficou calada.

- Rose?

- Não vai querer ouvir Esme, fui muito rude.

- Rose. Sabe que pode me dizer tudo.

- Eu disse que os homens só faziam isso quando não estavam no bordel utilizando a “outra cabeça”.

Ela baixou os olhos envergonhada, mas continuou.

- E que infelizmente era a “cabeça” que eles usavam com mais freqüência. Especialmente ele, já que era um homem primitivo.

Eu sorri, ela era mesmo uma força incontida. Mas quando baixei meus olhos ela chorava.

- E?

- O quê?

- Como ele te respondeu?

- Que eu devia saber bem disso, pois era onde meu marido deveria estar, no bordel. Já que certamente eu não devia fazê-lo gemer muito. Que meu mau humor era por causa disso, porque eu tinha um marido que não sabia calar minha boca com um bom gemido. E que devia ser por isso que eu estudava, porque não conseguia fazer Emmet gemer ou lhe dar filhos. Que ele me colocou na faculdade para se livrar de mim por algumas horas, assim ele podia ir ao bordel usar a outra “cabeça”.

Ela não agüentou mais e chorou. A infertilidade era uma ferida aberta na vida de Rose.

- Você e Emmet já quebraram muitas casas. Acho que O’keef está muito enganado. Por Emmet ele não sairia do quarto.

Eu disse tentando aliviar o clima e brincar, mas ela ficou muda. Então resolvi mudar de assunto:

- E porque você e seu irmão estavam brigando?

- Porque eu disse ao miserável do O’keef que eu pensava, construía máquinas, recebia propostas de emprego, já que era melhor aluna que ele. Que eu não estava estudando para ficar longe de meu marido, mas porque queria e era capaz.

- E ele?

- Disse que mesmo que tudo que eu disse fosse verdade, eu não sabia jogar Beisebol.

- E você respondeu o quê?

- Que ele marcasse uma partida.

- E onde Edward entra nessa história?

- Por que pedi ao Emmet para me ensinar a jogar e ele concordou. Me levou a uma clareira e explicou tudo, regras, jogadas. Ao sair para a faculdade ele encontrou o “telepata” e contou que eu havia pedido para que ele me ensinasse a jogar e os motivos por trás disso. Então Edward se achou no direito de me impedir de jogar. Ele disse que eu sou muito voluntariosa e que nunca aceitaria uma derrota...

- O que não deixa de ser uma verdade. Pensei alto.

Ela se calou e encolheu no sofá, só depois percebi que era a primeira vez desde a Polônia que ela se abria tanto comigo. Não tive coragem de olhar para ela, devia estar muito magoada.

- Desculpa filha, é verdade. Mas isso não lhe diminui em nada, nem desmerece quem é. É apenas uma característica sua, e em alguns momentos graças a Deus por isso. Se não fosse assim não sobreviveria à fatídica noite de sua transformação, nem teria envidado esforços para fazer seu casamento dar certo, não teria estudado, nem entrado para a faculdade.

Ela continuou sem falar e meu coração diminuiu. Ergui seus olhos e ela desviou o olhar.

- Eu posso te entender, mas precisa me explicar. Insisti.

- É inútil, nem você pode entender. Não é um capricho bobo.

- Então o que significa amor?

- Nunca perdeu sua dignidade Esme. Quando um homem está rasgando seu corpo e dizendo que você deseja aquilo, que ele está te tratando como você quer ser tratada; quando são tantos que você nem sabe mais quem está em cima de você; quando te subjugar não é mais suficiente e então eles se tornam cruéis, não há dignidade. Não é como nos livros Esme, eu senti tudo, me lembro de tudo. Eu sinto o cheiro deles, eu sinto o peso do corpo deles sobre o meu, eu vejo as línguas nojentas se movimentando, eu ouço as palavras de baixo calão. Não há dignidade. O’Keef, vê isso. Ele pode não saber o que aconteceu exatamente, mas sei que ele sabe...

Não importa, não entenderia.

- Não. O’Keef é um homem detestável, que devia ser expulso da universidade.

Eu quis gritar, mas falei controladamente para que ela não se afastasse mais. Sempre soube que a dor de minha filha era algo inalcançável para mim, no fundo sempre vi em seu olhar uma coisa que jamais soube decifrar. Enquanto tentava compreender as entrelinhas de seu discurso e o que supostamente o maldito homenzinho sabia, ela disse:

- Mas não será porque ele é homem. E ele pode roubar minha dignidade. Eles também disseram que eu só servia para ficar de pernas abertas, mas nada aconteceu com eles porque eles são homens.

- Porque não deixa seu irmão ver isso? Entender que não é só um capricho.

- Ele não entenderia, ele é homem, pensa como homem. Nem você entende.

