Perigosa Paixão
3 Capítulo 2 - A Armadilha
Notas iniciais
- Capitulo 2 – A armadilha -
Tudo estava perdido. Ele continua em sua mesma posição de sempre, me aguardando. E eu sabia que não havia mais como fugir. Ele me cercaria. E por uma razão que eu desconhecia, eu não queria fugir. Eu queria, eu gostava daquela situação, foi então quando eu descobri a terceira verdade: só agora, eu estava vivendo. E toda minha vida eu nunca havia vivido de verdade. Nunca havia experimentado nada além de um pouco de adrenalina no sangue enquanto fazia corridas sem rumo em pastos perigosos após as tempestades, enquanto ninguém mais se atrevia a cavalgar nestas situações e só. E só isso eu havia vivido, todas as outras situações eram automáticas, tão automáticas como respirar. Todas as conversas, todas as ações, todas as vezes que eu fingia ser uma moça exemplar na frente das visitas. Sim, eu fingia. Eu não tinha uma educação exemplar e nem era respeitosa com as condições impostas pela sociedade, eu sabia disso, meus pais também sabiam, e mesmo assim, com tudo isso, eles fechavam os olhos. Era o máximo que eles podiam fazer. Fingir que eu era perfeita.
Agora só me restava consumar o ato. Estava frente a frente ao lobo. Todos os tremores, o bolo da minha garganta, o pesar na respiração, tudo, tudo havia desaparecido. Agora a atmosfera ganhava um ar leve, fácil de respirar. O frio havia sumido. Sentia-me bem. Eu tinha vontade de sorrir. E eu sorri o sorriso mais verdadeiro. Aquele que vem logo após você sentir a felicidade transbordar no seu peito depois de despertar sua alma. Sorri imenso e olhei ao meu redor. Vi a minha casa com a chaminé denunciando pela fumaça que minha mãe preparava mais uma refeição. Aquela refeição que seria feita sem mim. Vi os cavalos, minha maior distração. Olhei para mim mesma. Vi meu vestido vermelho com a barra de renda preta já suja por ter esquecido de levantá-lo para andar até aqui. O espartilho não me incomodava mais.Os meus cabelos eram jogados pra traz com o vento. O vento acariciava meu rosto. Gargalhei após ver toda a minha vida patética ao
O lobo que até então estava parado e só olhava para mim agora não me olhava mais. Seu olhar estava em algum ponto atrás de mim. Não me importei. Continuei na frente dele. Foi quando vi pela primeira vez o lobo se mexer. Resolvi observar tal fato até que me dei por conta que ele estava querendo fugir. Sai do meu transe e então olhei para traz e vi minha mãe. Ela gritava desesperadamente por mim.
Queria tranqüilizá-la, mas não havia tempo.
Sai correndo para a floresta tentando alcançar o lobo. Vários galhos me arranhavam enquanto corria em meio à noite que caia. Ouvi a agitação de alguns animais que já estavam se recolhendo por causa da noite.
O lobo era mais rápido do que eu, levantei a barra do meu vestido segurando-a de forma que pudesse correr melhor. Corri sem me importar com minha aparência ou se a forma, afinal ninguém me veria ali mesmo.
E corria tanto que as árvores não passavam de borrões à minha volta. Quando o lobo quase sumia de minha vista, de tão veloz que era, eu acabei tropeçando em uma raiz que havia no chão. Foi tudo tão de repente que por frações de segundos atrás eu estava correndo, tropecei e acabei caindo em um buraco que havia no chão, parecia mais com uma armadilha pra algum animal. Senti um cheiro forte de ferrugem, mas isso não poderia ser, não em meio aquela floresta. Senti uma forte dor em minha coxa e levei a mão para verificar se estava tudo bem, quando percebi que um galho havia atravessado minha coxa. O cheiro forte certamente não era ferrugem. Era o meu sangue. Não chorei. Não gritei. Não pedi socorro.
Simplesmente fiquei ali no chão, deitada de costas, assim como havia caído naquele buraco, com os cabelos em meu rosto. E esperei a morte chegar. Não sei quanto tempo se passou. E mais uma vez, não me importei com isso. Ouvi um som alto e grave e em tom de sofrimento a alguns metros de mim. Aquele som era um uivo.
Depois disso não vi mais nada. Acordei ao sentir uma dor aguda em meu ferimento e não pude evitar o grito que veio à minha garganta. Senti uma mão apertando a minha coxa para estancar o sangue a outra enrolando um pano branco no local. Só então entendi que haviam tirado o galho que estava cravado em mim como uma estaca.
Olhei em direção ao redor e percebi que ainda estava na floresta, mas já havia saído do buraco, continuei olhando e vi que o meu salvador era um homem. Provavelmente um caçador que passava por aquela região.
