Perdida Na Tempestade
80 Pássaro sem asas...
Notas iniciais
—Conte-nos tudo Emi... Eu gostaria de saber o seu lado da história... –Satori murmurou enquanto pegava algumas almofadas soltas nos sofás que estavam espalhados pelo cômodo, e as colocava sobre o grande tapete de pele que estava à frente da lareira, fazendo menção, em Emi se deitar. Ela alegou que Emi precisava descansar um pouco, e que poderia ficar mais à vontade para contar sua história.
Kagura e Kaede concordaram com a Inu youkai, e perceberam que ela queria que Emi desabafasse sua dor, o que possivelmente a ajudaria a melhorar. Deste modo acomodaram-se ao lado de Emi e Satori e incentivaram-na a falar.
Convencida pelos apelos das companheiras, Emi sentou-se, delicadamente e com uma expressão resignada, pediu à Kagura que afrouxasse seu obi, pois havia algo que havia mostrá-las, enquanto começava a contar-lhes sua história.
—Eu nasci no clã dos grous, em uma época sombria... As Terras do oeste não existiam oficialmente, e todo este território era ocupado por pequenos reinos que constantemente guerreavam entre si... Morte e sofrimento eram coisas comuns à todos os seres que aqui viviam, fossem humanos ou não, pois todos cobiçavam o poder, e não mediam esforços ou consequências para consegui-lo...
Meu clã vivia em uma floresta, próxima à montanha dos Karasu e meu pai, o líder do meu clã, tinha uma aliança com eles.
Meus pais, eram de linhagem youkai pura, mas isso, não lhes era algo de estrema importância. Eles tinham três filhos, e eu era a caçula da casa. Eu tinha uma vida feliz, apesar de tudo. Em um lindo dia de verão, no entanto, todo o meu pequeno mundo, desabou drasticamente... Era o dia da união de minha irmã, e um rei humano, vizinho de nosso clã, com quem meu pai eventualmente tinha negócios, apareceu sem ser convidado. Ele pediu a minha mão em união, dizendo estar perdidamente apaixonado por mim. Meus pais, não eram contra os humanos, mas obviamente, não dariam a mão de nenhuma fêmea do clã, contra a sua vontade, e quando eu me neguei a aceitar a proposta do rei, meu pai, pediu que ele se retirasse.
Humilhado, por sua própria arrogância, ele jurou vingança contra meu clã. Tomado pela fúria, e sedento por poder, ele associou-se à uma bruxa, temida naquela época, para juntos tomarem me à força, e assim conseguirem o prestígio de meu clã, e claro, seus aliados.
Tudo aconteceu tão rápido... Sequer tivemos tempo de pedir socorro aos aliados de meu pai. Ele reuniu um enorme exercito sombrio, e atacou nosso clã... Eu vi minha família ser morta ao tentarem me proteger. Mas foi tudo em vão... Eu fui levada como prisioneira, para o shiro dele.
Para me humilhar, e me obrigar a aceitá-lo como meu macho, ele tirou de mim, aquilo que qualquer youkai pássaro tem de mais precioso... Com uma espada de ossos forjada pela bruxa, ele arrancou minhas asas... – Murmurou Emi, ao abaixar a gola de seu quimono para mostrar as duas enormes cicatrizes que tinha nas costas.
Kagura colocou a mão sobre os lábios, para abafar um gemido de horror. Seus olhos ardiam em lágrimas doloridas, do mesmo modo que Kaede que virara o rosto para não ter que encarar aquela prova de sofrimento. Satori fechou seus olhos, e respirou fundo, antes de pedir sussurrante, para que Emi prosseguisse.
—Ainda me lembro de ouvi-lo dizer: “Já que você não será minha, então não pertencerá há ninguém! Você irá viver sozinha, por toda a sua vida, e jamais me esquecerá...”.
Lembro-me de sentir o cheiro de meu sangue, e logo em seguida, o de minha carne queimada por ferro em brasa para estancar o sangramento... Depois que terminaram, foi jogada em um porão sujo, e eu só não morri ali, por que uma criança apiedou-se de mim. Uma humilde, e pequena serva humana. Ela me dava um pouco de comida que conseguia roubar da cozinha, e cuidou dos meus ferimentos da melhor maneira que pôde. Mais tarde eu soube que aquela menina humilde e maltrapilha, era filha bastarda do homem que fez aquilo comigo...
