Perdida Na Tempestade
16 Capítulo 16 -Fantasmas do passado
Notas iniciais
O lobo da neve levou a miko para um dos jardins do shiro. Aquela parte específica, era um lugar reservado, cercado por frondosas arvores e um labirinto de roseiras que culminava numa fonte de pedras brancas.
—Que lugar lindo... Eu nunca havia visto nada parecido por aqui antes!- Exclamou a miko, admirada com a beleza do lugar.
—Esse é o que restou do jardim de Brunhilde. Eu sei que você ficou triste em saber o que aconteceu a ela. Por isso queria que você visse esse lugar e quem sabe, eu pudesse te fazer sentir-se melhor. -O youkai sorriu melancolicamente enquanto se sentava em um banco colocado à sombra de um grandioso salgueiro numa das extremidades do pátio.
—Raijin... Que gentileza da sua parte. Essa história toda... Tanta tristeza e agonia vivenciada por seres tão próximos de todos aqui. É nítido que a simples lembrança desse incidente ainda abala e muito, todos que tomam conhecimento dele... -A humana disse, enquanto se acomodava ao lado do youkai, tocada pela sensibilidade do Lobo da neve.
—Sim... Esse "incidente" marcou a todos nós. Cada um de nós sofreu seu próprio trauma com tudo o que aconteceu. Para mim, a pior parte aconteceu depois do ataque. Meu pai nunca se recuperou dos ferimentos daquela batalha. Foram meses de agonia e sofrimento, até que ele finalmente partisse... Eu não sei como vocês humanos encaram o luto, mas entre os lobos como eu, a perda do companheiro é algo brutal. Nós só possuímos um parceiro durante toda a nossa vida e se porventura o perdemos, costumamos vagar sozinhos até encontrarmos nossa própria morte. Então, não foi nenhuma surpresa, quando minha mãe ainda abraçada ao corpo de meu pai, também parou de respirar. O coração dela, não suportou a tristeza de perder o companheiro de sua vida inteira. Eu ainda me lembro do quanto me senti desesperado e solitário no funeral de meus pais. Minha irmã, apesar de mais velha não teve forças sequer para me consolar. Nossos pais eram tudo para nós, e vendo-a naquele estado, eu tive medo de perdê-la também. Naquele momento odiei meus pais por partirem daquela maneira. Eu os odiei por defenderem os humanos com suas vidas. Decidi que eu jamais terminaria como eles, e isso me deu força para seguir em frente. Procurei Sesshoumaru após isso e me apresentei para assumir o lugar de meu pai como seu general, e desde então tenho me empenhado ao máximo neste propósito. Não foi nada fácil. Houveram muitos momentos obscuros e desesperadores. Momentos onde eu só sentia ódio e rancor por tudo o que me foi tirado. E eu simplesmente não me reconhecia mais. Mas no fundo, eu sabia que estava errado sobre meus pais, desde o princípio... Esse conflito dentro de mim, fez com que eu me afastasse de minhas crenças mais valiosas. Eu estava realmente perdido quando você me salvou, Kikyou... -O lobo da neve abriu o coração ainda que timidamente.
—Raijin... Eu nem sei o que te dizer... Eu sinto muito por você ter passado por tudo isso... Você... Você não deveria se martirizar tanto. Você fez o que era preciso. Eu consigo entender como é esse sentimento de não se reconhecer... Me tornei sacerdotisa quando era muito jovem. Fiz isso por minha família e pela minha vila. Eu me tornei a sacerdotisa responsável pela Joia de quatro almas pois, era a pessoa com mais dom espiritual entre todos. Tomei isso como minha responsabilidade e fiz o meu melhor, mas depois de algum tempo percebi que aquele fardo era demasiadamente pesado e solitário. Me tornei amarga e depositei minha esperança de liberdade em Inuyasha... Eu estava tão desesperada para voltar a ser eu mesma e ter uma vida "normal"... Fiquei cega por essa esperança. E acabei morrendo por conta disso. Mas graças a amizade e a consideração dele e de Kagome, eu fui revivida e libertada. Mas isso não significa que eu não me lembre do quão terrível foi passar por tudo isso. Quando conheci você... Foi terrível. Eu senti ojeriza do modo como você tratou aquelas youkais... Mas por um momento eu vi... Eu vi em você o mesmo olhar solitário e dolorido que eu tive naquela época... Foi como se eu... Como se eu me visse em um espelho. -Kikyou desabafou.
