Perdida Na Tempestade
5 Capítulo 5 - Esperança para quem espera...
Notas iniciais
Kagome e Kikyou estavam olhando Fixamente para o grosso diário que tinham nas mãos.
— Meninas quando vcs entraram em contato comigo respondendo ao meu pedido de ajuda, eu já estava perdendo a esperança. Eu não percebi isso no começo, porque eu ja estava sendo tomada pelo desespero. Eu sou uma monja Budista. Eu não estava preparada para essa missão. Igraine é filha de um youkai. E apenas um sacerdote xintoísta japonês, poderia nos ajudar a lidar com isso. Eu pedi ajuda à dezenas de templos, e mesmo assim, levei anos para obter uma resposta e neste instante percebo que não foi por um acaso. Apenas vcs poderiam fazer isso. A história de Claire escrita neste diário estava destinada a ser descoberta por vocês três. -A velha sacerdotisa explicou enquanto as encarava, absolutamente certa de tal convicção.
— Senhora Niyati, a senhora tem a nossa palavra de que vamos vasculhar cada palavra deste diário até encontrar alguma pista que nos ajude a levar a Igraine de volta a família dela. — Kagome sorriu e tranquilizou a velha senhora que sorriu de volta com doçura e cumplicidade.
— Eu agradeço imensamente, jovens sacerdotisas. -A velha as reverenciou.
— Está ficando tarde, acho melhor irmos para a cama agora. Estamos muito cansadas e a senhora também. Teremos um dia bastante cheio amanhã. -Disse kikyou se levantando e se preparando para sair.
— Senhorita Kikyou? Ela pode dormir no meu quarto? Eu gostaria de conversar mais um pouco. Por favor, senhorita Kikyou? – Disse a hanyou fazendo beicinho enquanto abraçava Rin que parecia igualmente animada com a proposta.
—ahh por mim tudo bem, desde que vcs vão dormir cedo, pois amanhã teremos um treinamento puxado. A senhora se importa senhora Niyati?
—Não mesmo. Igraine sempre quis ter companhia e não me parece justo privá-la disso agora. Mas nada de excessos. Durmam cedo assim como recomendou a senhorita Kikyou, está bem?
— A gente promete que vai deitar cedo! Responderam as duas juntas.
— Tudo bem então, mas Rin pegue seu pijama primeiro. Boa noite Igraine, boa noite senhora Niyati. — Disse kagome se despedindo.
—Bom descanso às duas. Até amanhã! -Respondeu a Senhora Niyati antes de completar. _Venha Igraine vamos arrumar seu quarto para sua convidada.
Kagome e Kikyou voltaram para o quarto junto com Rin que apenas trocou de roupa, deu boa noite ás duas e correu para o quarto de Igraine. As jovens Miko se banharam e se trocaram para descansar. Mas nenhuma das duas conseguia pegar no sono.
— Kikyou você esta dormindo?
— Não, Kagome. E parece que você também perdeu o sono.
— Esta pensando o mesmo que eu, Kikyou?
— Tá bom, venha deitar aqui e vamos ler juntas! Disse Kikyou se ajeitando na cama e acendendo uma lanterna a óleo bastante rústica que estava sobre a mesinha de cabeceira ao lado.
— Ai que bom que você também quer ler! Eu estou super curiosa! Respondeu Kagome deitando se ao lado de Kikyou e abrindo o Diário. Vamos lá, por onde começamos?
— Que tal pelo começo? Riu Kikyou da curiosidade de Kagome.
— Tá bom sua chata! Aqui está... dia um...
Eu sempre fui uma moça muito sensível mais do que qualquer pessoa na minha família. Meu pai costumava dizer que minha sensibilidade era consequência do sangue celta da família da minha mãe. Minha mãe por sua vez, dizia que tal característica estava manifestada em mim por eu ser uma bruxa bretã, como a bisavó do meu pai. Ele obviamente negava isso com veemência.
— Hãaa... Kikyou isso está muito chato! Vamos pular algumas páginas?
