Perdida Na Tempestade

63 Paixões forçadas e impedidas...


Notas iniciais
Oi pessoal, sim eu voltei...

O burburinho de vozes exaltadas por conta do beijo de Sesshoumaru e Rin, foi silenciado aos poucos, pelos olhares altivos de Inu no Taishou e seus aliados. O próprio Inu no Taishou caminhou até onde estava o jovem casal, para reverenciá-los por sua coragem, causando desconforto em muitos aliados presentes. O casal, no entanto, permanecia na mesma atmosfera de encantamento, sem dar qualquer importância, aos olhares invejosos e odiosos, ao redor deles.

Apesar da festa não dar sinais de que terminaria, já era bastante tarde para Leodora. A hanma morena estava exausta e desejava ardentemente voltar para a segurança do seu lar. Pensou em sair discretamente como da primeira vez, mas lembrou-se do que havia acontecido com Fauno, e de como “Ryo” a havia salvado. Os acontecimentos posteriores foram lembrados por ela com detalhes, e sem perceber Leodora sorriu, ao se dar conta de que a noite começara com sua desistência, e estava terminando com seu triunfo.

— Leo? – Ryotaro perguntou erguendo uma sobrancelha, curioso com o sorriso dela.

— Oi, Ryo... O que foi? – Respondeu ela erguendo seus olhos para encontrar os dele, já muito próximos, enquanto ele se sentava ao seu lado.

— Você está bem? Está preocupada com alguma coisa? –Ryotaro, perguntou-lhe discretamente, disfarçando ao máximo sua curiosidade. Sem muito sucesso.

—Eu, estava me lembrando de tudo o que me aconteceu... Havia muito tempo que eu não tinha um dia como o de hoje... – A hanma explicou sem reservas. Ela conhecia os youkais e sabia que as sensações humanas eram algo que lhes intrigava.

—Você não foi a única com um dia atípico... Acredito que todos aqui tenham tido um dia bastante atribulado. Mesmo assim, acho que não foi um dia ruim... –Ryotaro considerou.

—Foi um dos melhores que eu já tive... –Leodora concluiu, sorrindo ainda mais intensamente, e Ryotaro ficou maravilhado, por ver o quão belo era o sorriso dela.

Mas logo após o sorriso, um bocejo veio sem qualquer cerimônia, e Ryotaro percebeu que ela estava cansada. Ergueu-se sorrindo também, e tomou a hanma morena pela mão, com delicadeza, entrelaçando seus dedos entre os dela, que não protestou.

—Ryo, onde estamos indo? – Perguntou Leodora, ao saírem do salão. De fato, Leodora já confiava em Ryotaro, o suficiente, para saber que ele não lhe faria mal. Entretanto, ele ia à frente puxando-a pela mão, com tanta intimidade que Leodora estava vermelha ao perceber que todos estavam olhando para os dois, de mãos dadas, enquanto ambas pegavam fogo.

— Você já vai saber... –Ryotaro respondeu, percebendo que ela estava constrangida, mas não se importava com a repercussão de seu gesto, tampouco com o fogo cálido que se manifestava sempre que as mãos se encontravam.

Caminharam até uma varanda próxima e Ryotaro abriu suas asas de fogo. Em seguida puxou Leodora pela mão, e enlaçou os braços dela em volta de seu pescoço.

— Ryo, o que está fazendo? –Leodora perguntou surpresa com a proximidade.

— Vou levar você para casa... Você precisa descansar! Agora, segure-se firme, em mim... –Disse o youkai com um sorriso malicioso, pegando-a nos braços, antes de levantar voo, e sair pela varanda.

Voaram por alguns minutos até pousarem em uma clareira afastada da cidade, onde havia apenas, algumas casas espaçadas. Entre aquelas, uma caprichosa casa mediana de madeira e pedras brancas, pertencente à Leodora. Assim que pousaram, a hanma morena soltou-se dos braços de Ryotaro, e caminhou na frente, indo para a estrada de pedras brancas que levava à sua casa, que ficava logo à frente. Ryotaro vinha logo atrás dela, por não saber o caminho. Caminharam lentamente por alguns minutos no mais absoluto silêncio. Um silêncio constrangedor, quase sufocante. A hanma deteve-se na frente de um portal de madeira coberto por rosas vermelhas, que circundavam a propriedade, como uma cerca viva.

