Perdida Na Tempestade
82 Sobre ser o que somos...
Notas iniciais
A madrugada já havia começado a tempos, mas a festa no shiro estava longe de acabar. As valsas de honraria ainda aconteciam, e os poderosos youkais, continuavam a dançá-las de maneira esnobe, especialmente porque a maioria dos humanos e hanmas já haviam deixado o salão, por já estar muito tarde. Nos aposentos do shiro, muitos casais faziam amor, excitados pelo calor das valsas, ou pela proximidade do ente amado, ou ainda para curar as mágoas de uma dolorosa briga.
Emi e Katashi pertenciam ao último caso. Após uma separação quase traumática, o casal fazia amor, envolvidos, em toda a paixão que sentiam um pelo outro, e embebidos, nas lágrimas de alívio, por estarem novamente juntos.
—Eu... Amo você, Emi... Amo... Amo muito você... –O Tengu gemeu, sentindo que o orgasmo chegaria logo.
—Katashi... Eu também o amo muito... –Emi respondeu antes de abafar um grito no ombro de seu macho, demonstrando que finalmente chegara ao ápice do prazer.
Quando ambos ficaram extasiados, Katashi deitou, sua doce fêmea, em seu peito, para que ela ouvisse seu coração ainda agitado por amor à ela. E o sono chegou para ambos, que se permitiram dormir abraçados, como dois jovens namorados, que não suportavam a distância entre eles.
E então a madrugada cedeu e o dia finalmente começou a nascer. Os servos do shiro começaram a preparar o desjejum dos convidados, e a festa foi reorganizada para isso. Novas flores foram colocadas, a louça e as toalhas de mesa foram trocadas, e o ambiente foi totalmente limpo.
Assim que o sol nasceu, tudo estava pronto, e alguns convidados já se preparavam para partir.
Hikaru se encaixava neste caso. O youkai tigre praticamente não havia dormido naquela noite, não só por ter feito sexo com Minara até a exaustão da hanma, como também pelas inúmeras preocupações que lhe cercavam.
Ele prometera à sua fêmea que pediria desculpas ao Príncipe das terras do fogo, por sua crise de ciúmes antes de partirem, por isso ele decidira deixá-la dormir mais um pouco, e ir bem cedo resolver a situação.
O tigre dourado estava acabando de se vestir. Os cabelos ainda estavam presos por conta do longo banho que ele acabara de tomar. Quando finalmente terminou de arrumar-se olhou na direção da cama. Minara dormia, pesadamente, em posição fetal. Inevitavelmente as lembranças da noite anterior invadiram sua mente.
Apesar de inicialmente assustada, a hanma correspondeu à todas as carícias do youkai tigre da maneira mais sensual possível.
Hikaru a mordeu e bebeu seu sangue. Penetrou-a com força, enquanto apertava o corpo dela contra o seu. Arranhou-a e tomou seu corpo de todas as maneiras, chupando e lambendo cada centímetro de sua pele com toda a devassidão que ele desejava. E ao contrário do que ele pensou que aconteceria, Minara sorria sensualmente, mesmo quando ele lhe causava dor.
O youkai tigre umedeceu os lábios sentindo seu corpo se excitar. Ainda surpreso, ele sentou-se aos pés da cama, e segurou a testa com a mão direita, buscando se acalmar. Entretanto as lembranças continuavam, seguindo para o mais profundo do seu passado.
A outra fêmea. Outra fêmea que ele conhecera em sua juventude. Outra que o satisfizera quase tão profundamente quanto Minara. Mas Minara era melhor. Surpreendentemente melhor do que qualquer outra. Minara era única. Seu único amor. Tal constatação fez o youkai, ficar ainda mais preocupado.
Ele girou seu corpo, e encarou-a mais uma vez. Cobriu-a e acalentou-a delicadamente antes de finalmente sair do aposento.
“Vamos acabar logo com isso” — Pensou ele, indo na direção do salão, para procurar por Talon.
Em Meikakuna mün o dia amanhecia agitado. O antigo lorde das terras do leste, Kyuura, acompanhado de três generais, e cem de seus melhores soldados chegaram ao reino das feiticeiras do tempo, marchando com imponência.