Eu passei meses, naquele porão, e apesar de ter minhas esperanças serem alimentadas pela melhora em minha saúde, eu sentia que minha vida havia acabado ali. Afinal, como ele mesmo havia me dito quem amaria uma youkai grou, sem asas? Mas minha agonia só estava começando... Foi neste época tão sombria de minha vida, que ele apareceu...
—Katashi... O príncipe dos Karasu... –Murmurou Satori esfregando os braços como se um frio insensível às outras, a acometesse.
—Sim... Acompanhado por Inu no Taishou e mais alguns daqueles que se tornariam seus generais, ele veio em meu auxílio em respeito, à aliança com meu clã... Eles derrotaram todos os meus algozes, e pouparam os inocentes. Antes de partir, Inu no Taishou, tornou minha pequena salvadora, na senhora daquele lugar... E fez algumas alianças para com ela... Nós continuamos amigas por muito tempo, até que ela perdesse a vida. Mas sua piedade se consumiu conforme as suas gerações se passaram... Entretanto, sua bisneta compartilhou da mesma beleza e força que ela possuía, além é claro, de sua bondade e retidão em suas palavras... Eu tive o prazer de conhecê-la em sua juventude, e penso que talvez isso, tenha atraído seu rancor sobre mim, Satori. –Emi disse ao encarar a Inu youkai seriamente.
—Não Emi... Eu nunca me sentir rancorosa por você ser amiga de Izayoi. Eu sempre a admirei, por motivos óbvios... Tudo o que eu fiz... Foi por rancor, à mim mesma e por orgulho... Você foi só mais uma vítima e eu lamento por tudo isto... –Satori murmurou com toda a sua sinceridade.
—Mas você foi nobre... Ao desistir de Hokuto, para construir as terras do oeste. Eu não teria essa coragem... –Emi lembrou-a.
—Não sei se foi coragem, ou covardia, já que para ficar ao lado de Hokuto, eu teria de enfrentar tudo e todos... No fim de tudo, eu apenas confirmei que fiz a coisa certa, ao deixá-lo. Eu errei, apenas quando me perdi de ciúmes de Arina... Eu me arrependo tanto de tudo o que fiz... Mas o que mais me dói é saber que destruí sua união Emi. Você precisa acreditar que Katashi, ama mesmo você, e que ele se arrependeu de tudo o que fez, muito antes que você descobrisse. –Satori murmurou pesarosa.
—Eu nem sei mais, em quê acreditar... Tantas mentiras... Tanta dor.... –Emi disse deixando algumas lágrimas rolarem.
—Senhora Emi, por favor, não chore... A senhora está se enfraquecendo cada vez mais! Por favor, perdoe o general... Ou a senhora vai acabar morrendo... –Kaede murmurou para a youkai, com aflição.
—Sim, Kaede tem razão Emi... O general quer o seu perdão... E isto, vindo dele, é uma clara declaração de amor... –Kagura ponderou.
—Vocês não entendem... Eu não posso perdoá-lo, por que eu não o condeno por mentir para mim... Afinal, ele não merecia ter uma aleijada como fêmea... Eu só fico triste por Hideaki... Ele merecia saber sua história desde o principio.
— Me perdoe Emi... –Disse uma voz grave, embebida em sofrimento que fez todas as fêmeas se sobressaltarem, sobretudo a própria Emi.
—Katashi...? Como você...? –Murmurou ela, virando-se para vê-lo, escondido na penumbra existente entre os corredores de livros da biblioteca.
Assim que o observou, corretamente, pode perceber que uma barreira de ar o protegia, impedindo que seu cheiro fosse detectado. Imediatamente percebeu que ele havia entrado, havia algum tempo, secretamente, protegido, pelos poderes de Kagura. Emi olhou para a youkai dos ventos, que apenas disse: “ Por favor, Emi, ao menos, deixe que ele se explique...”.
—Emi, eu nunca a vi como uma aleijada... Você entrou na minha vida como uma benção, no momento em que meu coração estava mais ferido... Eu fui leviano, em mentir para você, mas você não faz ideia do quanto estas mentiras também me feriram... –Katashi argumentou com sinceridade aproximando-se lentamente.