—Bem... Chegamos... –A hanma murmurou.

—Leo, eu gostaria muito de te agradecer por tudo... –Ele começou, com sinceridade, ao perceber a apreensão na expressão dela.

—Agradecer? Você está brincando? Você salvou minha vida... Sou eu quem deve agradecer... Eu... Eu sinto muito por tudo o que eu te disse... Eu não queria mentir, mas... Não estava certa se poderia lhe dizer a verdade... Mas você me provou que posso confiar em você... –A hanma morena respondeu resignada.

—Eu não sei se sou digno de sua confiança... –Ryotaro aproximou dela, de maneira inconsciente, sentindo-se contrariado, e confuso.

—Como assim? –A hanma perguntou, surpresa com as palavras do youkai.

—Você me conheceu em um momento muito delicado da minha vida... E mesmo assim, você me ajudou... E eu serei eternamente grato por sua bondade para comigo... Mas isso não me torna mais humano... Não pense que eu não tenho os mesmos defeitos que os outros da minha espécie... Por mais que eu abomine mentiras, elas fazem parte da minha vida... –Ryotaro baixou os olhos, com o peso de suas próprias palavras. “Que diabos! Por que eu disse isso? Ela vai descobrir quem eu sou... E nunca mais nos veremos! Idiota, Ryotaro!” Pensou ele, consigo mesmo.

—O que está querendo dizer, Ryo? Você mentiu para mim, em algum momento? –A hanma continuou encarando-o tentando compreender o porquê, das palavras de Ryotaro, parecerem tão doloridas pra ele próprio.

O youkai fênix, sentia-se impelido a usar da mesma sinceridade que ela lhe oferecera, mas sabia que ela jamais o perdoaria. Ele queria poder mentir de maneira deslavada, como fez com Mizuki, e seus comparsas, mas não podia. Ele não conseguiria mentir para Leo, exatamente porque ela, não conseguira mentir para ele. E depois de saber quem ela era, Ryotaro não poderia simplesmente, deixa-la partir. Ela possuía sua marca, e mesmo que nunca se tornasse verdadeiramente sua, Leodora merecia ser livre.

—Ryo... O que está havendo? – Leodora perguntou preocupada com o silêncio dele. Ryotaro suspirou antes de respondê-la.

—Leo, eu... Eu menti sim, exatamente como você, mentiu. Para me proteger, e a você também, de certa forma. Por hora, você, só precisa saber que eu farei tudo, para que você seja livre desta marca que tanto te atormenta. Nós dois estivemos presos por uma marca, por motivos diferentes, e talvez seja por isso que você me atraia tanto... Eu lhe dou minha palavra de que vou libertá-la da mesma maneira que você está me libertando... E no dia em que nós formos realmente livres, eu lhe direi toda a verdade, assim como você, me disse. Mas até lá... Eu preciso que você confie em mim... Você consegue entender isso? –Ryotaro, encarou-a enquanto suas mãos apoiavam na pelos ombros, e Leodora sentiu a sinceridade em seus olhos.

—Entendo sim... Eu agradeço por tentar me ajudar, mas... Acho que será muito difícil me livrar disto... Enquanto estiver assim, eu não poderei pertencer à ninguém... –A hanma disse com os olhos marejados.

—Eu sei que parece loucura, mas Leo... Não quero me afastar de você... E sinceramente, acho que mesmo se quisesse, não conseguiria... Se não pudermos ser nada além de amigos, eu não me importo... Mas saiba que eu farei tudo o que for necessário para libertar você. Eu lhe juro pela minha vida. –Ryotaro disse, beijando a testa da hanma morena, em sinal de respeito e ternura, enquanto ela sentia seu rosto queimar de vergonha.

—Você, é... Inacreditável, Ryo... Eu não entendo como alguém como você possa não ser correspondido. -Leodora disse sem pensar, ainda confusa e envergonhada, e logo se arrependeu. Desculpou veementemente, tentando contornar a situação. Ryotaro, no entanto, balançou a cabeça negativamente antes de responder.