—Então é por isso que o cão sarnento se sente tão responsável por você? -Raijin perguntou curioso, arrancando uma risada da miko.
—Acho que sim... Eu devo muito a ele... Somos grandes amigos. -Kikyou declarou ainda sorrindo. Raijin retribuiu o sorriso, e a observou em silêncio por alguns instantes.
— Estar com você me tranquiliza, Kikyou. Eu ainda não sei como você faz isso. Mas me sinto em paz quando você está comigo. -O youkai acariciou o rosto da miko e aproximou-se para beijá-la ardentemente.
—Ah... Raijin... -Gemeu ela quando se afastaram.
—Adoro ouvir você gemer... Mas isso... Isso não pode continuar assim. -O youkai murmurou seriamente, buscando as palavras.
Kikyou o observou em choque por alguns segundos. Sentia o peso de cada palavra como se o chão lhe fosse tirado.
—O-o que você quer dizer com isso? Raijin... Você está me dizendo o que eu acho que está? -A sacerdotisa murmurou atônita, tentando manter sua razão acima de sua emoção.
— Eu sei que isso pode parecer repentino demais... Mas temos que encarar a realidade, Kikyou... Do jeito que estamos, não vamos conseguir nos segurar por muito tempo e eu nunca me perdoaria se você fosse desonrada. Por favor, tente me entender. Como general eu também tenho uma reputação a zelar e eu odiaria...
—Já chega! Eu já entendi tudo. -A miko se ergueu em um rompante.
—Você entendeu? Que ótimo... Mas então, porque você parece estar tão zangada? Achei que fosse isso que você quisesse também. -Raijin ergueu uma sobrancelha desconfiado.
—Eu queria? Eu só queria que você me amasse Raijin, será que você não é capaz de perceber isso? Eu não queria nada além disso... Adeus, Raijin. -A humana virou-se pôs-se a correr para fora do jardim para esconder as lágrimas que desciam sem controle por sua face amargurada.
—Kikyou? Onde pensa que vai? -Raijin se levantou, confuso e irritado e conseguiu pegá-la pelo pulso antes que ela se afastasse demais.
—PRA LONGE DE VOCÊ! Fique com sua maldita reputação, você não precisa de mim, uma simples humana! E você não pode "se desonrar" se deitando comigo! Eu só servi para a sua diversão, não é? -Gritou a miko entre lágrimas de ira libertando o pulso das mãos do youkai e um movimento brusco.
—Longe de mim? NÃO! O que pensa que está fazendo, Kikyou você entendeu tudo errado! -Raijin tentou se aproximar mas a miko usou seus poderes para fugir e criar uma barreira de fumaça para impedir que o youkai a seguisse.
Usando a levitação e seus poderes, Kikyou avançou o mais rápido que pode para tentar voltar ao castelo, pois queria poder chorar em paz. Mas após muitos minutos correndo sem sequer olhar para onde estava indo, a miko finalmente se deu conta de que não estava mais no jardim do shiro e sim no meio da floresta que o cercava.
—Droga! Como eu vim parar aqui? Que droga, DROGA!- Esbravejou ela, antes de sentar-se no chão abraçar os joelhos e pôr-se a chorar.
Ela se sentia a pior das criaturas. Pelo simples motivo de já ter sido enganada uma vez por um youkai, ela deveria saber que Raijin e ela, nunca dariam certo. Mas só de pensar que não o teria mais, que não sentiria mais seus lábios e suas carícias, ela perdia o chão. Sua mente estava confusa e nada parecia fazer muito sentido. Como se muitas pessoas estivessem em sua mente falando ao mesmo tempo. Estava tão absorta em sua tristeza que não percebeu que alguém se aproximara.
—O que uma humana com a sua beleza faz sozinha aqui? -Perguntou um belo macho youkai com cabelos verde esmeralda, assim como seus olhos. Ele estava bem vestido, e Kikyou Imaginou que ele fosse um soldado do Shiro.
—Oh não nada. Estou apenas precisando de ar fresco. Eu já vou embora. – Disse ela limpando rapidamente os olhos e se levantando.