Como o general de Hokuto estava acompanhando os lordes, Brunhilde e Kurö Ookami na comitiva que se apresentou à união dos três youkais, o capitão da guarda de elite Hagen, e as sacerdotisas, Misty, Kara, Hildrah e Sigfrieda exerciam a autoridade e, portanto deveriam receber o lorde e sua armada. Shuhei, o capitão do general Raijin também estava em Meikakuna mün, pois deixara de ir à união dos Inu youkais para visitar sua agora prometida, Kara, e permanecia ao lado dela, segurando-a pela mão. O grupo aguardava por Kyuura no hall da entrada principal do palácio. Não demorou muito para que ele e seus generais cruzassem a entrada e ficassem frente à frente com os atuais governantes.
—Lorde Kyuura, eu sou Hagen, capitão da guarda de elite, e estas são as sacerdotisas deste reino. Exercemos a autoridade máxima, neste momento do reino. E em nome desta autoridade, eu lhe pergunto o que significa isso? –Hagen perguntou diretamente, sério e frio, tomando à frente das negociações.
—Eu venho em paz, Capitão Hagen. –Kyuura disse, cumprimentando-os com respeito.
—Vem em paz com um exército e seus generais? Se não quer a guerra, então o que deseja Lorde? –Shuhei perguntou esquecendo-se que ali ele não tinha autoridade para tal. Kara deu de ombros, sorrindo sem graça.
—Venho, em busca de meu filho, o verdadeiro Lorde das terras do Leste, Ryotaro. Minha fêmea relatou-me que ele e a fêmea que ele tomou, estão desaparecidos desde ontem. Meu filho e sua fêmea são de extrema responsabilidade para com sua família. Eles não deixariam três crianças esperando por eles, sem nenhum motivo grave... Por isso, eu trouxe minha armada. –Kyuura respondeu-o calmamente.
—Seu filho vive com uma hanma de nome Leodora que é muito respeitada e estimada por todos. Há guardas tomando conta da casa deles e eles não relataram nenhum problema. –Misty disse com surpresa.
—Seus guardas chegaram tarde demais. Meu filho e minha nora saíram de casa anteontem para passarem a noite em uma pousada e deveriam chegar ontem pela manhã. No entanto, eu vim ao encontro de minha fêmea que ficou cuidando das crianças, e ela contou-me aflita que eles não retornaram.
—E como o senhor conseguiu chegar tão rapidamente? Não me diga que também tem um... –Shuhei novamente questionou-o.
—Sim, temos um portal tempo-espacial. Cortesia de Lady Brunhilde. –Disse uma bela Youkai de cabelos roxos curtos, que estava logo atrás do lorde.
—Eu creio que conheçam os generais Kyo e Yuuko. Estes são os demais generais da terra do leste. Apresentem-se, generais! –Ordenou Kyuura.
—Eu sou Rihichiyo. Sou uma oni, descendente do clã Nue. Muito prazer em conhecê-los... –Disse com simpatia a fêmea youkai de cabelos curtos que exibia seu belo corpo, em um traje mínimo.
—Eu sou Anukaris, youkai chacal do deserto. Sou descendente do Deus Anúbis, e príncipe da terra dos mortos. –Resumiu o misterioso youkai sem muita simpatia.
—Eu sou Keisuke, sou um monge dos sete picos sagrados, e hanma da luz. Muito prazer em conhecer vocês, honoráveis sacerdotisas de Meikakuna Mün, e claro, os capitães... –Disse o belo e sorridente monge encantando as jovens youkais com seu charme, e seus olhos azuis, com auréolas amarelas, hipnotizantes.
—O prazer é todo nosso, em conhecê-los, dar-lhes-emos as boas vindas outra hora, infelizmente. Devemos agora voltar ao desaparecimento do Lorde e de Leodora. Como capitão e responsável pela guarda real, de Meikakuna Mün, eu acionarei meus soldados imediatamente. Entretanto precisaremos da localização específica da tal pousada onde eles estavam. –Hagen disse com autoridade.