— Está tudo bem, Leo... Eu vou te contar o que aconteceu comigo, mas é uma longa história e agora já está tarde... Você precisa descansar, para cuidar dos seus pequeninos... Aliás... Eu gostaria muito, mesmo de conhecê-los... Eu posso? –Perguntou ele, ligeiramente constrangido, mas sorrindo inteiramente.

— Bem, eu prometi leva-los ao festival amanhã... Se você quiser, pode nos encontrar lá. – A hanma respondeu surpresa, enquanto lutava para não demonstrar.

—Por mim, está ótimo. –Ryotaro respondeu com satisfação.

—Obrigada mais uma vez... Boa noite... –A hanma despediu-se. Queria sair logo dali para organizar seus pensamentos.

—Uma boa noite pra você também... Vereemo-nos amanhã... –O Youkai depositou um beijo nas costas da mão direita da hanma e ficou aguardando que ela entrasse em casa, antes de abrir suas asas, e sair voando de volta ao castelo, sem se dar conta de que um conhecido par de olhos castanhos claríssimos ainda se encontrava observando a casa da hanma.

Yuko os havia seguido, desde que os vira saindo do shiro. E suas desconfianças sobre a hanma morena, estavam sendo confirmadas a cada passo dela.

— Então, foi aqui, que a hanma de Lorde Kyuura se escondeu... — Murmurou o Kitsune.

Silenciosamente, o youkai raposa, observou a casa da hanma por mais alguns minutos antes de retornar ao Shiro de meikakuna mun.

As cálidas luzes da manhã se erguiam lentamente no céu, quando o General Susanoo, e sua fêmea, Byakuro, ainda tentavam, entender o que havia acontecido com sua cria, a feiticeira Youkai, Yukina.


Enquanto Byakuro contemplava desgostosa, a fêmea jovem, jazendo em seu sono profundo, tendo Brunhilde, e Kikyou, ao seu lado, para apoiá-la, na sala ao fim do corredor, Susanoo e Raijin, que fora chamado, bem no momento em que despia os seios de sua amada fêmea, ouviam atentos as palavras de Ícaro, acompanhados por Kuro Ookami, Masato e Inu no Taishou.

— Ela estava morta... Por mais que eu tentasse invocar a magia da lua, Yukina, não reagia... Fiquei tão desesperado, que clamei pelas forças da noite... Foi então que ela apareceu... – Ícaro explicava calmamente, tentando expor cada detalhe do acontecido. Seu semblante calmo, estava pálido, e nitidamente abatido.

—Ela...? -Questionou curioso, Inu no Taishou.

— Lady Izanami, meu lorde.... Seu espírito apareceu para mim... Ela me disse que Yukina havia encontrado seu destino... O destino que suas más ações haviam traçado para ela... Mas seu sacrifício, para salvar Minara, havia sido um lampejo de bondade e desprendimento... Uma clara demonstração, de que Yukina estava mudando seu destino. Mas cabia, à outro ser, que tivesse a mesma missão dela, que fosse um enviado dos deuses assim como ela, assumir diante do próprio destino, a responsabilidade por Yukina... Só desta, maneira, ela poderia voltar à vida... –Continuou Ícaro, melancólico.

—O que quer dizer com mesma missão? Que eu saiba minha irmã, não possuía nenhuma missão dada pelos deuses! – Raijin perguntou, tentando disfarçar seu mal humor.

—Possuía sim, Raijin... Sua irmã nasceu com um sinal... Preocupados com o significado daquilo, sua mãe e eu, procuramos ajuda... Assim que a viu, Izanami, contou-nos o que Yukina era... – Susanoo, revelou ao filho, com os olhos pesarosos. Raijin permaneceu calado, pela perplexidade.

— Sua irmã, é uma dos protetores das chaves do destino. Ela nasceu com a missão de proteger Minara... Por isso desde tenra idade Brunhilde a ensinou, e treinou. – Concluiu Susanoo, com uma seriedade que extinguia qualquer sombra de dúvida que pudesse existir sobre a veracidade dos fatos.

—Minha pobre filha... Ela nunca soube quem era... –Byaküro, murmurou, deixando lágrima fria descer pela face.

