Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)
10 Capítulo nove - Encantador
Capítulo nove. – Encantador.
- Boa noite, Lucas. – Minha mão deslizou pelo seu rosto. Ajeitei o edredom no seu corpo pequeno. Ele parecia um lindo anjinho.
- Boa noite, Susan. – Respondeu com a voz cansada. Ele parecia exausto.
Havíamos ficado até tarde assistindo televisão, e quando dei por mim, já era meia noite. Fazia um tempo frio lá fora, ameaçando chover pela manhã, como a Mulher do Tempo havia avisado. Entretanto, eu sentia um calor estranho por todo o meu corpo, talvez estivesse ficando doente.
- Amanhã iremos acordar sedo, está bem? Eu preciso ir trabalhar e irei te deixar com uma amiga. Ela é muito legal, acho que você vai gostar dela, todo mundo gosta. – Falei tranquilamente. Eu estava sentada na beirada da cama dele.
- Se ela é sua amiga, então tudo bem. – Ele me olhou com ternura. Eu sorri.
- Ok. – uma pausa — Então... Durma com Deus Lucas. – Levantei. – Tenha bons sonhos.
- Você também... – Falou num tom fraco, por pouco eu não escutei.
Sai do quarto lentamente, sentindo novamente a sensação de desconforto, como se eu estivesse fazendo algo de muito errado. Era um sentimento muito chato. Fechei a porta e então caminhei para o meu quarto. Troquei de roupa, vesti um pijama e fui para o banheiro escovar os dentes. Depois casualmente, me estiquei em cima da minha cama. Aquela era uma cama muito grande só para mim, pois era uma cama de casal. Logo, antes do sono chegar, uma péssima sensação me tomou. Eu odiava dormir sozinha. Depois de tanto tempo dividindo à cama com um idiota... Acho que acabei acostumando.
“Não pense besteira” — falei para mim mesma — “Enquanto você está aqui se lamentando, provavelmente ele está se divertindo com três japonesas na cama que um dia foi sua. Então pare de bancar a palhaça e se acostume”.
Deitei de bruços e esperei duas horas até que finalmente consegui dormir.
Acordei com o barulho do despertador tocando, aquilo me deixou irritada. Levantei cambaleando da cama e fui para o banheiro. Lá escovei os dentes, penteei os cabelos, fiz minhas necessidades e tomei um banho demorado. O dia estava lindo lá fora, eu percebi quando sai, notando pela primeira vez a claridade do corredor. Mas antes de entrar no meu quarto, vi um vulto preto andando no corredor. Assustada eu virei na direção e então gritei automaticamente. Era... Era... Um garoto?
Meu cérebro ainda não estava funcionando 100%.
- Ai... – colocando a mão no peito – Ai Lucas, você me assustou... – Falei com a respiração arfante. O menino parecia confuso. – Desculpe, eu acho que esqueci que você estava aqui... – Murmurei. Foi então que percebi o meu descuido: Eu estava só de toalha.
- Tudo bem. – Ele sorriu e entrou no banheiro.
Envergonhada, corri para o meu quarto e me tranquei. “Susan sua cabeçuda!” disse a voz na minha cabeça. Tentando ignorar o ocorrido, caminhei até o meu guarda-roupa e escolhi um conjunto de roupa confortável. Passei perfume, desodorante, lápis de olhos e batom. Prendi o meu cabelo e calcei uma sandália com um pequeno salto, nada muito chamativo. Olhei-me no espelho, ajeitei o batom que estava um pouco manchado e então sai do quarto. A porta do banheiro estava aberta, então conclui que ele estava no quarto dele, se trocando. Caminhei até a porta.
- Lucas, eu vou descer para fazer o café da manhã. Quando você terminar desça, ok?
Uma pausa.
- Ta bom Susan... – Disse.
- Você achou a toalha no seu guarda-roupa? – Perguntei, me lembrando que no corredor ele estava com uma toalha pendurada nas costas.
- Sim... achou sim, obrigado.
- Ok...
Desci as escadas e fui para a cozinha. Quando estava terminando de preparar o café, ele entrou.
- Bom dia... – Falei sorridente, como se aquela fosse à primeira vez que eu o via.
