Perdida Na Tempestade
79 Apavorante ciúme...
Notas iniciais
A festa da união começou após isso, com toda a pompa que a ocasião pedia embora a discrição fosse à palavra de ordem.
Todos os aliados e, sobretudo os amigos, aproveitaram para socializar e saber as últimas novidades.
As danças de honraria começaram em seguida enquanto os casais rumavam para os quartos para consumarem as uniões. Assim que os Inu youkais saíram, os comentários maldosos se tornaram abertos, muito embora a maioria dos generais e capitães ainda estivesse no salão.
Mesmo em meio à censura, as humanas, e hanmas presentes, se puseram à dançar, com toda a sensualidade que possuíam, e junto com os demais machos, ignoraram prontamente à toda a hostilidade imposta.
As youkais aliadas também não se fizeram de rogadas, e se uniram às a amigas na tarefa de se manterem dignas, e fortes, mesmo entre tantos olhares odiosos.
Foi deste modo que Kagura, Yukina, Ritorirï, Aika, Byakurö, Emi, e Souten, entraram nas danças. E para surpresa de todos, Satori juntou-se à elas, calando alguns youkais mais exaltados.
Alguns dos ditos “aliados” foram embora ao final da cerimônia, por não quererem se “sujeitar” a dividir o mesmo ambiente que as humanas. Os que ficaram não fizeram esforço algum para disfarçar o incomodo que sentiam, por terem de estar perto delas.
As fêmeas youkais dos mais poderosos seres dançando e defendendo a presença dos humanos, no entanto, era algo muito perturbador para a maioria deles, e os fazia pensar duas vezes antes de expressarem quaisquer opiniões contrárias, com mais energia.
Contudo, apesar de todos os esforços, estava nítido que a opinião deles sobre os humanos, não seria mudada tão facilmente, e que apesar de aparentemente aceitarem a presença deles entre os nobres, isso não significaria que não se rebelariam contra tal prática.
Akane e Agláia eram exemplos disso. Apesar da iminente derrota das duas no campo amoroso, as duas transpareciam tranquilidade. Riam e se divertiam como se nada houvesse dado errado para elas. Mas era nítido o desprezo que destilavam para as humanas e hanmas presentes. E apesar da calmaria que as duas exalavam, Minara estava cada vez mais intrigada.
A hanma ruiva sentou-se na mesa destinada à aos Taigas, após a primeira valsa, enquanto Hikaru, fora dançar com Claire, Teigure tomava Satori, acompanhados de Igraine e Tatsuo. Inconscientemente, a hanma pôs-se a observar as duas youkais, que estavam do outro lado do salão. Minara estranhara especialmente o fato de Agláia sequer aparecer nem por um minuto que fosse a sua nova casa, o Dai Ni no shiro, e apesar de todos os demais ocupantes do shiro afirmarem que Agláia apenas havia se dado por vencida, a hanma do tempo, não conseguia se convencer disto.
Para ela, Agláia e Akane, estavam envolvidas em todos os ataques, embora ela não tivesse a menor ideia de como elas haviam feito para executá-lo.
A mente da hanma ruiva divagava entre tais pensamentos, quando ela se deu conta de que havia um par de olhos amarelo-esverdeados, que ela conhecia bem, encarando-a bem de perto.
—A garotinha tá preocupada? O que pode estar roubando tanto da sua atenção? –Talon perguntou enquanto se sentava ao lado da hanma. Logo em seguida pegou a mão de Minara entre as suas e a beijou.
—Talon! Hahaha continua o mesmo galanteador barato! –Riu a hanma inclinando-se para abraçá-lo calorosamente o que o pegou de surpresa.
—Garotinha! Não faça assim, seu macho pode não gostar disso... –Talon disse sorrindo de lado.
—Ah não seja bobo Talon! É só um abraço entre amigos! Meu macho não ficaria com ciúmes por causa de uma coisa tão boba... Além disso, ele não se esquece de que graças a você ele está bem, e vivo! –Minara revelou sorrindo.
—Eu não fiz nada garotinha... Apenas não quis ver você chorando... Mas conte-me, como está a vida de casada? Está gostando? –Talon perguntou com um leve tom de incômodo na voz.
—Está indo bem, apesar de ter alguém por aí querendo me separar do meu macho... -Minara disse desanimada.