Raijin, estava perplexo. Lembrava-se de que sua irmã sempre parecera atribulada apesar de estar sempre rodeada pelo conforto. Finalmente as lembranças e os acontecimentos de sua infância relacionados à youkai loba das neves, começaram a fazer sentido para ele, que sempre se questionara sobre o porquê de sua irmã agir daquela maneira.

Diante do silêncio dele, que absorvia as informações, Inu no Taishou resolveu tomar a palavra.

—Ìcaro, sua atitude foi nobre... Mas, e agora, o que pretende fazer?—Questionou o Inu dai youkai.

—Farei o certo... Eu a marquei sem o consentimento de vocês, mas gostaria de lhes pedir que me concedessem a honra de tomá-la por minha fêmea... – Disse Ícaro ficando de pé e estendendo a mão para Susanoo, que ponderou seriamente antes de estender a sua mão e pegar a de Ícaro.

—Eu o concedo Ícaro... Mas não sei se minha filha concordará em ser verdadeiramente sua fêmea... Por conta disso, quero que você me prometa que não a forçará à nada... –Susanoo respondeu com certa emoção na voz.

—Eu lhe dou minha palavra, General Susanoo... Sua filha jamais será destratada por mim, e tampouco eu a forçarei a qualquer coisa... Vou honrá-la e protegê-la com minha vida... –ìcaro assegurou.

Susanoo respirou fundo, enquanto Raijin se levantava para cumprimentar ìcaro. Após mais alguns minutos de conversas sobre acertos, foi determinado que deveria ser feito um contrato que selasse a relação dos dois, para que as coisas ficassem mais claras para Yukina e quaisquer outros que se opusessem àquela união.

Depois de devidamente redigido pelo próprio Susanoo, o contrato, foi assinado por ambas as partes, e os visitantes se despediram. Byakuro, no entanto, deixou o aposento à contra-gosto, pois desejava estar presente quando sua filha despertasse, para que ela não pensasse que fora abandonada pelos que deveriam cuidar dela. Para tranquiliza-la, Ìcaro, afirmou que a avisaria imediatamente, assim que Yukina despertasse. E com muita relutância, Byakuro deixou sua filha, e foi para seu aposento sendo acompanhada por seu macho, seu filho e sua nora.

Ìcaro fechou a porta atrás de si, e suspirou pesadamente, para aliviar o estresse. Logo em seguida, caminhou lentamente em direção à cama onde a loba das neves se encontrava ainda adormecida. Embora a youkai respirasse, e a marca de Ìcaro já estivesse cicatrizada, seu corpo permanecia inerte, e ele se perguntava por quanto tempo ela ainda ficaria daquela maneira.

— Isso tudo parece tão errado... Mas deixar você morrer era algo ainda pior... – Exclamou o feiticeiro hanma, ainda consternado por tudo eu estava acontecendo.

Sem perceber Ìcaro, sorria. Não havia mais nada a ser feito, senão, procurar o lado benéfico de tudo aquilo, e ele, sentiu, um estranho ânimo, lhe tomar. Talvez fosse o fato de finalmente ter encontrado a oportunidade que ele tanto desejara de viver um grande romance. Ou ainda o fato de que Yukina, além de protetora de uma chave, assim como ele, era amiga de seus amigos, e, portanto, alguém que o entenderia plenamente.

Com esse pensamento, e ainda sorrindo, o hanma, aproximou-se da cama, e deitou-se lentamente ao lado dela, encarando-a e colocando sua mão por cima das frias mãos delas que repousavam sobre seu ventre. Aproximou-se um pouco mais, e afundou a face na massa de longos cabelos negros que se espalhavam sobre os travesseiros, e aspirou-lhe o pescoço, para sentir o doce cheiro de Yukina.

— Você é tão bonita... Eu prometo... Que vou fazê-la muito feliz... – Ìcaro sussurrou, enquanto esfregava levemente a ponta do nariz no pescoço da youkai.

Aproximou seu corpo ainda mais ao dela, e se permitiu ficar naquela posição, aconchegando-a em seus braços, e acabou por adormecer ao lado dela.