— Você não gosta mesmo de ler não é?
— Não é isso Kikyou. Eu só não tenho muita paciência!
— Tudo bem Kagome então vamos pular algumas páginas...
—Deixas eu ver, estou aqui treinando... Não Hoje aprendi a manter o templo, Também não! Eu fiz isso... Ah não, não e não! Também não... Ahaá achei!
— Finalmente! Será que já podemos ler Kagome? Ótimo! Ah sim...
"Após muitos dias de viagem finalmente consegui encontrar o templo descrito nos manuscritos antigos que eu encontrei escondidos em uma parede do velho templo onde concluí meus estudos e me tornei sacerdotisa.
Para minha surpresa o lugar não está abandonado, embora esteja isolado de boa parte da civilização, levando em consideração que o Japão ainda é um país pouco populoso se comparado com a índia.
Uma vez no templo, encontrei um velho sacerdote, muito simpático e prestativo. Ele me contou que o lugar permanece trancado, mas que emana uma energia extremamente pesada e negativa que influencia as pessoas. Eu tive que lembrá-lo que como sacerdotes temos o dever de expurgar tais energias e que seria mais fácil para nós dois, exorcizar o tal poço. Ele concordou comigo à contragosto e isso era visível. Contudo não havia o que discutir. Ele me levou ao local e tirou o selo da porta, mas assim que passamos pela entrada a estranha energia me puxou para dentro do poço.
Eu descobri da pior forma que a lenda do poço do antigo templo xintoísta que pode leva-lo a outro mundo é real. Não sei por quanto tempo fiquei desacordada dentro daquele poço. Mas quando despertei, tive certeza de que não estava mais no meu mundo. Sem pensar muito decidi cumprir a minha missão e comecei a selar aquela construção. Pela primeira vez eu pude ver com meus próprios olhos, minha energia emanando de mim mesma e lacrando aquele poço de uma vez por todas."
—O poço... Kikyou, esse é... - Kagome concluiu incrédula.
—Parece que sim. O come ossos é muito antigo, disso eu já sabia. Mas não fazia ideia que fosse tanto! -Kikyou acrescentou igualmente surpresa.
—A Monja Nyhati tinha razão. Não estamos aqui por um acaso... Vamos continuar. _Kagome ajeitou o corpo para continuarem lendo.
"Eu sei que o que fiz não poderá ser desfeito. Eu não poderei sair dessa dimensão estranha nunca mais. Mas isso não me assusta. Eu fiz aquilo que deveria ser feito. Foi com certa dificuldade que escalei o poço para sair de dentro dele. Pela posição do sol, me dei conta de que ainda estava de manhã. e eu parecia estar no mesmo lugar que estaria na minha era, mas só que no passado. Seguindo por essa lógica tomei a direção de onde estaria o templo onde eu estudei por longos anos.
Eu caminhei por horas e horas sem encontrar sequer uma viva alma. Quase ao fim do dia, avistei um pequeno vilarejo e lá consegui informações sobre um pequeno templo que fica bem perto. Estranhamente não me ofereceram sequer um copo de água. Decidi me apressar e cheguei ao templo ao anoitecer.
A jovem Miko do templo que me atendeu parecia muito surpresa em me ver. Mesmo assim ela me acolheu com um grande sorriso e me deu alimento e me preparou um banho que refrescou toda a minha alma cansada, além de roupas limpas e uma cama. Eu dormi quase que instantaneamente.
No dia seguinte pela manhã, ela me contou que estava sozinha aqui, desde a morte do antigo sacerdote, seu pai. Conversamos durante toda a manhã e eu lhe contei sobre o poço e como o selei. Ela não pareceu surpresa, com nada disso, apenas me confidenciou que neste lugar a espiritualidade e a magia são tão concretas quanto qualquer outro elemento.