—Uma fêmea tão bonita quanto você, não merece chorar. Seja por quem for. –Disse ele entregando um lenço a ela. Kikyou estranhou a gentileza, e com hesitação, aceitou o lenço.
—Obrigada. Eu tenho que ir agora, está ficando tarde... O senhor poderia me mostrar em qual direção devo ir? –Perguntou ela educadamente. O youkai sorriu enigmático.
—Eu posso levá-la. Seria um grande prazer. – Disse ele fazendo uma reverência. Kikyou no entanto, pressentiu o perigo.
—É muita gentileza sua, mas não será necessário... Eu estou com pressa e não quero atrapalhá-lo. – E virou-se para se afastar o quanto antes, mas mal deu alguns passos sentiu as pernas falharem.
—Onde pensa que vai, minha deliciosa amiguinha? – Riu o Youkai deixando uma enorme língua de cobra sair de sua boca, e enlaçar a miko como uma corda, trazendo-a de volta até onde ele estava.
—Ugh... Maldito youkai... O lenço... Havia algo nele... -A miko se contorceu ao sentir seu corpo sendo imobilizado e puxado de volta pelo youkai.
—Exatamente minha querida... Mas fique tranquila é apenas uma toxina para manter você um pouco mais relaxada... Você tem sorte de precisarmos de você viva...-O youkai cobra, grunhiu enquanto trazia a humana para cada vez mais perto de si.
—Me solte... Você vai se arrepender disso! -Kikyou gritou para ele, mas só obteve como resposta a gargalhada de deboche do youkai cobra.
Segundos depois, quando finalmente ele se aproximou o bastante para tocá-la, um trovão foi ouvido bem perto deles e o youkai cobra se virou rapidamente deixando que a miko caísse sentada ao chão.
—Você a ouviu. Solte-a o quanto antes, e talvez eu tenha compaixão de você... – Disse uma voz que Kikyou conhecia bem. Era Raijin que tinha ido atrás dela.
—E quem é você que acha que pode me matar? -Disse o Youkai, rindo da afronta e erguendo a miko pelo braço, colocando-a à sua frente como um escudo.
—Eu sou Raijin, o primeiro general das terras do Oeste. E não vou avisar de novo. — Respondeu o lobo da neve, visivelmente irritado.
—Ora General, nós não precisamos brigar só por causa de uma humana! Por que não a dividimos? Você pode ir primeiro se quiser e vou depois! Olhe que pele macia que ela tem e que seios. Tenho certeza que o senhor apreciaria essa linda boca chupando o senhor! Eu sei que vou gostar muito. – Debochou ele, farejando o pescoço de Kikyou.
Raijin avançou sobre ele e imediatamente os olhos do youkai cobra brilharam, denunciando seus poderes. Uma serpente gigante brotou do chão bem à frente de Raijin que bradou sua Kaminari no būmu (Lança do trovão) e a atacou.
Aproveitando-se da distração do general, o youkai cobra tentou tomar a miko em seus braços, mas Kikyou reagiu. E usando o que restava de sua consciência e de seus poderes espirituais, conseguiu fazer seu corpo inteiro arder com o fogo sagrado, obrigando o youkai a largá-la no chão para tentar apagar as chamas que propagavam em seus braços, tronco e rosto.
Raijin continuava lutando contra a serpente gigante, e a miko tentava se afastar o máximo que podia de seu algoz, mas suas pernas continuavam enfraquecidas.
—Maldita! Vou te mostrar que ninguém brinca comigo. Eu subestimei você antes, mas não farei isso novamente. – Disse ele após conseguir apagar as chamas.
Suas feições antes tão belas e delicadas, agora denunciavam a monstruosidade de seu caráter. Parte de seu rosto e braços estavam queimados até o ponto onde parte de seus ossos estavam aparentes. Ele retirou outra pena de pavão, da bolsa rudimentar que levava e foi na direção da miko.
Kikyou temeu por sua vida por alguns instantes, mas no momento em que se youkai cobra se aproximou o bastante para atingi-la, teve que desviar da cabeça decepada da enorme serpente. E diante dele surgiu Raijin, imerso em uma nuvem de raios e miasma.