Sesshoumaru, já estava se preparando para partir em regresso ao Mikadzuki no shiro, para resolver suas “pendências” quando seu pai, fora ao seu quarto, para lhe informar sobre tudo o que estava acontecendo com Ícaro e Yukina. Lembrou-se do ataque à Minara e as demais hanmas, e por um instante partir naquele momento, não lhe pareceu uma boa ideia. Após conversarem sobre tais desconfianças, ambos concordaram que deveriam conseguir mais informações sobre o que acontecera, antes de tomarem qualquer decisão mais séria. Por hora seria bom agirem como se não desconfiassem de nada, e vendo por este ângulo, era melhor, que Sesshoumaru partisse, como havia planejado. Ao perceber que seu filho hesitava, Inu no Taishou colocou a mão em seu ombro em sinal de apoio.

—Sesshoumaru, não se preocupe... A menina ficará bem conosco... Seu irmão, e eu a protegeremos! – Inu no Taishou afirmou, tirando o de seus devaneios.

—Eu tenho certeza de que sim... – Respondeu Sesshoumaru, de maneira altiva.

Em seguida, pegou sua espada, despediu-se de seu pai, e saiu em direção à entrada do shiro, tendo Janken, atrás de si.

O dia amanheceu preguiçoso, no vilarejo, embora as pessoas tenham mantidos seus horários costumeiros bem como suas tarefas matinais. No shiro, as cozinheiras já estavam servindo os desjejuns, com a mesma desenvoltura de sempre. Por conta de sua habilidade adquirida nos anos em que ajudou no Daí San no Shiro, Kaede/Tomoko, estava se dando muito bem com as outras servas, embora estranhasse o fato de muitas delas serem youkais e hanyous e serem comandadas por outra humana, uma velha senhora, dulcíssima, chamada Nana. Quando Mizuki tomou Meikakuna Mun, Nana tornou-se a serva de Minara, e a princesa a trouxe de volta à vida, por ter sido ela também morta por Mizuki. Apesar de Nana lembrar Kaede, de como ela era, antes de Minara a encontrar, Kaede sabia, que ela própria não possuía a alegria de viver de Nana. E por alguns segundos a miko, se perdeu em seus pensamentos.

—Tomoko? Você está bem? –Perguntou Nana, ao vê-la tão distraída.

—Ah, eu... Sim, eu estou muito bem... Só estava me lembrando de algumas coisas, que eu tinha de fazer... –Kaede, mentiu.

—Oh... Será que não estava pensando no General Hokuto, hein Tomoko? –Perguntou uma serva hanyou, enquanto as demais riam e faziam coro.

—O... O quê? Vocês ficaram loucas? –Kaede, sentiu o rosto queimar de vergonha.

—Ora, Tomoko, não precisa ficar com vergonha! Todas nós, admiramos muito o general Hokuto, e quando soubemos que você estava dançando com ele tão lindamente ontem nas valsas de honraria, bem... Foi como um sonho para todas nós! Por favor, nos conte um pouco sobre o que aconteceu! –Outra serva, desta vez uma youkai, perguntou timidamente, enquanto as demais a reverenciavam com seus olhos mais inocentes.

Kaede/Tomoko, olhou para Nana esperando que ela dissesse algo que inibisse as demais servas, mas para seu desespero, Nana também parecia curiosa.

—Por favor, Tomoko... Estamos um pouco adiantadas... Acho que podemos nos dar ao luxo de ouvirmos você, ainda mais se tratando do general... –Nana disse sorrindo abertamente. Em seguida estendeu um banco para Kaede/Tomoko, e sentou-se no chão junto com as demais, cercando-a.

Kaede/Tomoko, não tinha saída. Respirou fundo e sentou-se no banco, enquanto escolhia as palavras.

—Por onde eu começo... –Disse a miko consigo mesma.

—Comece contando como nos conhecemos... –Disse uma voz máscula, divertidamente.

—GENERAL HOKUTO!!! –As servas disseram todas ao mesmo tempo, enquanto se levantavam apressadamente para cumprimentá-lo. Kaede estava ainda mais envergonhada que antes, mas a surpresa por ver as servas agindo daquela maneira era ainda maior.

As servas o cercaram com elogios enquanto ele distribuía flores para elas. A imagem era semelhante a um bando de menininhas que viam um príncipe gentil. E de fato o carisma de Hokuto o colocava nesse patamar.

