Perdida Na Tempestade
71 Fatídica hora de partir...
Notas iniciais
O dia amanheceu agitado em Meikakuna Mun. Para Ryotaro, a noite havia sido muito longa, e frustrante, pois apesar de conseguir manter seus sinais vitais estabilizados, por conta do remédio de Izanami, dado à ele, por Leodora, Yuko, não recobrava a consciência. Misty, a sacerdotisa de MeikakunaMun, que se encarregara de cuidar do kitsune, não parecia otimista. Ela explicou com pesar à Ryotaro, e Kyo, que possivelmente Yuko, nunca mais acordaria de todo aquele pesadelo.
—A mente dele, parece ter sido quebrada... É muito difícil estabelecer um contato mental com ele, e quando se consegue, não há nenhum sinal dele lá... O corpo dele ainda está muito ferido, e a magia negra que o tomou, ainda está presente em sua mente, e não há modos conhecidos de removê-la por completo. Infelizmente só o tempo poderá nos dar uma verdadeira sentença, sobre ele. Eu realmente sinto muito... –Misty explicou pesarosa e tristonha. Após comunicá-los, Misty, os deixou sozinhos, retirando-se da sala para que eles pudessem se expressar em paz.
E como ela previra, assim que a viu fechar a porta atrás de si, Ryotaro e Kyo, se entre olharam arrasados. Encararam, mais uma vez a face abatida de Yuko, e ambos choraram por seu amigo. O kitsune havia sido criado com eles, e os três eram inseparáveis, desde muito jovens. Ver Yuko, naquela situação era algo inimaginável e assombrosamente dolorosa.
—O que vamos fazer Ryo...? –Kyo questionou-o, sentindo-se perdido.
—Vamos levá-lo para casa... A família dele, vai desejar estar ao lado dele neste momento. –Ryotaro murmurou sentindo um enorme nó em sua garganta.
—Ryo... Mas e a Leo? –Você não pode deixá-la agora... O risco de ela descobrir sobre você, é muito grande... Além disso, quem fez isso, com o Yuko pode estar à espreita, seria muito perigoso deixá-la sozinha, agora! Por favor, Ryo, deixe-me levá-lo para casa... Yuko, não gostaria de ser um fardo para nenhum de nós... –Kyo, argumentou enchendo-se de coragem e força.
—Não posso deixá-lo sozinho... Kyo... –Ryotaro tentou argumentar ainda encarando seu amigo.
—Você não vai deixá-lo sozinho. Eu estarei com ele. Ryo, um dia o Yuko vai acordar. E quando esse dia chegar, ele não vai querer saber que você perdeu sua fêmea por causa dele. –Kyo foi enérgico, e subitamente Ryotaro lembrou-se da visão de Minara. Nela, estava acontecendo sua união, e Yuko estava lá.
— Você... Tem razão! Kyo, ele não vai ficar assim por muito tempo! Minara hime me deu uma visão, do dia da minha união, e nessa visão, Yuko estava vivo e bem! –Ryotaro argumentou aliviado.
—Mas Ryo... Você Já se uniu! Será que isso representa mesmo alguma coisa? –Kyo, ficou preocupado.
—Eu acredito que sim... Seja da maneira que for... Eu tenho fé que Yuko um dia há de voltar para nós... –Ryotaro concluiu, enchendo Kyo de esperança.
Assim, os dois se consolaram, e Kyo preparou-se para partir ao anoitecer daquele mesmo dia, levando recomendações de Ryotaro, e Yuko com ele.
O sol nascia timidamente, quando Ryotaro voltou para a casa de Leodora. Abatido e cansado pela noite estressante que tivera Ryotaro, ainda tinha na mente as palavras de Kyo. Sobretudo, quando ele se referiu à segurança de Leo e de suas crianças. Não havia dúvidas de que alguma coisa muito ruim estava acontecendo em Meikakunamün, e mantê-los em segurança era sua maior prioridade.
No shiro, a maioria dos convidados já estava de pé, tomando o desjejum, preparando-se para partir. Entretanto, Minara que não queria deixar Meikakuna mün, estava profundamente abalada com esta situação. Ela e Hikaru, já estavam conversando sobre essa possibilidade havia alguns dias. Mas depois do ataque na união de Raijin e Kikyou, o tigre dourado transformou a possibilidade em certeza. Por mais que a hanma quisesse argumentar com ele, de que a guarda de elite havia retornado, e que agora eles poderiam investigar mais profundamente o que acontecera, ela tinha de concordar, que eles estavam sob uma ameaça crescente.