—Ora garotinha, isso não é tão grave... Tenho certeza de que seu macho vai lutar com unhas e dentes, para te proteger, não é? Afinal ele é um general do Lorde Sesshoumaru, e com certeza isso quer dizer alguma coisa... –Talon desferiu levemente sua ironia, mas Minara foi capaz de percebê-la.
—Onde está querendo chegar Talon? –Minara ergueu uma sobrancelha, intrigada.
—Ah, em lugar algum, para ser franco... Só acho que... Vocês são um casal visado. Ele tem seus méritos, e você, é uma linda fêmea, garotinha, completamente devotada, ao que sente por ele... Qualquer macho mataria, para ter o que seu macho tem... –Talon revelou encarando-a seriamente.
—Talon, eu nunca vi as coisas por esse ângulo... Talvez meus sogros estejam certos... Talvez todos tenham razão afinal... –Minara murmurou voltando seu olhar para Agláia.
—Você devia me ouvir mais garotinha... Eu só quero seu bem. –Talon murmurou enquanto acariciava o rosto da hanma que sorriu em concordância.
Para Minara Talon era um bom amigo, um “primo” assim como Naelle. E isto, somado à gratidão que ela nutria por toda a ajuda que ele havia lhe prestado a impedia de vê-lo como macho. Por conta disso, ela permitia e até mesmo incentiva um contato mais íntimo entre eles, como abraços, e afagos carinhosos, repletos de fraternidade.
O momento de ternura entre eles tirou-lhes a atenção sobre a música e quando deram por si, ambos foram surpreendidos por Hikaru, que passara parte da valsa, observando a intimidade de sua fêmea para com o príncipe das terras do fogo.
—Boa noite Príncipe... Príncipe Talon das terras do fogo! É muito bom revê-lo! Ah, mas onde estão meus modos! Perdoem-me, será que eu incomodo o jovem casal? –Hikaru disse com desenvoltura enquanto encarava os dois com sua expressão mais fria, tornando nítido o seu desagrado.
—Incomoda?Hikaru? O que deu em você? –Minara o indagou surpresa com a atitude dele.
—Não há incomodo algum de nossa parte, General. Contudo, imagino que minha presença junto à sua fêmea, o incomode o suficiente á ponto de fazê-lo fazer este papel... –Talon disse encarando-o seriamente.
—Haha... E não é que o Principezinho gosta de abusar da minha paciência? Escute bem, jovenzinho, eu lhe sou grato, por tudo o que me fez, mas isso, não quer dizer, que pode por as mãos na minha fêmea! Minara é ingênua e tola, por acreditar nas boas intenções de todos os que se aproximam dela, mas eu não sou... Sei muito bem, por quem você se arriscou, e sei também, o que você quer... Eu posso te garantir que NUNCA vai tê-la... –Hikaru disparou friamente, ignorando completamente as indagações de Minara.
—Ingênua e TOLA? Quem você está chamando de TOLA? Talon é meu primo e amigo! –Minara questionou irritada, afrontando Hikaru.
—Seu amigo? Não me faça rir, Minara! Esse sujeito está tentando se aproximar de você, por que tem a ilusão de que vai te seduzir, e usa a sua amizade e gratidão, para isto! –Hikaru disse de maneira ríspida.
—Do mesmo jeito que Agláia faz com você? –Minara murmurou, ainda encarando-o, posicionada na frente de Talon.
—Agláia é diferente! Eu devo muito à ela... –Hikaru murmurou entre os dentes.
—Não seja ridículo, Hikaru!Nós, também devemos muito ao Talon! A situação só é diferente, porque Talon, é meu amigo e ficou ao meu lado, mesmo sabendo que eu amava você! E Agláia? Agláia, só quer nos separar, e ela não vai parar até conseguir... Mas talvez, você com sua grosseria, faça isso, por ela! –Minara disse com frieza, calando o youkai momentaneamente.
Após isso, ela virou-se para Talon e despediu-se com outro abraço, e o agradeceu, por tudo mais uma vez, antes de sair apressadamente do salão, indo em direção aos jardins laterais do shiro, ignorando completamente Hikaru que ordenou que ela não saísse.
—Espero que esteja satisfeito, principezinho... Mas não fique muito animado. Minara é minha fêmea... E para sempre será... –Murmurou o youkai tigre com um sorriso de deboche nos lábios.