—Então por que continuou com elas? Eu... Nunca mereci você... –Emi afundou o rosto entre as mãos, e caiu em um choro convulsivo. Neste momento, Satori ergue-se e fez um sinal com as mãos para que Kaede e Kagura também o fizessem e a seguissem para fora do aposento, deixando o casal sozinho, e fechando a porta atrás de si.
Lá dentro Katashi aproximou-se de sua machucada fêmea e diante do enorme sofrimento dela, murmurou-lhe:
— Eu... Não sou digna sequer de suas mentiras... Você merecia ter ficado com Arina... E não comigo... Katashi, por favor, vá embora... –Emi disse entre soluços, enquanto sua marca começava a sangrar.
—Não Emi... Eu é que nunca a mereci... Eu amei Arina... Mas amei de uma forma egoísta, e ela foi sábia em me abandonar. Mas, você... Você sempre soube o que era o amor verdadeiro, Emi. Entre nós, apenas eu era o aleijado, porque apesar de ter asas, meu coração, era pesado demais para que eu levantasse voo, e te encontrasse. E enquanto isso, você voava livremente nas asas do seu amor... Demorou muito para que eu entendesse, finalmente o que é este sentimento que me invade à cada vez que eu olho nos seus olhos... Mas agora eu sei. Eu amo você, Emi. Amo tanto, que sou capaz de deixá-la livre para me odiar pelo resto de sua vida se assim, você o quiser. Eu fiz por merecer isso. Mas se houver qualquer chance de você me perdoar... Eu juro, pela minha alma, que nunca mais vou fazê-la chorar... –Katashi sussurrou em quanto secava as lágrimas de Emi.
—Katashi... Por favor... -Sussurrou ela, ainda mais emocionada.
—Você... Quer que eu me vá...? –Katashi perguntou relutante, e visivelmente atordoado, e após ouvir o som de suas próprias palavras, rodou pelos calcanhares, e baixou sua cabeça, deixando que algumas lágrimas descessem pela face.
—Não é isso Katashi... Quero que diga de novo, que você me ama... –Emi disse ainda relutante, com um sorriso meigo, e seus olhos molhados. O karasu voltou sua face aparvalhada para ela e com toda a sua velocidade, tomou Emi nos braços, para beijá-la apaixonadamente.
—Eu amo você Emi... Eu amo você, demais... Amo há muito tempo! Eu amo você Emi! –Katashi repetiu, enquanto a rodopiava no ar como um casal de adolescentes apaixonados.
Após beijá-la novamente e secar suas lágrimas, Katashi, abriu suas asas negras e com Emi ainda em seus braços, caminhou em direção à uma das muitas janelas de ferro, e após abri-la sem muito esforço, levantou voo, indo na direção dos aposentos do shiro, e seguiu para o quarto destinado à Hideaki, vislumbrando chegar o mais rapidamente possível.
Minara escolheu um lugar afastado, para ir, pois desejava imensamente ficar sozinha, e enquanto andava, criou uma barreira simples ao seu redor, para esconder seu cheiro.
Ela sabia que Hikaru viria atrás dela, e ela não queria encontrá-lo. Não, naquele momento, em que seu coração estava estraçalhado pela desconfiança do Youkai.
Com a ajuda de pequenos portais, de tempo e espaço, a hanma ruiva desceu a colina do Shiro, e foi caminhando rapidamente pela floresta que se iniciava ali e que circundava o vilarejo de humanos de maneira quase automática, sem prestar muita atenção ao caminho escuro.
Deslocou-se o suficiente para afastar-se das luzes do Shiro e do vilarejo, e escolheu uma arvore alta para se sentar e descansar as pernas.
Após isso, subiu na árvore, escolhida e acomodou-se junto à copa, para que não pudesse ser vista do chão, e nem do alto, e contemplou o céu plúmbeo com uma lua crescente borrada por causa das nuvens.
Ela se recostou no galho, e permitiu-se ficar olhando o shiro iluminado, e as várias figuras dismorfes pela distância, que estavam na festa, enquanto as imagens da recente discussão a torturavam arrancando algumas lágrimas ressentidas.