—Não há necessidade de que sua guarda seja envolvida nisto. Nós generais e nossos soldados podem cobrir uma grande área, e ser bastante eficaz. –Anukaris disse com altivez.
—Eu discordo, general, conhecemos melhor a área do que você e seus soldados. –Hagen respondeu com praticidade.
—Seus soldadinhos de brinquedo só irão nos atrapalhar! –Anukaris foi ríspido.
—Como ousa ofender a nossa guarda? –Hagen respondeu-o igualmente irritado.
—Já chega! Capitão Hagen, por favor, releve a grosseria do general. Tenho certeza de que lorde Kyuura não compartilha desta mesma opinião... –A meiga Hildrah disse conciliadora.
—De fato, não compartilho... Toda ajuda é bem vinda para encontrar meu filho e minha nora... –Kyuura permitiu que seus sentimentos fossem notados, e sua enorme amargura comoveu aqueles que ainda tinham duvidas sobre suas intenções.
—Então, por favor, diga-nos onde eles estavam... –Hildrah perguntou ainda mais doce.
Kyuura se recompôs e fez um sinal permissivo com a cabeça. A general Rihichiyo tirou de um pequeno bolso na lateral de sua coxa direita um pequeno rolo. Aproximou de uma mesa que se encontrava na lateral e abriu o rolo, de maneira delicada. Os demais se aproximaram e contemplaram o mapa, ilustrado de maneira quase lúdica.
—Esse é o mapa da área da pousada. Lady Saori pegou este folheto quando chegou a Meikakuna Mün. Segunda ela, havia um rapazinho hanyou, distribuindo esses folhetos. –A youkai Oni explicou.
—Então seria melhor ir atrás desse tal rapaz! –Shuhei sugeriu.
—Nós já fizemos isso. O hanyou trabalha como vendedor viajante. Ele também recebe algum pagamento para entregar esses folhetos e assim divulgar a pousada. –Keisuke disse com certo desânimo.
—Segundo isto aqui, esta pousada fica bem longe... Nas fronteiras de Meikakuna Mün. Se fossem andando, levariam uns dois ou três, dias. Mas imagino que seu filho tenha ido voando, e levando Leodora nos braços... Isso significa que ele levaria apenas algumas horas... Isso se... –Sigfrieda observou.
—Se...? –Anukaris encarou-a com uma sobrancelha erguida, quase descrente.
—Se ele voasse em linha reta... Entretanto há alguns montes pelo caminho. Como um youkai pássaro, que levava certo peso, e indo para uma Lua de mel, logicamente, ele buscou as melhores rotas para chegar mais rápido possível. Tudo o que temos que fazer é traçar essas rotas e procurá-los por lá até chegarmos à pousada. Com certeza teremos mais algumas pistas quando chegarmos lá. –Sigfrieda encarou Anukaris com uma expressão vitoriosa e fria.
— Então já temos um plano. Vou preparar meus soldados, e recomendo que o senhor, lorde Kyuura, prepare os seus. Partiremos em uma hora. –Hagen disse com certo prestígio tomando o controle da situação, e Kyuura assentiu com a cabeça.
Hagen e Kyuura saíram do aposento, seguidos por Anukaris, Rihichiyo, Sigfrieda, Kara e Shuhei.
Misty e Hildrah se preparavam para fazer o mesmo, quando perceberam que o Monge ainda estava lá, encarando-as.
—Senhoritas... Será que eu poderia atormentá-las um pouco com minha ignorância? –Perguntou Keisuke, um pouco acanhado.
—Ora, senhor... Não nos atormenta nem um pouco... Por favor, pergunte o que quiser. –Hildrah respondeu com um sorriso ingênuo.
— Obrigado, pela gentileza. Eu gostaria de saber, o quê exatamente aconteceu ao general Yuko... –Keisuke foi direto.
As sacerdotisas se entre olharam e Misty resolveu contar-lhe toda a verdade, inclusive que fora ela que passara toda a noite tentando salvar-lhe a vida, junto com Ryotaro e Kyo.
