Perdoe os Vícios pelo Amor
13 O almoço
Notas iniciais
Durante uma semana eu tinha aturado os olhares e comentários ácidos de Violet, e Scott parecia distante com um rosto sem expressão. Leila e Clark era o casal que ia ficando cada vez mais difícil de não perceber e claramente Anya sabia sobre os dois. Estava ressentida admito. E ainda podia ser pior, os resmungos de Alex durante as aulas de Biologia estavam ainda mais constantes com o conteúdo chegando ao final. Eu me perguntei se o professor consideraria se eu fizesse meu trabalho com um cubo de gelo. Substituiria o Devens perfeitamente.
Agradeci estar em casa desfrutando do meu domingo.
Até meu pai abrir a porta do meu quarto como um furacão.
― Temos um almoço de negócios. ―Exclamou. ― E você vai.
Coloquei o travesseiro sobre a minha cabeça exasperada.
Cenas como essa tinham se tornado bem comuns desde que meus dois pais vieram para Phoenix. Ambos passaram a morar com Dinah Vougan e estavam inseparáveis como verdadeiros melhores amigos, e isso era aterrador, pois eles carregavam Edric e eu para todas as reuniões. Inclusive meu irmão estava passando boa parte do tempo comigo, embora dormisse no seu apartamento. O humor da casa tinha saído de quietude para gargalhadas e reuniões de negócios. A dinossaura estava quase ficando maluca, e pediu para que Mark contratasse novos empregados para arrumar tudo.
― Leve Edric. ― Resmunguei. ― Ele fala quatro línguas, é o parceiro perfeito.
― Falei isso para Lorenzo, mas ele roubou seu irmão e só sobrou você.
Não queria nem mesmo ser a sobra.
Tirei o travesseiro do meu rosto e fitei meu pai com um olhar pidão.
― O que vai me dar em troca?
― Uma semana sem precisar me acompanhar.
― É pouco. ― Resmunguei. ― Um mês.
― Mas eu vou ficar aqui durante um mês.
― Exatamente.
― Não. ― Refutou ofendido. ― Uma semana e quem sabe um carro no seu aniversário.
― Qualquer carro.
Ele semicerrou os olhos.
― Te criei bem. ― Disse puxando minha toalha e jogando em cima de mim. ― Se apresse.
Ele saiu e revisei mais uma vez que deveria trancar meu quarto todos os dias. Me arrastei até o banheiro sem me olhar no espelho, tinha certeza que estava com um aspecto assustador.
***
Uma hora depois lá estava eu, empacotada em um vestido formal branco, e a Dinossaura ao meu encalço fazendo maravilhas no meu cabelo.
― Lembre-se da etiqueta. ― Alertou uma última vez.
― Vou lembrar.
― E qualquer coisa me ligue, tiro você desse almoço na mesma hora.
― Está tão prestativa. ― Elogiei quando ela terminou o penteado.
― Sei o filho que tenho.
Acenei com a cabeça, naquela mesma tarde nós duas iríamos sair juntas. O passeio sugerido por ela a dois dias tinha me pego tão desprevenida que tropecei nos meus pés e tive um esplendido encontro com o chão.
Ela me libertou e fui ao encontro do meu pai, que se encontrava parado no meio da sala mexendo no celular de maneira desengonçada. ´´Meu pai`` não tinha nada a ver comigo, a não ser a péssima mania de se meter em encrencas.
― Estou pronta. ― Anunciei antes que ele jogasse o aparelho no chão.
― Demorou. ― Disse pegando as chaves do seu novo carro e me analisando em seguida. ― Mas valeu a pena, está linda querida.
Durante todo o percurso me deixei levar pelo cheiro de carro novo, observando a paisagem mudar aos poucos enquanto o sol impiedoso de Phoenix pintava tudo de dourado. Conversei com meu pai sobre minhas novas amizades, e o dia a dia com a minha avó. Ele me falou sobre seu relacionamento com Briget McWood, e o quanto estavam felizes, e sua nova filial que queria instalar em Phoenix.
― E a minha mãe? ― Insisti.
Meu pai apertou tanto o volante que os nós dos seus dedos ficaram brancos.
― Dois meses. ― Murmurou. ― Faltam dois meses.
― Ela está quase recuperada, se quiser saber, Will disse que está quase recuperada.
― Sua avó me disse que você liga para ele todos os dias.
― Ela é minha mãe. ― Retruquei. ― E Will é um médico maravilhoso, devo muito a ele.
