Peregrinos Da Noite - Sonhos À Deriva
1 Sonhos à Deriva
Em meio à escuridão, um audacioso corcel, pálido como a pena de uma pomba, avançava ferozmente. Provido de graça e beleza, o animal indomável saltava pelos pinheiros tombados e chamuscados os quais há muito tempo fizeram parte de um cenário paradisíaco. Não havia cessado sua correria um segundo sequer; a determinação o acompanhava e a coragem não lhe fugia do espírito.
Sou um mensageiro, pensava inquieto o pomposo cavalo, É de minha total responsabilidade entregar esta carta..
Radi partira de Principio e precisava a alcançar a cidade de Fim, no entanto, a validade do contrato estava prestes a expirar e precisava entregar ao destinatário o mais rápido possível. Porem, por conta dos Intervalos com quem topou durante sua jornada, tivera que tomar um caminho mais longo, perdendo dias preciosos que lhe serviriam bem ao se aproximar de seu destino.
Os Intervalos eram como salteadores, escondiam-se por entre os arbustos a espera de qualquer transeunte que aparentava ter ótima aparência. A única diferença que os Intervalos tinham dos salteadores, era a forma como praticavam e por quem praticavam. Havia vários grupos, alguns deles eram bem conhecidos, outros eram quase que invisíveis, por isso eram apenas contratados pelos monarcas da época. Afinal de contas, os grupos que agiam sorrateiramente provavam sua maestria e êxito no trabalho.
Noites e dias se passaram como relâmpago, mas mesmo sentindo fome e sede, Radi não cogitava em parar para um descanso. Caso não entregasse a carta ao senado, seria quase que inevitável à queda de Shira, o Santuário da Vitalidade.
Não posso desistir, devo prosseguir, pensava inquieto, Não posso desistir, devo prosseguir, não posso desistir, devo prosseguir, não posso desistir, devo prosseguir, não posso desistir, devo prosseguir!.
Fim, conhecido como Reino do Esclarecer encontrava-se há milhas de distancia de Principio, denominado o Reino da Criação. Por mais que seja incomum, o Reino da Criação entrara em um problemático ciclo de produção após a fuga do último andar do centro de produção, ocasionando uma grande crise econômica e social. Sua economia era baseada no desenvolvimento de sonhos e pesadelos,
Para tentar amenizar a perda de capital, a grande Torre Central, local em que se concentrava mais de milhões de artesãos, demitira metade de seus funcionários para não se preocuparem com o salário destes. Todos eram artistas que se empenhavam em diversas áreas; desde poetas a pintores.
Mas o que realmente acontecera para causar a fuga em massa dos agouros? Após o solstício de inverno, a Sessão de Administração Horripilante, andar inferior da Torre Central, voltara à ativa antes de todos os outros setores. Sendo um departamento altamente precário, os Domadores deveriam conferir o grau de hostilidade dos pesadelos, para prevenir qualquer acidente. Entre tanto, quando o primeiro grupo desceu para o último andar, junto com os fiscais de segurança, foram barrados por uma criatura corcunda e encapuzada. Fora tudo muito rápido. A misteriosa figura esticou os braços para o céu, como se tentasse agarrar algo, em seguida, houve uma forte explosão, e as grades que retinham os pesadelos se partiram, liberando qualquer tipo de agouro que se possa imaginar.
Os Domadores não foram capazes de controlar as feras pérfidas, e como eram em grande número, os pesadelos escaparam do andar inferior e contaminaram todos os outros andares, destruindo os equipamentos e assassinando os funcionários.
O processo de reabilitação e reconstituição fora vagaroso. A Torre Central fora submetida sobre um julgamento que fulminara sua popularidade. Não obtiveram nenhum benefício; pagaram as indenizações as famílias dos operários os quais morreram no desastre, e, o governador exigiu aos sobreviventes que viram a criatura misteriosa a ficarem calados. Quando finalmente a Torre Central estava em pé novamente, e a cidade livre dos pesadelos, algo inexplicavelmente catastrófico ocorreu, alterando por completo a vida naquele fascinante mundo.
Não se sabe a origem do estranho evento, mas seja como for, a fúria do acontecimento resultou na destruição de milhares de biomas e vilas. Milhões de vidas foram perdidas, mas, por alguma razão, Principio e Fim foram os únicos lugares a sobreviverem à terrível catástrofe.
A partir deste momento, os locais vitimados pela explosão desaparecerem, deixando para trás vestígios do que um dia fora maravilhoso e prospero. Mas agora, não passavam de cemitérios escuros e mórbidos. As estações já não atuavam mais, e o mundo fora entregue aos braços pestilentos da besta infernal.
Como o mundo havia sucumbido à escuridão perpétua, os seres malignos se refugiaram nas sombras, e começaram, segundo os generais dos dois reinos, a estabelecer uma pequena comunidade que tenderia a crescer na obscuridade. Claro que o Reino do Esclarecer e o Reino da Criação investiram na segurança de seus territórios. A Patrulha do Alvorecer, batalhão mágico e conectado diretamente com o rei de Fim, convocaram seus melhores feiticeiros, os quais, com o auxilio dos necromantes, construíram no topo das torres de vigilância, santuários que manteriam os espectros luminosos retidos no plano material.
