Perdoe os Vícios pelo Amor

12 Um dia a curiosidade vai me matar


Notas iniciais
Então meus amores, eu postei um pouco atrasada, mas postei. Em dezembro estarei lançando uma nova história na categoria original e aos poucos darei mais detalhes sobre ela. O capítulo está como prometido com algumas revelações. Abraço de urso!

― Eu vou matar vocês. ― Anya berrou me deixando momentaneamente surda. ― Como me deixaram fazer uma coisa dessas?

― Não foi tão ruim assim. ― Leila murmurou tentando, sem êxito acalmá-la.

― Eu quase fiquei nua.

Depois da festa, Edric dormiu na minha casa e por incrível que pareça a dinossaura não reclamou nem me lançou olhares enviesadas, apenas um sonoro ´´é claro``. Até mesmo os flagrei cochichando quando achavam que eu não estava percebendo, infelizmente não consegui escutar nada.

Tentei conversar com Edric, no entanto ele praguejou a noite inteira em italiano quando viu as postagens da festa, principalmente ele e Anya, com hastags de casal do ano. Juro ter escutado ´´canalha`` e ´´grudar as bolhas dele na parede``. E agora com a minha amiga furiosa sentada de frente para mim na mesa da cantina, não era preciso ser vidente para premeditar um dia sangrento.

Isso porque ela só sabe essa parte.

Agradeci internamente por mais ninguém ter visto aquela discussão.

E ali estávamos nós, no meio do refeitório escutando cochichos vindos de todos os lados, enquanto eu batucava na mesa.

― Chega. ― Leila murmurou.

Continuei batendo.

Edric olhou para a minha mão.

― Chega. ― Exclamou segurando a minha mão sobre a mesa.

― Minha mãe vai me matar. ― Choramingou Anya. ― E agora tenho que ouvir piadinhas do tipo ´´Ei Anya, rola um show particular?``.

Apoiei a cabeça entre as mãos, um movimento acompanhado por todos na mesa. Bem...quase todos.

― Cansei. ― Edric falou se levantando e sua expressão mudou para uma mais odiavelmente debochada. ― Cuidem-se princesas.

Eu não vou estar sempre presente, quase o escutei falar.

Olhei para o lado e bati a mão na testa exasperada. Violet vinha em nossa direção com seu sorriso mais angelical, o oposto do que estava estampado no seu olhar. É claro que com uma situação daquelas, os demônios faziam a festa.

― Dio Mio. ― Edric resmungou. ― Já pensaram em se benzer?

― Cale a boca e que aqui, capisce?

Anya se encolheu na cadeira como se aquilo não passasse um pesadelo.

― O que você quer? ― Leila sussurrou.

Violet arrumou seu cabelo e se sentou na cadeira ao lado da minha e o perfume extremamente doce que a acompanhava me acertou em cheio. Aquilo podia ser usado como inseticida. Cocei o nariz, eu era alérgica a perfumes daquele tipo e era questão de tempo para que eu fosse dominada por uma crise de espirro.

― Dar felicitações ao novo casal. ― Respondendo fingindo sinceridade, gesticulando para dar ênfase, liberando mais de seu perfume.

Prendi a respiração.

― Não somos um casal. ― Anya se manifestou e a outra pareceu realmente surpresa.

― Ouvi outras coisas a respeito.

― Imagino. ― Falei tossindo, minha garganta tinha começado a coçar e meus olhos a arderem. Eu precisava sair dali.

Leila me observou franzindo o cenho.

― Boatos sem fundamento. ― Edric deu de ombros. ― Faria isso novamente por qualquer garota que mereça.

Violet sorriu maliciosa e mais uma vez senti pena de Scott.

― Bom saber, se isso acontecer comigo...

― Eu terei a decência de não estar presente. ― Edric interrompeu com desdém.

A minha intenção era sorrir, mas meu rosto se contraiu em uma careta e espirrei discretamente.

― E seria muito bom ver você quebrar seu rosto bonitinho. ― Completou.

Olhei para a porta da saída a poucos passos de mim, sentindo a vontade de espirrar voltar, só que dessa vez com mais força.

― Nancy, o que está acontecendo com você? ― Anya sussurrou, alto o suficiente para que Violet me encarasse zombeteira, ignorando o comentário do meu irmão.

― Algum problema flor?

Flor.

Essa palavra só intensificou minha vontade de espirrar.

Eu preciso sair daqui.

Desesperada, me levantei porém as cadeiras encurralavam meu caminho e empurrei a cadeira de Violet que sentava na borda dela, in(felizente) fazendo com que ela caísse estatelada no chão. Não esperei para ver sua reação, mas pelo seu berro, não foi nada boa. Várias pessoas correram até ela enquanto eu corria para o lado oposto.

Nunca senti tanto alívio na vida ao me recostar na parede de um dos corredores vazios e espirrar livremente. Um dos muitos espirros.

O que eu fiz?