—Então, minhas belas damas, eu acordei muito bem humorado hoje, e resolvi presenteá-las com essas flores. É claro que elas não chegam aos seus pezinhos, no quesito beleza, mas, elas me fizeram lembrar a delicadeza que vocês, as queridas servas do nosso shiro, possuem... Eu espero que apreciem este humilde presente. –Hokuto disse galante, enquanto distribuía flores brancas que se encontravam em um grande buquê improvisado, com um sorriso sensual nos lábios, enquanto as servas lisonjeadas sorriam com suas faces ligeiramente vermelhas.

Kaede/permanecia estupefata com o quão popular o general era entre as servas, sobretudo, com as da cozinha, suas companheiras. Hokuto estava à vontade entre as fêmeas, e após distribuir as flores por entre aquelas que a cercavam aproximou-se de Kaede/Tomoko, para entregar a flor dela.

— Para você, Tomoko... Espero que tenha um dia maravilhoso... –Disse o youkai olhando no fundo dos olhos da humana enquanto sorria sedutor, fazendo-a corar inteiramente.

— Oobrigada, não precisava! –Respondeu ela, altivamente, enquanto pegava a flor das mãos do Youkai.

— Oh imagine... Uma flor é sempre necessária, quando o assunto é o começo de um novo dia, e é claro, quando queremos convidar uma fêmea para jantar conosco... Não concordam comigo, senhoras? –Hokuto destilou enquanto buscava apoio nas demais servas, que prontamente concordaram com ele.

—Ora Tomoko, não seja tão fria... Aceite o convite do general! – Nana tomou a voz das demais servas.

—Mas, eu não sou fria! Eu aceitaria, mas o general não está se referindo a mim! Todos sabem que não seria de bom tom, um Youkai de prestígio, ser visto com uma simples serva humana! –Kaede/Tomoko, respondeu seriamente, quase com rispidez. Mas após alguns segundos, todas as servas se entreolharam, e caíram na gargalhada.

— Kkkkkk... Tomoko, você é realmente um achado e tanto! É claro, que me refiro a você! Sei que essa situação realmente acontece fora daqui, mas estamos em Meikakuna Mün! Ninguém nos julgará, e mesmo se o fizessem, eu nunca me importaria com isso! -Hokuto disse enquanto gargalhava junto às demais servas.

—Sim, a Tomoko, aceita General! Tudo o que o senhor tem de dizer é o horário e onde! – Nana novamente tomou a frente, enquanto Kaede fervia de raiva e vergonha, mas não podia dizer nada, pois estava com a boca tapada pelas demais servas.

— Bem eu gostaria de pedir a opinião dela, mas acho que isso está fora de cogitação, então... Eu vou levá-la para jantar, mas como não faço ideia dos seus gostos, acho que seria inteligente se formos ao festival. Vou esperá-la no saguão do Shiro, próximo à entrada principal, às 19:00hs. Ah, e, por favor, vista algo leve, pretendo dançar bastante com você novamente... –Hokuto, piscou sedutor, antes de reverenciar as servas e sair da cozinha. As servas ficaram ainda alguns minutos contemplando a porta antes que Kaede se soltasse e expelisse sua fúria.

—Vocês ficaram loucas?! Como puderam me jogar em cima do General dessa forma? Não percebem que isso é errado? –Kaede/Tomoko, disse exasperada.

— Você é que só pode estar louca em pensar uma besteira como essa! Ser convidada para um jantar pelo próprio general Hokuto é uma honra que quase nenhuma fêmea já desfrutou!–Uma serva Youkai respondeu no mesmo tom, e Kaede estava pronta para confrontá-la quando Nana resolveu intervir.

— Por favor, Natsume, se acalme! Tomoko, não conhece nada aqui em Meikakuna Mun... É difícil para quem não mora aqui, se adaptar a nossa liberdade. – A velha senhora ponderou.

—Mas Nana... Tá! Você tem razão... Eu peço permissão, para sair antes do nosso turno acabar para levar a Tomoko, para conhecer nossa Vila, e para instruí-la sobre nossos costumes. –Natsume a Youkai Neko de cabelos negros e olhos castanhos disse para surpresa de Kaede.

—Natsume, você não precisa... –disse Kaede tentando negar-se.