—Então cuide bem dela, general. Eu não tive a intenção de cortejá-la, ao contrário do que insinuou ainda há pouco, mas não nego que ela me atrai e me intriga. Minara é como uma ave rara, que não nasceu para viver em uma gaiola, portanto, contenha-se em suas ações. Afinal, se ousar magoá-la, ou a fizer sofrer, eu não vou medir esforços, para tirá-la de você... –Talon respondeu-o enquanto o encarava, fazendo o youkai tigre trincar os dentes discretamente.
Diante do silencio dele, Talon, seguiu o exemplo de Minara e deu as costas à Hikaru, deixando-o sozinho e extremamente irritado, na mesa.
Após a saída do jovem príncipe, Agláia aproximou-se de Hikaru, e começou a falar disfarçando ao máximo a situação, muito embora, poucos convidados haviam se dado conta da discussão, por causa da música alta e das danças e pouca luz.
—Hikaru não leve esse moleque à sério... Minara é muito jovem, e tem lá a sua beleza... É normal que tenha esses rompantes... Mas vendo o estado, em que ela saiu me sinto mal, por tê-lo avisado sobre a proximidade desses dois... –A coruja branca murmurou, fingindo arrependimento.
—Não, Agláia... Você fez bem... Minara tem que aprender que tudo o que faço é pelo bem dela... Ela não é mais uma criança... Está na hora dela crescer, por bem ou por mal... –Hikaru murmurou, antes de ir atrás da hanma deixando a youkai loura com um sorriso enigmático nos lábios.
Enquanto a festa prosseguia, em Meikakunamün, Saori hime, a mãe de Ryotaro estava profundamente aflita com a demora de seu filho, e de Leodora. As próprias crianças estavam apreensivas e Aureael, chorava copiosamente dizendo que uma bruxa havia pegado seus pais.
Satori as abraçava e mantinha-se solidária a dor das crianças, especialmente porque sentia que elas estavam certas, mas ela própria não sabia o que fazer.
Em meio à sua angustia, ela sentiu um cheiro familiar, e correu para junto da porta para abraçar o macho youkai vestido com uma imponente armadura tradicional, retribuiu o carinho com certo alívio.
—Saori! O que aconteceu? Por que não foi me encontrar hoje cedo? Onde está Ryotaro? – Kyuura questionou-a.
—Kyuura, meu amor... Leodora e Ryotaro ainda não voltaram! Eu acho que algo ruim aconteceu...
—Ora, mas porque você está tão angustiada? Isso é sinal de que eles se entenderam!
—Não, Kyuura... A hanma é muito responsável! Ela e o nosso filho, são apaixonados pelas crianças... Eles não os deixariam sem notícias!
—Está bem, Saori, se você tem essa impressão, então é melhor chamar os generais. Vamos fazer uma busca, e você ficar por aqui, caso eles voltem...
—Não quero ficar sozinha com eles... Acho que minha angustia vai deixá-los ainda mais apreensivos! Por favor, fique conosco, eu vou me sentir mais segura e eles também! Aconteceu alguma coisa com nosso filho, eu sinto isso...
—Saori... Mas e a hanma? Ela pode não gostar de me vir aqui...
—Eu explicarei tudo à ela na hora certa... Mas por favor, fique!
Diante dos apelos de sua amada, fêmea, Kyuura usou seu poder para enviar um pequeno pergaminho de fogo, que continha uma mensagem à seus soldados e generais, que o aguardavam fora da cidade, já que eles estavam indo para a união dos três Inu youkais. Assim que o receberam, metade dos soldados foi em direção ao Mikadzuki no shiro, para pedir desculpas pela ausência de Kyuura e sua fêmea, e outra parte foi em direção à onde Leodora e Ryotaro deveriam estar.
—Acalme-se Saori... Nós temos que... –O demônio de fogo, começou a falar, mas parou imediatamente ao ver os olhos molhados de crianças, sobre si. Ao perceber a situação, Saori decidiu apresentá-los.
—Venham aqui, meus amores... A vovó quer que vocês conheçam alguém muito especial...
A hanyou agachou-se para chamá-los. E aos poucos, Aureael que carregava o pequeno Ângeluz, e Azrael, que tomou a dianteira deles, com um semblante sério, caminharam até a avó, conforme ela pedira.
—Venham meus queridos... Este é Kyuura, o vovô de vocês... –Saori ainda agachada, falou com toda a sua doçura e assim conseguiu acalmá-los um pouco.