E o malignidade tem forma e nome: Youkais. Estes seres poderosos e quase sempre malignos usam os humanos para seu bel prazer. Ainda segundo as informações que ela me passou, existem alguns destes seres que são mais sensatos que até chegam a proteger os humanos, mas, eles são minoria. Pelo que notei, ela não gosta de Youkais de nenhum tipo. O nome dela é Midoriko e acho que seremos grandes amigas."
— Kikyou você está lendo isso? Será que é a mesma Midoriko que forjou a joia de quatro almas?
— Bem, analisando todo o contexto, é bastante provável que seja a mesma Midoriko. -Kikyou murmurou antes de continuarem.
"Acordei com o raiar do dia. Midoriko e eu fizemos a primeira refeição do dia juntas e ela me convidou para ficar, como sacerdotisa daqui o que eu prontamente aceitei. Saímos para a vila onde ela me apresentou a todos e explicou que eu serei uma Miko do templo. As pessoas ainda me olham desconfiadas, por causa da minha aparência. Todos aqui logicamente são asiáticos e eu estou bem longe disso. Meus cabelos são ondulados cor de cobre, minha pele é bem branca e eu tenho sardas no nariz. Também sou mais corpulenta que as mulheres locais. Segundo Midoriko eles acham minha aparência tão diferente que pensaram que eu fosse uma Youkai.
Os poucos aldeões que falaram comigo, me disseram que estamos nas terras do Oeste e que o senhor desta terra é um Youkai dos mais poderosos que faz parte da minoria que é sensata e justa. Ele separou seu Reino em grandes feudos cuidados cada um por um general. Parece que o general dessa parte é um feiticeiro humano, muito temido e poderoso, mas também conhecido por sua justiça. Ao menos com isso eu tive sorte.
Claire Wilhelm.

Se passaram cinco dias desde que cheguei aqui e eu tenho tido cada vez menos tempo hábil. Midoriko tem me treinado e eu ganhei uma arma que ela mesma forjou. Um punhal prateado. Ela sempre diz que esse treinamento é fundamental para as sacerdotisas que vivem aqui. Eu confesso que achava exagero até que hoje, um montruoso youkai cobra tentou nos devorar quando voltávamos do vilarejo. Foi um susto imenso especialmente para mim, que nunca havia visto nada semelhante. Midoriko foi esplêndida, seus ataques foram muito precisos, e sua imensa energia espiritual conseguiu exorcizá-lo rapidamente. Se não fosse por ela eu certamente não estaria viva.
Além dos treinamentos físicos, tenho me dedicado a conhecer a cultura deste lugar e a aprender sobre os tais youkais. Eu também descobri que meus conhecimentos sobe plantas e medicina são um pouco mais modernos do que os da população local, então tenho tentado pesquisar sobre isso e atualizar meus conhecimentos e os conhecimentos das pessoas do vilarejo.
Mais uma semana passou desde que escrevi no meu diário e me dei conta de que estou cada vez mais dedicada à minha nova rotina. Ontem ao fim do dia, Midoriko e eu voltávamos do vilarejo, quando eu avistei em uma colina não muito longe o castelo, ou como os aldeões o chamam, Dai San no Shiro, pertencente ao general Kurö Ookami responsável por estas terras. Eu perguntei a Midoriko sobre ele, e ela me contou que ele é um lendário general, conhecido tanto por sua força em combate quanto pela bondade com o qual ele governa suas terras. Ele vem até o vilarejo com frequência, para falar com os aldeões e saber sobre as necessidades estruturais e civis. Ele próprio treina e disciplina seus soldados para protegerem os humanos e afastarem os youkais mais perigosos das vilas. Graças a esses cuidados, os aldeões desta região vivem uma vida pacata e confortável em comparação aos humanos de outras partes deste mundo.