—Quem é você, seu verme? -Vociferou o lobo da neve, após pegar o youkai cobra pelo pescoço em um movimento rápido, brusco e violento.
—Hayato, o verdadeiro príncipe herdeiro do clã das serpentes brancas! – Respondeu o youkai com dificuldade.
—Você quer dizer, o maldito bastardo filho dos traidores Shigeko e Mizuki... Então veio nos espionar como o desonrado que você é... Diga o que sabe ou vou partí-lo ao meio! – Raijin ameaçou entre os dentes.
—Hahahaha... Essa brincadeira já me cansou. Cuide da minha Miko, eu volto para buscá-la... – Tomado pela ira o lobo da neve faz menção em quebrar o pescoço de youkai cobra, mas observou decepcionado, quando ele se transformou em uma serpente comum. Raijin pegou o animal pela cabeça e esmagou-a como um fruto podre.
Kikyou finalmente conseguiu se sentar, ainda com dificuldade. Raijin a ajudou a se levantar e a abraçou com urgência e alívio.
—Você está bem, Kikyou? O veneno... Ele usou isso em você? -Perguntou ele olhando-a nos olhos e examinando o corpo dela minuciosamente.
—Não conseguiu me atingir com o veneno da pena... Não se preocupe, eu estou bem. Não sei como explicar isso, mas, parece que o fogo sagrado que eu usei, conseguiu anular o efeito da tal toxina que ele usou em mim. O que aconteceu a ele? – Perguntou a miko, olhando os restos da serpente no chão.
—Era uma espécie de cópia dele... O verdadeiro Hayato deve estar bem longe daqui... – Disse Raijin com uma expressão fechada.
—Eles tiveram um filho? -Perguntou Kikyou ainda confusa.
—Sim, na ocasião da traição, Mizuki alegou que não sabia de nada, que o marido havia a enganado também. Ela estava prenhe e como não haviam provas que a incriminavam, Teigure, meu pai e Katashi o pai de Isamu, como os três generais do falecido lorde Inu no Taishou, juntamente com Lady Satori Hime, decidiram poupar a vida dela. Mas ela foi expulsa das terras do oeste, e despojada do cargo de senhora do clã, da serpentes brancas.
—Então... Ela não quer apenas poder... Ela quer vingança... –Disse Kikyou.
—Ela quer mais do que isso, quer destruir a todos nós. E agora quer você... – Disse Raijin, com uma expressão preocupada.
—Mas a mim? Por quê? – Questionou Kikyou.
—Isso não importa, só temos que te manter em segurança. Isso significa que você NÃO PODE se afastar do SHIRO SOZINHA. — Raijin foi enfático.
—Eu NÃO SAÍ DO SHIRO SOZINHA, pra começar... Mas depois de tudo o que você me disse o que esperava que eu fizesse? Ficasse e agisse como se nada estivesse acontecendo? –Respondeu ela igualmente exaltada.
—Tudo o que eu disse? E o que eu te disse de tão ruim que fez você agir assim? Será que você pode me informar? -Raijin questionou exaltando sua frustração.
—Como você pode ser tão cruel comigo Raijin? Você me disse que não poderíamos continuar... Que a sua MALDITA REPUTAÇÃO NÃO PODE SER MACULADA... O que mais eu precisaria ouvir de você? QUE VOCÊ NUNCA VAI ME AMAR? Que fomos apenas amantes e NUNCA SERÍAMOS NADA ALÉM DISSO? -A miko explodiu em lágrimas e ira. Mas foi contida por um beijo terno e apaixonado do youkai que colou sua testa a dela buscando acalmá-la.
—Eu nunca disse isso... Você não entende? Olhe para nós, Kikyou. Olhe o modo irracional como você está agindo! Nossa ligação... Você e eu, não podemos continuar do jeito que estamos, porque não vamos conseguir nos conter por muito tempo. Preciso tornar você minha fêmea o mais rápido possível porque eu estou enlouquecendo sem você... E isso também vai acontecer com você, porque o seu coração já está preso a mim... -Raijin sussurrou ainda tentando contê-la e mantê-la em seus braços.
—EU... Eu não entendo Raijin... O que tudo isso quer dizer? Que inferno, eu não sei porque estou sendo tão impulsiva... Eu não sou assim! -Kikyou soluçava, buscando apoio no peito do youkai.
