Persona Gêmea
3 O que é fascinante
Notas iniciais
Aproveitem a leitura n_n
Havia algo nele que despertou nela o desejo de saber mais sobre aquela figura fria e altiva. Não era simplesmente o magnetismo que ele exercia, tampouco seria somente sua beleza ímpar.
Pessoas com aquele tipo de personalidade eram extremamente raras.
Seria como uma realização profissional descobrir mais sobre o homem misterioso cujo nome era Vergil Sparda.
-Por que tanto me encara?- ele perguntou, rompendo o silêncio que fora instaurado momentaneamente.
-Estou me perguntando o que um homem como você estaria fazendo em um parque industrial antigo como este. –respondeu francamente. Achava que seria melhor iniciar um diálogo baseado na sinceridade e, talvez, assim conseguiria saber mais sobre ele.
-“Um... Homem como eu”...?- repetiu, fitando um poste de luz que oscilava eventualmente. –O que quer dizer com isso?
-Ah, não foi minha intenção ofender- a loira apressou-se em esclarecer- Quando digo um homem como você, quero somente fazer alusão às suas roupas e seu modo polido de falar. Parece alguém de uma classe com maior poder aquisitivo.
-Hm- Vergil fez- É observadora. Mas fala do meu modo de falar como se não falasse com igual formalidade.
-Sou psiquiatra- assumiu.
-Eu sei. –ele deu de ombros- Reconheci pelo nome. Recentemente fez sucesso com um livro sobre psicopatas... Andam comentando por aí. Confesso que esperava por uma velha PHD com algum problema de saúde que já estivesse morrendo.
-Sinto muito- mostrou um sorriso constrangido, porque não soube identificar se era uma crítica ou um elogio.
-A julgar pelo conteúdo, jamais imaginei que seria uma jovem Marylin Monroe- entoou e Trish arregalou um pouco os olhos, surpresa, deparando-se com um sorrisinho cínico nos lábios dele. – Talvez eu acabe lendo. Gosto de ler e um livro se torna ainda mais interessante quando se conhece a autora, não?
-O... O que quer dizer?- perguntou, sem compreender.
-Ora... É bem raro acharmos mulheres cuja beleza e inteligência são perfeitamente compatíveis e creio que isso me instiga- Vergil fez um meneio de indiferença e reiterou, enigmático- Prometo pensar em você enquanto estiver folheando o livro, senhora Trish Williams.
-Senhorita- corrigiu automaticamente, ainda sustentando o olhar daquele homem.
Então notou que ele havia fugido de sua pergunta inicial. A capacidade de desviar o assunto foi tão natural que a loira mal percebeu que se tratava de um possível sintoma do perfil paranoide.
-Já é bem tarde e minha cabeça já começa a latejar pela inutilidade desta conversa, senhorita- ele falou e foi tão polido que sequer conseguiu se ofender. – Para não haver risco de ser novamente assediada por arruaceiros, posso acompanhar-lhe até sua casa.
-Obrigada. –agradeceu- Sinto muito pelo incômodo e receio ter que aceitar.
-... –o homem virou-se e ela caminhou de forma que pudesse ficar ao lado dele. Por algum tempo, caminharam em total silêncio.
Não conseguia prever o que ele podia estar pensando, mas ponderou que não deveria ser algo preocupante. Ainda desejava descobri-lo de forma que achasse seus pontos fracos e encontrasse mais sintomas que pudessem indicar outros transtornos.
Sua mente fervilhava com inúmeras possibilidades.
Podia ser somente uma pessoa de comportamento anti-social ou algo do tipo; pessoas com transtorno paranoide eram incrivelmente raras e o único exemplo histórico do qual conseguia se lembrar era Hitler.
Eventualmente, Vergil olhava de soslaio para ela e a mulher obrigava-se a encolher alguns centímetros quando ele o fazia.
Era um olhar tão incisivo e hostil que ela passara a temê-lo.
-Senhor Sparda- chamou e ele a olhou de canto, esperando um comentário. –O que o fazia em um parque industrial...?
-... –o homem pareceu hesitar, então falou- Estava procurando por um velho caquético que costuma andar por estas áreas.
-Um velho caquético?- repetiu- É algum amigo? Talvez um parente...?
-Amigo...? Huh- Vergil permitiu-se um risinho em deboche- Arkham não possui amigos e duvido que, se possuísse algum, eu seria escolhido para tal.
-... –a loira hesitou, tentando gravar aquele nome em sua memória.
-E então?- ele perguntou e a mulher hesitou, sem entender o que ele queria dizer com aquela indagação. –Sua casa. É para qual lado?
-Ah... Para lá- apontou, seguindo-o quando este foi para o lado indicado. Não conseguia manter um assunto com ele e sustentar sua companhia sem palavras era igualmente frustrante.
O silêncio que mantinha era tão desconfortável quanto seria entre duas pessoas que ocultassem seus segredos uma da outra.