Dizendo isso ela se foi, saiu tão rápido que não consegui alcançá-la. Senti minha filha mais longe de mim, tão distante que nem falávamos mais a mesma língua. Me lembrei da tarde em que ela me convenceu a estudar, em como ela me incentivou. Me senti a pior mãe do mundo e resolvi que faria alguma coisa. Podia não entendê-la, mas podia impedir o maldito O’Keef (o líder da trupe de trogloditas que ousavam humilhá-la).

No dia seguinte choveu, o que me permitiu ir à faculdade e marcar uma audiência com o diretor do departamento de direito. Mas a sorte estava ao meu favor e quando ia para o campus de arquitetura eu o vi no estacionamento. Esperei que ele saísse do carro e me aproximei, ele estava um pouco apressado e pude ouvir as pulsações aceleradas de seu coração, era como um convite. Mas me contive ao pensar na expressão magoada de Rose.

Eu só não sabia que realmente a sorte resolveu me contemplar, ou foi o destino que se compadeceu da dor de minha filha e impediu que sofresse mais uma violência. De toda forma, não me importava com os motivos contanto que pudesse protegê-la. Com a audição apurada dos vampiros, pude ouvir o maldito colega de classe desmerecê-la na frente dos demais que riam disfarçadamente. Pude compreender o receio que Edward tinha de seu gênio, ela podia chorar em nossa casa, mas ali estava se defendendo muito bem. Eu conduzi o tal Diretor Webber até o local da confusão fazendo questão de mantê-lo longe do olhar do tal O’Keef. Usei o deslumbramento que causamos aos humanos, dizendo-lhe que gostaria de mudar de curso e elogiando sua atuação como diretor daquele departamento. Ele sequer percebeu o quanto mudei sua rota com minha “conversa fiada”. Ao se depara com a cena ele fez questão de não revelar sua presença, assistindo a tudo silente. Eu só precisava contar com a sorte dele não compartilhar com os pensamentos antiquados e misóginos do aluno. Quando ele começou a usar termos pejorativos e palavras de baixo calão ele resolveu intervir. Pigarreou e chamou a atenção do tal colega dela, que o olhou assombrado:

- Sr. O’Keef, devo lembrá-lo que a agressão verbal é passível de punição nessa instituição. Como aluno do curso de direito deve saber que já tenho elementos suficientes para enquadrá-lo no regimento interno. Se a Srta. Hale (Dissemos que Rose era minha sobrinha e por isso ela tinha outro sobrenome) quiser reportar este episódio, teremos uma querelante. Todos os presentes são testemunhas e eu tenho autoridade para julgar a petição aqui mesmo.

O valentão não conseguiu se defender, ele gaguejava e pela primeira vez em muito tempo vi minha filha sorrir. O diretor o levou ao seu escritório, prometendo providências imediatas para Rose. Esquecendo-se rapidamente de minha presença e de meu suposto interesse pelo curso. A demanda lhe pareceu muito mais urgente. Eu a abracei assim que saímos da presença deles e disse em seu ouvido:

- Talvez não possa compreendê-la. Mas jamais permitirei que a machuquem novamente. Essa é minha função: “proteger e amar”. Lembra?

Seus olhos marejaram e ela retribuiu meu abraço como se eu fora uma tábua de salvação. Ela não tentou me fazer entender porque era tão importante não se deixar intimidar por O’Keef e eu acabei por esquecer. Mas ela era mesmo um gênio incontido e não deixou passar em branco a intromissão de Edward. Não pode jogar contra o colega na faculdade, mas foi só a primeira tempestade com relâmpagos se aproximar e ela desafiou o irmão. E não é que a danadinha ganhou? Edward reclamou por semanas que foi só por três pontos, mas ela não se importou, ela havia ganhado.

Nossa vida parecia mis normal que nunca, Emmet e Rose destruindo a casa, Carlisle deslumbrado com os avanços em cirurgia cardíaca, Edward compondo alguma sinfonia e eu cuidando de nossa casa, de nossa família. Foi quando algo inesperado aconteceu.

Estávamos em casa, eu e Rose, quando a campanhia tocou. Jamais poderia prever o que estava por vir.

Notas finais
Bom. O que será que bateu à porta dos Cullen?

Quando leio os livros da saga percebo que parece natural a adaptação de pessoas de origens e epócas diferentes com os novos costumes. Minha mãe é bem mais nova que os personagen s e tem dificuldade em absorver alguns aspectos da modernidade. Penso em como Esme se habituou as novas roupas, ou em como Carlisle enfrentou as mudanças de paradigmas como obediência filial e sexo. Por isso resolvi escrver esse capítulo, para mostrar que nem tudo é tão simples. Espero que tenham gostado.

PS. Oscar Niemeyer realmente foi convidado por Yale para ser professor, mas o governo americano negou seu visto or entender que ele era partidário dos comunistas (ele era amigo de muitos modernistas da semana de 22).

Alfred Balock e Helen Taussig são pessoas reais que revolucinaram a medicina moderna. Se puderem assistam ao filme "Quase Deuses".

Nyh_Cah, mais pesquisa para você (rsrsrs).

Bjs e obrigada por acompanharem a fic.