Kyuura por sua vez, estava perplexo. As três crianças o encaravam de maneira assustada, mas altiva e mantinham-se unidos, apesar do medo que sentiam, e isto o deixou ainda mais impressionado.
Toda a tensão que se instaurara, no entanto, se dissipou no momento em que o bebê esticou suas mãozinhas na direção de Kyuura.
—Olhe meu querido... Ele quer o seu colo! –Saori disse sorrindo.
—Mas... Saori, eu não sou bom com filhotes... Eu tenho medo de machucá-lo... –Kyuura sussurrou sentindo-se sem jeito com a situação.
—Não seja bobo, meu querido, você é ótimo com crianças! Pegue-o... –Saori o encorajou.
Diante da afirmativa da hanyou, Kyuura, tomou o pequeno nos braços. Angêluz apalpou o rosto do demônio de fogo, com suas mãozinhas pequenas, e balbuciou algumas palavras, pouco identificáveis, enquanto o coração demoníaco de Kyuura foi tomado de uma súbita e imensa emoção.
—Maa maamamamamama... –Murmurou o pequeno sorridente.
—Você quer sua mãe, não é? Eu vou trazê-la de volta, pequenino... –Kyuura murmurou agachando-se para falar com as outras duas crianças. _Aureael, Azrael, eu sou Kyuura, o avô de vocês. Sei que estão com medo, e assustados com essa pequena demora de seus, pais, mas vocês não tem o que temer. Sua avó, e eu vamos cuidar de vocês até que eles voltem. E eu juro pelas nossas vidas, que nós vamos trazê-los de volta. Vocês acreditam em mim? –Kyuura disse com firmeza, tendo o sorriso orgulhoso de Saori sobre si.
As duas crianças se entreolharam. Aureael estava mais abalada do que os outros, e suas lágrimas nervosas eram a prova disso. Diante do silêncio dela, Azrael pegou sua mão, e virou-se para Kyuura, reunindo toda a coragem que lhe cabia.
—Lorde Kyuura, nós sabemos quem o senhor é... Nossa mãe nos ensinou sobre seu nome, e como identificá-lo. Ela temia por nossas vidas...
— ... Eu sint... –Kyuura começou a desculpar-se, mas foi interrompido pelo garoto que continuava a falar com altivez.
—Contudo, nossa mãe também nos ensinou que o perdão é a maior virtude que uma alma mortal pode possuir. E ela o perdoou há muito tempo. Por isso, à partir de agora, nós nos tornaremos seus netos, filhos da hanma que lhe perdoou e de seu próprio filho, que nos ama tanto. Por isso, vamos confiar nossas vidas ao senhor, e a nossa avó, mas com uma condição... –Azrael disse com sabedoria, enfático.
—E... Qual é a condição...? –Saori questionou emocionada com as palavras do menino.
—Nunca mintam para nós... Vamos viver a verdade, do mesmo jeito que nossa mãe fazia... –Aureael disse secando as lágrimas.
—Isso... Desse jeito, irmã. E então, o que vocês acham? –Azrael, sorriu melancólico.
—Nós aceitamos... –Kyuura murmurou sentindo-se orgulhoso pela força que eles demonstravam.
E sem que ele ao menos se desse conta, as duas crianças mais velhas, se aproximaram e o abraçaram, juntas, uma cena que arrancou lágrimas da hanyou Saori, e do próprio Kyuura.
Somente quando as crianças fizeram menção em se afastar, é que a Hanyou decidiu que eles precisavam de distração.
—Sim, e agora, o que me dizem de prepararem as camas na sala enquanto eu vou preparar aqueles bolinhos que a Nana me ensinou hoje de manhã? Vamos comer enquanto o vovô conta uma linda história, o que acham? –Saori animou-se, e as crianças concordaram.
Os dois, mais velhos foram então para os quartos, para pegarem os futons e colocá-los na sala.
Enquanto os pequenos se distraiam, Kyuura que continuava com o pequeno nos braços, tirou as botas, para ficar mais a vontade, ainda tocado e agradavelmente surpreso, com o que havia visto, e ouvido ainda há pouco. Ele caminhou até o meio da sala e aconchegou-se em uma poltrona, que ainda tinha o cheiro de Ryotaro, e deu-se conta da quão valiosa era aquela pequena família, e o porquê de seu filho ter se “apaixonado” por eles. O pequenino em seus braços, parecia despreocupado, enquanto brincava com um dos botões de madeira da roupa do youkai, e Kyuura pegou-se rindo dele, quando as demais crianças chegaram com os futons, travesseiros, e cobertores à sala. Depois de algum tempo, todos estavam juntos, e ele começava a contar uma de suas muitas histórias, enquanto sua mente tentava convencê-lo de que logo seu filho e sua nora, cruzariam a soleira da porta, para completar sua felicidade.