Pensei em seguida, em nem mesmo sabia em que corredor estava. Os outros não conseguiriam me achar tão cedo, porque 1- o refeitório voou em cima deles no instante em que Violet caiu no chão e 2- eu corri no automático.

Olhei para os lados, o esquerdo foi de onde eu tinha vindo. Direito, então. Andei observando o que cada placa sinalizava.

― Laboratório, sala dos professores, biblioteca. ― Parei. ―Biblioteca querida, você nunca me pareceu tão acolhedora.

Tinha entrado nela apenas duas vezes, mas infelizmente não consegui aprender o caminho. E assim como da primeira vez perdi o fôlego com tantos e tantos livros me chamando para le-los em várias estantes perfeitamente alinhadas.

Passei os dedos pelos livros apreciando aquele silêncio quase incômodo e a luz que era minimizada pelas persianas. Puxei um livro qualquer e depois de ler a contracapa decidi recolocá-lo no lugar.Quem sabe eu o lesse depois. Uma enciclopédia de mitologia egípcia me parecia mais adequada.

Peguei o livro satisfeita com a minha escolha e me encaminhei até as mesas que estavam quase todas vazias.

Arfei com o que vi.

Eu preciso me benzer mesmo.

Alex e Scott eram os únicos ocupantes dessas mesas.

Mas o Scott não tinha faltado?

Franzi as sobrancelha. Eles estavam se comunicando por um papel. Por sorte, eu quase sempre podia passar despercebida pelo rosto comum. Me posicionei em uma mesa ao lado da deles e ambos nem se dignaram a levantar o olhar.

Seja lá o que eles estão falando é muito interessante.

Coincidentemente eu conseguiria ler sem esforço o que estavam anotando, mas ó coincidentemente. Não tinha nada a ver com a minha curiosidade inoportuna.

Alex estava de frente para mim, mas não desviou o olhar do papel uma vez sequer e Scott fazia um bom favor em se inclinar para o lado ao escrever.

Semicerrei os olhos.

O que aconteceu ontem me deixou mal...eu juro que teria acabado com o Lamartine mas estava ocupado demais socando o Clark por ter dado aquele drink pesado pra Anya.

Arregalei os olhos surpresa e levantei a enciclopédia, mas o estrago estava feito. Eu tinha que ler o reto da conversa. O que Scott tinha escrito explicava o motivo de não estar presente no momento que Anya estava dançando por talvez nem ter chegado a ver ela subir em cima da mesa.

E isso é motivo para uma crise de ciúmes? Por que não termina logo com a Violet?

Ela abriu meus olhos, sem falar que Anya gosta de você Alex.

― Isso é ridículo. ― Resmunguei me arrependendo meio segundo depois enquanto enfiava minha cara no livro.

Quando tomei coragem para levantar o olhar, Alex me fitava atentamente e Scott continuava escrevendo alheio a nossa troca de olhares. Eu nunca corava, mas senti meu sangue se concentrar no meu rosto. Com a incriminação que ele demonstrava no maxilar trincado de raiva e desaprovação, esperei que naquele instante ele se levantasse e fizesse uma ameaça sobre o que eu tinha lido, mas curiosamente ele apenas pegou outro papel e escreveu do topo da folha.

Alex inclinou a folha mais para o lado.

Você sabia que Leila Oakley está ficando com o Clark?

O que? Leila? Encarei Alex e não era impressão, a pergunta no papel era na verdade para mim, neguei com um gesto de cabeça respondendo.

Será que dá pra focar na parte realmente importante?

Mordi a lateral da boca prendendo a risada ainda digerindo as informações. Eu não sabia o que fazer com elas. Alex inclinou agora a folha para que eu não visse a conversa, mas a visão continuava ótima.

Desculpa cara. Scott você não acha estranho ela ´´gostar`` de mim, mas estar tão ressentida com você?

Fui grosso com ela, é só por isso que está ressentida. Eu li que ela gosta de você. Eu li.

Não acredito nisso, porque a forma que ela olha pra mim nem em mil anos vai ter a intensidade que ela olha pra você.

Scott suspirou e minha vontade foi de lhe dar um murro, porém ele disse ter lido que Anya não gostava dele.

Tem alguma coisa que não está encaixando.

O sinal tocou indicando o fim do intervalo, Scott entendeu a deixa e saiu sem dizer uma palavra. Voltei a olhar para a enciclopédia, mas as palavras estavam embaçadas, e o assunto já nem parecia tão interessante. Então uma mão forte agarrou meu livro, o tirando de mim enquanto a outra me levantava bruscamente da cadeira.

― Você é muito enxerida. ― Sussurrou quando meu corpo colidiu contra o seu, e segurou meu rosto com uma mão me forçando a olhá-lo. Por um segundo eu me perdi, porque não vi frieza, nem raiva, tampouco alegria. Eu vi vazio, como o céu sem nuvens de Phoenix. Seu olhar estava fixo no meu e seja lá o que viu fez seu aperto no meu braço se afrouxar. ― Da próxima vez que cometer o mesmo erro de hoje, vou fazer você nunca mais se meter nas conversas dos outros.