Midoriko já havia me explicado anteriormente que nesta era, os templos religiosos fazem a maioria dos trabalhos humanitários. As mikos costumam ser responsáveis pela saúde não só espiritual, como física dos aldeões. É muito comum que elas aprendam a fazer partos e remédios. Algumas tomam veneno em pequenas porções para desenvolverem os anticorpos que produzirão certos antídotos. Mesmo na minha época, essa prática ainda era usada em muitos templos, já que a medicina ainda não era um direito de todos. Apesar de ser um youkai, o senhor das terras do Oeste tem uma espécie de acordo de paz com os templos e suas mikos. Nós cuidamos dos humanos, e eles nos garantem amplo apoio inclusive financeiro para fazê-lo. Desse modo, protegemos nosso povo, e eles garantem que seus feudos continuem produtivos. Ao meu ver, isso parece proveitoso para ambos os lados.
Midoriko ainda acrescentou que com a minha chegada e permanência no templo, eu devo ao general, no mínimo, uma visita de cortesia. Combinamos que faríamos isso dentro de alguns dias quando chegarem minhas vestimentas novas. Afinal, eu devo estar apresentável para tal compromisso.
O tempo passou bem rápido dessa vez. Dois dias em um piscar de olhos, e ao raiar do terceiro dia, algumas encomendas foram entregues a nós no templo. Entre outras coisas, estavam as roupas que foram encomendadas e alguns outros acessórios e cortes de tecidos. Peguei meus embrulhos e procurei me preparar adequadamente o quanto antes para não ser um aborrecimento para Midoriko.
Banhei me como de costume e vesti meu quimono tradicional cortado finamente para minhas medidas. Em seguida tratei de arrumar meus cabelos e me maquiar da maneira mais discreta possível. Quando terminei, olhei me no espelho e não fiquei muito satisfeita com o que vi. Minha imagem continuava sendo chamativa demais para meu gosto. Mudei mais alguns detalhes mas não foi muito efetivo. Por fim Midoriko apareceu no quarto, e riu-se da minha inadequação.
Era incrível vê-la vestida como uma miko. Sua beleza era fria e resplandecia poder e classe. Por mais que ela me elogiasse, eu me sentia incrivelmente espalhafatosa ao lado dela.
Saímos andamos na direção em que seguiríamos para o vilarejo e depois seguimos na direção da estrada da colina. Era uma boa distância do vilarejo até a colina onde o castelo estava. Andamos por mais de duas horas, sob o sol preguiçoso do início da manhã enquanto conversávamos e apreciávamos a bela paisagem. Quando finalmente chegamos à frente da entrada principal do castelo fiquei impressionada com sua arquitetura majestosa.
Haviam guardas na entrada que respeitosamente nos cumprimentaram, reconhecendo à Midoriko. Percebi que eles me olhavam de soslaio, assim como os aldeões e não pude deixar de me sentir incomodada com isso. Midoriko percebeu minha decepção, e com sua altivez, disse a eles que tivessem mais respeito pela nova Miko da era moderna. Rapidamente os soldados se curvaram a mim pedindo minhas bênçãos. Eu as concedi rapidamente enquanto as grandiosas portas se abriam para que nós entrássemos.
Uma mulher ricamente maquiada e vestida com um quimono clássico em tons de vermelho escuro veio até nós e após nos cumprimentar respeitosamente comunicou nos que seu mestre Lorde Kurö Ookami, sua esposa e criança estavam com alguns convidados tomando o desjejum no jardim. Eles sabiam de nossa visita e ficariam felizes se nós nos juntássemos a eles. Apesar da gentileza do convite, e da pronta aceitação de Midoriko, percebi que ela transparecia um leve desconforto enquanto caminhávamos pelo castelo seguindo a tal mulher que fiquei sabendo posteriormente se tratar da governanta do lugar.
Saíamos por uma porta dupla de vidro na lateral do castelo que dava para a entrada de um iluminado jardim. O ar fresco e perfumado começava a esquentar, com o sol da manhã. Ouvíamos música e vozes com falas polidas enquanto caminhávamos por um caminho de pedras brancas permeado por salgueiros imponentes e outras plantas e flores. Não demorou muito para chegarmos finalmente ao centro do jardim: uma clareira arredondada, cercada por uma alta cerca viva de rosas vermelhas e espelhos d'água com carpas e outros peixinhos coloridos. No centro da clareira, uma mesa ricamente posta com toda a sorte de manjares e outra delícias exóticas. Os cheiros das especiarias imediatamente me arrebataram à ìndia. Se eu fechasse os olhos, poderia facilmente dizer que estava entrando em alguma casa abastada de Katmandu.