—Mina, eu só quero que você fique em segurança... Não entendo porque está resistindo tanto, você sempre adorou o Dai Ni no Shiro (segundo castelo). E você, não viu como ele está agora. Tenho certeza de que vai gostar ainda mais... –Hikaru dizia enquanto se vestia, preparando-se para sair do aposento para tomarem o desjejum com os demais.
—Eu sei que gosto... Mas... Eu queria muito ficar... Aqui é minha casa! É o meu povo lá fora! Você tem razão eu adoro o Daí Ni... Mas não concordo que com Agláia lá, eu vá estar mais segura! –Minara respondeu enquanto arrumava suas malas.
—Meu Anjo, Agláia, não é louca o suficiente para lhe fazer mal... Eu a conheço! Sei que ela tem seus rompantes, mas não acredito que ela vá tão longe. Além disso, meu pai e minha mãe estarão lá para cuidar de você, e você poderá visitar Meikakuna Mün quando quiser! Então, por favor, não faça essa cara... Sabe que eu não suporto ver você frustrada... –Hikaru aproximou-se dela e a abraçou carinhosamente, fazendo com que a hanma sorrisse um pouco.
—Você confia demais nessa “fidelidade” da Agláia... Eu posso estar enganada, Hikaru, mas tenho certeza de que tudo o que aconteceu ontem, tem o dedo dela! –Minara disse encarando Hikaru com seriedade.
—Entendo sua desconfiança no que diz respeito a tentarem nos separar, mas porque Agláia atrapalharia a união de Kikyou? –Hikaru questionou-a sem muito interesse.
—Não se faça de bobo, Hikaru! Você sabe muito bem, que o braço direito dela, é a Akane, e que aquela víbora, não aceita que o Raijin, tenha marcado a Kikyou e não ela! Até eu, que não estava lá no Dai San no shiro, sei disso!-Minara cruzou os braços, e estreitou os olhos.
—Não estou me fazendo de nada... Eu sei de tudo isso, mas sinceramente não acho que a Akane, tenha capacidade de armar tudo isso. E Agláia não se arriscaria tanto, para ajudá-la, com suas bobagens... Meu anjo, você quer que eu chame alguma serva para ajudá-la? –Hikaru deu de ombros, e mudou de assunto rapidamente, o que deixou Minara muito irritada.
— Afinal, qual é a sua com a Agláia, hein? Porque você insiste, em minimizar tudo o que ela faz? — A hanma ruiva perguntou rispidamente.
—Minha princesa... Não tenho o menor interesse em Agláia, e você sabe disso. Não estou protegendo-a. Ela é minha capitã, tenho certa confiança nela, porque ela é fiel a mim, e a Sesshoumaru. Confie em mim, meu anjo, vamos para a nossa casa, e nos preocuparemos apenas com as crias que teremos... Está bem? –Hikaru disse com seu olhar mais sincero, enquanto a tomava em seus braços.
—Hikaru, eu confio em você. Mas não peça para não me preocupar... –Minara murmurou encarando o youkai tigre.
Hikaru estava pronto para respondê-la quando algumas batidas na porta do aposento se fizeram ouvir.
Hikaru não soltou Minara de seu abraço. Apenas disse um singelo, “Entre”. Era Brunhilde, que estava em companhia de uma serva.
—Bom dia meus queridos! Minara, a Nana fez questão de vir ajudá-la com suas malas. –Disse a hanyou alada referindo-se à velha senhora.
Ao vê-la Minara a abraçou fortemente, e ambas se puseram a preparar as malas da princesa, enquanto Brunhilde e Hikaru conversavam sobre a partida e dissipavam o clima tenso anteriormente.
Masato despertou com a luz do sol pálido, em seu rosto, e cumpriu a terrível tarefa de despertar Naelle, pois ambos haviam combinado de procurar os pais dela, bem cedo e acertarem sua situação. Vestiram-se lentamente, entre beijos e muitas carícias, e fizeram suas higienes pessoais juntos. Quando finalmente estavam prontos para sair, batidas na portas seguidas de uma voz masculina fizeram Naelle ficar temerosa.
—Abra capitão... Precisamos conversar. – A voz grave disse com certa calma.