Raijin continuou abraçando-a intensamente, e quando sentiu que ela se acalmou um pouco, tirou de dentro do bolso de sua hakama uma caixa de madeira.
—Era isso que eu queria te mostrar mais cedo. Acho que não consegui me fazer entender... — Murmurou o youkai entregando a caixa à kikyou que descobriu o imponente colar de prata com a garra cristalizada.
—Raijin, isso é...
—A minha garra. Arrancada em uma noite de lua azul, como dita a tradição do meu clã. Esse é o símbolo do meu compromisso. E eu quero que seja seu. Eu escolhi aquele lugar para pedir a você que seja minha prometida, Kikyou. Mas eu não contava com o fato de nossa ligação estar tão forte... Pra ser franco eu mesmo nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo. -O lobo da neve ponderou enquanto colocava o colar no pescoço da miko que estava em choque, emocionada e aliviada.
—Raijin eu lamento por isso... Me desculpe, por favor! E-eu fiquei fora de mim, quando imaginei que você...
—...Que eu pudesse abandonar você... Sim, eu sei. Eu me senti da mesma maneira quando imaginei que você pudesse estar interessada no Hikaru. É um sentimento irracional e incontrolável não é? -Raijin abraçou-a carinhosamente.
—Como isso é possível...? Isso acontece com as fêmeas quando elas são marcadas, não é? Mas você não me marcou... Então...- Kikyou ponderou ainda abraçada ao lobo.
—Existe uma explicação, mas é algo muito raro. Um laço vermelho escarlate, tecido pelo próprio destino, que pode ser perdido, ou se tornar algo muito maior...
—... Um laço de prata... -Murmurou Kikyou lembrando-se do diário de Claire e da relação dela com seu general.
—Sim... E cabe a nós decidir sobre esse laço. E eu estou disposto a fazer o que for preciso para tornar nosso laço inquebrável Kikyou... Mas não vou desonrá-la tomando sua virgindade aqui, nesse lugar, ou em qualquer outro apenas por desejo... Você merece mais do que isso. Tudo o que fizermos, será apenas por nossa vontade e para engrandecimento do nosso laço. -Raijin enfatizou mostrando todo a sua hombridade.
—Raijin... Eu também... Quero muito isso. Na verdade, sinto que eu preciso disso para voltar a ser eu mesma... Entendo a sua colocação quanto a nossos atos, mas... Eu tenho um pedido a te fazer. -A miko falou com convicção.
—E o que é... -O lobo da neve acariciou suavemente o rosto de sua prometida.
—Quero que você me marque agora... Me torne a sua fêmea de uma vez por todas... -Kikyou falou olhando nos olhos do lobo da neve e foi a vez dele ficar chocado.
—Kikyou... Eu estou certo do que eu quero, mas, você entende que esse passo é algo irrevogável? Você tem certeza de quer mesmo isso? Nós podemos esperar... -O lobo da neve questionou-a apreensivo.
—Sim, eu tenho. Acredito que essa espera seja inútil no fim das contas. Raijin nós já estamos ligados. Sua marca vai apenas ser mais uma formalidade... Mas eu sinto que preciso disso para me sentir mais segura. -A miko constatou percebendo o alívio tomar o olhar do youkai.
Afastou -se um pouco ainda segurando a miko pela mão e tomou sua forma parcialmente youkai. Era, uma espécie de forma intermediária, as feições de um lobo demônio, com garras e cabeça de lobo, mas com corpo humanoide. Branco como a neve mas com marcas geométricas azuladas, assim como os olhos, que faiscavam como raios em fúria.
— Kikyou, essa é minha forma youkai. Mesmo não estando completa, é assim que eu sou. Se aceitar ficar ao meu lado, sabendo quem eu sou, vai se tornar parte de mim. É isso o que você quer?- Disse ele com sua voz grosseira e gutural.
—Eu já sou parte de você... –Respondeu ela acariciando o rosto monstruoso dele.