De pé na ponta da mesa, estava um homem que se levantou imediatamente ao nos ver chegar. Ele era imponente de pele bronzeada e olhos vermelhos e hipnotizantes como os olhos de um tigre. Seus cabelos eram dourados como os primeiros raios do sol e estavam presos no alto de sua cabeça por um rabo de cavalo. Sua face era máscula e harmoniosa como um rei élfico da histórias da terra média.
Ele saudou Midoriko e em seguida seus olhos invadiram os meus sem nenhum pudor ou cerimônia. Senti como se aqueles olhos me desnudassem completamente e aquele momento pareceu durar uma eternidade.
Ainda com seus olhos nos meus, ele perguntou algo à Midoriko que o respondeu com a mesma desenvoltura de sempre. Eu não prestei atenção alguma ao que disseram. Eu simplesmente não conseguia.
Neste instante uma outra serva chegou correndo e chamou a governanta de lado. Após alguns instantes a governanta voltou até nós e comunicou que seu mestre pedia que Midoriko lhe acompanhasse até o escritório, pois haviam tido um pequeno contratempo. Antes de sair, a governanta ainda voltou-se para aquele ser misterioso e lhe disse que seu mestre pedia que ele fizesse a gentileza de fazer companhia à nova miko, e apresentá-la adequadamente ao jardins do castelo.
Ele assentiu com a cabeça e disse que seria um prazer para ele, fazer tal favor. Midoriko me olhou com um semblante surpreso e antes de seguir a governanta apenas me disse. ""Fique tranquila Claire, você está segura aqui. Estarei de volta assim que for possível.""
Acompanhei a figura de Midoriko enquanto ela desaparecia pelo outro lado do jardim. Ouvi novamente a voz grave e calorosa de meu anfitrião, chamando- me para sentar à sua frente na mesa. Ele apresentou-se como Lorde Teigure o segundo general e contou-me que ele e seu capitão haviam chegado pouco antes de nós, e que estavam ali para uma visita trivial à convite de seu velho amigo e sua família. Ele disse que eu tinha um sotaque familiar e quis saber de qual reino eu teria nascido. À princípio relutei um pouco em falar de mim e de minha história, mas por fim decidi que deveria ser totalmente sincera. Expliquei que eu havia nascido em um país distante e sobre como a paixão de meus pais pelas culturas e misticismo em geral me levaram até índia onde passei boa parte da vida e posteriormente o Japão onde me tornei Miko e encontrei o poço que me trouxera a essa era. Ele me ouviu atentamente e sorriu antes de me perguntar se eu queria um pouco de chá. Eu respondi que sim, aceitaria um pouco, e ele caiu na gargalhada, visivelmente satisfeito com minha resposta.
Vendo a confusão em meu rosto, ele parou de rir e sorriu encantadoramente.
—O que é tão engraçado? — Eu perguntei incomodada.
—Eu não quis ser rude. Mas eu estou falando com você em sânscrito. E você me respondeu e não se deu conta. Quem diria que eu fosse encontrar uma humana que fala sânscrito depois de tantos anos vivendo aqui. -Disse ele parecendo tão fascinado quanto surpreso.
Naquele momento percebi que ele me chamou de humana. E o fez certamente porque ele era um Youkai. Só então reparei as orelhas pontiagudas e as marcas escuras em sua testa e punhos, além das unhas longas e de seus caninos levemente avantajados. Ele era extremamente atraente embora exalasse uma aura de superioridade muito diferente do youkai que nos atacou anteriormente.
—Você não percebeu mesmo, não é? Parece que essa é a sua língua nativa. -Ele prosseguiu falando enquanto eu o observava.