—Masato, é o meu pai... –Murmurou Naelle, assustada.
Masato, a abraçou, e sorriu para ela, para que a hanma se acalmasse. Em seguida caminhou até a porta, e abriu subitamente, colocando-se à frente da mesma.
—Bom dia, Lorde Ryouko. Estávamos indo à vossa procura. Temos mesmo, muito que conversar. –Masato disse com calma e seriedade.
—Entendo... Por favor, me acompanhe capitão... Naelle, querida, vá tomar seu desjejum. Sua mãe à espera no salão. –Ryouko, ordenou, sem tirar os olhos de Masato.
No entanto a Hanma apenas se moveu, no momento em que Masato fez um movimento afirmativo com a cabeça. Após vê-la sair os dois caminharam na direção de uma varanda, e sentaram-se um à frente do outro.
—Fale capitão, estou ouvindo... –Ryouko murmurou, encarando-o.
—Eu a amo... Farei dela minha fêmea, de qualquer forma... Mas sei que ela sofrerá se o senhor, não nos der sua benção... –Masato foi direto.
—Você já a tomou... Você fez da minha menina, uma mulher, antes de se unir à ela! Porque fez isso, capitão? –Ryouko, disse com certa irritação na voz.
—Por que... Eu já esperei demais por ela... Mais de uma vida, até. Ela me pediu isso, e eu não pude negar. Sei que o senhor tem todos os motivos, para me matar. Mas vou lutar com unhas e dentes por ela... –Masato encarou-o com um tom sombrio e determinado na voz.
—Era exatamente isso, o que eu queria ouvir de você capitão Masato... Pelas suas palavras presumo que já saiba toda a verdade sobre ela... Inclusive que ela é a reencarnação da minha prometida, a hime Lily... –Ryouko disse amenizando suas feições.
— Prometida? Eu sei sobre o fato dela ser a reencarnação de Lily, que por seu coração cheio de amor, foi escolhida pelos deuses para renascer como uma das chaves do destino. Mas não sabia que Lily, era sua prometida. –Masato disse com surpresa.
—A Hime Lily, não era apenas uma youkai cheia de bons sentimentos... Lily tinha o como poder principal, olhos capazes de iluminar a alma de qualquer ser que se aproximasse dela. Desta maneira ela sabia claramente as fraquezas e mazelas de toda criatura, e se mantinha protegida, pois a luz de seus olhos eram tão intensas, que podiam dissipar toda e qualquer magia negra que tentasse investir contra ela... E por conta desse poder tão peculiar, eu a cobicei... Declarei guerra ao reino dela, apenas para obrigá-la a se unir à mim. Na realidade, eu fui o culpado pelo triste fim dela... Mas já basta de falar do passado... Vamos falar do presente, capitão. Imagino que esteja surpreso, por eu ter vindo até seu aposento buscar minha filha com tanta tranquilidade... –Ryouko disse mudando rapidamente o assunto.
—Na verdade eu imaginei que viria me procurar... Meu interesse em sua filha ficou bastante explícito nas valsas que dançamos na ocasião da união do General Hikaru com a Hime Minara. –Masato disse com certo constrangimento.
— Não só por isso capitão... Reconhece este livreto?Este é o caderno de Naelle. Ela o leva consigo para todo o lugar desde que era uma criança... Ryouko retirou de dentro do quimono, um pequeno livro de couro, bastante grosso, com centenas de desenhos.
—Sim, Naelle o estava vendo quando nos encontramos pela primeira vez... Engraçado, eu não reparei que ele era pesado... –Masato disse pegando o objeto oferecido pelo lorde.
—Vá em frente capitão... Abra, e verá o real motivo pelo qual, me alegro por saber que você e minha querida Naelle, estão unidos... –Ryouko sorriu timidamente.
Masato encarou-o por alguns segundos antes de abrir o livreto. Ao folheá-lo a expressão antes relaxada do youkai mudou rapidamente para uma face surpresa.
—Lorde Ryouko? Isto... Isto é... –Masato balbuciou.
—Isso mesmo... Ela nunca esqueceu você... Nem quando era uma criança... Disse Ryouko, enquanto Masato passava novamente as páginas do livro, observando maravilhado, os desenhos que evoluíam desde pequenos rabiscos coloridos, até pinturas rebuscadas, obviamente seguindo a cronologia da idade de Naelle. Entretanto absolutamente todos eles retratavam o mesmo personagem: o próprio Masato.