—Preciso sim. Você tem uma oportunidade importante nas mãos, e é meu dever como cidadã, ajudá-la a aproveitá-la ao máximo. –A neko exclamou com objetividade.

— Mas eu não acho que... –Kaede ergueu uma sobrancelha, suspeitando da boa vontade repentina de Natsume, mas foi interrompida por Nana.

—Natsume eu estou orgulhosa de você! É claro que podem ir. Tem minha permissão. Tomoko, por favor, aceite nossa ajuda, só queremos o melhor para você acredite! –A velha disse com seus olhos brilhando de compaixão. Diante de tamanha comoção, Kaede resolveu agir.

—Escutem bem todas vocês, eu não vou a lugar algum com ninguém, e... –Kaede começou a falar com seriedade, mas foi interrompida por uma voz que ela conhecia, mas que não ouvia há muito tempo.

—Acalme-se velha... Eu irei com você. – A fêmea falou alto, chamando a atenção das demais servas.

—Kagura?- Murmurou Kaede ao vir a youkai dos ventos. Seu espanto em vê-la, só não foi maior do que perceber que ela a havia reconhecido.

— Você é uma das novas sacerdotisas, não é? De onde conhece a Tomoko? -Natsume questionou ligeiramente desconfiada.

— Eu conheço a “Tomoko”, do shiro do general Inuyasha. Ela trabalhou lá por algum tempo. Éramos grandes companheiras, não é mesmo, Tomoko? –Kagura disse com segurança, e Kaede apenas concordou.

— Eu me encarregarei de levá-la agora mesmo, para conhecer a cidade, se não se incomoda, senhora Nana. Eu vou aproveitar que tenho este momento de folga. Vamos Tomoko... – A youkai dos ventos reverenciou a velha humana, que consentiu, antes de sair com Kaede ao seu lado.

Apenas alguns passos longe dali, a miko, não suportou mais o silêncio, e resolveu confrontar Kagura, ainda que discretamente.

—Kagura, como você voltou da morte? Como você me reconheceu? – A humana perguntou, e Kagura explicou-lhe tudo o que acontecera a ela, para em seguida responder a segunda pergunta.

—Eu senti o seu cheiro, e o segui... Depois ouvi a sua conversa com as demais... Não foi difícil já que vocês estavam aos berros... Não sei o que aconteceu com você, mas tenho a impressão de que Minara está envolvida nisso... Estou certa?

— Está... Parece que essa princesa está sempre envolvida nesse tipo de confusão... –Kaede disse displicente.

— Ela é uma boa pessoa, afinal... Está sempre disposta a ajudar os outros... E eu... Também quero agir assim... Sei que estivemos em lados opostos no passado, velha Kaede, mas quero que esta vida seja diferente... Por isso, vou ajudá-la, no que for preciso. –Kaede encarou-a incrédula por alguns segundos, e ponderou antes de respirar fundo, e responder.

—Esta certo, Kagura... Eu vou aceitar sua ajuda... Afinal, se esta princesa foi capaz de transformar-me de volta à minha juventude, com certeza é capaz de ter lhe dado um coração genuíno.

—Obrigada pela consideração, eu acho... Mas vejamos, se eu entendi a sua situação. O general Hokuto, está interessado em você, e você não quer nenhum tipo de aproximação da parte dele... Mas eu não entendo o porquê disto... –Kagura questionou-a.

—Ora, como assim não entende, Kagura? Ele é um youkai poderoso! As fêmeas desta vila vivem sonhando com ele! Porque ele se interessaria por uma humana, como eu? É óbvio que ele pretende algo!

—Humm... Kaede, eu entendo o que você quer dizer. Você teria razão se estivéssemos em qualquer outro lugar deste mundo. Mas não aqui. Meikakuna mun, é um reino muito antigo. Apesar de estarmos há apenas três dias de viagem do seu antigo vilarejo, preconceituoso, os seres que vivem aqui, estão acostumados com relações inter-raciais. Para eles é algo corriqueiro, sem qualquer importância. – Kagura revelou.

—Mas... Mesmo assim! Este General deve ter uma fêmea diferente em sua cama todas as noites! O que ele quer comigo? Eu nunca me sujeitaria à este tipo de coisa! – Kaede retrucou.