Sua mente tentava entender o que ela havia feito de tão errado à ponto de Hikaru ter feito o que fez. Justo ele que sempre fora tão seguro, agir daquela maneira tão grosseira, por causa de um simples abraço, era algo impensável.
O vento frio soprou sobre si, e a fez arrepiar-se, e involuntariamente a hanma se encolheu um pouco. Aquele Outono estava especialmente frio, e ela lamentou não ter escolhido um vestido de tecido mais grosso.
Após alguns minutos Minara percebeu que Hikaru mesmo com tantos seres e mentes ao redor, usava seu poder mental, aliado a ligação da marca para encontrá-la e ela, apertou-a forte, como se quisesse calar sua marca, enquanto mantinha seus olhos fechados e sua mente vazia, para não dar pistas sobre sua localização.
Mesmo com todo o cuidado, após alguns minutos de concentração, a voz de Hikaru finalmente ressoou em sua mente.
—Onde você está Minara? Nossa conversa ainda não acabou... — Ele esbravejou.
—Me deixe em paz... Eu quero ficar sozinha! – Ela repetiu mentalmente, com firmeza.
—Deixá-la em paz? Como ousa tentar se afastar de mim? Minara você é minha fêmea, e me pertence... –Hikaru argumentou, aparentando estar ainda muito irritado.
—E você é meu macho... Mas não agiu desta maneira hoje... Você me envergonhou diante de um amigo, sem que eu tivesse feito nada... Deixe-me ficar sozinha... Eu não quero e não vou falar com você agora! –Minara respondeu colocando as mãos nos ouvidos, como se pudesse calar a voz do Youkai.
—Você, é que me envergonhou... Como pode deixar que outro macho te tocasse à vista de todos? Ah... Diga-me logo onde você está Minara, e vamos nos resolver sem mais delongas. Não me irrite mais do que já irritou, Minara... –O youkai tigre começou mantendo o tom irritadiço, mas logo passou para outro, um pouco menos agressivo.
—Eu já lhe disse, que não estou com a menor vontade de ver você agora... Já que não respeitou nem a mim, nem ao meu amigo, agora você vai ter de respeitar a minha vontade, de um jeito ou de outro... Eu não vou mais respondê-lo Hikaru... Vou para o nosso quarto mais tarde, e AMANHÃ conversaremos... –A hanma disse finalmente apertando sua marca, quase à ponto de machucá-la, enquanto lutava para fechar sua mente.
—Minara! Não se atreva a isso a fazer isso comigo... Eu sou seu macho e senhor e não permitirei que você corra perigo por conta de seus caprichos... Se você não quer vir por bem, virá por mal... –Bradou o irritado youkai na mente de Minara antes de subitamente se calar.
A hanma suspirou com força, para expurgar a tensão que sentira. Mas quando abriu os olhos, um par de olhos verdes e brilhantes a encaravam na escuridão da noite.
A hanma assustou-se e acabou desequilibrando-se e caindo do alto da árvore.
Antes que chegasse ao chão, no entanto, foi pega nos braços, por uma fêmea youkai que tinha metade do rosto destruído.
—Oh me desculpe, eu te assustei princesa? Realmente não foi a minha intenção... – Disse a youkai.
—Quem é você? Ponha-me no chão, agora! –Minara ordenou, antes de usar seus poderes e se teleportar para frente da youkai já em posição de ataque.
—Ah não... Por favor, princesa, não pense que lhe farei mal! Você não quer ver a sua amiga Leodora? Eu vim aqui apenas para avisá-la que ela foi me fazer uma visita, então eu pensei, que talvez você também quisesse fazer parte da nossa festinha... –Ronronou a loura com seu sorriso mais cínico.
E com um gesto delicado de mãos, voltou-se para mostrar à hanma que estava dizendo a verdade. Subitamente Minara se deu conta de que não estavam mais na floresta de antes e sim, em uma caverna gigantesca, iluminada por tochas de fogo verde e com alguns cristais luminosos. A youkai caminhou à frente e Minara resolveu segui-la por entre uma “trilha” que passava por uma abertura na rocha, como um portal simples, entalhado com símbolos que, Minara achou ligeiramente familiares, mas que realmente não compreendia, e levava à outra parte da caverna.