Ele aparentada ser alto, era loiro, tinha os olhos claro, barba rala, vestia uma camisa branca e um sobretudo de cor marrom escuro puxando para o avermelhado, “combinação que lhe caiu muito bem” pensei comigo mesma. Ele ainda cuidava de meu ferimento com um possível carinho? Não, eu com certeza ainda estava zonza por causa do desmaio. Ele parecia não se importar nem um pouco em me ver com o vestido levantado até um pouco abaixo da virilha. Acabei corando com este pensamento e tratei de afastá-lo rapidamente. Ele de imediato, pela primeira vez, pelo menos depois de que estava consciente, olhou em meu rosto.
Ficamos nos encarando por alguns instantes. No seu olhar havia um magnetismo e uma intensidade imensa.
Foi então quando ele despertou de seu transe, me tirando também do meu, e percebeu que ainda segurava minha coxa e a largou rapidamente me deixando frustrada com tal ato. Afastei mais uma vez um pensamento impróprio, coisa que nunca havia ocorrido antes. Nunca tinha tido curiosidade em relação aos homens. Mas ele era diferente. Diferente de todos os outros. Talvez fosse por que eu não tinha permissão para sair muito de casa e todos os homens que conhecia eram parte de minha família ou aqueles bêbados do bar de meu pai.
Sua voz interrompeu meus pensamentos me trazendo de volta à realidade:
-Como se sente? – Perguntou ele com uma voz máscula, um pouco rouca, mas isso lhe dava charme, olhando mais uma vez diretamente em meus olhos.
Foi aí que um pensamento horrível me ocorreu: nós estávamos em perigo.
-O lobo! – eu gritei, fazendo ele me olhar sério – Tem um lobo aqui na floresta, ele é muito perigoso. Precisamos sair daqui depressa! – Gritei desesperada tentando me levantar. Senti uma dor terrível em minha perna e acabei caindo, mas, antes que eu tocasse no chão senti braços a minha volta e vi que ele havia me segurado.
- Por favor, acalme-se senhorita. – Ele pediu com a voz tranqüila – Eu estava caçando pelas redondezas quando vi o tal lobo e tratei de matá-lo, não se preocupe – E então ocorreu-me a lembrança.
____FLASH BACK ONN____
Deitada de costas, assim como havia caído naquele buraco, com os cabelos em meu rosto. E esperei a morte chegar. Não sei quanto tempo se passou. E mais uma vez, não me importei com isso. Ouvi um som alto e grave e em tom de sofrimento a alguns metros de mim. Aquele som era um uivo.
____FLASH BACK OFF____
- Claro, faz sentido... – Murmurei pra mim mesma, aquele uivo de sofrimento foi quando o caçador havia matado o lobo.
- Desculpe-me, o que disse? – Perguntou ele com uma expressão de confusão no rosto. Mesmo assim ele era maravilhoso. Era a criatura mais bela que eu já tinha visto.
- Senhorita, se sente bem? – Perguntou de novo me roubando de meus pensamentos e me puxando novamente para a realidade. Seu tom de voz era de preocupação. Sorri com este pensamento.
- Sim, claro. – Ele sorriu de volta mostrando duas covinhas que se formavam em suas bochechas, ele aparentava ter envolta da beira dos trinta anos.
- Fico imenso feliz – Respondeu ele com cordialidade, ainda me dando apoio com seu corpo. – Como estava dizendo, — Ele retomou o assunto – Estava caçando por essas regiões quando vi esta floresta e fiz esta armadilha – Disse ele apontando para o buraco que eu havia caído — após matar o lobo, vinha caminhando nessa direção, quando a vi caída. – Seu olhar ficou um pouco desfocado enquanto falava, mas depois voltou ao normal. – Senti-me na obrigação de ajudá-la, pois afinal, a culpa foi minha.
- Não! – Exclamei o fazendo arregalar os olhos – Quero dizer... A culpa não foi sua – Emendei envergonhada por meu descontrole, sentindo minhas bochechas corarem.
Ele olhou com um meio sorriso discreto nos lábios, o que me fez pensar se ele estaria com vergonha também, talvez vergonha de mim mesma ou talvez de nossa aproximação.... “Pare de pensar esse tipo de coisa Ravenna” repreendi-me por pensamento.
- Ah, desculpe-me a indelicadeza, meu nome é Mathew Godricford. — Ele me olhou nos olhos intensamente, senti um arrepio percorrer meu corpo e me perguntei como ele conseguia me causar aquelas reações.
- Ravenna, Ravenna Somerhalder. – Disse sem desviar meu olhar dos olhos dele.
- É um imenso prazer em conhecê-la Senhorita Somerhalder – Disse se curvando e beijando minha mão, ainda sem desviar nossos olhos um do outro.
Fechei meus olhos com o contato de seus lábios com a minha pele. O contato dos lábios dele com minha pele proporcionou-me uma corrente elétrica que passou por todo o meu corpo causando-me uma série de arrepios. Meu coração começou a acelerar. Ele percebeu a minha reação ao seu toque e teve de reprimir um sorriso.
- Acho que devo levar a Senhorita para casa o mais depressa possível, não seria de bom tom a Senhorita ficar à noite fora de casa acompanhada de um homem. – disse fitando-me intensamente. – Para que direção devemos seguir? – Perguntou ele.