—...Por fim o remédio de Izanami conseguiu livrá-lo da morte, mas não conseguimos reaver sua mente... Eu... Eu lamento muito por seu amigo, senhor Keisuke... –Misty concluiu com pesar.
— Eu compreendo senhorita. E agradeço todo o esforço, mas Yuuko, não é meu amigo.... –Keisuke disse ainda mais sombrio.
—Como assim, general? –Hildrah o questionou, antes de notar uma lágrima descendo pela linda face do monge,
—Yuuko, é meu irmão... E depois que encontrarmos Lorde Ryotaro, eu vou atrás de quem fez isso, com ele... –Murmurou ele, encarando-as com uma tristeza ainda mais doce, mas muito mais sombria.
No Mikadzuki no shiro, Janis, Yukina, Kagome, Kaede, Kikyou, Ritorirï, Naelle e Igraine, já estavam acordadas e no salão tomando o desjejum. Elas haviam combinado com Kagura, Rin e Minara de se encontrarem no salão bem cedo, pois logo deveriam partir, e, portanto queriam ficar um pouco juntas, mas as três últimas não haviam aparecido.
Hikaru passou por elas e parou rapidamente para cumprimentá-las.
—Bom dia miladys como vocês estão? –O youkai tigre disse aparentando bom humor.
—Bom dia general Hikaru –Elas responderam quase em uníssono.
—Bom dia irmãozão! Onde está a Mina? Estamos esperando por ela! –Igraine perguntou curiosa.
— Ah sinto muito informá-las, mas a Mina não virá por agora. Ela me pareceu cansada, então eu a deixei dormindo um pouco mais. –Hikaru respondeu buscando ser discreto, mas sem sucesso.
—Cansada? O que aconteceu com ela? –Igraine questionou-o preocupada deixando Hikaru em uma saia justa.
—Ah, bem, nada demais... A viagem, a festa de ontem, tudo isso acaba cansando mesmo... –O youkai tigre tentou ser breve e não preocupá-las, buscando contornar a situação, mas não obteve êxito novamente.
—Ora Igraine, eles devem ter acasalado a noite toda... Não está vendo como o general parece muito bem disposto, embora esteja envergonhado? –Naelle disse displicentemente enquanto comia Ichigo Daifuku. (Bolinhos de massa de arroz recheados comm feijão anko e morangos)
—N-Naelle? Não deve dizer essas coisas! –Janis chamou a atenção da jovem que não pareceu se importar.
—Mas é a verdade... Todas nós temos feito isso todas as noites... E ficamos cansadas de verdade, mas é tão bom fazer...! –Respondeu a doce hanma ainda comendo com muito gosto e um sorriso de satisfação.
Apesar do constrangimento geral, Hikaru encarou-a com seu olhar mais terno. Ele sabia que Naelle era a reencarnação de Lily, sua melhor amiga em muitos anos. E a doce hanma tinha muito de Lily, mas parecia ser muito mais segura que a youkai era.
—Concordo com você Naelle hime. É muito bom estar com quem amamos. Eu estou muito feliz em saber que você e o Masato se amam tanto, e são tão felizes. –Hikaru disse com sinceridade e olhos marejados. E foi pego de surpresa por um abraço ainda mais doce da hanma.
—Eu sou muito feliz, Hikaru. E ainda mais em saber que você conseguiu encontrar o seu amor verdadeiro. Mas não se esqueça, Hikaru, nossos erros do passado devem ser quitados, de uma maneira ou de outra, então, é melhor que seja feito com amor e confiança.... Não se esqueça disso, por favor, meu amigo... –Disse a hanma com um sorriso enigmático.
Hikaru encarou-a assombrado. O sol atravessava a face da hanma e por alguns instantes ele viu a face de Lily refletida na de Naelle.
—Lily...? –O youkai tigre murmurou em choque, tomado pela emoção de ver a face de Lily novamente. Envolto em toda esta comoção, Hikaru ergueu as mãos para tocar o rosto da hanma, mas antes que o fizesse, Naelle perdeu os sentidos.
Hikaru foi veloz, e conseguiu pegá-la nos braços antes que ela chegasse ao chão.