O youkai morcego, sentia os olhos molhados, emocionado com mais esta prova do amor de Naelle para com ele.
—Eu a quero... Por favor, lorde Ryouko, eu a quero para mim, e embora não houvesse nenhuma dúvida para mim, acabo de perceber que não posso ficar nem um dia longe dela. Por favor, me conceda unir-me à ela ainda esta tarde, para que possamos ir juntos para o nosso lar. –Masato implorou.
—Eu o concedo. Mas você me prometerá que vai contar à ela sobre o passado de vocês... Entenda capitão, quero a felicidade de minha filha... Mas nada adiantará, se ela não souber a verdade sobre si mesma... –Ryouko exigiu com cautela.
—Eu lhe prometo, lorde Ryouko...Quando chegar a hora, eu mesmo contarei à ela... –Masato disse após pensar por alguns segundos.
Diante de sua resposta, o Lorde youkai acenou positivamente com a cabeça e retirou-se para preparar a cerimônia que uniria Naelle à Masato.
O youkai morcego seguiu o caminho oposto, apenas para ir até o aposento de seu General, para comunicá-lo que a volta para suas terras teria de ser adiada por algumas horas.
O clima de despedida deixava as humanas mais emotivas e sentimentais, sobretudo, por que à partir daquele dia, não se veriam mais com frequência. A união de Kagome e Rin, ainda demoraria mais duas semanas para acontecer, e até este dia chegar, Kikyou, e Igraine, deveriam ir cada uma para o shiro de suas respectivas, “novas” famílias. Por conta disso, elas haviam combinado anteriormente, que tomariam o desjejum juntas. E era ainda cedo quando as humanas começaram a se despedir.
Kikyou deveria acompanhar seu “macho” e os pais dele, para o seu novo lar, o Dai Shi no shiro (o quarto castelo), assim como sua cunhada, Yukina, deveria retornar para o palácio de marfim, a residência oficial de seu Macho, Ícaro, o embaixador das terras do oeste nas terras negras.
Ambas as viagens, eram longas, mas graças ao retorno das feiticeiras do tempo, poderiam ser realizadas, de forma mais rápida, pelos antigos portais do tempo, que nada mais eram do que um conjunto de portais, que levavam às áreas próximas aos cinco shiros dos generais. Mesmo após passar pelos portais, as carruagens voadoras levariam algumas horas para chegarem à seus destinos, e por se tratar da época que costumava anoitecer mais cedo, não era prudente deixarem para partir muito tarde, e Byakuro mal podia esperar para que sua nora ficasse em segurança em seu novo lar.
Kikyou abraçou Kagome, Rin, Igraine, Ritorirï, Kagura, e Kaede com toda a força. As lágrimas foram inevitáveis, mas refletiam a felicidade delas.
—Obrigada à todas vocês... Por tudo! Kaede, você vai mesmo ficar em Meikakuna Mün?- Disse a Miko, enxugando as lágrimas.
—Vou sim, Kikyou... Eu sinto que encontrei meu lugar aqui... –Kaede disse sorrindo. Nesse instante Hokuto que estava se aproximando, abraçou-a pelas costas antes de falar.
—Huumm... É muito bom ouvir isso, minha pequena miko!Lady Kikyou, não se preocupe, com Kaede. Dou-lhe minha palavra que ela será muito feliz aqui... Comigo! –O youkai grifo disse sorrindo, enquanto mantinha Kaede corada, em seus braços, sem se dar conta de que um par de olhos amarelos o observava de longe.
Os olhos de Satori que havia ido tomar seu desjejum mais cedo, fuzilavam discretamente o casal enquanto ela tentava entender o que poderia atrair Hokuto, naquela simples humana. Ela, a seu ver não tinha a estonteante beleza de Izayoi, ou ainda a graça resplandecente de Rin. Não havia nada de extraordinário nela, e isso só significava uma coisa: Hokuto queria atingi-la. A youkai sorriu discretamente, e decidiu naquele momento, que antes de partir, falaria com o youkai grifo. Levantou-se de maneira sorrateira, e pediu a uma serva que ali estava para segui-la.
— Ora, se não é a jovem neko, espiã do Katashi! Acompanhe-me minha querida, e se sua discrição for tão boa quanto eu acho que é, pagarei o dobro que Katashi a pagou... –Sussurrou Satori hime, para que apenas Natsume a ouvisse.