Ele pegou a mão dela de forma delicada e a lambeu. Em seguida girou o corpo dela com violência, pondo-a de costas para ele, arrancou parte da blusa dela com as garras e mordeu-lhe o ombro bruscamente. Kikyou gritou, mas teve seu grito abafado pela mão de Raijin que continuava com as presas cravadas em seu ombro. O cheiro do sangue dela o inebriava ainda mais, e ele teve de usar toda a sua força de vontade para não se transformar por completo. Kikyou ainda se debatia, quando um torpor tomou conta de seu corpo. Uma sensação estranha, como se seu corpo estivesse todo dormente. Depois disso, ela acabou por perder os sentidos.
Kagome estava em seu quarto tentando criar um antidoto para os venenos recém-descobertos, quando de repente sentiu uma dor aguda no ombro.
—AAAARRRGGHH... – Mas o que é isso? Que dor, horrível!- Gritou ela segurando o ombro sem entender o porquê daquela dor. Depois de alguns segundos Inuyasha entrou correndo.
—Kagome? O que foi? – disse ele pegando-a no chão.
—Eu senti uma dor muito forte no ombro. Como se ele tivesse sido dilacerado por alguma coisa! –Disse ela se levantando. Inuyasha descobriu o ombro dela, mas não havia nada lá.
—Ué? Passou de repente!- Disse Kagome olhando intrigada para Inuyasha.
—Ora Kagome se você queria um pouco de atenção era só me chamar... Eu viria correndo de qualquer jeito. – Disse ele, sorrindo com uma sobrancelha levantada.
—Inuyasha isso é sério! Eu senti uma dor forte no ombro! E, além disso, eu não preciso disso para chamar sua atenção! – Disse ela chateada por ele pensar que ela fosse capaz de algo tão infantil.
—Eu só estava brincando Gome! Eu sei que você não faria algo do tipo.Pode ter sido uma dor muscular talvez. Você trabalhou muito nesses venenos de ontem para hoje. Aposto que não descansou quase nada. — Disse ele envolvendo-a nos braços.
—Bem para falar a verdade eu dormi só um pouquinho mesmo... – Disse ela se aconchegando no peito dele.
—Viu? Agora se esqueça deles um pouco, eu vou pôr você para dormir um pouco. – Disse ele pegando-a nos braços e levando a para o penúltimo quarto à direita do de Sesshoumaru.
—Mas por que tenho de dormir no SEU quarto? – Perguntou Kagome, curiosa.
— Por que se eu deixar você no seu, provavelmente vai se levantar e vai voltar ao trabalho. Aqui não, vai poder descansar bem. – Respondeu ele cheio de carinho enquanto punha a na cama dele e a cobria.
—Mas eu vou ter de dormir sozinha? Você não quer se deitar comigo?- Perguntou Kagome maliciosa. Inuyasha estava tentado, mas sabia onde aquilo terminaria.
—Acho melhor não Gome... Você tem que descansar! – Disse ele sorrindo, enquanto via Kagome ficar emburrada.
—Posso pelo menos ganhar um beijo de bom sonhos? – Disse ela de cara amarrada. Inuyasha assentiu com a cabeça, mas no momento em que beijou Kagome ela o agarrou e o girou fazendo com que ele se deitasse na cama e ficando por cima dele. Aproveitou para beijá-lo novamente. Até que ouviram uma discussão. Inuyasha subitamente levantou-se e pôs-se a farejar o ar.
—Inuyasha, o que foi? O que está acontecendo lá fora? – Perguntou Kagome curiosa. O hanyou levantou-se rapidamente e foi seguido por Kagome.
Ao abrirem a porta e chegarem ao corredor, viram Raijin andando em direção ao seu quarto, seguido por Yukina. Nos braços dele Kikyou jazia desacordada.
—Raijin! Estou falando com você! Como você ousa marcar a humana, assim, sem me consultar? Essa marca pode levá-la a morte! – Disse Yukina alterada. Raijin continuava andando sem sequer dirigir seu olhar a ela.
—Kikyou? O que você fez a ela seu monstro?- Gritou Kagome correndo ao encontro deles. Raijin olhou para ela igualmente indiferente.
No entanto o grito de Kagome chamou a atenção de Igraine e Rin, que vieram correndo para ver do que se tratava.
—Kagome, o que houve? Kikyou? O que aconteceu com ela? – Perguntava Rin preocupada. Igraine parou um pouco antes e ficou farejando o ar. Hikaru e Tatsuo também vieram ver do que se tratava e ficaram igualmente estagnados um pouco antes.