As fêmeas levantaram-se assustadas, chamando pela Hanma que permanecia ainda sem sentidos nos braços do youkai tigre.
—Acalmem-se meninas... Ela está bem, só parecer ter tido uma queda de pressão. –Kikyou disse após examinar a hanma rapidamente.
—Mas porque ela não acorda, então? –Igraine perguntou ainda aflita.
—Não se preocupe irmãzinha. Ela só precisa descansar um pouco. Eu vou avisar ao Masato, e levá-la até ele. –Hikaru sorriu gentilmente de modo a acalmar a hanyou, mas ela pareceu ainda mais curiosa.
—Como assim avisar? Não sabemos onde ele está! –Janis perguntou curiosa.
—A telepatia dele Janis...! Esqueceu-se? –Kagome explicou-a, sorrindo, enquanto Hikaru fechava os olhos para concentrar-se. Mas em questão de segundos, os abriu surpreendido, pelo que vira.
Ao mesmo tempo, Naelle despertou sem saber o que havia acontecido.
—O-o...Que houve? Porque estou nos braços do general?-Naelle perguntou assustada.
—Calma Naelle, você desmaiou e o Irmãozão, evitou que você se machucasse. Agora fique quietinha que já já o capitão Masato virá buscá-la... –Igraine a tranquilizou.
E de fato, não demorou nada para que a nuvem negra se aproximasse do grupo, e se materializasse novamente no corpo físico de Masato.
—Meu sol... O que houve com você? –O youkai questionou-a docemente, enquanto a tirava dos braços de Hikaru e a envolvia nos seus com todo o seu carinho.
—Eu não sei minha lua... Mas eu estou bem agora, não se preocupe. –Naelle o respondeu com a mesma doçura, sorrindo para ele de maneira iluminada. O youkai morcego a beijou rapidamente, antes de voltar-se ao grupo e reverenciá-los.
—Obrigado por cuidarem de minha fêmea. E a você também Hikaru, por tudo. Eu vou levá-la para os nossos aposentos, esperar a nossa partida e... –Masato disse com gratidão e cuidado, mas foi cortado por Hikaru que se aproximou e tomou sua mão para colocar sobre o ventre da hanma com um semblante preocupado.
—Masato, use seu poder... –Hikaru ordenou com delicadeza, mantendo sua mão sobre a do youkai morcego, ambas sobre o ventre de Naelle que não entendia a situação, mas permanecia permissiva.
Masato não entendeu o que Hikaru queria, mas consentiu de imediato. Fechou os olhos e usou seus poderes, e em alguns segundos percebeu do que se tratava. Havia uma consciência em desenvolvimento no ventre de sua amada. Uma energia muito semelhante à sua, mas minúscula, crescia ali dentro. E tal existência era muito recente, aparentando ter menos de duas semanas de vida. Masato abriu os olhos para encarar a face ainda assustada de Hikaru, que tinha seus olhos esbranquiçados, fixos nos do youkai morcego.
—É muito frágil ainda... E Naelle poderá não sobreviver a tudo isto... Portanto, teremos que cuidar muito bem dela a partir de agora... –Hikaru disse antes de fechar seus olhos forçadamente, fazendo com que eles voltassem ao normal.
—Do que você está falando, general Hikaru? Capitão Masato? O que está havendo com Naelle? –Questionou Kikyou, que assim como as demais estava ansiosa para saber o que acontecia.
Masato finalmente tirou a mão do ventre da hanma, e sua expressão sempre tão fria, mesclava a surpresa e a angustia. O youkai morcego, parecia perdido em seus pensamentos, sem ouvir quaisquer palavras das jovens que o perguntavam sobre o que estava havendo. Apenas a voz de Naelle foi percebida por ele, depois que a hanma tocou sua face atormentada.
—Minha lua... Por favor, fale comigo, o que está havendo....? Eu... Estou doente?- Naelle disse doçura e pesar.
—Não.... Quer dizer.... Sim... –Masato murmurou encarando-a enquanto buscava as palavras.