No outro ambiente, a hanma ruiva surpreendeu-se ao vislumbrar o enorme local, que mais parecia o centro de um vulcão. Mas apesar da presença de um rio de lava incandescente, o lugar era frio, e estalactites de gelo milenar estavam por toda a parte do teto, e das paredes.
Havia um gigantesco exército, composto por seres mortos-vivos, com partes de seus corpos em decomposição, mas repletos de poder e vivacidade. Minara notou que eles estavam usando o rio de lava em uma construção, para forjar, armas e armaduras, enquanto outro grupo escava as paredes para retirar os cristais esverdeados, com a finalidade de usa-los, como matéria prima. Ficou nítido para a hanma que aquelas criatura estavam se preparando para uma grande guerra.
Ao vislumbrarem a loura youkai, os enormes guerreiros, abriram caminho para ela de maneira respeitosa, e Minara hesitou segui-la pela primeira vez.
—Venha princesinha, eles não ousarão machucar uma convidada tão ilustre... –Disse a loura com seu sorriso mais cínico, enquanto voltava para pegar a mão de Minara e puxá-la delicadamente para que retomassem o caminho que seguiam.
A hanma relutou, mas acabou deixando-a guiá-la. Mais à frente passaram por outro portal, com as mesmas figuras, e entraram em um novo espaço da caverna.
Minara vislumbrou um grandioso palácio construído em mármore dourado e cristais, cercado de fontes de água fresca e abundante, e com jardins encravados nas laterais da construção, como se fossem degraus. Uma construção surpreendente para um lugar tão inusitado.
—Este é o meu humilde lar! Espere que você goste afinal você vai passar algum tempo comigo e suas amigas, você vai ver, será de matar... Hahahaha... –Disse a criatura, rindo divertida.
—Chega de conversinha! Cadê a Leodora? Me diz onde ela está!-Minara a cortou.
—Ahh que apressada você... Você tem modos tão brutos! É tão diferente da... –A loura murmurou levemente irritada.
—De quem? Do que está falando agora, sua maluca? –Minara desdenhou, mas a criatura deu de ombros antes de prosseguir.
As duas entraram pela porta principal do palácio, e subiram até o terceiro andar do mesmo, onde havia um Terraço.
Lá, estava montado um altar em meia lua, com cinco leitos ao redor e um grande caldeirão ao centro. Caminhando por entre o altar, Minara avistou o que procurava.
Leodora estava deitada em um leito, como se estivesse dormindo, presa dentro de um prisma de esmeralda.
—Leodora? O que você fez com ela, sua coisa? Eu sabia que já te conhecia... Você é a criatura que me atacou em Meikakuna mün, não é? O que você quer de nós, afinal? –Minara vociferou encarando-a abertamente.
—Ahh não se preocupe com ela... Eu a coloquei neste cristal para que ela não sinta nenhuma dor. Deste modo, ela poderá esperar por vocês, em um sono profundo, sem se preocupar com nada... Haha, que bom que se lembrou! Sim, fui eu quem as atacou, querida. Mas por favor, não pense que sou uma criatura má, não, não! Muito longe disso! Eu apenas queria alertá-la antes que se unisse aquele youkai tigre... E parece que eu fui a única a fazê-lo, não é mesmo? Até porque, ninguém o conhece de verdade como eu... –A loura jogou seus longos e lisos cabelos sobre os ombros enquanto falava, pois sabia que deixara a hanma intrigada.
—Me alertar sobre o Hikaru? Não diga mentiras! Você me atacou e atacou as outras hanmas! Você quer as chaves do destino... Está em busca da imortalidade! Mas não pense que será fácil nos reunir... Solte-a agora mesmo, ou eu mesma mato você! –Minara bradou e atacou a youkai que desviou sem maiores dificuldades.
—Isso, mesmo, acredite naquilo que é menos doloroso... Pobre criança hanma... O seu macho youkai a está enganando, e ela nem se dá conta disso! Hahaha... –Disse novamente a loura, enquanto segurava um braço de Minara fazendo-a encará-la.
—Pobre de você! Afinal acha que eu vou mesmo cair nesta sua conversinha fiada?Hahaha... Sai dessa monstrenga! Eu não tenho motivo algum para acreditar em você! –Minara rebateu no mesmo tom debochado, acertando um soco no ombro da youkai que a soltou imediatamente.