Do outro lado do salão, Kikyou dançava com Hokuto, enquanto Raijin havia tirado outra fêmea para dançar, e Kaede que estava na mesa junto com Kagura e Emi, divertidamente observava à ambos.
Kikyou estava tensa, enquanto Hokuto usava de sua desenvoltura para guiá-la e deixá-la ainda mais constrangida, e isso divertia muito à Kaede e as outras que riam da situação.
—Haha... A Kikyou deve estar querendo te matar velha! Veja a cara dela! –Kagura murmurou abafando a voz.
—Hahaha.. Ela não precisa ficar constrangida assim! Kikyou está exagerando... –Respondeu Kaede.
—O general Hokuto é um macho muito galante... Pobre Kikyou, está tão aflita para sair desta situação... –Emi sorriu timidamente.
—Sim, mas ela não precisa se preocupar... Hokuto jamais faria algo que a deixasse em situação embaraçosa... –Garantiu Kaede.
—Ora, e não é que a velha conhece mesmo o macho que tem? Hahaha quem te viu e quem te vê, velha Kaede! –Kagura riu-se abertamente deixando a miko violentamente corada.
—Ora sua youkai maluca, não diga essas coisas! –Kaede protestou, arrancando mais uma risada de Emi.
As três continuavam conversando alegremente quando Kaede sentiu um gélido calafrio lhe correr pela espinha. Instintivamente voltou-se para trás. Seus olhos encontraram os de Satori, quase que de imediato e uma forte tensão se formou em seu peito, quando a youkai a chamou para fora de maneira muito discreta, mas, percebida por Kagura e Emi.
—Ela... Ela quer que eu vá falar com ela? –Kaede questionou-se.
—Kaede, Satori hime, não é de plena confiança... Acho que não é boa ideia ir atrás dela... –Emi ponderou.
—Emi tem razão... Afinal, o que ela quer com você, à essa hora? –Kagura questionou.
—Quero uma conversa franca... Com você, Emi, e com você, Kaede... Não vejo um momento mais oportuno para isso... –Satori sussurrou, ao longe de modo que apenas a youkai dos ventos entre elas, ouvisse.
Kagura surpreendeu-se e ficou de pé subitamente para transmitir a mensagem de Satori, e respondê-la.
—Então iremos as três... Não há segredos entre nós, portanto... A conversa terá a minha participação... –Sussurrou de volta a youkai, fazendo com a voz só se tornasse audível nos ouvidos da Inu youkai.
Kagura então, seguiu-a tendo Emi e Kaede atrás de si. Após alguns minutos, de maneira muito discreta chegaram à biblioteca do Shiro, e Satori tratou de se acomodar em uma elegante poltrona, próximo à lareira.
Kagura, Emi e Kaede chegaram logo atrás, mas nenhuma delas quis se acomodar. Apenas ficaram de pé, encarando a inu youkai, que olhava para o fogo da lareira à sua frente de maneira plácida.
—O que você quer Satori hime? –Emi disse com seriedade e de maneira polida.
—Quero minha redenção... E que vocês tentem me entender... –Murmurou Satori.
—Sua redenção? –Emi perguntou descrente.
—Emi... Eu... Quero que saiba que Katashi fez o que fez, também porque eu o iludi... Eu fui a maior responsável pelo que aconteceu à Arina, e agora a vocês dois... Eu preciso que você me perdoe Emi... Por ter estragado sua união... –Satori começou a falar com sua voz, mais macia e em tom baixo.
—Satori, eu não estou aqui para falar da minha união... Katashi era adulto, e até onde sei você não o forçou a nada... O que aconteceu com Arina, foi culpa de todos vocês, inclusive dela mesma, e eu não quero falar sobre isso. Se o que você quer é o meu perdão, saiba que eu não a culpo que aconteceu à mim... Agora se me dá licença, eu...
—Você não entende Emi... Katashi se arrependeu de tudo isto, MUITO antes que você soubesse de tudo... Ele queria contar-lhe a verdade, mas teve medo... Medo de perder você, Emi.