—Senhoras... É melhor deixá-los conversar a sós... –Hikaru disse para as jovens. Depois fez um sinal com a cabeça, para o youkai morcego, que abraçou sua fêmea, tomou sua forma de névoa, e levou-a de volta aos seus aposentos.
—Hikaru... Sei que não é de nossa conta, mas... Naelle é nossa amiga! Por favor, conte-nos o que você viu! –Kikyou disse ao youkai tigre transmitindo novamente o nervosismo das demais.
—Sim, Hikaru. Seus olhos ficaram como os de Minara por alguns instantes... Tenho certeza de que você está usando os poderes dela! Você viu o futuro de Naelle, não foi? –Yukina também o questionou.
—Eu não acho ético dizer exatamente o que vi. Acredito que isso diga respeito apenas ao casal. Eles mesmos darão a notícia, quando julgarem a hora certa. Contudo posso adiantar-lhes que vi que, Naelle hime, terá de ter muito cuidado com sua saúde... Ela deverá se poupar desde agora, e se fortalecer bastante, ou as consequências poderão ser desastrosas. Mas não há motivos para pânico, porque agora que temos esta informação, com tamanha antecedência, além de Masato, minha família e eu mesmo, cuidaremos muito bem dela. Eu lhes dou a minha palavra de que Naelle hime ficará bem. –Hikaru acalmou-as com suas palavras e atitude forte.
—Bem se o general está certo disto, então só nos cabe rezar para que ela fique bem... E claro oferecer nossa ajuda, no que for necessário! –Ritorirï disse para as demais, que se animaram.
—Sim, Ritorirï tem razão! Todas nós estaremos prontas para ajudar no que for preciso! Hikaru, conte com a gente também! –Kagome ordenou ao youkai tigre.
—Está certo, senhoras, eu não esperava menos das fêmeas mais corajosas que conheço. –Declarou o youkai tigre lisonjeando as moças que riram, recuperando um pouco do bom humor que pairava ali anteriormente.
Após isso o youkai tigre avistou Talon, e resolveu despedir-se das jovens, para fazer o que devia.
Kagura engrossava a lista dos que não haviam dormido bem. Sua conversa com Hideaki havia sido ainda mais dolorosa do que ela imaginava tanto para ela, quanto para o Inu youkai. Por fim eles retornaram aos aposentos destinados à ele, e ela sentira na pele o beijo frio do youkai em sua testa, antes de deixá-la no aposento, alegando que precisava pensar em tudo o que ouvira. Sentindo-se desprezada, ela decidira retornar sozinha para o Daí Go no shiro, sem contar nada do que aconteceu, pois não queria atrapalhar o dia de nenhuma amiga com suas desventuras. Antes que o dia nascesse, ela pediu à uma serva do shiro que desse o recado à Emi e a Kaede sobre sua decisão, mas apenas quando elas perguntassem por ela, pela manhã.
A youkai dos ventos saiu discretamente, e tomou muito cuidado para não ser seguida. Seu coração tão jovem doía amargamente, sempre que ela se lembrava da expressão do rosto de Hideaki, ao ouvir sua história. Uma expressão que misturava frieza, ódio, ojeriza e pena.
A youkai mordia os lábios, forçava-se ao máximo, para não chorar, pois o cheiro de suas lágrimas poderia denunciá-la, mas mesmo assim, elas teimavam em descer por sua face amargurada.
Ela contou tudo. As humilhações, os abusos, a violência, e as coisas imperdoáveis que ela foi obrigada a fazer, e as coisas imperdoáveis que ela fez por sua própria vontade. E no fim de tudo, o Inu youkai, sequer conseguia encará-la como antes. Apenas desviava o olhar e mentia dizendo que tudo estava bem para ele. Isso destroçou o coração da youkai dos ventos. E ela foi embora, resignada, deixando para trás o compromisso com o youkai, e exigindo que ele não a seguisse.
Após algumas horas voando em sua pena, Kagura viu um portal e decidiu descer da pena para caminhar até ele. Além de sua situação com Hideaki, havia outra coisa que continuava incomodando a youkai dos ventos: a sensação de perigo que envolvia a lembrança de Leodora. As duas haviam ficado amigas, mas, não eram tão próximas, quanto Kagura era de Kaede. Por isso, a youkai estava cada vez, mais preocupada com a hanma e com esse sentimento que só fazia aumentar.