—Na verdade, não. A minha língua materna é o inglês, mas eu aprendi Sânscrito com meus pais desde nova. Eu não notei porque estava distraída com sua aparência. -Retruquei sem pensar e pus a mão na boca tentando calar-me quando terminei. Me senti duplamente imbecil. No momento em que ocorreu e agora ao descrever isso.
— Quero dizer... Eu nunca havia visto um youkai como você antes. O único que eu havia visto tentou me devorar e era monstruoso. -Eu tentei colocar as coisas de outra maneira, obviamente sem muito sucesso.
—Eu compreendo. Eu sou um Dai youkai. Isso significa que pertenço a uma raça pura. Quanto mais poderoso o youkai melhor é sua aparência. Pelo menos, à primeira vista. -Ele respondeu, parecendo divertido com a minha situação ridícula.
Em seguida acrescentou que havia nascido em terras além do mar, conhecidas pelo mesmo nome de índia, que eu havia citado. Por isso ele decidira falar em Sânscrito que era a língua local. Eu expliquei a ele que mesmo na minha era, o sânscrito era considerado uma língua morta, assim como o latim. E que embora eu tenha vivido na mesma região, eu conhecia uma versão mais moderna da índia onde ele nascera. Olhei para a mesa entre nós e respirei profundamente antes de continuar falando.
—Pelo menos as especiarias são as mesmas. — Eu conclui deliciada com tais aromas.
—Que bom que você aprecia. A maioria dos temperos e ervas aromáticas servidas aqui são provenientes do meu feudo. As terras do leste também exportam essas especiarias para reinos mais próximos. -Ele respondeu com satisfação e orgulho em seguida me serviu uma xícara do autêntico chai indiano com leite de cabras açúcar mascavo e especiarias.
— E então como está o seu chai? -Ele perguntou cordialmente.
—Delicioso. Eu imediatamente me senti em casa no primeiro gole.- Eu respondi confortada pela bebida.
—Eu fico feliz que se sinta assim. Afinal, essa era será o seu lar agora. — Ele respondeu com certo alívio na voz.
Após terminarmos o chai, ele se levantou e me convidou para conhecer o restante do jardim. Eu assenti com a cabeça e me levantei para segui-lo. Andamos por entre os caminhos e flores adversas enquanto conversávamos sobre amenidades.
Os minutos passaram voando e o assunto continuava cada vez mais interessante.
Estávamos sentados em um banco de mármore sobre um salgueiro preguiçoso, quando a governanta seguida por Midoriko vieram ao nosso encontro. A governanta falou brevemente com o Lorde que pediu licença e seguiu-a apressadamente de volta para dentro do castelo.
Midoriko sorriu e sentou-se ao meu lado antes de começar a falar.
—Claire, infelizmente houve um imprevisto com o Lorde e sua família e ele não poderá receber você devidamente hoje. Mas isso não é algo ruim pelo contrário. Ele recebeu informações sobre um artefato místico muito poderoso que apenas uma miko pode acessar. Eu terei que partir em busca desse artefato e farei isso em companhia do próprio lorde e sua esposa. — Midoriko disse mal disfarçando a empolgação em sua voz.
— Isso é maravilhoso, não é? Quero dizer, eu vou voltar ao templo. Farei o meu melhor e cuidarei de tudo até que você volte. -Eu disse disfarçando meu medo de ficar sozinha pela primeira vez naquela era.
—Isso não será necessário Claire. Eu não ficarei fora por muito tempo. Devo estar de volta em uma semana no máximo. Além disso, você ficará mais segura aqui do que sozinha no templo. -Midoriko ponderou.
—Espere, aqui? Mas... O General e a esposa vão viajar com você, não vão? Eu...
—Acalme-se Claire, eu sei que a situação é delicada. Mas quero que você saiba que tudo isso tem um propósito. O templo ficará bem pelos próximos dias. E as pessoas do vilarejo saberão que você estará aqui, em segurança e à disposição deles se for necessário. -Ela argumentou tentando me tranquilizar.