—Já disse que não quero falar sobre isso...
—Não seja idiota Emi! NÃO COMETA OS MESMOS ERROS, QUE ME LEVARAM ATÉ MINHA RUÍNA! Não foi o meu amor, que me moveu até Hokuto... Foi o orgulho! Meu orgulho matou Arina, e destruiu as nossas vidas! Então, por favor... Não deixe o seu orgulho separá-la do macho que você sempre amou, e que também a ama ainda que tenha cometido muitos erros... E isto nos leva á outro assunto... Kaede... Não é esse o seu nome?
—Sim... Eu sou Kaede...
—Eu amei Hokuto... Amei muito... Mas este amor, não foi forte o suficiente para vencer a minha razão... E depois que tudo acabou eu... Não consegui suportar a ideia de que outra fêmea teria o que eu me neguei a ter... Eu não quero me tornar nenhum tipo de mártir ou santa... Só quero que você... Que você o faça muito feliz, por que... Ele merece isto. Eu roubei isto dele... Então... Por favor, Kaede, será que você poderia devolver à ele, esta felicidade? –A inu youkai disse vacilante.
—Satori hime... Eu...
—Por favor... Faça isso, por mim, eu lhe imploro... Eu preciso de um pouco de paz, para seguir a vida que me resta... E esta é a única maneira de conseguir esta paz... – A inu youkai dissse, deixando-se cair de joelhos ao chão, para implorar à miko.
— Satori Hime... Eu juro por minha vida, que vou fazê-lo muito feliz, enquanto puder... Mas, por agora, por favor, se levante... –Kaede pediu, constrangida. Prontamente a inu youkai atendeu-a.
—Emi... Sei o quanto você deve estar sofrendo e isto não me é agradável... Por favor, perdoe Katashi... Ele a ama, Emi... Então, não perca isso... -Satori foi enfática.
— Estou muito magoada ainda Satori... Mas não somente pelo que ele me fez... Eu sinto que mesmo sendo enganada, eu nunca o mereci... Agora que sei que era Arina, a fêmea que ele desejava, eu... Ah... –Emi murmurou antes de colocar a mão sobre sua marca sentindo-a latejar.
—Emi, o que foi? O que houve com sua marca? –Kaede perguntou preocupada.
—A marca de um macho youkai tem muitas funções, Kaede... Ela serve para formar um elo psíquico e até mesmo físico,entre o casal, mantê-los unidos mesmo quando estão longe um do outro, e também é símbolo de status entre as fêmeas. Mas há algo sobre as marcas que pouco se fala... Elas duram por toda a vida das fêmeas, exatamente por que se as fêmeas mudarem de ideia, quanto à relação com o youkai, a marca as matará... E isso, não restringe apenas às fêmeas humanas, e hanyous, mas se aplica igualmente às youkais. Portanto, se Emi continuar com essa mágoa, e se afastar emocionalmente de Katashi, a marca vai matá-la... –Satori revelou de modo sombrio, à Kaede que arregalou os olhos, surpresa com a informação.
—Como é? Como isto é possível? –Kaede questionou assustada.
—Quando a marca é feita, um pouco do poder do youkai é usado e desta forma ele se “prende” à fêmea. Desta forma, um youkai pode sempre sentir o que sua fêmea sente e até mesmo controlar suas emoções, e curar doenças no corpo dela, criando uma espécie de relação que se assemelha ao parasitismo. Por isso, uma vez que essa ligação tão poderosa se rompe, o corpo e a mente da fêmea marcada não resistem e acabam morrendo aos poucos, como se estivesse privado de algum recurso vital, como comer e beber. Por isso, ser marcada é algo tão importante e apenas pode ser concretizado pela vontade da fêmea...
—Eu... Não fazia ideia disto... Sempre soube que a marca era símbolo de status e submissão... Mas morrer por causa dela, é algo muito grave! –Kaede murmurou sem graça.
—Emi... Sei o que você sente é muito difícil de suportar, então... Talvez, seja melhor ouvir Satori hime... –Kagura murmurou nitidamente preocupada.
—Eu sei que todas vocês só querem meu bem... Mas eu... Não consigo... Eu sabia que nossa união, não aconteceu por amor... Eu sempre soube que ele amava outra... Eu fui culpada de tudo isto afinal... Eu nunca estive à altura dele... –Emi disse entre doloridas lágrimas.
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