Quando se aproximou do portal, percebeu que ele, não a levaria para o Daí Go no shiro, e sim, para Meikakuna mün, e isso a assustou. Olhou em volta para ter certeza de que tinha percorrido o caminho certo, mas percebeu que não.
Como ela passara praticamente o caminho todo pensando em sua situação, ela não se deu conta de que Instintivamente, havia ido para outro portal, o de Meikakuna Mün, mesmo sem nunca ter visto aquele lugar.
Kagura olhou para a pequena maleta que ela tinha nas mãos. Não havia muita coisa ali, apenas mais dois quimonos, e roupas íntimas, que ela havia preparado para a viagem até o Mikadzuki no Shiro. Após hesitar um pouco, ela finalmente convenceu-se que o melhor a fazer era ir para Meikakuna Mün e assim acabar logo com sua agonia. Além disso, conversar com Leo, e rever as outras sacerdotisas, poderia ajudá-la a colocar seus pensamentos em ordem e curar seu coração ferido.
Diante da perspectiva alegre, Kagura encheu-se de coragem, e entrou no portal.
A sensação de repuxo não durou quase nada. Em questão de segundos, a youkai dos ventos percebeu que estava do outro lado do portal, nas terras de Meikakuna Mün, em uma estrada pavimentada com pedras brancas.
A youkai puxou novamente a pena em seu cabelo, e subiu nela para trilhar o caminho de forma mais rápida voando paralela à estrada, mas mantendo-se camuflada entre as árvores da floresta que circundavam o local.
Em menos de duas horas, ela avistou ao longe a montanha branca onde se encontrava o shiro.
— “Ainda bem...” — Pensou ela, aliviada por não ter perdido o caminho desta vez.
Entretanto, enquanto ainda suspirava de alívio, ela viu por entre as árvores, uma silhueta conhecida, que chamou por ela.
—Kagura... Eu estou aqui... –Disse a fêmea, que acenou rapidamente para a youkai, antes de sair correndo velozmente para o dentro da floresta semifechada.
—Leo? LEODORAA É VOCÊ? –Gritou Kagura ao reconhecer a voz da amiga.
Kagura viu a imagem da hanma, e ouviu-se perfeitamente a voz. Entretanto sua intuição, dizia que algo estava errado.
Sem pensar muito, Kagura desceu sua pena, e começou a voar velozmente, por entre as árvores na direção para onde Leodora havia corrido.
A youkai dos ventos, aguçou seus sentidos para encontrar a hanma e não bater em nenhuma árvore. Após alguns segundos, novamente Leodora lhe apareceu.
—Kagura, venha depressa! – Leodora disse, antes de dar às costas à youkai e correr velozmente, embrenhando-se ainda mais na mata.
Kagura novamente a seguiu com rapidez, sentindo seu coração quase explodir de agonia, a após um longo trecho, novamente Leodora sumiu.
—LEOODORAAA! ONDE VOCÊ ESTÁ? O QUE ESTÁ ACONTECENDO? –Kagura gritou, de cima de sua pena.
—VEM KAGURAA, EU ESTOU AQUI! –Gritou novamente a hanma, à quase um quilômetro por entre as árvores.
E a youkai começou a se perguntar como a hanma conseguia correr tão rapidamente e para onde ela a estava levando. Apesar do perigo iminente, Kagura não conseguia se afastar da hanma, pois agora tinha a certeza de que ela se encontrava em perigo.
As lágrimas frias desciam pela face da youkai, sentindo-se sem saída, mas completamente determinada à salvar Leodora, mesmo que isso lhe custasse a vida. E este sentimento lhe assustava por que ela não o compreendia. Sem tempo para pensar no que lhe acometia, a youkai dos ventos, respirou fundo, e direcionou sua pena para onde a hanma a havia chamado decidida a encontrá-la e salvá-la.
Keisuke, hanma da luz e general da terra do leste.

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