Inuyasha parecia em choque, e foi Raijin que tomou a iniciativa de falar com ele.
—Sei o que está pensando e o que isso parece, mas antes que você me julgue erroneamente, quero que saiba que essa foi a decisão dela. E a prova disso está bem aqui. -O lobo da neve mostrou o colar que deu a Kikyou minutos antes dela pedir para ser marcada.
O burburinho nervoso deu lugar a um silêncio surpreso. O hanyo contemplou a joia no pescoço de kikyou enquanto ela ainda estava nos braços de Raijin, e baixou o olhar balançando a cabeça negativamente, parecendo não acreditar em seus olhos.
— Como as coisas chegaram a esse ponto? Vocês dois mal se conhecem! -O hanyo argumentou tentando compreender a situação.
—Espere um pouco, por favor. Eu preciso cuidar dela antes de qualquer coisa. -Raijin murmurou abrindo a porta de seu aposento e colocando a miko delicadamente sobre a cama.
Yukina entrou logo em seguida no aposento e começou a tratar da ferida no ombro da humana, sendo auxiliada por Kagome que a seguiu de muito perto. Rin pretendia ajudá-las também, mas foi impedida por Igraine que segurou seu braço, nitidamente assustada.
Vendo-a naquele estado Tatsuo se aproximou dela e de Rin e com um sorriso gentil pôs-se a acalmar as duas, explicando que o colar se tratava de um sinal de compromisso entre os youkais. Hikaru aconselhou Inuyasha a esperar por Raijin e deixá-lo se explicar.
E logo em seguida aproximou-se de sua irmãzinha abraçando-a ternamente e propôs que eles tomassem um pouco de chá no jardim para que ele e Tatsuo pudessem explicar adequadamente tudo o que estava acontecendo.
Inuyasha ficou na porta do aposento observando os cuidados prestados a Kikyou enquanto Raijin parecia cada vez mais consternado.
No quarto de Raijin, Kagome limpava o ferimento de Kikyou, mas ela permanecia inconsciente.
—O que aconteceu a ela? Olhe só que ferimento estranho! Parece uma mordida de animal selvagem! –Dizia ela sem compreender o que acontecia.
—Kagome isso não é um ferimento comum. É uma marca feita por um youkai. – Disse Yukina com voz calma. Não era perceptível, mas ela estava ainda mais assustada que Kagome.
—Uma marca? Como assim? – Perguntou a miko, surpresa.
—É a minha marca... — Respondeu Raijin ainda mais tenso.
—Eu tinha razão não é? Foi você quem fez isso a ela!- Disse Kagome já se levantando e se preparando para agredi-lo, mas Yukina interveio em favor do irmão.
—Não Kagome! O que Raijin quer dizer é que ele fez a marca. E isso significa que ele fez dela a fêmea dele. Os humanos têm outro nome para isso. Como é mesmo? Ah sim, Casamento!–Disse Yukina exasperada esperando que Kagome entendesse.
A jovem miko pôs as duas mãos na boca, em sinal de surpresa.
—Então quer dizer que você... Mas e o colar? – Perguntou Kagome incrédula. Raijin estava sentado tranquilamente na beira da cama.
—Minha intenção era tê-la como minha prometida. Mas ela me disse que só aceitaria meu pedido se eu a marcasse. Eu não pude me recusar a fazer algo que eu mesmo desejava tanto... – Respondeu ele a Kagome sem tirar os olhos de cima de Kikyou.
Kagome não acreditava, nos próprios ouvidos, mas se o que ele dizia era verdade, ficaria feliz por ela. Dirigiu sua atenção novamente para o ferimento de Kikyou e notou que ele estava cicatrizando muito rapidamente. Formando uma cicatriz em forma de uma cabeça de lobo e um raio, semelhante a um brasão. Assim que cicatrizou por completo. Kikyou despertou repentinamente.
—Kagome? Yukina...? O que houve... Comigo? – Perguntou ela abrindo vagarosamente os olhos. Kagome sorriu tentando acalmá-la.
—Você não se lembra?- Perguntou Inuyasha se aproximando lentamente da cama.