- Bom dia. – ele se sentou.
- Você quer café puro ou com leite? Quer dizer, ou você prefere leite com Nescau? Também tem cereal, se você quiser... – Comecei, lembrando da compra que eu havia feito.
- Eu gosto de café puro. – Falou. Eu sorri.
- Que ótimo. Eu também. – Entreguei o copo para ele e então enchi meio copo com café. – Bom, hoje eu não comprei pão Francês, mas tem pão de forma, você gosta?
- Sim.
- Quer com manteiga, calabresa, maionese ou mussarela?
- Com manteiga ta bom.
Passei o saco de pão e o bote de manteiga para ele.
- Você quer que eu passe? – Perguntei.
- Não. Eu mesmo passo. As facas ficam aonde? – ele se levantou.
Eu me lembrei da chave escondida em cima da geladeira. Lucas não parecia ser um adolescente problemático que coloca a própria vida em risco, mas mesmo assim ele acabou de perder a mãe, então...
- Passa manteiga com uma colher. – Falei. – Elas estão na primeira gaveta. – ele obedeceu e então voltou para a mesa.
Coloquei calabresa dentro de duas fatias de pão.
- Onde a sua amiga mora? – Ele perguntou de repente.
- Aqui perto. – Respondi automaticamente, enquanto tomava um gole do meu café.
- Qual o nome dela?
- Karol. – Mordi o pão.
- Ela mora sozinha?
- Não. Ela mora com o marido dela, mas ele está viajando.
- Hm...
- Não se preocupe, ela é legal. – Garanti, sorrindo para ele.
- Eu sei. Mas é que... – Ele não continuou. Tomei mais um gole de café.
- Ela está grávida. – Falei.
- É mesmo? – Ele pareceu mais animado – E de quantos meses?
- De seis semanas, eu acho...
- Legal. – Seus olhos brilharam. Eu sorri.
- Eu vou ser a madrinha... – Eu não consegui me conter. Nessas últimas semanas, contei isso para todos que eu conhecia.
Ele sorriu.
- Essa criança tem sorte.
Corei. Eu havia contado para muitas pessoas, mas nenhuma tinha me dito algo parecido com aquilo.
- Obrigado... – Foi tudo que eu consegui dizer.
- Que horas você vai voltar para me buscar? – Ele perguntou.
- Depois das cinco, depende do trânsito. – Engoli o último pedaço do pão.
- Hm...
Ficamos em silêncio até ele tomar o último gole de café.
- Você vai querer mais?
- Não, obrigado. – Ele se levantou. – Eu vou escovar os dentes, ta bom?
- Sim... A sua escova está dentro do armário no banheiro. Ela é a vermelha.
- Ok...
Peguei as colheres e os copos e levai até a pia. Lavei tudo em menos de um minuto e então sai da cozinha, caminhando até o banheiro da sala. Lá eu tinha outra escova de dentes. Escovei meus dentes, sai do banheiro e esperei o Lucas descer.
- Eu preciso levar alguma coisa? – Perguntou, ele trazia a escova de dentes na mão.
- Não, só a escova de dentes mesmo. Só não vai esquecer ela na casa da Karol depois, ta?
- Ta bom...
Saímos de casa e fomos até a garagem. Lucas se sentou no banco do passageiro. Liguei o carro e sai de ré de dentro da garagem. Sai do carro rapidamente, fechei a porta da garagem e depois o grande portão de madeira. Tranquei com a chave e voltei para o carro. Dei partida e fiz o caminho familiar até a casa da Karol.
- É essa daqui. – Informei depois de alguns minutos, parando em frente á uma grande casa azul.
Descemos do carro e caminhamos até a porta. Toquei a campainha e esperei. Logo uma linda ruiva apareceu para nos receber, com um sorriso enorme estampado no rosto. Ela era a única pessoa que eu conhecia que conseguia estar tão alegre ás sete horas da manhã.
- Oi!! – Ela nos saldou alegremente.
- Nossa, quanta animação... – revirei os olhos – Bom, Lucas, essa daqui é a Karol... A maluca que eu havia falado para você... – Sussurrei a última parte. Ela riu e me deu um leve tapa no ombro, fingindo estar ofendida.