—Com prazer, milady! –Murmurou de volta a neko youkai, com seus olhos brilhando de ambição.
Pôs-se logo em seguida, a guiar Satori hime com discrição enquanto ela apenas balbuciava com calma e máxima discrição, seu objetivo. Natsume a levou secretamente até os aposentos do general grifo, e após deixá-la se encarregou de encontrá-lo e dar-lhe uma desculpa convincente, que pudesse fazê-lo voltar a seu quarto.
E não foi nada difícil para ela fazê-lo.
Enquanto o grifo não retornava, Satori permanecia sentada na cama enquanto sua mente buscava os argumentos certos para a discussão iminente que aconteceria entre os dois. Apesar disso, estava nítido para ela, que esta era a chance de aproximação perfeita, que ela aguardara por séculos, e ela não a deixaria passar. Longos minutos se passaram, até que finalmente a porta se abriu. O sorriso triunfal da youkai se fez notar por Hokuto, assim que o grifo olhou na direção dela.
—Satori...? –Murmurou ele, com seus olhos estreitados.
—Hokuto... Meu querido... Eu estou aqui, em nome do nosso amor... –Disse a youkai, levantando-se para ir de encontro ao youkai grifo. Abraçou-o languidamente, mas Hokuto a repeliu.
—Satori, o que deu em você? Não existe mais ”nosso amor”... Não há mais nada entre nós, e você sabe muito bem disso! –Hokuto disse de forma enérgica.
—Pare de se enganar, Hokuto! O que vai dizer agora? Que está apaixonado por aquela humana?Você e eu devemos ficar juntos! Nós nos amamos! Esperamos por essa oportunidade à vida toda... –Satori vociferou avançando sobre os lábios do youkai grifo, beijando-o com todo o seu desejo reprimido por tantos séculos.
Hokuto permitiu-se ser beijado, e retribuiu a carícia ainda que timidamente. Suas mãos másculas tatearam o corpo da youkai, antes tão conhecido por ele. O desejo falava alto, mas subitamente o youkai grifo percebeu que seu coração não batia com a mesma intensidade. Ao se dar conta disso, recuperou a razão, e afastou Satori com delicadeza.
—Satori... Não vamos fazer isso... –Hokuto disse, ainda segurando-a pelos pulsos.
—Como assim? Você, me ama Hokuto! Sempre amou! Agora que Inu no Taishou está com Izayoi, eu não devo mais nada à ninguém! E Além disso, Arina, que era a única que poderia lhe impedir, está morta! Estamos livres, você não vê isso? –Satori insistia, vociferando irritada.
—EU NÃO AMO MAIS VOCÊ... Entenda, Satori... O que vivemos e sentimos um pelo outro, ficou no passado... Não há mais nada que me prenda a você... –Hokuto falou em voz alta, encarando-a com sua expressão de ira. Subitamente largou-lhe os pulsos, fazendo a youkai cair por terra. Após isso, deu-lhe as costas e estava prestes a chegar à porta do aposento, quando a Youkai deu sua última cartada.
—Acha que rompeu nossos laços? Seu idiota! Eu sou a única que sabe onde está o SEU FILHO! O FILHOTE DE GRIFO, QUE ARINA PARIU, ANTES DE MORRER! Pode sair por essa porta e fingir que está feliz com aquela humana medíocre, mas não se esqueça de que esse laço comigo, você nunca romperá! Eu estou lhe dando uma última chance de redenção pelo que você fez a Arina.... Fuja comigo, agora, e vamos viver nossas vidas como deveríamos ter feito à tantos anos, ou morra consumido pela culpa de ter abandonado o seu filho... Escolha agora! –Satori vociferou enquanto se levantava sob o olhar surpreso e tomado de fúria do general.
—Você está blefando... Arina não estava prenhe quando ela fugiu! –Hokuto disse voltando-se para ela.
—Ela escondeu a prenhes, já que tinha medo de que você lhe tirasse o filhote... Ela fugiu para as montanhas dos Karasu onde ficou sob a proteção de Katashi... Mas quando ele tentou fazer dela a sua fêmea ela fugiu novamente... E morreu ao dar a luz sozinha no meio do inverno clamando por você... Eu consegui resgatar o filhote das mãos de um mercador de escravos, antes que ele morresse, ou fosse vendido, e o escondi, para que ninguém fizesse mal à ele... Se não acredita, então veja com seus próprios olhos! –E ao dizer isso, a youkai tirou para fora da gola, de seu rebuscado quimono a Meidou Seki, erguendo-a no ar para que Hokuto visse as imagens que ela transmitia.