—Ah, é? Bem, querida, eu realmente só quero que você seja alertada... Então, se algum dia você tiver coragem o suficiente para suportar a verdade, só há uma coisa que você precisa fazer...
—E o que é? –Minara desdenhou.
—Tem que descobrir como você pode acessar as memórias que eu te dei... Tudo o que você precisa e quer saber sobre seu macho, está dentro da sua cabecinha... Agora... ACORDE!
—Gritou a criatura rindo abertamente de maneira sinistra antes de saltar sobre a hanma.
Tudo ficou escuro, e quando Minara finalmente abriu os olhos, ainda sobressaltada, encontrou novamente um par de olhos verdes e brilhantes que a encaravam na penumbra sinistra da noite.
Assustada a hanma sentou-se arfante, e embora, não se lembrasse exatamente do pesadelo que acabara de ter, sentiu certo alívio, ao se dar conta de que estava no aposento destinado à ela e a Hikaru.
Ao olhar com mais atenção, a hanma percebeu que os assustadores olhos verdes brilhantes, pertenciam ao seu macho, que estava sentado em uma poltrona afastada, quase de frente para a cama encarando-a nitidamente irritado.
—Como... Como me encontrou? -Murmurou ela secamente, buscando se recuperar.
—Você se esqueceu de que eu também posso acessar seus poderes? Depois que localizei sua mente, só tive que usá-los, para me teletransportar, até onde você estava... Mas mesmo que eu não pudesse acessá-la desta forma, você cochilou enquanto tentava me manter longe, e a sua barreira se desfez. Seu cheiro estava bastante nítido no ar, tanto para mim, quanto para qualquer outro youkai que estivesse por perto... Agora, diga-me... Com o quê estava sonhando? –Disse o youkai, com uma voz tão fria, que fez o coração de Minara sobressaltar-se ainda mais.
Uma brisa fria entrou pela porta da varanda ainda entreaberta, e a hanma constatou que estava vestindo um quimono fino de dormir, e que o próprio Hikaru, também já parecia pronto para dormir. Seus cabelos soltos, desciam como uma cascata dourada pelas costas nuas do youkai, que vestia apenas uma hakama de tecido leve e um acessório semelhante á um óculos de leitura, e que havia um livro aberto em suas mãos, o que não era nenhuma surpresa, tendo em vista que como youkai, Hikaru enxergava perfeitamente no escuro.
—Não me ouviu Minara? Eu perguntei com o quê, ou com quem, você estava sonhando! Diga-me logo... Não estou para brincadeiras... –Hikaru, questionou-a, embora buscasse desesperadamente, não mostrar tanto interesse.
—Ora, você não sabe? Vai me dizer que não usou seus poderes para tentar ver? Você tem feito isso, quase todas as noites, sempre que percebe que eu estou sonhando! –Minara respondeu-o com desdém enquanto se erguia da cama desejando ardentemente sair da mira daqueles olhos.
—Se sabia que eu a estava monitorando, por que não disse nada antes? Não parecia se incomodar... Eu tenho feito isso, sim, e tentei novamente agora, não nego... Mas não consegui por que alguma coisa na sua mente me impediu... –Hikaru murmurou entre os dentes fechando com força o livro em suas mãos.
—Ah é? Que pena, não é? Vou usar da sua “franqueza” para te responder... Eu não me lembro do que se tratava! Mas não se preocupe, não, tá? Segundo a sua opinião, sobre a minha amizade com o Talon, se eu não estava gemendo, então, não devia estar sonhando com ele, né?! –Minara disparou, destilando sua mágoa, enquanto caminhava até uma cômoda que se encontrava encostada na parede lateral direita da cama, buscando encontrar nas gavetas algum agasalho ou veste que pudesse cobri-la por inteiro.
—Você está sendo infantil... Mais uma vez! É nítido que aquele pirralho, está interessado em você, e você estava alimentando isso, eu vi bem! Você não é uma fêmea vaidosa, do tipo que fomenta admiradores por puro orgulho... Por isso, está mais do que óbvio, que você também está interessada nele! –Hikaru vociferou friamente, ainda sentado, após apoiar o livro e seu acessório de leitura sobre a mesinha ao seu lado, mantendo seus olhos sobre a hanma que ainda tateava no escuro.
