Peregrinos Da Noite - Sonhos À Deriva
2 O Último Suspiro
Boêmios embriagados dormiam sobre as sacadas das tabernas, pelas ruelas mal iluminadas e, os que permaneciam acordados, cantarolavam cantigas de forma inteligível, caminhando desengonçadamente. Choros de bebês rasgavam o silêncio sombrio e os vira-latas rosnavam com hostilidade a qualquer movimento desconhecido. Este era um cenário comum para o décimo Esquadrão da Luz, formado por doze soldados de fisionomia mediana. No total eram três arqueiros, três clérigos, cinco guerreiros e um estrategista. Comparados aos outros grupos de alta patente, o décimo esquadrão efetuava as suas tarefas na superfície da Velha Esclarecer, envolvida por uma longa muralha rodeada por torres iluminadas por espíritos.
As obrigações eram simples: recolher impostos, patrulhar os becos e ruas, auxiliar as sentinelas, fornecer suporte aos milhares de cidadãos que habitavam a antiga capital e, de tempos em tempos, preparar relatórios sobre as condições locais e enviar ao conselho.
A entrada ao subterrâneo fora lacrada por uma membrana impermeável, evitando a entrada de pesadelos e, ironicamente, habitantes da superfície. Arquitetada por um grupo de sábios, a entrada e a saída de suprimentos só seria possível caso os três se unissem e apagassem as runas, as quais mantinham um elo entre a mana liberada por eles a membrana.
Após o incontestável atentado a Torre Central, que iniciara um conflito social em Principio, os membros do Conselho do Alvorecer, situados em Esclarecer, em sinal de pacificação, ofereceram suporte. Criaram uma passagem subterrânea que ligava os dois reinos. Exclusiva apenas para os transportes cargueiros que protegiam suprimento e ouro.
A linha de conexão trouxe benefícios não apenas para Principio, o qual, em um processo vagaroso, conseguira restabelecer seu governo imperial. Mas principalmente a Fim. As galerias subterrâneas impediam que grupos de Intervalos roubassem as mercadorias, evitando assim, perda de itens e mão de obra. Influenciados pelo inovador método de vias, os membros do conselho de Esclarecer, após um prolongado debate, decidiram investir na construção de passagens subterrâneas que se conectariam diretamente com os outros reinos.
A partir da solicitação do senado, equipes de arquitetos e engenheiros reuniram-se para decidir como seria feito e calcular custos que seriam gastos para a construção de milhares de túneis.
De inicio, o plano central era criar conexões entre os impérios aliados, assim poderiam ter fácil acesso aos governantes, caso houvesse indícios de guerra ou se necessitassem convocar os membros diplomáticos de cada lugar para um congresso.
As construções das vias foram finalizadas dois dias antes do solstício de verão, e durante este processo, o rei do Reino da Criação finalmente conseguira finalizar sua divida. Para conseguirem realizar este feito, Maltazar, rei de Principio, tomou as rédeas da Torre Central e exigiu que a elaboração de sonhos fosse superior a de pesadelos. Entretanto, o mandato trouxe prejuízo após o incontestável aniquilamento do mundo.
...
O Último Suspiro.
Riscava o céu noturno os fogos multicoloridos, expelidos por canhões enfeitiçados. Bolotas transparentes eram lançadas ao léu por malabaristas audaciosos, e os jovens petulantes agarravam-se a calda de imensos napurnos, criaturas semelhantes a um felino doméstico, exceto por sua calda extremamente longa e seus olhos cristalinos, que alteravam de cor perante o humor da besta dominada.
A alegria estampada na face das crianças era admirável, jamais um adulto contemplara esta felicidade exuberante se não no Festival da Fênix, que ocorria em todos os solstícios de verão. Os líderes de cada reino promulgaram a comemoração em sinal de confraternização, ou seja, eram nestes encontros em que os reis e membros de conselhos encontravam-se com o intuito de manter exposto a todos os presentes que não havia hostilidade entre os impérios. Porém, Maltazar não comparecera naquele festival, mas mandara um interprete em seu lugar, o qual informara aos outros líderes dizendo que seu rei havia contraído a antiga peste, após uma suposta excursão que fizera nas ruínas de Burk, um vilarejo que fora dizimado por esta doença. Não houve discussão sobre a informação que o interprete dissera aos outros superiores.