As imagens no início confusas tornaram e nítidas e mostraram Arina desde sua fuga de Meikakuna mun até ela dar a luz em uma caverna escura enquanto a neve caía do lado de fora. As imagens também mostraram um youkai grotesco e sujo, pegando o recém-nascido envolto em um manto, e levando-o em seus braços. E logo depois o mesmo youkai, entregando à Satori , uma criança youkai que ela prontamente aconchegou nos braços.
—Não pode ser... Isso só pode ser mais uma das suas mentiras! –Hokuto murmurou ainda mais surpreso.
—Você sabe perfeitamente que a Meidou seki pode mostrar as lembranças de quem a portar... Isso é a mais pura verdade! Agora, faça sua escolha... E vamos logo embora daqui! –Satori disse friamente.
Hokuto estava sem chão. Apavorado com as imagens que vira, mantinha suas mãos na cabeça tentando colocar seus pensamentos e sentimentos em ordem. Rever Arina, sobretudo naquela situação fizera brotar nele um ódio feroz e enlouquecedor. Ódio este que ele tentara por séculos sufocar, mas que agora surgia ainda mais feroz. Sem conseguir mais controlar-se o youkai grifo avançou sobre a Inu youkai, pegando-a pelos pulsos com força.
—Você destruiu a minha vida... POR QUÊ? POR QUE VOCÊ ME ODEIA TANTO? Eu deixei você em paz quando fez a sua escolha! EU RECOMECEI A MINHA VIDA COM ARINA!E não mais te incomodei! PORQUE VOCÊ CONTINUA TENTANDO ME DESTRUIR?-Gritou o grifo, enquanto sacudia a youkai pelos braços, para finalmente atirá-la no chão com força.
Os olhos de Hokuto estavam avermelhados, e suas garras aparentes haviam rasgado a pele fina do pulso de Satori. A youkai sentiu o medo lhe invadir ao perceber que ele continuava a avançar sobre ela, e enquanto tentava se esquivar, segurava os ferimentos tentando fazer estancar o sangue rubro que descia em abundância.
Nesse momento em que a tragédia estava prestes a acontecer, a porta se abriu, e Izayoi entrou correndo pelo aposento para se colocar à frente de Satori.
—Não faça isso, general! Por favor, não a machuque! –Disse ela abraçando Satori para protegê-la.
Hokuto então sentiu o cheiro de Inu no Taishou, e o vislumbrou entrando pela porta do aposento, caminhando calmamente até ele, tendo Katashi atrás de si. Antes que Hokuto pudesse dizer qualquer coisa, o inu Dai youkai se pronunciou.
—Hokuto, meu velho amigo, acalme-se... Entendo seu ódio, e sei que você tem todos os motivos para destruí-los... Mas matá-los não vai trazer Arina de volta... Eu sabia que Satori não demoraria muito para procurá-lo, então fiquei aguardando que ela desse o primeiro passo. Assim que a vi vindo na direção do seu aposento, fui atrás de Katashi, para que os dois juntos, possam esclarecer de uma vez por todas o que aconteceu a Arina. –Inu no Taishou disse, ao tocar o youkai grifo pelo ombro em sinal de solidariedade.
E nosso momento, Hokuto encarou-o e fez um sinal afirmativo com a cabeça, antes de abaixá-la, para deixar algumas lágrimas descerem por seu rosto. Mas logo após isso, passou a mão pela face, antes de erguê-la novamente para encarar Katashi.
—Onde está o meu filho? –Perguntou ele, ao Karasu que tremia de desprezo.
—SEU filho morreu... –Katashi vociferou ainda mais irritado.
—Não minta para nós Katashi! Você jurou pela aliança das terras do oeste que não teve nada haver com o sumiço de Arina, e eu acreditei! Agora fique sabendo que eu não perdoarei nenhuma tentativa de engano de sua parte!Diga a verdade Katashi, de uma vez por todas, se não por mim, o faça por Arina! –Inu no Taishou disse enérgico, e o Karasu rosnou de raiva.