—Ah sim, claro! Talvez seja a conversa mole, ou quem sabe o estilo... Vai ver é aquela carinha de menino bonzinho... Eu a-do-ro os bonzinhos, como você já deve saber... –Minara riu-se, ainda mais sarcástica, enquanto vestia um casaco longo com capuz, feito de pele de lebre, e fechava-a pela cintura com um obi pego às pressas.
A hanma sabia que a porta de saída estava atrás de si, e com a máxima velocidade que possuía, tentou se teletransportar para fora do aposento.
Mas antes que ela saísse do lugar, Hikaru ergueu-se velozmente e pegou-a fortemente pelos ombros.
— Onde pensa que vai...? –Murmurou o youkai tigre com um olhar assassino que Minara não reconhecia.
—Para qualquer lugar, longe de você, e das suas tolices... – A hanma vociferou entre os dentes, mantendo-se firme apesar do susto.
—Não brinque comigo, Minara! NÃO SOU UM BRINQUEDO SEU, está me ouvindo? VOCÊ É MINHA, e somente MINHA! Não admito que você SEQUER PENSE que pode estar com outro macho! –Esbravejou ele, em voz alta, enquanto apertava ainda mais os braços da hanma, sem se dar conta de que suas garras penetravam lentamente o tecido, e a pele dela.
—EU SEI DISSO, SEU IDIOTA! É você, que ainda não percebeu isso... É você que me trata como uma criancinha que não sabe o quão importante é uma união! É você que não confia em mim, e na minha palavra! É você, que fica se segurando o tempo todo, por que tem medo de me assustar, como se eu fosse sair correndo da sua vida, na primeira decepção!-Minara vociferou empurrando-o para se libertar.
E apenas quando Minara soltou-se, Hikaru sentiu o cheiro de seu sangue, em suas mãos. Encarou-a mais atentamente e percebeu que ela estava com ambos os braços ensanguentados. Imediatamente sua face irada deu lugar à seu olhar preocupado, e arrependido.
—Mina...? Perdoe-me... Eu não tive a intenção, você sabe... Eu... Você me leva a loucura!– O youkai tigre murmurou aproximando-se dela para inspecionar os ferimentos aparentando estará ainda mais desconcertado.
—Eu sei que não quer me machucar! Mas você está machucando! Toda a vez que você desconfia de mim, você me machuca! Eu tenho percebido, o quanto você anda preocupado, me cercando de cuidados, como se eu fosse fugir na primeira oportunidade?! Acha que eu não percebi os guardas, ao redor do Daí Ni, ou me vigiando toda a vez que eu saio da sua vista? Eu não saio sozinha, e mesmo assim, você parece estar apavorado, querendo controlar meus passos, ou pior, os meus atos! Hikaru, o meu abraço ao Talon não foi o estopim de tudo isso... O que está acontecendo com você? Por que está agindo dessa forma comigo? –Minara questionou, veemente, afastando-se dele, e não permitindo que ele a tocasse.
—Não... Não... Eu... Estou preocupado, com os ataques que você sofreu... É apenas isso! Por acaso, é anormal um macho, se preocupar com a segurança de sua fêmea? E esse tal de Talon... Tem algo nele que... Algo que me incomoda... Ele não é tão sincero quanto você pensa que é! –Hikaru tentou justificar, enquanto passava as mãos pelos cabelos para aliviar o estresse.
—Para de inventar desculpas! Eu te conheço... EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ ME ESCONDENDO ALGO! Eu estava esperando, você me contar o que está havendo, mas você, não está disposto, a ser honesto comigo! Ao invés disso, você me acusa de estar interessada em outro macho, para justificar as suas ações! –Minara não conseguiu mais segurar sua emoção, e lágrimas cheias de mágoas, lhe desceram pela face, e Hikaru sentiu seu peito queimar, de agonia.
—Mina... Perdoe-me... Não chore, por favor, meu anjo... Não aguento ver você chorar... Ainda mais... Por minha causa... Minara... Eu nunca fui tão feliz na minha vida, como sou com você... Ter você como minha fêmea, é um sonho realizado... Eu só quero protegê-la... –Hikaru murmurou visivelmente arrependido.