Por volta de alguns minutos depois, parou perto da soleira de uma casa e indicou ao homem que aquela era sua residência. Tinha dois andares e arquitetura suíça.
-Está entregue- ele fez um meneio e Trish sorriu.
-Obrigada por ter me salvado- agradeceu-... E por me acompanhar até em casa, senhor Sparda.
-Hm- o homem deu de ombros- Que seja. Não foi de todo uma perda de tempo, considerando que certamente Arkham não estaria disponível hoje e acabei conhecendo a senhorita Monroe das curvas sinuosas.
-... –Trish corou furiosamente com o comentário.
-Não se engane com palavras suaves- Vergil avisou, sério, e a loira não conseguiu decifrar aquele enigma. Tudo bem. Pensou. Não tente decifrar o que ele diz, apenas pense que está conjurando um feitiço... Recordou-se da frase que lera em algum lugar anteriormente.
-Não sou do tipo que se deixa levar somente pela lábia de tais palavras- disse e o homem escondeu a mão nos bolsos.
-É mesmo? E qual juízo faria de mim, se não foi passada para trás por meus flertes sutis, senhorita Williams?- ele indagou, sustentando o olhar dela.
-Não tirei minhas próprias conclusões ainda- ela entoou, sem se intimidar com a intensidade daqueles olhos.
-Então ainda há tempo- Vergil deu-lhe as costas- Não sou alguém confiável e tampouco alguém com quem pessoas como a senhorita devam se meter.
-“Pessoas como eu”?- ela repetiu, da mesma forma como ele fizera momentos antes.
-Sim- ele parou e a olhou de relance- Fez muitas perguntas durante o caminho, não é mesmo, senhorita Williams? Eu diria que pareceu interessada. Quando se interessam, pessoas ingênuas tornam-se inconvenientes...
-E aonde o senhor quer chegar?- a loira perguntou, impassível.
-A lugar algum- ele disse- Pessoas inconvenientes são curiosas demais e sempre acabam se metendo onde não são chamadas, sabe. Tente não se encantar por mim, senhorita Williams, e terá sido a primeira a levar em conta o meu aviso.
-Não se superestime, senhor Sparda- Trish mordeu o lábio inferior, incomodada. De fato se tratava de alguém egocêntrico e narcisista.
-Falo sério- Vergil virou-se para ela e seus olhos pareciam ainda mais hostis do que naturalmente eram. –Se você acabar se metendo onde não é chamada, eu te mato.
-...!- ela arregalou os olhos de leve com aquela declaração.
E, como se aquela ameaça nada tivesse significado para ele, o homem se virou na intenção de ir embora. Desapareceu lentamente conforme caminhava pela rua escura e deserta.
Que tipo de conversa fora aquela?
Tudo parecia estar indo bem, mesmo considerando a declaração aberta de que estavam flertando, e Vergil vociferava tal ameaça.
Será que, para ele, dizer aos outros que iria matá-los era algo comum? Muito acima disso, era como se aquelas palavras não tivessem um peso para ele. Como se matar fosse como ir até a loja da esquina comprar café.
Sorriu, ainda temerosa, tirando as chaves do bolso e destrancando sua casa para entrar logo em seguida.
Aquele impasse frente às emoções pareciam traços significativos de um perfil psicopata. Não, não se tratava de psicopatia. Vergil poderia ser, tranquilamente, um sociopata com transtorno paranoide e traços de narcisismo.
Sem dúvida, era um homem fascinante.
*****
Trish, além de ser uma renomada psiquiatra e com vários dos seus livros publicados nas listas dos mais vendidos do San Francisco Chronicle, trabalhava regularmente com presidiários da cadeia de segurança máxima da cidade aos sábados.
Isso além de atender em sua clínica bem localizada no centro durante os dias da semana.
No sábado, quando recebeu a senha para os arquivos confidenciais do presídio, que era mudado semanalmente, decidiu usar parte do seu tempo disponível para pesquisar sobre o homem que conhecera anteriormente.
Vergil Sparda. Bem, o fascínio não desaparecia tão facilmente.
Um homem que passeava por parques industriais e ameaçava matar com tanta facilidade certamente teria algum registro criminal.
Vasculhou por todo o disco rígido, conseguindo até mesmo hackear os documentos da delegacia que estavam anexados. Mas não conseguia encontrar nada que sequer citasse seu nome.
O mais perto que chegou foi encontrar a ficha criminal de um homem com o mesmo sobrenome.
Mas sua ficha não possuía uma foto e indicava que não possuía parentes vivos. Além disso, não se tratava de um registro que merecesse sua real atenção; em sua maioria eram agressões físicas, geralmente em brigas de rua, e encontrado portando drogas ilícitas.
Então se recordou do nome que ouvira na noite passada.
Arkham. Não era um nome comum, era? Digitou e apareceram três opções no registro do computador. Descartou dois, por saber que se tratava de um homem mais velho, e concentrou-se em ler a ficha selecionada.