—Mas... Midoriko! Não vou me sentir bem assim. Eu não posso simplesmente ficar aqui sozinha no castelo deles! -Eu disse exasperada e envergonhada.
—Você não estará sozinha Claire. -Disse uma voz grave que havia retornado rapidamente. Lorde Teigure retornara e após de aproximar de nós, complementou. — Eu lamento mas ouvi o final da conversa de vocês. Midoriko está certa, você não deve ficar sozinha no templo. Não é seguro para você lá. Acabo de acatar um pedido de meu velho amigo. Enviei meu capitão de volta ao meu shiro e na ausência de Lorde Kurö Ookami eu ficarei aqui para garantir a segurança do feudo, do vilarejo e a sua. -Ele disse respeitosamente.
Eu estava incrédula e ainda mais envergonhada. Eu certamente não poderia ficar na casa de uma pessoa desconhecida, em sua ausência. Isso seria invasivo e constrangedor, dadas as circunstâncias. Mas seria imensamente pior ficar hospedada na casa de uma pessoa desconhecida, juntamente com ele! Por mais simpático e agradável que ele fosse.
—Eu agradeço imensamente mas... Eu não sei se... Se me sentiria confortável. -Eu o encarei por alguns segundos visivelmente apavorada e ele sorriu para mim.
—Não se preocupe, posso fazer muitos chai para você. -Ele argumentou e eu ri alto. Realmente com essa resposta, ele me fez relaxar.
Midoriko sorriu visivelmente mais aliviada com a situação. Eu a acompanhei até a porta principal do shiro e vislumbrei a carruagem do general e sua esposa descendo a colina. Abracei demoradamente minha amiga e desejei-lhe toda a sorte do mundo.
—Para você também Claire. Nos veremos em breve. Tenha cuidado e confie em você. -Recomendou- me Midoriko antes de partir.
Midoriko desceu a colina em uma carruagem e foi ao templo pegar algumas coisas para sua viagem. Ela partiu de lá mesmo. Uma serva daqui do castelo a acompanhou para ajudar com alguns itens pessoais meus.
Não demorou muito para que a serva retornasse e eu fosse devidamente acomodada no castelo.
Os quartos de hóspede ficam no segundo andar da construção e apesar de estarmos no Japão feudal fiquei surpresa ao encontrar camas de madeira entalhadas ao invés de futons e banheiros individuais dentro dos quartos, com água corrente e até mesmo um sistema para água aquecida. Há ainda um armário grande, um lareira de pedras e uma pequena mesa com duas poltronas. Fiquei dentro dos aposentos até a hora do almoço quando fui chamada por uma serva para fazer minha refeição junto ao general Teigure.
O almoço foi servido na sala de jantar do shiro igualmente luxuosa e imensa. Havia uma enorme mesa com pelo menos dezoito lugares no centro da sala. Em uma ponta da mesa estava acomodado o general e a outra ponta ricamente preparada para mim. Para minha surpresa a refeição era um prato típico Indiano, um dos meus favoritos. Ao vislumbrar o curry de peixe senti meu coração se aquecer.
A comida estava excelente embora meu anfitrião parecesse ligeiramente constrangido. Após a refeição conversamos ainda cordialmente enquanto ele me levava para conhecer o restante do castelo.
Meu anfitrião mostrou cada detalhe e falou também de seu próprio shiro. Ele contou me sobre seu feudo e seus capitães. Entre eles o seu próprio filho. Antes que eu ficasse chocada, ele me explicou que ele já tinha mais de quinhentos anos de vida. E que seu filho já possuía quase cem. Seu filho era fruto de uma relação arranjada que não dera certo. Meu anfitrião confidenciou-me que era solteiro desde então. Não sei precisar porquê mas senti um certo alívio com essa informação. A tarde seguiu tranquilamente assim como o início da noite. Após o jantar, me banhei e me preparei para dormir mas tive que escrever sobre tudo o que me ocorreu hoje. Estou cansada mas sinto uma onda de adrenalina percorrendo minhas veias. Não sei se vou conseguir dormir.