—Bem, de certa forma novamente você está certa. O general Hokuto, é muito respeitado, e até mesmo amado, por todos aqui. Se ele quisesse tenho certeza de que teria uma fêmea diferente em sua cama todas as noites, e nem precisaria se valer da força ou de qualquer outro artífice para isso. Elas praticamente adorariam fazer isso. Mas ele é quem não quer... O general Hokuto, só teve uma fêmea marcada em toda a sua vida. E apesar de ter tido algumas amantes ocasionais, ele não é o tipo de macho que gosta de enganar as fêmeas. Quando ele aparece em público com alguma fêmea, as pessoas daqui ficam felizes e torcem para que a relação dê certo, apenas porque não gostam de ver o general solitário. –Kagura disse enquanto caminhava com Kaede indo na direção dos túneis que levavam aos campos.

—Eu... Eu não fazia ideia... Foi por isso que as servas ficaram tão felizes... –Kaede exclamou verdadeiramente surpresa.

— É... Quem imaginaria que um macho como ele, fosse dessa forma? Se ele quer sair com você, é sinal de que aprecia a sua companhia. Ele não vai arrancar a sua virgindade, à força, velha... Sinceramente, Kaede, eu não vejo motivos para que você o negue. –Kagura disse com sarcasmo.

Kaede apenas bufou em resposta. Continuaram andando por alguns minutos conversando trivialidades, até que chegaram à um grande portão de ferro forjado, e logo se puseram a puxar a maçaneta para a abri-lo. Mas apesar de todo o esforço, o portão sequer se mexeu. Diante disso Kagura constatou o problema.

—Droga, está trancado. A chave deve estar na entrada dos túneis. Nós passamos por ela e eu me esqueci completamente! Vamos ter que voltar pra buscá-la. –A youkai disse levando uma mão à testa.

—Não precisamos ir as duas. Eu vou buscá-la, e você espera aqui. Assim eu aproveito para pôr meus pensamentos em ordem... –Kaede disse antes de sair em disparada para a entrada dos túneis sem dar chance para que Kagura retrucasse.

Kagura puxou a pena de seu cabelo, e a fez aumentar de tamanho para finalmente sentar-se sobre ela, que ficou flutuando, fazendo às vezes de assento.

Os túneis contavam com calçamento de pedras brancas e eram bem iluminados por tochas e cristais, e não havia perigo nenhum á vista. Mesmo assim, após alguns minutos, Kagura sentiu que estava sendo observada, e essa sensação a incomodou profundamente, fazendo com que ela colocasse seus ouvidos à postos, na tentativa de encontrar qualquer barulho estranho. Após alguns minutos um ruído a fez abrir os olhos, e preparar-se para o possível confronto.

—Saia daí imediatamente, quem quer que seja. Eu sei que está aí. – A youkai disse em voz alta.

Subitamente um par de tochas que estava mais distante dela, cerca de 12 metros, apagou-se. E logo em seguida o par que se seguia, mais próximo, apagou-se também. E par após par, apagaram-se até ficarem apenas aqueles que tinham Kagura entre si. A youkai estava completamente em alerta, e apesar da escuridão à sua frente, viu, um vulto fantasmagórico, esgueirar-se por entre as sombras, para aproximar-se dela. Preparou-se para dar uma rajada de vento contra a criatura. Mas antes que desferisse seu golpe, a criatura olhou para ela com seus malignos olhos verdes esmeraldas. Kagura sentiu o medo paralisar-lhe. A criatura ainda a encarou por alguns segundos antes de subir pelo teto do túnel como se estivesse sendo puxada.

Após a criatura deixar o túnel, as luzes voltaram gradativamente, e Kagura sentiu seu corpo desfalecer como se ela fosse feita de papel. Antes que ela tocasse o chão, no entanto, sentiu fortes mãos a segurarem, enquanto uma voz masculina, lhe chamava pelo nome.

—Kagura? O que houve com você?

—Quem... é?

—Sou eu... Hideaki...

Notas finais
Eu não tenho palavras par agradecer à todos por tudo... Eu estou de volta, sim, e pretendo terminar essa fic... O próximo cap, deve sair na próxima semana!