Enquanto a cidadela de Fim executava magia, o Reino da Criação elaborava sua proteção através de máquinas que emitiam fortes lampejos de luz, estabelecidos entorno da muralha. A energia provinha da mana das criaturas fantásticas que foram caçadas e enjauladas sob a estrutura da cidade, mas claro que apenas os militares de alta patente sabiam disto.
Estou quase chegando, pensou Radi ansioso, ao perceber os primeiros raios de luzes que eram emanados dos espíritos flamejantes. Em sinal de vitória, soltou um forte relincho, mesmo estando fraco e quase sem fôlego.
Já não estava tão longe de seu destino, porém, ao se aproximar das primeiras torres iluminadas pelo fulgor das almas, viu de esguelha um imane vulto corpulento, com mais ou menos cinco metros e meio, brandindo um enorme machado enferrujado.
MALDIÇÃO urrou mentalmente, enfurecido.
Antes que o imenso machado pudesse parti-lo ao meio, Radi desacelerou bruscamente e saltou para esquerda. O mensageiro conseguiu sentir o tremor do impacto da arma no solo, mas isto não foi capaz de pará-lo. Com certa dificuldade, o corcel retomou a sua velocidade, dirigindo-se ao lado oposto da muralha que protegia parte do Reino do Esclarecer.
A criatura continuava em seu encalço.
Por um instante sufocante, Radi pressentiu seu fim. Deplorável!, queixou-se mentalmente, Eu, um mensageiro nascido e batizado em Shira, não deveria morrer perante a fúria de uma criatura fútil como esta que me persegue!.
Com o intuito de esquivar-se dos golpes fulminantes da besta, Radi quebrava os limites de seu corpo. Mesmo correndo em ziguezague com velocidade constante, o pesadelo conseguia manter a perseguição facilmente. O corcel tinha total certeza de que não conseguiria sair ileso da situação, porém necessitava que a carta fosse entregue nas mãos de seus superiores, foi então que se lembrou das runas que foram gravadas em seu dorso.
Marcados a sangue, os símbolos enfeitiçados representavam o verso de uma velha cantiga, a qual era cantarolada apenas para os sábios que habitavam a Cordilheira do Amanhã, que há muito tempo fora um local onde a Instituição de Esclarecer formava os melhores sábios e magos, mas agora formava magos e sábios em uma pequena estalagem no centro de Fim.
Se pronunciada corretamente, as runas iriam conjurar faíscas que ocasionariam o fogo o qual chegaria a envolver o corpo do usuário em uma esfera flamejante. Se acionasse o feitiço, aniquilaria seu perseguidor intolerante a luz, no entanto, seu corpo poderia sofrer graves queimaduras, resultando em sua morte precoce. Radi, ciente de que o futuro de todos estava em seus ombros, não tinha outra escolha se não arriscar. Mesmo se morresse o intenso brilho em meio ao breu, chamaria a atenção das sentinelas, que organizariam um grupo de resgate para recuperar seu corpo e o pergaminho.
Não terei outra opção... Anne jamais me perdoará por isso., lamentou Radi.
A criatura obscura erguera o machado e desferira um golpe rasante na direção do corcel, mas felizmente o mensageiro conseguiu esquivar-se do impacto.
Encarou as órbitas avermelhadas de seu oponente. Nunca estivera frente a frente com um pesadelo de estatura tão gigantesca, provavelmente estavam evoluindo com mais rapidez, mas independente do tamanho de seu adversário, nada mais importava. De uma forma ou de outra seu fim chegaria, e lutando era a maneira mais honrosa que se passava em sua mente.
Radi inspirou e expirou com vigor, retomou a circulação de ar em seus pulmões e, sem hesitar, conjurou o verso da sabedoria.
Das runas escarlate emanaram as labaredas indomáveis. Dançavam entorno da fisionomia angelical de Radi. Como chicotes minúsculos e vorazes, as chamas azuis fundiam-se ao corpo do heróico mensageiro, protegendo-lhe da escuridão.
O demônio sombrio, na medida em que o fogo mágico aumentava sua violência, recuava protegendo seu rosto indecifrável com o machado, mas o objeto não fora capaz de repelir os raios de luz a ponto de perder sua essência e evaporar como fumaça. Desesperado, a criatura virou-se com o intuito de fugir debilmente, mas Radi não permitira sua fuga. Batera os cascos dianteiros no solo e saltara sobre as costas do pesadelo, o qual, por conta do contato com a fonte de luz, explodira em uma cortina de fumaça.
Apesar da morte de seu inimigo, as chamas enfeitiçadas continuavam a tomar proporções maiores. O corcel sentia suas pernas traseiras fraquejarem e a pele arder. Soltou um relincho de agonia e, sem restar mais forças para continuar a avançar em direção a muralha, tombou.
O fogo continuava a crepitar, seus estalos despertavam os monstros que ali habitavam, mas tentavam ignorar a forte iluminação. Radi não se movia mais.
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