Veja, há um número critico de ingênuos e pecadores neste solo virgem. queixou-se Marcos, membro do Conselho do Alvorecer. Quanta petulância. Estão manchando Shira com a própria presença!
Para que tanta hostilidade, meu caro companheiro? Deveria estar satisfeito. indagou Navarel, espantado. Esclarecer nunca estivera tão estável em relações sócias e financeiras. Sinto-me orgulhoso em saber que tanto trabalho duro nos levou a resultados decentes.
Não me venha com este otimismo inocente! berrou o velho anti-social, somos facínoras, todos! Os seres humanos perderam os sentidos da razão, meu jovem. Minha pele pode estar enrugando a uma velocidade considerável, a ponto de afugentar as donzelas de minha morada, entre tanto, vivi muito tempo para identificar o disfarce vestido pela hipocrisia.
Navarel, que até então pensara que seu amigo resmungava a respeito dos inúmeros transeuntes que vagavam despreocupadamente pelos terrenos férteis de Shira, notara nesta última oração um quê de pessimismo.
O jovem aprendiz aniquilara seu tônico com rapidez, engasgando-se com a quantidade que engolira.
Marcos... O q-que... Por Shira... O que quer dizer com identificar o disfarce vestido pela hipocrisia? interrogou meio rouco, recuperando o fôlego aos trancos.
Os dois passaram em frente a uma fileira de explosivos os quais, ao terem seus pavios corroídos pelas faíscas douradas explodiram causando um audível estrondo, liberando faíscas de luzes coloridas que rodopiaram para cima.
MALDIÇÃO! exclamou enfurecido o velho sábio, ao sentir a pele ser queimada por uma das faíscas das bombas. Pestes insolentes! Como ousam afrontar um conselheiro do senado!
Acho que esta não era a intenção, meu senhor. gargalhou ao ver que a túnica do velho ranzinza estava chamuscada. De qualquer forma, você desconfia de algo?
Marcos apalpou o antebraço impaciente.
Claro. Monarcas e conselheiros estão aqui, gozando com facilidade dos prazeres que esta comemoração esta proporcionando. No entanto, a um personagem faltando neste palco. Karamor.
Como? Realmente pensa que Maltazar mentiu sobre ter contraído a peste antiga? Julgo-o louco por pensar em algo assim. comentou Navarel, achando graça da expressão enjoativa de Marcos, o qual virara o rosto em sinal de fúria.
Ria, continue. Mas sou o único que conhece as falcatruas de Maltazar. Estudei com ele por um longo período e posso assegurar de que este felizardo só foi capaz de ser aprovado nos exames por conta de suborno. Quer um exemplo: Rick di Belman tornou-se dono de metade dos viveiros de dragões marinhos por culpa dele. Graças à venda abundante de escamas prateadas, que são confeccionadas para a fabricação de armaduras, este orgulhoso conseguiu comprar um castelo nas Colinas Sussurrantes. E tudo por conta deste idiota interesseiro!
Navarel rabiscara um sorriso delicioso em sua face avermelhada, divertindo-se com as recordações de Marcos. Estavam próximos a uma tenda que vendia poções de amor quando, abruptamente, um clarão esverdeado rompeu por de trás das árvores, pulverizando algumas fileiras de barracas.
Outra explosão ocorrera perto de um grupo de napurnos que levavam em seus dorsos felpudos crianças inocentes. Em poucos minutos, o cenário alegre do festival transformara-se em um quadro, cuja imagem retorcida e avermelhada destacava o inesperado ataque de Intervalos.
Arranquem os membros dos imperadores! rosnou, de repente, um ser encapuzado, que saíra do bosque com seus subordinados, vestindo uma capa negra envolvida por um peitoril de bronze. Tragam-me as cabeças! Devemos fazer com que o nosso cliente sinta-se confortável ao ver que concluímos nossa missão!
Aquela altura, os Intervalos conseguiram organizar um simples cerco humano, os quais impediram a passagem de qualquer individuo, sendo estes nobres ou plebeus. Os trogloditas que barravam a fuga das pessoas agarraram um por um, e levaram para os circos que foram montados em torno de um lago, onde era feito a benção de futuros magos, sábios e criaturas místicas.