- Hey, é assim que você me apresenta? Que falta de consideração, hem! – Ela gargalhou e depois olhou para o menino pálido ao meu lado. – Nossa! Que gracinha! – Ela chegou perto e segurou nos ombros deles, se curvando para encará-los nos olhos. – Você é tão bonito! – Ela sorriu. – Me faz lembrar o Felipe! – Eu ri, ela me olhou feio, mas achou melhor me ignorar. – Felipe é o meu marido. – Ela explicou para ele, olhando-o nos olhos. Eu sabia que ela o estava assustando. – Hey, gracinha, qual é o seu nome? – Perguntou. Ele parecia ter engasgado.
- É Lucas. – Eu mesma respondi, sabendo que ele não iria dizer. Ela sorriu maravilhada, ignorando o fato dele não tê-la respondido. Ela era a única pessoa que eu conhecia que não ligava para esse tipo de coisa.
- Que nome lindo! Lucas... Lucas! – Ela repetiu sonhadora; seus olhos brilhando de satisfação, sem desgrudar de perto dele. Definitivamente, ele deveria pensar que ela é maluca. E não o culpo, pois quando a conheci, também pensei que era. – Você e eu vamos nos divertir muito hoje, não é mesmo? Sabe, eu adoro companhia! Vai ser muito divertido! Podemos assistir á filmes, comer pipoca, jogar vídeo game, mexer na internet... Vai ser incrível!. – Ela saltitou de felicidade.
- Ah, Karol, por favor, assim você assusta o menino. – Ela riu desgostosa. – Vamos combinar o seguinte: Você vai deixá-lo em paz hoje, vai dar espaço para ele. Não quero saber de você grudada no pescoço dele 24 horas. Ok? Será que é pedir demais? – Ela colocou a mão no meu ombro e me olhou séria.
- Relaxa, você não poderia ter escolhido babá melhor. Tenha certeza de que quando você voltar, eu e o Lucas já seremos melhores amigos. – Ela sorriu. Eu sabia que ela iria usá-lo como macaco de teste, para aperfeiçoar seus dotes como mãe. – Espere e verá. Nós dois teremos um dia inesquecível.
- Disso eu não tenho dúvidas... – Falei com desdém. Ela sorriu.
- Não me provoque. – Avisou.
- Bom... – Olhei para ele. – Eu tenho que ir agora. Sei que ela pode parecer maluquinha, mas confie nela, ta bom? – Ele assentiu. – Ótimo. Eu tentarei voltar o mais rápido possível. – Voltei a olhar para ela. – Obrigado. – Sussurrei. Ela me olhou com compaixão e moveu os lábios em um “Não há de quê” mudo.– Tente não matá-lo até eu voltar, está bem? – Sorri e voltei para o carro. Fiquei observando os dois entrarem na casa. Eu sabia que a Karol é de confiança, mas mesmo assim algo dentro de mim doía ao imaginá-lo passar o dia inteiro com uma estranha. “E para ele você é o que?” perguntou a voz dentro da minha cabeça.
Dei partida no carro e fui para o serviço.
Na hora do almoço, eu liguei para a casa da Karol para saber como estavam as coisa.
- Está tudo bem sua bobinha, não se preocupe.
- Ele está se comportando? – Perguntei, percebendo que aquela era uma pergunta estúpida demais. Era mais provável que a Karol estivesse dando trabalho para o Lucas, do que o contrário. Mas eu não podia ter certeza, talvez, ele só agia como príncipe na minha frente e na frente dos outros ele era completamente louco e descontrolado.
- Imagina... Ele é um anjo. Muito educado, nunca vi coisa igual. Ele nem parece uma criança... – Ela suspirou. – Espero que meu filho seja assim também... Seria tão bom.
Eu sorri.
- O que vocês estão fazendo?
- Ele está na sala assistindo um filme e eu estou na cozinha preparando o almoço.
- Hm... Não é um filme violento, não é?
- Não, é um filme de aventura. Não tem nenhuma cena de violência não...
- Hm, ótimo.
Houve uma pausa.