Seu tom de voz cortante me fez estremecer e todo o resquício de humanidade que eu tinha visto nele sumir.

O ar ficou mais rarefeito ou eu prendi a respiração?Alex me soltou e saiu como se a minutos atrás não tivesse praticamente me falado os segredos do melhor amigo, como se a segundos atrás não tivesse me feito acreditar que talvez ele não fosse tão ruim assim.

Levei minha mão ao coração acelerado sentindo ele voltar ao normal e apressei o passo, ainda tinha muitas aulas por vir, mas para mim o que tinha acontecido era o suficiente para uma vida inteira.

Leila e Clark eu suspeitava, mas Anya e Alex era no mínimo improvável. Peguei meu material as pressas e corri até a sala conseguindo um lugar em seu meio. Eu teria tempo para pensar, nessa aula nenhum conhecido estaria próximo a mim.

― Respire Vougan. ― Uma voz desconhecida falou ao meu lado.

Segui seu conselho e fitei um garoto franzino, que nem mesmo suas vestes folgadas conseguiam esconder a magreza, os traços eram tipicamente indígenas e seus olhos castanhos como chocolate quente em um dia frio.

―Conheço você?

Ele gargalhou.

― Não, mas depois de hoje todo mundo vai conhecer você.

Ainda tinha esse detalhe.

― Garota virei seu fã. ― Exclamou estalando os dedos. ―Você devia ter visto a cara dela, caindo de bunda no chão com as pernas pra cima, foi sensacional, só que eu queria ter feito isso.

― Deve ter sido uma cena e tanto.

Eu quase me diverti junto com ele.

― Eu filmei quer ver?

― Melhor não.

O resto do dia na escola tinha sido debaixo de olhares e recebi até mesmo algumas piscadelas, meu único conforto é que a cena de Anya tinha sido esquecida quase completamente. Ela junto com Leila quase morreram de rir com o motivo da minha atitude no refeitório. Uma crise alérgica.

― O que você fez? ― Edric surgiu como o capeta na minha direção no estacionamento. ― Você decretou guerra contra aquela maluca.

― O perfume dela era doce. ― Sibilei, pelo menos não iria mais encontrar Violet ali.

― Tinha esquecido da sua alergia. ― Disse destravando o carro e entrando em seguida. Ele me dava carona desde que contamos que éramos irmãos para Anya e Leila.

― E muitas outras coisas também.

Ele me fitou ao ligar o carro.

― O que quer dizer?

― Dê partida no carro que eu falo.

Edric mesmo desconfiado fez exatamente o que lhe pedi.

―Poderia ter me falado que a Leila estava com seu amiguinho. ― Murmurei.

― Está zangada com isso, pensei que fosse esperta para descobrir sozinha.

― Estou zangada por achar que não ia omitir nada para mim. E o que tem de errado com o Clark para ela não tornar isso público?

Ele franziu o cenho.

― Isso eu também não entendi.

Deixei que o silêncio se enroscasse por nós como uma ironia, já que eu tinha tanta coisa para falar. Assenti um pouco tranquila, eu tinha o meu irmão e era bom que mesmo de maneira diferente pensávamos em conjunto.

― Vamos descobrir. ― Não era uma sugestão sua, era uma constatação, quando Edric e eu nis juntávamos nada nos impedia.

Nathan e Lilian que o digam.

― A minha mãe está melhorando. ― Soltei.

Edric sorriu.

― Vamos visitá-la juntos quando o médico permitir.

― E depois vamos pra praia.

― Claro que sim.

Tivemos apenas dois meses como irmão e irmã e um longo ano o conhecendo como o namorado da minha melhor amiga. San Diego ainda tinha muito para nos mostrar, todos os dias surgiam coisas novas.

Edric estacionou e tinha um carro parado na porta da casa da dinossaura e seu carro particular também estava lá, no entanto ela deveria estar no asilo.

― Que estranho. ― Falei quando me posicionei ao lado de Edric antes de rumarmos até a porta.

Abri sem tocar a campainha e jurei que ia morrer com tantas surpresas em um dia. Esbugalhei os olhos ao ver as duas figuras sentadas na sala de estar da dinossaura, enquanto ela os servia com café. Edric estava congelado ao meu lado com a boca entreaberta e extremamente pálido. Os homens sorriram assim que pousaram os olhos em nós, e a cópia envelhecida de Edric falou.

―I miei figli(meus filhos), estávamos com saudades.

Notas finais
TRECHO DO PRÓXIMO CAPÍTULO: (Sim eu amo meus leitores) ´´Agradeci por estar em casa desfrutando do meu domingo, até meu pai abrir a porta do quarto como um furacão. — Temos um almoço de negócios. _ Exclamou. _ E você vai.´´