As músicas instrumentais serpenteavam no ambiente dando um ar ainda mais melancólico entre nós. Como se pela primeira vez os céus atendessem meus pedidos meu pai estacionou o carro em frente a uma casa enorme com aquitetura requintada e um portão metálico espiralado rústico formando um D.
― Pai, só por curiosidade, de quem é essa casa?
Ele apertou o interfone e falou ´´Chegamos´´ fazendo com que o portão se abrisse.
― Do meu novo sócio, e um grande amigo de adolescência.
― O nome pai.
Ele sorriu diante do meu desespero.
― Fique tranquila, vai gostar dele. Max Devens é um amigo com filiais em quase todo o país, mas não precisa ser tão formal.
Senti minhas pernas fraquejarem, e abri os olhos em pratos. Devens. Meu pensamento foi a mil por hora, e quase achei que meu sistema nervoso fosse entrar em colapso. Com sorte ele não estaria em casa, entretanto essa era a mesma possibilidade de não fazer calor em Phoenix durante o dia.
― Nancy? ― Chamou me puxando até a casa a alguns metros de nós e entregando as chaves para o manobrista.
Forçei um sorriso , mas ele se transformou em em um tremular de lábios que não passou despercebido por James Vougan.
― É o calor. ― O clássico das desculpas. Estava suando frio, mas ele não iria saber.
Uma mulher baixinha com expressão bondosa nos avaliou de maneira sutil enquanto nos dava espaço, notei seu olhar se demorando em mim por mais tempo.
― Por aqui. ― A seguimos em silêncio para uma sala adornada com quadros e esculturas em estilo grego decorando a casa. Em si ela poderia ser uma grande galeria de artes.
Cada passo parecia mais difícil que o outro.
Tenho que agradecer em ser eu, não o Edric.
― James velho amigo. ― Uma voz grave glacial falou para nós e me deparei com o pai de Alex, eles não se pareciam fisicamente, mas os olhos não mentiam o parentesco, ambos eram intimidantes. Max tinha feições mais comuns, pele mais clara e ainda mais alto que o filho. Eu que nunca fui baixinha precisei inclinar minha cabeça quase por completo para fita-lo.
― Max essa é a minha filha, Nancy. ― Papai me empurrou delicadamente para frente da montanha humana.
O homem sorriu e percebi que era calmo e educado, um verdadeiro amigo do meu pai.
― É um prazer conhecê-la, ouvi coisas maravilhosas a seu respeito. ― Falou beijando a minha mão e fingi surpresa levando a outra mão a boca.
― Se vier do meu pai desconsidere todos os elogios. ― Retruquei.
― Não foi seu pai. ― Assegurou divertido.
Franzi o cenho quando terminou o cumprimento.
― Fui eu. ― A voz rouca de Alex Devens fez o resto do meu autocontrole ir pro espaço. Ele surgiu no vão da escada e veio até nós vestido em uma calça e blusa social perfeitamente alinhadas e passadas, seus cabelos negros estavam imaculados e carregava um olhar totalmente diferente, mais sério e formal. Parecia outra pessoa. Uma pequena parte do meu cérebro se encantou com ele e seus elogios, seja lá quais foram. Uma minúscula parte.
― Senhor Devens. ― Cumprimentei tentando soar distante, mas essa capacidade foi por água a baixo quanto tomou minha mão entre as suas e depositou um cálido beijo em seu dorso sustentando meu olhar.
― Senhorita Vougan.
Meu pai limpou a garganta fazendo Alex soltar minha mão e me olhou questionador mas não deu voz ao seus pensamentos. Depois sussurrou baixinho antes de seguir com seu amigo mais a frente um ´´vai me explicar isso depois.`` Me deixei conduzir pelo meu pai que espalmou as minhas costas de forma protetora, irritada demais com o efeito que Alex tinha em mim para prestar atenção no que eles falavam.
― Não é querida? ― Os três pares de olhos pousaram em cima de mim.
― Ahn...pode repetir? ―Sugeri entre envergonhada e frustrada.
― Eu estava falando que estamos ansiosos para ir ao Museu Local. ― Resmungou com uma repreensão silenciosa.
― Certamente.
Max me olhou incrédulo, ao contrário do filho que parecia uma estatua sem emoções.
― Pensei que já tivesse isso. Via fazer dois meses que está aqui.
― Três. ― Corrigi. ― E a oportunidade ainda não surgiu.