- Sabe Susan, só tem uma coisa que eu achei estranho... – Falou meio envergonhada. Ela nunca gostou de apontar defeitos nas pessoas. Senti meu coração acelerar.
- E o que é?
- Bem... Ele é um garoto super bonito e saudável, eu percebi, mas até agora ele não me disse nem uma única palavra. Será que eu fiz alguma coisa errada? Ou é por causa da morte da mãe? Ele está traumatizado, é isso? Coitadinho... Ele deve estar com medo de criar novos laços com as pessoas e perdê-las também... Eu acho que li algo sobre isso na internet dias atrás. Ele não suporta mais depender dos outros. Ele tem medo de passar por tudo outra vez, não é mesmo? – Sua voz estava chorona.
- Karol, você não está chorando, não é? – Perguntei preocupada. É só o que faltava: o Lucas vê-la chorando, ele é só uma criança, poderia achar milhares de coisas...
- Não, não... – Disse um pouco abalada. – Mas é que essa história é tão triste... – Murmurou.
- Olha Karol, por favor, não chore na frente dele. Ele poderá achar que você está chorando por culpa dele. Você sabe como são as crianças... Então sempre imaginando coisas...
- Tudo bem... Eu não vou chorar não...
- É bom mesmo. – Fiz uma pausa – Bom, na verdade eu já reparei nisso também. Ele faz isso com todo mundo, não é só com você não...
- Ele faz isso com você também?
- Bom, na verdade não.
- Isso é bom. Quer dizer que ele confia em você.
- Sim, eu sei. Mas mesmo assim eu fico preocupada. E se ele agir assim pelo resto da vida dele? Isso não pode acontecer. Ele irá virar um anti-social.
- Bom, talvez, você deva pensar em passá-lo em um médico... Sabe, um psicólogo talvez o ajudaria muito...
- Eu já pensei nisso, mas acho que é sedo demais. Ele precisa de um tempo para entender tudo o que está acontecendo na vida dele. São muitas novidades e ele é só uma criança, apesar de não parecer.
- Sim, mas quanto mais tempo você esperar, mais a situação dele pode piorar. Tem que cuidar do trauma ainda no início, se não ele poderá ficar traumatizado para o resto da vida dele e no futuro, quando ele for criar uma família ou procurar um emprego, isso irá prejudicá-lo muito.
- É... Você tem razão. – Suspirei.– Vou esperar mais algumas semanas, até ele se acostumar melhor comigo e então eu faço isso.
- Exatamente. – Ela concordou. – Isso é o melhor que você faz por esse garoto.
- Sim, mas é que eu me sinto um pouco cruel...
- Cruel? Cruel por quê?
- Bom, não tem nem dois dias que ele veio para a minha casa e eu já vou colocar um adesivo de louco na testa dele?
- O que? Não é porque você está pensando em passá-lo em algumas consultas em um psicólogo que quer dizer que ele é louco não! Essa é uma visão muito preconceituosa, Susan. Psicólogo não é médico de louco! Nunca foi e nunca será. Meu pai, que Deus o tenha, que me ensinou isso. Ele era um ótimo profissional! E no consultório dele ia todo tipo de pessoas que você possa imaginar. Desde pessoas homossexuais, adolescentes grávidas, pessoas que foram traídas, idosos á crianças de três anos de idade, ex-usuários de drogas e adolescentes com depressão! Hoje em dia, todo mundo precisa ir ao psicólogo, pois todo mundo tem problemas. Não são só os loucos não! A única coisa que você tem que fazer, é colocar na cabeça dele isso também. O resto fica na mão de Deus, Susan.
- Eu sei Karol... Mas é complicado... Ele é só uma criança.
- Sim, uma criança que acabou de perder a mãe em um acidente horroroso. Você pode até achar que não, mas será que ele não se culpa pelo que aconteceu com a mãe dele? Afinal, ela estava vindo para o Rio para buscá-lo, não é?
Fiquei em silêncio um minuto, ela me esperou pacientemente.
- Na verdade, ela veio um dia mais cedo porque queria conversar comigo... – Eu não sabia quantas vezes já havia repetido essa frase para mim. – Então se alguém tem culpa aqui, esse alguém sou eu.