- Estou muito grata pelo belo gesto, mas já posso ir sozinha – Ele não acreditou em minha mentira e me perguntou de novo.
- Então, em que direção devemos seguir? – Perguntou ignorando a minha frase anterior. Não respondi desta vez, pois já havia respondido a anterior – Por favor, a Senhorita não está em condições de ir andando sozinha.
Eu fiquei em silencio por um momento e ele me acompanhou. Estava ficando incomodada com toda aquela formalidade. E acima de tudo, eu não queria voltar para casa. Sabia que não devia me comportar daquela maneira na companhia de um homem, muito menos de um estranho e, acima de tudo, estaria “manchando o glorioso nome de minha família.” Mas eu não me importava nem um pouco. Eu realmente nunca liguei para valores. Eles não faziam a menor diferença em minha vida.
- Não vou dizer. – Disse cruzando os braços em frente ao meu peito foi então que eu percebi o meu estado, eu estava com o meu vestido reduzido praticamente à trapos e estava com vários arranhões distribuídos pelo corpo. Amaldiçoei aquele maldito buraco. E logo em seguida agradeci o maldito buraco quando vi que Mathew havia me pegado em seu colo quando viu que o ferimento de minha perna estava sangrando mais como reação ao tempo que eu estivera em pé apenas usando seu corpo como apoio.
- Então não terei como levar a Senhorita de volta, seu marido deve estar aflito. – Ele disse.
- Isso mesmo cavalheiro – Disse em tom formal, uma vez que ele sempre me chamava de Senhorita. — Eu não tenho interesse em voltar para casa e, também não tenho marido. – Informei-lhe, mesmo sabendo que ele não estava interessado em mim.
- Perdoe-me, mas seus ferimentos precisam de melhores cuidados e...
- Estamos na direção certa. – Interrompi-lhe, ele já estava me incomodando com aquela preocupação exagerada. E porque eu sabia que se não respondesse-lhe ele não iria cessar com as perguntas – E da próxima vez – Disse enquanto ele me carregava em seu colo — por favor, não me salve – Falei em um amuado.
- Creio que não poderei atendê-la por dois motivos – Ele disse olhando-me fixamente – O primeiro seria que eu nunca deixaria uma dama tão bela quanto você em apuros. – Ao escutar suas palavras enchi-me de esperanças tolas, senti o meu coração acelerar em meu peito e minha respiração aumentar de ritmo fazendo meu peito subir e descer rapidamente junto com minha respiração dentro daquele espartilho, mas logo ordenei os pensamentos. Nós não poderíamos ficar juntos a não ser que meu pai o escolhesse e, conhecendo meu pai, eu sabia muito bem que ele nunca escolheria um simples caçador. – E segundo é que não haverá uma próxima vez – Ele falou destruindo as mesmas esperanças tolas que ele próprio havia plantado a menos de meio minuto atrás e me fazendo sentir uma sensação estranha em meu peito. Como se aquelas palavras estivessem me sufocando, me tirando o ar.
- Como pode garantir-me? – Desafiei-o em um tom azedo. Não iria o deixar falar comigo daquele jeito. Mesmo ele não tendo me desrespeitado, mas eu não havia gostado da sensação que suas palavras anteriores me causaram.
- Tens muita sorte de ainda estar viva, direi a seus pais que não a deixe sair sozinha. – Respondeu petulante.
- O Senhor quis dizer muito azar. – Disse amarga. – Estou até a achar que terei um casamento arranjado muito em breve, ainda não fui comunicada, mas minhas tias e avó estão a dar-me indiretas. – Contei-lhe.
- És a primeira mulher que conheço que não esta feliz em meio a uma possibilidade de casamento. – Ele riu com certo sarcasmo em seus lábios — Muitas gostariam de estar em seu lugar.
- Então dê meu noivo a elas. – Respondi sarcasticamente.
- É muito irônica para uma mulher – Ele falou com um tom entre admiração e divertimento.
- Por acaso há algum problema nisso? – Perguntei brava. Odiava ser subestimada.
- Aos meus olhos não. – Disse rindo e eu não pude deixar rir junto.
Conversamos ao longo do caminho. Ele era irônico, petulante, formal, cavalheiro, cordial, ele era a sua própria contradição. Acima de tudo ele era lindo. Lindo não era a palavra certa, pois ele era muito mais do que isso. Ele era perfeito. Isso me dava raiva. A sua perfeição me dava raiva. Até quando ele era petulante comigo eu não conseguia ficar com raiva por muito tempo, pois ele abria o seu sorriso perfeito e tudo em minha volta sumia. Às vezes ele me olhava de com mesclas de curiosidade, admiração e divertimento. Ele me puxava para si como a gravidade. Contei a ele que gosto da solidão, que o meu refúgio é os cavalos e que adoro cantar quando estou completamente sozinha. Ele olhava-me com a mesma expressão de uma criança ouvindo histórias de sua avó. Ele me contou que vivia junto de seus dois irmãos, mas era como um pai para eles já que os verdadeiros pais haviam morrido em um incêndio na aldeia em que eles moravam antigamente.
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