O aperto do meu pai no meu braço indicou que eu tinha acertado nas palavras. Nos posicionamos na mesa do almoço, de maneira que os dois Devens ficaram de frente para nós. Sem nem mesmo disfarçar os dois senhores engataram em uma conversa empresarial, sobre a extração de minérios em Phoenix e os investimentos freqüentes no mercado de anúncios online. Não ousei desviar o olhar do prato quando a comida chegou, perder a compostura era a última coisa que deveria acontecer, e não foi um esforço, toda a comida estava deliciosa.
Alex parecia interessado no assunto e participava em momentos específicos, com comentários inteligentes e bem articulados. Max Devens lançava um sorriso capaz de dar vida a flores mortas de tanto orgulho. Era óbvio que eram mais que pai e filho, eram amigos. O meu silêncio não era por desconhecer os temas e sim por estar sem paciência para coisas do tipo em pleno domingo.
Suspirei satisfeita ao terminar minha refeição. Dei uma desculpa qualquer para sair da mesa e quem sabe ver mais um pouco da casa.
― Posso acompanhá-la? ― Alex se ofereceu educado.
Educado.
― Se não lhe parecer incomodo. ― Retruquei com uma provocação direcionada a ele. ― Adoraria.
Pela primeira vez naquela tarde, o Alex grosseiro que eu conhecia voltou, e sorri preferindo ele daquela maneira, pelo menos com ele saberia lidar.
Alex se levantou e deu a volta na mesa sobre a monitoração do meu pai e se colocou ás minhas costas. O que está fazendo?, quase gritei. Ele estava sendo cavalheiro ao ponto de puxar a cadeira pesada demais para mim e em seguida levou uma mão ao meu braço, passando a mão discretamente por ele e me beliscou.
Guinchei de dor e surpresa, e tossi quando a saliva me engasgou.
― Suponho que precise de um copo com água senhorita Vougan. ― Sentenciou me segurando pelo cotovelo.
Preciso é dar uns bons tapas em você.
― Definitivamente. ― Concordei em voz alta com os meus pensamentos, mas o idiota calculista entendeu aquilo como uma resposta.
― Ótimo. ― Gesticulou em um aceno para os senhores. ― Voltamos daqui a alguns minutos.
Pensei que meu pai fosse berrar ultrajado ou desconfiado com Alex, no entanto o que vi foi confiança total. Assim que passamos pela sala de almoço, longe o suficiente dos nossos pais pensei em puxar meu braço de sua mão, e o que quer que tenha dado em mim me fez continuar daquela forma.
― Senhor Devens, posso lhe fazer uma pergunta? ― Questionei ainda com os modos formais, embora eles nem fossem mais necessários.
― Se eu puder responder, claro.
― Quais as coisas maravilhosas que falou sobre mim? Até onde eu sei, não é um apreciador da minha companhia.
Ele parou de andar e soltou meu braço.
― De fato. ― Concordou me analisando. ― Mas não é tão ruim quando abandona a curiosidade impertinente que possui. Além disso qualquer pessoa que derruba Violet no meio do refeitório e assina um tratado que quase morte, não só pode como deve ser elogiada.
Ele nem mesmo tinha comentado sobre isso nas aulas de Biologia.
― Obrigada. ― Era um elogio meio deturpado, mas vindo de Alex não esperava algo diferente. ― Você sabia não é?
― Sobre?
― A amizade de nossos pais.
Ele começou a andar sem responder minha pergunta e não tive outra opção a não ser segui-lo. A mulher que me recebeu ia passar por nós com uma jarra de água e Alex a fez parar, ela sorriu para mim curiosa e deduzi que ela era bem mais que aparentava ser.
Continuamos observando a casa, cheia de compartimentos decorados em silêncio e quando acreditei que ele não fosse responder mas parou em frente a um quadro cheio de cores vibrantes formando uma paisagem cheia de flores, margaridas brancas — as minhas preferidas — e falou.
― Eu sei tudo sobre as corporações do meu pai e a do seu não é exceção. ―Deu uma pausa e retomou. ― Então sim, sabia quem você era antes mesmo de conhece-la.
Assenti observando o quadro ao seu lado, lembrando de quando nos conhecemos, e sua pergunta em relação ao meu sobrenome. O mais estranho era pensar que em qualquer momento, de qualquer maneira nos conheceríamos, mesmo se não morasse em Phoenix. Em alguma reunião, seja em San Diego ou Nova York eu iria conhecer um garoto arrogante, taciturno e explosivo chamado Alex Devens.
― Agora imagine a minha surpresa. ― Murmurou direcionando subitamente seu olhar para mim. ― Quando pela manhã meu pai me falou que seu grande amigo James Vougan e sua filha de consideração Nancy Vougan iria almoçar conosco.