- Susan, essa não é a questão. Eu não estou querendo apontar o culpado, porque ninguém tem culpa dessa tragédia. Foi Deus quem quis assim. Esse foi o destino dela. – Ela hesitou. – Talvez, ele não seja o único que precisa de algumas consultas... Sei que tudo isso também está sendo uma ‘barra’ pesada para você... E acho que seria bom se você-...
- Karol, EU NÃO VOU PARA NENHUM PSICÓLOGO! Não inventa moda! Eu não preciso ir para nenhum psicólogo! Eu não sou louca!
- Susan, quantas vezes eu tenho que te dizer que psicólogo não é médico de lou-...
- Não importa. Eu não preciso ir. Eu estou ótima. – suspirei. – Agradeço a sua preocupação, mas eu não preciso disso.
- Tudo bem, se você quer assim...
- Sim, é exatamente o que eu quero. Eu sei me cuidar muito bem, não preciso que ninguém fique me avaliando e dizendo o que eu tenho que fazer, para isso já basta a minha MÃE! Ela faz exatamente isso e não cobra nada!
Ela bufou.
- E falando nela... Como ela reagiu?
Eu quase ri.
- Ah, Karol, por favor, até parece que você não conhece a fera. Como é que você acha que ela reagiu, hem? – Perguntei com desdém.
- Pelo modo como você está falando, imagino que nenhum pouco bem.
- Bingo! – Eu quase gritei – Você sabe, né? Aquela mulher me odeia. Ela tinha que me deixar para baixo. Por causa dela, eu quase desisti de...
- O que ela pode ter dito de tão ruim?
- Bom, ela disse tudo de ruim que alguém poderia dizer para a outra pessoa numa situação como essa. Estava decidida a me fazer desistir. Até dizer que seria mil vezes melhor se a mãe do Lucas o tivesse deixado apodrecer naquele orfanato do que deixá-lo comigo ela disse, acredita?
- Ah, não. Tudo bem, eu até admito que a senhora Silvia pode não morrer de amores por você, mas agora dizer uma coisa dessas? Não, não pode ser. Ela é sua mãe, ela te ama! Ela não pode ser esse mostro... Ela deveria te apoiar... Ela deveria...
- Não adianta, Karol. Sei que por você ter uma mãe tão maravilhosa quanto a Vera é difícil de acreditar, mas é verdade. Minha mãe realmente me odeia. Ela sempre me odiou e sempre vai me odiar. Esse é o meu castigo, Karol.
- Mas a Silvia sempre me tratou tão bem... Ela não parece ser assim.
- Ela é assim mesma. Na frente dos outros é um santa, mas quando está às sós comigo, ela mostra o seu verdadeiro rosto. E acredite, não é nada bonito.
- Eu sinto muito amiga... Você sempre me disse isso, mas eu nunca acreditei. Sempre achei que você estivesse exagerando, por ciúmes da sua irmã, mas agora... – Ela suspirou.
- Eu nunca tive ciúmes da minha irmã mais nova. – Falei. – Eu só nunca entendi porque ela sempre tratou melhor ela do que eu. Eu não acho isso justo. As mães, principalmente as mães, não deveriam amar seus filhos igualmente? Então porque ela me odeia? O que eu fiz para ela me odiar tanto?
- Talvez não seja nada que você tenha feito... – Ela sussurrou.
- O que você quer dizer?
- Bom, tem algumas mães que quando os filhos nascem, elas acabam tendo depressão. Você já deve ter ouvido falar sobre a famosa e temida depressão pós-parto, não é? Se isso tiver acontecido com ela e ela não tiver sido tratada, é possível que ela tenha criado essa empatia por você, mesmo você sendo só uma criança e não tendo culpa de nada. Isso é muito comum na primeira gravidez de uma mulher, pois é a primeira vez que ela vê seu corpo mudar dessa maneira. Algumas grávidas se sentem feias e gordas... Mas a maioria das grávidas que passam por essa depressão acaba melhorando depois de alguns meses, quando o corpo volta ao normal. Isso é muito comum, ainda mais aqui no Brasil, onde a estética é tão importante.
- Nossa Karol, como você sabe de tudo isso?