—Inuyasha... Sim... Raijin me pediu para ser a prometida dele. Mas eu senti o nosso laço... Eu pedi para que ele me marcasse, porque já pertenço a ele. -A miko argumentou enquanto seus olhos encontravam os olhos de Raijin que se levantara para se sentar a lado dela.
Yukina e Kagome se entre olharam e Inuyasha calou-se.
— Eu sei o quanto vocês são importantes para Kikyou, do mesmo modo que minha irmã Yukina é importante para mim. Por isso tenho um último pedido a você general Inuyasha e você senhorita Kagome e você também, irmã. Preciso que vocês nos deem a suas bênçãos. -Raijin os reverenciou respeitosamente.
—Mas é claro que vocês tem a minha benção! Eu desejo a vocês toda a felicidade do mundo- Kagome sorriu abertamente e em seguida colocou-se ao lado do hanyo que encarou-a por alguns instantes antes de se pronunciar.
—Kagome está certa... Eu também faço votos de prosperidade e felicidades ao casal. Kikyou sempre será nossa amiga então cuide bem dela Raijin, e nós seremos eternamente gratos. -O hanyo respirou fundo antes de falar.
—Eu achei que esse dia nunca chegaria meu irmão... Mas fico feliz em saber que se trata da Kikyou. Ela é uma fêmea muito honrada. -Yukina disse finalmente reverenciando o casal.
Kikyou ajeitou-se na cama sentando-se. Logo que o fez, abriu os braços para abraçar Kagome por longos minutos.
—Não hesite em me chamar se precisar de alguma coisa. Não se esqueça de que eu te amo irmãzinha. – Concluiu Kagome carinhosamente. E em seguida ela, Inuyasha e Yukina deixaram o quarto.
Raijin trancou a porta atrás de si e voltou sua atenção para Kikyou que sorria para ele. O youkai caminhou até a humana e examinou cuidadosamente a marca em seu ombro.
—Como está se sentindo, minha fêmea? -Ele perguntou parecendo levemente preocupado.
—Um pouco cansada... Mas estou em paz, finalmente. E você como se sente meu marido? -Kikyou acariciou o rosto do youkai.
—Estou pronto para encarar uma guerra e vencê-la o quanto antes para podermos ir para nossa casa e vivermos nossos dias juntos até o fim... Mas por agora, vamos apenas descansar um pouco mais... Nós dois merecemos. -Ele murmurou antes de beijá-la novamente e aconchegá-la em seus braços.
Yukina chegou a seus aposentos e se deixou cair sobre a cama. Lembrou-se de todas as perguntas feitas a ela durante a reunião. E de como ela tivera que sair daquela situação. Lembrou-se do irmão, e de como ele havia mudado desde que conhecera Kikyou. Chegando à marcá-la, como sua fêmea, mesmo ela sendo uma humana.
"Os humanos são mesmo criaturas poderosas, mesmo sendo tão frágeis. Eu nunca pensei que meu irmão que odiava humanos pudesse se unir a uma fêmea humana. Eu pensei que só eu quisesse cometer essa loucura...” Pensou ela consigo mesma.
Ouviu algumas batidas na porta. Levantou-se e foi até lá para ver de quem se tratava.
—Vim ver como você estava. Eu soube que Raijin cometeu um ato de loucura. – Disse Isamu entrando no quarto dela. Yukina fechou a porta atrás dele. Em seguida apontou para duas poltronas no canto direito da porta.
—Eu não vou me demorar, só quero saber se você está bem. Sabe que eu tenho muito apreço por você. – Respondeu ele. Yukina desviou os olhos dele.
—Sim, eu sei Isamu. Você sempre me foi um bom amigo. – Disse ela fazendo uma reverência.
—Tenho que ser, sou seu prometido. É minha obrigação, cuidar de seu bem estar. A propósito, agora que Raijin já tomou sua própria fêmea, acho melhor adiantar nosso noivado para depois que essa guerra acabar. O que me diz?
—Claro, se é a sua vontade. – Respondeu ela friamente. Isamu concordou e em seguida beijou a testa de Yukina, um beijo mecânico sem emoção
—Até mais tarde. — Disse ele, saindo do quarto. Yukina fechou a porta e caminhou até a cama, mas desta vez se encolheu, como uma criança assustada.
E pela segunda vez naquela semana chorou.
(Isamu, o quinto general das terras do oeste.)

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