Perdido na Neve
2 Capítulo II: Uma Lâmina na Escuridão
Notas iniciais
O homem tomou em mãos o rifle, o cetro e o facão do qual guardou de volta na bainha e colocou do lado direito da cintura com a alça de couro fazendo um suporte semelhante a um alforje. Ele iluminava o local, extasiado pelas construções logo a frente enquanto procurava alguma forma de se proteger da nevasca que assolava o local e uma forma de tapar as feridas provocadas pelo ataque do urso. Ao andar mais adiante, o andarilho encontrou um casaco térmico no chão ao lado de um pequeno lago congelado. Ele vestiu o casaco apressadamente e se direcionou ao que parecia ser um edifício destruído logo a frente passando por uma ossada enorme que remetia aos fósseis de dinossauros.
A construção decadente encontrava-se aos pedaços, coberta pela neve, o que lhe conferia a fixação necessária para que não saísse de seu ângulo de quase 45º graus em que se encontrava inclinado. O homem subia através da neve, firmando seu cetro que descongelava a neve ao redor do solo e subindo vagarosamente. Ao chegar no edifício, ele fincou o cetro no chão, deixando-o lá para aquecer o pequeno cômodo do qual se instalou no que parecia ser um andar administrativo, pois, ainda haviam algumas mesas, ou melhor, pedaços delas no local. O homem então se aquecia no calor do cetro enquanto procurava alguma coisa que pudesse dar dicas de onde estava. Ele procurou nas poucas gavetas restantes algum papel ou alguma outra coisa que pudesse mostrá-lo em que lugar se encontrava. Em uma das gavetas havia um papel de contabilidade, porém, apenas alguns números eram possíveis de serem identificados, visto que a maioria das informações havia sido corrompidas pelo tempo úmido. Foi quando ele levou a mão ao bolso do casaco e sentiu alguma coisa e, ao retirar o objeto, eis que se tratava de um pedaço de papel.
— 36.643735, -116.3983426— Leu em voz alta o número presente no papel.
Intrigado, ele aproximou o papel do cetro achando que podia ter algum código secreto que poderia ser revelado perto daquele objeto estranho, porém, ao que tudo indicava, era apenas um pedaço de papel com números aleatórios escritos à mão.
De repente, um ruído estranho e agudo começou a sair da esfera do cetro. Receoso, o homem se aproximou do objeto e ficou a ouvir o barulho que começava e parava, durante um segundo, várias vezes, como uma onda sonora atrapalhada e desconexa que insistia em apresentar um som inaudível. Ele então tocou na esfera brilhante à procura de algo que pudesse explicar aquele som agudo e estridente que alternava de intensidade até que o ruído parou inexplicavelmente. Vendo sua atual situação e toda a estranheza do momento, ele decidiu escalar até o topo do prédio para tentar enxergar alguma coisa no horizonte, porém, era quase impossível ver algo com toda aquele tempo tempestuoso, mas, uma coisa chamou sua atenção: uma fumaça densa e bem acinzentada ascendia aos céus junto de algumas faíscas. Obviamente, o andarilho achou que se tratasse de alguém ou de algum grupo que estava se aquecendo em algum lugar logo à frente, ele então tomou suas coisas, desceu do prédio e foi seguindo a fumaça para encontrar quem estava acendendo aquele fogo.
Durante sua caminhada, em um determinado ponto, o homem ouviu um uivo vindo de muito longe, ecoando por toda a vastidão da neve, em algum lugar impossível de se identificar. Assustado e apreensivo, ele apressou os passos, foi quando ouviu mais de um uivo simultaneamente. Olhando para os lados e tentando se locomover na densa neve, ele fincava o cetro no chão para derreter a neve e ajudar na sua caminhada, porém, ele começou a se preocupar com a luz do cetro que denunciava sua posição.
— Merda! – Exclamou enquanto inspecionava a pedra da haste do cetro – Como apaga isso?! “Apagar! Shutdown! Que droga!
Os uivos se intensificavam, porém, não eram os únicos sons a se ouvir, o ruído vindo do cetro retornou, chamando ainda mais a atenção dos animais que espreitavam pela neve em busca do homem que corria contra o tempo para achar algum lugar para se esconder, mas tudo que podia ser visto era neve e escuridão, visto que estava muito distante das construções decadentes onde se encontrava. O som do cetro cessou, mas os uivos e barulhos de passos continuavam, cada vez mais perto, ao ponto de conseguir identificar de qual lado estavam. O homem então, ao estender o cetro para frente, viu pequenas bolas laranjas de luz à sua frente, o que o fez parar imediatamente. Ele rodava no mesmo lugar, com o cetro esticado e via vários olhos brilhantes que se aproximavam revelando se tratar de uma alcateia.
Ao praguejar ele deixava evidente que medo tomava conta enquanto via cada um dos lobos sedentos e rosnando com a boca entreaberta. Ele então se agachou e pegou o rifle, porém, lembrou-se de que havia apenas 3 balas na arma, a desvantagem era evidente. O facão poderia ajuda-lo se acaso se tratasse de apenas um ou dois animais, porém, a conta fechava em 10 lobos. O lobo alfa se aproximava sorrateiramente por detrás do homem que tomou o cetro em suas mãos, na esperança de que ele o ajudasse como ajudou com o urso anteriormente. À medida em que o alfa se aproximava, os demais seguiam o seu líder, fechando o cerco, deixando a vítima sem ter como escapar. Se o homem corresse, eles atacariam, se ele permanecesse como estava, ele seria atacado da mesma forma, era apenas questão de tempo para que o primeiro ataque viesse e ele veio. Pulando em sua retaguarda, o lobo alfa abocanhou seu braço, nesse momento, um lobo à frente do homem pulou em sua direção, fazendo com que o andarilho colocasse o cetro na frente do animal para impedir se ser mordido o que lhe fez ganhar uma mordida na mão do lobo que fincou suas garras e não queria soltar. Ao ser mordido na perna esquerda, o homem exclamou de dor fechando os olhos no reflexo e de repente o cetro lançou uma luz tão intensa que cegou os lobos atordoando-os e os fazendo soltar de sua presa. Ele apontava o cetro que lançava o mesmo brilho de maneira intermitente. O andarilho se virou, porém, ao perceber que os lobos poderiam voltar a persegui-lo, ele parou, respirou fundo e, mesmo relutante, tomou uma decisão mais difícil, porém, mais segura. Ele fincou o cetro no chão e, com seu facão, degolou lobo por lobo, até chegar no último deles. Ao acabar com todos os animais, ele tomou o cetro de volta e, dando uma pequena chacoalhada, o objeto parou de brilhar.
Caindo em prantos, o homem se desculpava pela morte de cada um dos animais que estavam apenas fazendo o que ele fazia: tentando sobreviver.
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