- Querida, você esqueceu que eu vou ser mamãe? Eu preciso saber de tudo isso, né? Tenho que estar preparada.
Eu ri.
- Claro... – Falei com desdém, revirando os olhos. – Olha, esse pode até ter sido um bom palpite, mas eu acho que não é por causa disso. Quando a minha mãe ficou grávida de mim, meu pai garantiu que ela tivesse todo o apoio hospitalar necessário. Ele contratou dezenas de médicos para cuidar dela, pois a gravidez era de risco.
- Hm... Então eu sinceramente não sei o que pode ser.
- Tudo bem, amiga. Minha mãe é maluca mesmo. Ninguém jamais conseguirá entende-la. Ela é um mistério para toda a humanidade.
Escutei a risada dela.
- Bom, Susan, só espero que ela não tente nada contra você. Quer dizer, pelo que você me disse, ela não gostou nenhum pouco de saber que você ficou com a guarda do menino, não é?
- Sim, isso mesmo. Ela queria que a guarda ficasse com ela.
- Você já perguntou para o seu advogado se isso é possível? Quer dizer, se tem algum jeito dela provar que você não tem condições de cuidar dele?
- Karol, você não está conversando comigo perto do Lucas, né? Eu não quero que ele escute essa conversa.
- Não, relaxa. Eu desliguei as panelas e vim para o meu quarto. Ele não pode nos ouvir.
- Ah, ta. Que bom. – Fiz uma pausa. – Então, pelo que o meu advogado me explicou, a única maneira dela tirar essa guarda de mim, seria se ela tivesse provas que eu sou uma mulher violenta, irresponsável ou se provasse que eu não tenho situação financeiras para cuidar dele. Mas como eu estou trabalhando e como eu tenho o meu nome limpo, ela não pode fazer nada. – eu ri – Eu até imagino a cara que ela deve ter feito quando o advogado disse isso para ela. Eu queria estar lá. Deve ter sido hilário. Pela primeira vez, ela não conseguiu acabar com a minha vida. Pela primeira vez, eu ganhei a batalha e não ela. A lei está á meu favor.
Ela também riu.
- Hey, soldado, você sabe que isso não é uma guerra entre você e a sua mãe, não é?
- Bom, eu sei. Mas mesmo assim é muito divertido saber que ela não pode fazer nada. Dessa vez, as coisas vão ser do meu jeito. – Meu sorriso não podia ser maior. Olhei para o relógio no meu pulso (13h07min). Eu estava sete minutos atrasada. – Karol, eu vou ter que desligar, o meu horário de almoço acabou.
- Nossa, é mesmo. E você não comeu nada?
- Eu não estou com fome, mas quando eu puder eu dou uma saída e compro um lanche para mim, não se preocupe. Agora cuida bem dele, ta bom?
- Pode deixar comigo.
- Ah, Karol. Você pode me fazer um favor?
- Outro favor? Você está ficando folgada, hem mocinha! Vou começar a cobrar... – Provocou. – Mas tudo bem, o que é?
- Não é nada demais. É que o Lucas adora arte, e como você é paisagista, eu estava pensando se você poderia mostrar algumas fotos para ele...
- Vou fazer melhor, vou levá-lo até a minha estufa. Ele vai adorar! – Falou animada
- Obrigado.
- Relaxa, depois você vai me devolver tudo que estou fazendo por você...
- É mesmo? E quando isso vai acontecer?
- Quando eu pedir para você ficar algumas horas com o seu afilhado... – Ela brincou.
- Ah, claro... Eu sabia que não ia sair barato. Estava até estranho...
Nós duas rimos.
- Ta bom então. Agora vai trabalhar mulher! Porque você já está muito atrasada
- Ok. Até logo.
- Até. — Desliguei o telefone e voltei ao serviço, atendendo um cliente que estava observando as ferramentas. – Posso lhe ajudar em alguma coisa? – Perguntei educadamente.
- Uau. Hoje o dia foi cansativo, hem! – Falei para uma amiga, horas depois. Estava quase acabando o meu expediente.
- Foi mesmo. Estou ‘quebrada’... – Suspirou. – Não vejo a hora de chegar em casa e tomar um banho quente.