― Todos sabem que eu sou ilegítima.
― Mas o detalhe é que a garota descobriu seu verdadeiro pai, uma notícia bem vinda, ao saber que ele era um famoso estilista italiano, de Verona não é mesmo? O sobrenome é muito familiar não acha?
Suspendi a respiração e me senti nua na frente dele, e seu olhar frio parecia de fato despir minha alma.
― Acho que sobre isso nem todo mundo sabe. ― Afrouxou a gola da camisa.
A insinuação de que ele sabia a verdadeira relação entre eu e Edric fez meu sangue gelar, Alex não gostava o suficiente de mim para, para...
― Não acredito que está pensando em uma merda dessa. ― Aproximou seu corpo do meu encurtando os poucos centímetros entre nós e sacudiu meus ombros com uma fúria incomum e me soltou depois estupefato com a própria reação pousando as mãos dentro do bolso.
― Não conheço você. ― Minha voz saiu trêmula pelo seu olhar perdido, queria que ele não ficasse daquela maneira.
― Nem eu me conheço. ― Se afaste, parecia murmurar. ― Tem apenas minha palavra.
― Confio em você. ― Consegui formular após um longo silêncio.
― Temos que voltar. ― Alex disse me ignorando e tratou de me guiar de volta até nossos pais que gargalhavam na sala e sorriram para nós. Me posicionei ao lado do meu pai, ainda desorientada, mas se percebeu, escondeu muito bem. Ali eu me sentia mais segura. Custava aceitar o óbvio.
Eu estava atraída por alguém que mal conhecia, uma pessoa mal humorada e que todos me alertavam para ficar longe, inclusive o próprio me lembrei. Por sorte aquilo era unilateral. Nunca agradeci tanto entrar dentro do carro e fechar meus olhos, esquecendo a vertigem no meu estomago.
***
― Você está ridícula. ― Dinah Vougan grasnou ao me ver olhar as roupas com tédio evidente. ― Deveria falar que não queria vir.
― O almoço foi desgastante.
― Eu não acredito, se fosse apenas desgastante estaria cansada, mas você está pensativa.
Estreitei os olhos.
― Desde quando me conhece tanto?
― E isso importa?
― Não.
A Dinossaura suspirou e me tirou da loja criticando as roupas. Ela estava fazendo um bom papel em me divertir mas nada que ela tentava dava certo. Rumamos até uma charmosa cafeteria e gesticulou para que eu me sentasse.
― Então comece a falar.
Uma garçonete recebeu nossos pedidos, dois cappuccinos sem chantilly e os trouxe rapidamente. Apoiei as mãos cruzadas sobre a mesa fria.
― Anya e Leila mesmo me fazendo crer que confiam em mim me escondem as coisas, passam as explicações por cima, e eu estou me sentindo traída.
― Deveria esperar isso, mas é normal se sentir traída, você é inocente.
― Mentira.
― É verdade, sou pragmática e para o seu bem deveria tentar ser assim também, iria se machucar menos. ― Deu um gole na bebida e recolocou-a na mesa. ― Mas acho que elas não fazem isso por mal.
Odiei a minha avó e sua capacidade de estar certa em tudo.
― E tem mais.
― Imaginei.
― Estou... ― Pigarreei. ― atraída por um garoto.
― E não é bom? ― Questionou confusa.
― O problema não é bem a atração em si, mas por quem.
― É um alcoólatra?
― Certamente não.
― Um mau caráter? ― Ponderei.
― Também não.
― Assassino?
― Não pelo que eu saiba. ― Mas acho que não foi por falta de tentativas.
― Então não a nada de ruim. ― Concluiu dando um tapinha no meu ombro e sorriu maliciosa. ― Vamos Nancy, satisfaça a curiosidade dessa pobre velha.
― Nem sob tortura.
― Bem, nesse caso acho que Edric vai adorar descobrir quem é.
― Dinossaura. ― Supliquei.
― Conte-me. ― Disse em um tom de voz tão inocente quanto de uma serpente.
― Alex Devens. ― Murmurei a contra gosto.
Ela emitiu um estalo com a língua e sorriu entendendo finalmente o incomodo do almoço, e sem um pingo de surpresa com a revelação.
― Um caso a parte esse garoto, mas veja pelo lado bom não tem a menor possibilidade dele se interessar por você.
― Ei. ― Exclamei.
― Brincadeira querida. ― Falou divertindo-se as minhas custas. ― Uma pena seu irmão não poder saber, pela primeira vez ele iria se surpreender com você.
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