Os dias tem seguido calmamente ao contrário do que eu imaginara à princípio. Já se passaram dois dias desde a partida de Midoriko. E meu anfitrião continua sendo o mais interessante possível. Hoje precisamente, ele tirou o dia para me contar sobre como funciona a política e a divisão de reinos desde mundo.
Existem muitos reinos pelo mundo assim como muitos youkais e criaturas mágicas de todas as espécies. E para minha surpresa, descobri que estamos em um território físico muito diferente do Japão que eu conheço. Não se trata da ilha em si, mas sim do continente inteiro englobando a África, a Europa e a Ásia. Esse mega continente é dividido em quatro reinos principais. E o Reino das terras do oeste onde estamos, engloba a maior parte dos países asiáticos, somados às ilhas da Tailândia, Vietnã, Japão e Mianmar, que nesta era, não se afastaram geograficamente do continente e portanto, não são ilhas independentes. Por isso a necessidade de separar os reinos em feudos governados por generais. Há muito território em jogo e muitas terras precisam de administração adequada. O Reino das terras do Oeste possuem cinco generais, que são conhecidos como as garras da morte de Inu no Taishou, que é o nome do Lorde destas terras.
O general Teigure é muito paciente comigo. Acho que ele se diverte com minha curiosidade tanto quanto eu me divirto em aprender tudo isso. As horas passam muito rapidamente ao lado dele e eu raramente me dou conta disso.
Mais um dia se passou e eu mal consigo esconder a minha ansiedade. O dia de hoje começou quase igual a todos os outros, mas com uma diferença sensível. Meu anfitrião levou me antes do desjejum para ver seus poderes em ação. Fiquei maravilhada em vê-lo ficar invisível na minha frente! E sua velocidade e força, são espantosas. Em um momento ele me pegou nos braços e saiu correndo tão rapidamente que eu me senti voando.
Quando voltamos para o shiro no entanto eu não resisti e perguntei ele ficava tão tímido de comer perto de mim. Nesse instante ele perdeu o sorriso. Contou me que sua alimentação é diferente da comida humana e que ele não queria me deixar desconfortável.
Me senti péssima ao ouvir a reposta dele. Eu me desculpei pela minha inconveniência e completa inadequação e baixei meu rosto buscando esconder o vermelho violento de minhas bochechas. Mas para minha surpresa ele se aproximou de mim e com delicadeza ergueu meu rosto, me fazendo encará-lo.
—Não precisa se desculpar por nada, Claire. Você está apenas aprendendo sobre mim. Não há nenhum mal nisso. -Ele disse com seu sorriso mais doce.
E eu me senti novamente hipnotizada por aqueles olhos. Por um momento que pareceu uma eternidade senti seu polegar roçar levemente em meu rosto incendiando meu corpo inteira como uma faísca sobre a palha seca. Usei toda a minha força de vontade para me afastar daqueles olhos. E apenas consegui sair do transe porque a governanta apareceu nos jardins para nos comunicar que o desjejum já havia sido servido.
O restante do dia transcorreu na mesma tensão. Nós sempre acabávamos por nos tocar quase sempre sem intenção real. Mas uma onda de adrenalina invadia meu corpo sempre que ele se aproximava e eu estou começando a me viciar nisso. Após o jantar me retirei para meus aposentos sem querer me afastar dele. Mesmo depois de me banhar ainda sinto meu corpo aquecido pela lembrança do toque do General Teigure.
Ainda há pouco, o general enviou uma serva para verificar se eu precisava de algo. E eu quase pedi para ir ao encontro dele. Recapitulando, eu queria terminar a noite em companhia de um YOUKAI comedor de gente! Por mais absurdo que isso soe, eu não sei como, nem porquê, mas não me sinto ameaçada pela presença dele! Talvez seja esse o real motivo de sua periculosidade... Talvez eles sejam como uma planta carnívora que atraem suas vítimas para a armadilha mortal! Ou talvez... Eu só esteja ficando mesmo louca, como esse mundo estranho e absolutamente encantador."
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