Entretanto, em seu coração Katashi sabia que ele tinha razão. Ele mesmo já queria ter revelado tudo, apesar do ódio que nutria por Hokuto.
—Eu amava Arina... A amei desde a primeira vez que a vi. Quando soube que ela havia partido para buscar Satori hime com o general de Meikakuna mun, me senti orgulhoso, e preparei-me para pedi-la para Inu no Taishou, como minha fêmea, assim que ela retornasse. Mas quando ela retornou, já estava cega de paixão por esse maldito grifo. Você nunca a amou como eu, seu desgraçado... E eu te odiei por isso... Com o passar dos anos, eu a vi entristecer-se cada vez mais. E meu incômodo foi percebido por Satori. Nós confidenciamos nossas angústias, e sentimentos, e foi deste modo que eu descobri que você a tomou apenas como um prêmio de consolação... A minha Arina estava sofrendo por causa da SUA COVARDIA! Vim até este maldito reino dezenas de vezes apenas para vê-la chorar por SUA CAUSA! Até que um dia, ela contou que estava prenhe e que não queria que seu filhote sofresse o mesmo desprezo que ela sofria. Eu a ajudei a fugir. Quase enlouqueci de felicidade no dia em que a tirei de você. Arina viveu comigo escondida nas montanhas dos Karasu por apenas seis meses... Mas quando eu a pedi para mim, ela simplesmente fugiu... Ela se foi e para não me sentir mais humilhado, tomei por minha fêmea à Emi, que era pertencente à um clã aliado. Eu toquei Emi pela primeira vez, bêbado, pensando em Arina. Alguns meses depois, consegui seguir a pista de um mercador de escravos que contou ter achado um corpo de uma inu youkai. Aquele desgraçado roubou algumas joias de Arina e as vendeu para um de meus servos. Foi através dele que encontramos o corpo de Arina, e posteriormente o filhote... –Katashi falou pausadamente.
—Lembro-me disso... Mas na ocasião, você não me disse que aquele filhote era de Arina... –Inu no Taishou argumentou.
—Eu não disse por que esse miserável apareceu, querendo me acusar de ter roubado Arina... –Katashi respondeu ainda resignado.
—Eu teria te matado se Emi não tivesse se metido, Katashi... Você pode não acreditar, mas eu amei Arina... E fiz tudo o que podia para vê-la feliz! Mas nada disso importa agora... Porque eu nunca vou tê-la de volta... Mas ao menos o filho... O filho que ela me deu... Me diga onde está o MEU FILHO... –Hokuto tomou a palavra, ainda tocado, por toda a emoção que pairava sobre eles.
—Você não o merece... –Katashi murmurou encarando o youkai grifo com todo o seu ódio.
—Chega de mentiras Katashi!-Gritou uma voz que vinha da varanda do aposento. Subitamente a presença de Emi se fez notar assim como o cheiro de suas lágrimas. Ela estava acompanhada de Kagura que havia feito uma barreira de ar para impedir que seus cheiros fossem detectados.
—Emi?! Emi, por favor, vá embora daqui! –Katashi disse tentando argumentar, e se aproximar de sua fêmea. No entanto quando conseguiu foi atingido por um tapa certeiro de Emi, que o fez recuar surpreso e sem palavras.
—Calado, seu infeliz! Você mentiu a vida inteira, para mim, e para os nossos filhos!Eu não quero ouvir mais nada de você! Hokuto... Por favor, me perdoe... Por favor... Eu não sabia... Eu nunca soube de nada... –Emi sussurrou chorando copiosamente antes de se ajoelhar na frente do youkai grifo, que prontamente a ergueu, para consolá-la.
—Emi... Não se desculpe, está tudo bem... –Hokuto disse antes de abraçá-la fraternalmente.
—Não está tudo bem... Você tem toda a razão, você merece saber onde está o seu filho... Ele... Ele é um macho incrível... Tão doce e gentil... Ele parece muito com você, e eu nunca percebi nada... –Emi continuou chorando enquanto falava.
—Emi, eu não estou entendendo... –Hokuto tentava fazê-la se acalmar.
—Hideaki, Hokuto... Meu Hideaki... Ele é o seu filho... –Emi murmurou, deixando-se cair. Inu no Taishou correu para ampará-la,mas Kagura o fez primeiro, enquanto Hokuto permanecia estático.
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