Apareceu a foto de um homem de meia-idade, careca e com uma cicatriz ou queimadura que cobria metade de sua face. Possuía heterocromia ocular, como percebeu.
Havia registros de roubos, de formação de quadrilha e de agressões físicas, além de ter sido preso por três anos por tráfico de drogas ilícitas.
Parecia interessante.
Então talvez e o homem da ficha anterior pudesse ter alguma relação com Arkham e, supostamente, com Vergil. Imprimiu os dados que havia conseguido sobre ambos e desligou o computador, consciente de que seu horário estava quase esgotado.
Guardou os papéis em sua bolsa e ajeitou os armários naturalmente, sorrindo gentilmente quando um dos guardas avisou-lhe que havia acabado seu expediente.
Em sua casa, analisou calmamente ambas as fichas, constatando que não haveria muito o que fazer naquele fim de tarde de sábado. Não havia algum endereço válido em nenhuma das fichas, portanto não tinha como procurá-los.
Só lhe restava descansar depois de uma semana tão peculiar.
O deslumbrante não era somente sua curiosa combinação de características raras, sendo inteligente, com traços sociopatas e incrivelmente belo, mas o fato intrigante de que todas as pistas a levavam a lugar algum.
Trish saiu de seus devaneios quando a campainha tocou. Levantou-se e atendeu a porta, deparando-se com Mary.
-E aí, Trish- ela cumprimentou- Está afim de sair?
-Hm... Não sei- a loira deixou que a amiga entrasse e fechou a porta, deixando-se cair no sofá. –A semana foi um pouco... Estranha. Queria relaxar e pensar a respeito.
-Você pode relaxar se for em alguma boate comigo- a morena comentou, sentando-se na poltrona em frente a amiga e dirigindo-lhe um sorriso maroto. –Pode encontrar um cara legal e daí, sim, você vai relaxar mesmo.
-Não creio que eu queira encontrar mais “caras” por aí- suspirou- Encontrei um esta semana que anda me dando trabalho.
-Você sequer pensou em me falar isso antes?- a outra indagou, cruzando os braços.
-Não sei se é o tipo de homem com quem eu faria as mesmas coisas com os homens que encontramos nas boates- disse, fazendo um gesto indiferente.
-É bonito?- a morena perguntou e a amiga fez que sim com a cabeça. –Tem um papo legal?- e a outra tornou a assentir. –Então é suficiente. Não precisa nem ser rico, se você só vai se divertir...
-Provavelmente ele também é rico- Trish deu de ombros.
-Então?- Mary perguntou, arqueando uma sobrancelha. –Como foi isso? Espero que tenha conseguido, pelo menos, o telefone dele.
-Lady, as vezes eu acho que você não leva coisas mais importantes em conta- a loira comentou- E também acho que você é uma pervertida.
-Não se preocupe, Trish. Tudo se pode depois do surgimento do preservativo, da independência feminina e do cartão de crédito.
-Você fala como se fosse realmente consumista- a loira riu.
-Tanto faz- a outra deu de ombros- Além disso, eu sou pervertida, sim. Se homens podem ser, por que não eu? E, pela sua cara, vê-se que você não pegou o número dele.
-Não, não peguei- Trish concordou- E duvido que ele me daria.
-Francamente- a morena revirou os olhos- Você é a loira mais foda que eu já vi. Não tem um cara no mundo que não te ache gostosa.
-A gente estava flertando- suspirou- Mas não deu, entende? Parece um perfil problemático demais.
-Diabos, Trish!- Mary franziu o cenho- Não vai conseguir um namorado se ficar analisando o psicológico de cada homem que te passar uma cantada! Esse aí tinha tudo que era necessário para ser um bom namorado e você não quer porque ele parece problemático...?
-Ele tinha traços de sociopatia- disse- E de transtorno paranoide e narcisismo. Estou falando: ele era muito complicado. Tão complicado que fiquei fascinada com essa personalidade dele...
-Não me venha com esses surtos de “realização profissional como psiquiatra”, Trish, que nem rola- Mary revirou os olhos- Basta me dizer que está atraída, ou porque ele era um gato ou te passou uma boa cantada, e a gente conversa.
-Ah, você não tem jeito, mesmo... –a loira deu um muxoxo impaciente. –Eu tentei procurá-lo, mas tudo me leva a duas fichas criminais que encontrei em um departamento confidencial do presídio em que trabalho.
-Lá vem... –a morena sorriu, descontraída.
-Uma delas possui foto, mas não há endereço... Já a outra, só nome- indicou, pegando as duas fichas criminais e mostrando para a amiga, que arregalou os olhos ao fitar a foto da primeira que encarou. –Lady...?
-Eu... Eu conheço este- a moça disse, deixando a ficha em cima da mesa e abaixando a cabeça, cerrando os punhos de forma que suas unhas machucassem sua mão.
Notas finais
Provavelmente o outro capítulo também será postado bem rápido, porque estou irritada com o fato de que não posso fazer nada.
Espero que tenham gostado do capítulo. Reviews me fazem feliz XD
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