—Isso não é proteção Hikaru... Isso é medo! Do que você tem tanto medo afinal? Isso tem haver com o tal ataque? — Minara questionou estreitando os olhos, ainda segurando seus ferimentos, enquanto mantinha a distancia do youkai tigre.
—Eu... Você... Você tem razão. Eu não tenho sido verdadeiro com você, e isto é injusto, da minha parte. Mas... Você tem que tentar me entender... Você só conheceu o Hikaru bom e gentil, que estava ao seu lado, quando você era uma criança... Esse... Não é exatamente quem eu sou... E eu tive medo de que você se assustasse, ou pior... Medo que você não me amasse mais... Tive medo de que se me conhecesse, se soubesse tudo de mim, todos os meus erros... Que você se arrependesse de ter se unido à mim... Eu não desconfio de você Mina... Eu não confio, em mim mesmo... –O youkai murmurou amargurado enquanto se recompunha com toda a sinceridade que lhe cabia.
— Se por acaso você descobrisse que no passado, eu cometi o maior dos pecados, você me abandonaria? –Minara questionou-o depois de um incômodo silêncio, pegando-o com delicadeza pelo rosto, para que ele a encarasse.
—Eu nunca vou abandonar você Minara... Prefiro a morte a não tê-la ao meu lado... –Hikaru disse com franqueza olhando-a a hanma nos olhos.
— Então me mostra quem você é... Deixa eu te ver, te conhecer, de verdade, e eu juro que vou te amar e ficar ao seu lado, não importa o que você tenha feito no seu passado... Desde que você não minta nunca mais para mim... Por que o que me dói de verdade, é saber que você tenta me enganar com mentiras... Eu imploro, nunca minta para mim, porque eu não vou conseguir te perdoar! Por favor, Hikaru, eu não vou suportar que você tente ter uma vida dupla... Eu não vou aceitar que você tente me enganar, ainda que seja para me proteger, está entendendo? Por favor... Prometa-me... Prometa-me que não vai fazer isso comigo!–Minara murmurou deixando que mais sofridas lágrimas lhe lavassem o rosto.
Hikaru ponderou por alguns momentos, enquanto a encarava, antes de finalmente respondê-la.
—Tem certeza do que está me pedindo...? Eu não sou tão bonzinho quanto você pensa... E estou bem longe de ser o príncipe encantado... –Hikaru sussurrou, encarando-a com um estranho brilho no olhar, que mesmo na penumbra, foi percebido por Minara.
—T-Tenho... Não quero um príncipe de mentirinha... Quero você do jeito que você é... –Minara murmurou sentindo-se invadida pelo olhar de Hikaru sobre si.
—Está certo... Eu lhe prometo, Minara... À partir de agora, eu vou ser verdadeiro com você em tudo... E a primeira coisa que você deve saber, é que eu tive um filho... Fruto de uma relação, frustrada, com uma youkai que foi uma grande amiga, e viveu em meu shiro há quase um século... – O youkai tigre disse com seriedade.
—U-Um f-filho? Eu... Está certo... Eu não estava com você, e não posso te exigir nada... Mas, onde está ele, e-e ela? –Minara murmurou tentando controlar sua reação.
—Ela morreu há muito tempo... E eu não sei o paradeiro dele, até porque, só soube de sua existência recentemente. Mas pretendo procurá-lo assim que for possível. Eu vou te contar tudo o que sei, com mais calma depois... Por agora, está na hora de você saber de outra coisa... –Hikaru disse, enquanto encurtava lentamente a distância entre eles, sem tirar seus olhos dos da hanma.
—Outra coisa? O-O que é? –A hanma questionou, antes de ter seus lábios tomados em um beijo cheio de desejo, e fúria.
Hikaru enfiou sua língua entre os lábios da hanma de maneira possessiva e indecente como se violentasse a sua boca. Suas garras seguravam os cabelos da hanma com possessividade, e sem que a hanma conseguisse reagir, o youkai rasgou-lhes a roupa em seu corpo de cima à baixo sem nenhuma dificuldade.
—Você precisa saber que eu quero te machucar... —Rosnou o youkai tigre, o ouvido da hanma, enquanto apertava-lhe os seios, e colocava entre seus dentes os mamilos de Minara.
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