A lua encontrava-se cheia, pairando por de trás de uma fina cortina de nuvem, enquanto o fogo verde-esmeralda crepitava incessantemente, queimando tudo em sua volta.
Senhoras e senhores! Sejam bem vindos! bradou ferozmente o Intervalo encapuza-do, o mesmo que gritara as ordens durante o ataque, aparentando ser o líder da trupe. Muitos se dedicaram para fazer com que este festival fosse inesquecível. Felizmente, eu também pretendo contribuir! fez uma pausa, abrindo um sorriso malicioso em seu rosto molestado pelo sol. Sei que não foi nada cortês de minha parte aparecer de forma tão selvagem, em uma comemoração proporcionalmente bela em relação a minha aparição. Entretanto, os melhores começos são os mais extravagantes.
O orador fez um sinal com a mão para um de seus comparsas, ordenando que trouxes-sem os reféns.
Três intervalos vieram pela entrada empurrando dois líderes de reinos diferentes, e dois membros do mesmo senado, Marcos e Navarel.
Calf, rei de Belman, preocupava-se mais com sua aparência do que com seus súditos, mas, após ser capturado por um grupo maléfico de intervalos disfarçados, tivera seu manto de seda rasgado e manchado de sangue, por conseqüência de seu olho perfurado. Radim, rei de Malim, também se encontrava em um estado deplorável, assim como Navarel e seu companheiro Marcos.
Estes são espetaculares líderes que protegem seus reinos com determinação, entretanto, devo dizer que até mesmo o mais puro dos homens contém seus adjetivos viscosos. Não estou correto, Calf? grunhiu o chefe dos intervalos.
A vitima brutalmente violentada emitiu apenas um gemido de dor, já que não seria capaz de dizer uma única palavra, pois sua língua também fora arrancada.
Imaginei que diria isso. riu com desdém. De qualquer forma, antes que continuemos com este magnífico espetáculo, devo me apresentar, chamo-me Karamor, comandante do grupo Sombra Mortífera, filho genuíno de Batz, o Maligno.
Ao pronunciar o nome do pai, a multidão amedrontada mergulhou em um silêncio mórbido, receosos do que poderia acontecer se abrissem o bico diante de seu filho, que já mostrara ser mil vezes pior.
Estou quase certo de que vocês conhecem as façanhas cometidas pelo meu pai. Por isso, devo assegurar que, de certa forma, sou justo. Karamor fez novamente o mesmo sinal com a mão para um membro de sua equipe, o qual lhe entregou duas espadas: uma perfeitamente afiada, cuja lâmina severamente polida refletia as expressões aterrorizadas dos espectadores, tendo uma empunhadura prateada possuindo um pomo de rubi, e as duas extremidades do guarda mão vergadas para cima. Já a outro tinha a trava do pomo entortada, fazendo com que o pomo ficasse desalinhado em relação à espiga; o cume central estava levemente entortado, a secção fraca estava manchada de sangue e pó, o que dificulta em uma batalha, pois o sangue pode danificar a lâmina, fazendo com que o corte seja mais complicado.
Quando era apenas um garoto, meu pai dizia que Calf era um excepcional espadachim. Contou-me certa vez, que, utilizando apenas uma espada enferrujada, cuja lâmina estava empertigada de sangue humano havia séculos, conseguira derrotar o terrível Gigante das Montanhas do Leste. Também me contou que Calf o derrotara, não apenas utilizando uma espada horrível, mas também estando em péssimas condições físicas. Sinto-me honrado em estar diante de uma lenda que se tornou rei. Karamor fez uma breve pausa, a fim de contemplar o seu público. Todos mudos e apavorados. Girou a espada que estava em péssimas condições, e continuou. Meu sonho era vê-lo em batalha. mais uma pausa dramática, agora encarando o velho rei de Belman, que tremia como porco preste a ser abatido, tentando evitar os olhares fumegantes do filho de Batz. E agora, eu poderei realizá-lo.
Karamor aproximou-se de Calf e levantou-o com delicadeza. Desamarrou suas mãos e, demonstrando respeito à imagem ridícula do imperador, ajoelhou-se e lhe entregou a espada enferrujada
As pessoas que assistiam não conseguiam acreditar na formalidade do agressor, diante de sua vitima. Porem, os outros intervalos pareciam estar divertindo-se com a cena.
Sei que faz anos dês de sua última batalha, mas, creio que o senhor ainda mantém a mesma pericia com a espada. isto fora mais uma gozação do que um elogio. não sou um gigante, claro que não. Acho que será fácil para você, hein?
Calf manteve-se sólido como uma pedra.
Veremos se o que as histórias dizem são verdadeiras. disse com solenidade.
Karamor pôs se em posição de defesa, deixando a espada alinhada verticalmente com o seu corpo, enquanto Calf, com as mãos tremulas, tentava segurar a espada.
MATE-ME, CALF, O GRANDE! exclamou Karamor com desdém.
Calf sentia-se enjoado, principalmente após perder demasiado sangue; não conseguia manter o equilíbrio e a visão tornava-se turva; o cheiro enjoativo de sangue o deixava atordoado. Com dificuldade, recolheu a misera coragem que lhe restara e se precipitou para cima de seu adversário. Desferiu um golpe com o intuído de acertar o joelho do oponente, mas ao invés disso, errou o golpe, girando em seu próprio eixo.
Qual o problema? Isto não é nada comparado com o que passou!
O rei moribundo deixou a arma cair, mas rapidamente a pegou, recuando logo em seguida alguns passos. O peso do aço estava começando a complicar as coisas, já não tinha mais força, porem, não podia demonstrar fraqueza, não após Karamor ter mencionado uma de suas falsas aventuras para aqueles que o conheciam.
Novamente, em uma tentativa frustrada, Calf partiu para cima do inimigo, acertando a facção forte da espada de Karamor e velozmente afundando a ponta de sua espada no peitoril de bronze de seu adversário. O som agudo do aço se chocando com a armadura, fez com que o público sobressaltasse nas arquibancadas.
O ataque não fizera um arranhão no bronze.
Karamor aproveitou a investida de Calf e com o braço esquerdo acertou a mandíbula do velho, fazendo este cambalear para trás. Sem hesitar, Karamor acertou com força o pomo no nariz do velho e na seqüência, largou a sua arma e agarrou a do pobre oponente, levando a arma para trás das costa de Calf, torcendo-o o braço. O rei de Belman soltou um audível grito agonizante, mas não teve tempo para uma pausa. Karamor enfiou o pé nas costas de sua presa, empurrando-o para longe.
HIPÓCRITA! soltou uma gargalhada diabólica, ao ver seu oponente caído no chão. VOCÊ É O REI DOS TOLOS! HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!
Calf apalpou desesperadamente o chão, à procura de sua arma. Quando a encontrou, sentiu uma mão áspera lhe agarrar pelo ombro. Desesperadamente, o velho começou a socar freneticamente o ar
Velho insolente! berrou descontrolado, escalavrando as costelas do coitado com o pomo cristalino de sua espada. Peça por misericórdia, quero ouvir sua voz estridente pedir por misericórdia. CORRUPTO PERVERTIDO!
Como tivera sua língua decepada, não conseguia pronunciar uma única palavra.
Vejam o bravo rei de Belman! Vejam como ele age em uma situação de vida ou morte! Presenciem o filho da hipocrisia!
As pessoas conseguiam ver as lágrimas escorrerem do único olho que lhe restara. O público permanecia paralisado; chorando em silêncio e desviando o olhar sempre que podiam.
Karamor soltou a mão que segurava o ombro de Calf, o qual caíra de joelhos, ofegante.
O cruel predador tocou a órbita ensangüentada, onde deveria estar o olho castanho de Calf. A dor fora imensa, fazendo-o gemer desesperadamente. O filho de Batz ficou um tempo forçando o indicador na carne fresca, rindo insanamente. Os intervalos observavam com orgulho a forma como seu mestre tratava seu inimigo.
Arranquei esta sua língua imunda para matá-lo, sem ouvir suas últimas palavras envenenadas! rugiu furioso. o preço do meu pagamento não vale o que o senhor de fato valeria! e sem rodeios, Karamor esticou o braço de Calf e o arrancou com sua espada, afundando, logo em seguida, a lâmina inteira na garganta do velho.
Com hostilidade, o sanguinário animal retirou a espada do corpo do falecido rei, chutando-o com sua bota de couro o cadáver.
O único olho castanho que sobrara no rosto do morto fitava todos os que estavam na arquibancada, demonstrando um vazio fúnebre e perpétuo.
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