Peguei minha bolsa de dentro do meu armário e então o tranquei.
- Eu não sei como você consegue trabalhar o dia inteiro com esse salto! Quantos centímetros têm essa coisa? Quarenta?
Ela bateu de leve no meu ombro.
- Não exagera. Só tem quinze.
- Só?
- É. Eu tenho uns bem maiores em casa. Esse aqui não é nada.
- Uau. Que coragem...
Ela riu.
- Você pensa assim porque é alta, mas nós baixinhas temos que dar o nosso jeito, né? – Eu sorri.
Claudia, minha colega de trabalho era loira como eu, seus olhos era castanhos, sua pele bronzeada, era pelo menos cinco anos mais nova que eu, e media pouco mais de 1,58 centímetros, mas com os saltos, ficava quase da minha altura. Mesmo com a baixa estatura, ela era uma mulher que chamava muita atenção e eu atribuo isso aos seus grandes fios loiros, que apesar de não naturais, eram muitos bonitos e duas vezes maior que os meus. Sempre quando um cliente entrava na loja, se fosse homem, era sempre ela que ele procurava.
- Eu admiro você. Pois veja o meu salto, ele deve ter um cinco centímetros, não é? E mesmo assim estou quase morrendo com ele. A primeira coisa que eu vou fazer quando chegar em casa é tirá-los.
- É que te falta prática. – Disse com total confiança, como se estivéssemos falando sobre a sua melhor matéria na faculdade. Definitivamente, ela deveria ter doutorado nesse assunto.
- É verdade, mas eu não tenho paciência com salto. Isso é só para quem pode e não para quem quer. – Ela riu.
- Ai Susan, você é super maneira. – Disse com sinceridade. – É tão bom você ter começado a trabalhar aqui. Finalmente alguém legal para eu conversar.
- Ah, Claudia, você também é legal. – Fiz uma pausa. – Bom... Já que chegamos num acordo e decidimos que nós duas somos maravilhosas, acho que já vou indo. Você vai ficar mais uma hora aqui, né?
- É... A Helena pediu para eu fazer um extra e se sabe né? Dinheiro extra não se pode recusar! Ainda mais eu...
Eu ri.
- Sei bem como é. – Falei já começando a me afastar.
- Tchau Susan.
- Até amanhã Claudia...
Caminhei até o estacionamento, me despedindo de todos que eu via pelo caminho. Entrei no carro e dirigi até a casa da Karol, estava me sentindo ansiosa, como uma criança indo para a escola pela primeira vez. Estava garoando forte fora do carro e a estrada estava bastante escorregadia, mas sem trânsito. Quando cheguei na casa da Karol, o meu cabelo que havia molhado por causa da garoa meia hora atrás, já tinha secado. Eu estava quente dentro do carro, e tive que me esforçar muito para sair. Andei até a porta e toquei a campainha, torcendo para que ela atendesse rápido.
- Oi maluquinha... – Falou assim que abriu a porta.
- Nossa, obrigado por me deixar molhando do lado de fora, foi muito gentil da sua parte. – Disse mal humorada assim que atravessei a porta.
- Imagina... Eu faço muito gosto de ser gentil com as visitas. – Ela brincou.
- Ok, sua palhaça. Onde está o Lucas? Não me diz que você o deixou cair dentro do vaso sanitário sem querer?
- Rá-rá. Como você é engraçada... – disse com ironia. – Para sua informação, ele está no meu escritório vendo o meu álbum de fotografia.
- Hm... Mas e então, como foi o seu dia? Conseguiu arrancar alguma palavra dele?
- Na verdade, sim.
- Ah, é mesmo? Que notícia maravilhosa!
Meu coração disparou.
- Pois é. Eu te disse que eu levo jeito com crianças...
- Sei, sei. Mas como é que foi?
- Bom, ele é um menino muito inteligente e imprevisível, não é mesmo? Foi só eu levá-lo para o meu escritório e mostrar as minhas fotografias que ele se transformou.
- O que ele disse?
- Você acredita que ele me perguntou qual o número de fabricação da máquina digital que eu usei para tirar as fotos? Quer dizer, para que ele quer essa informação? Que tipo de criança se preocupa com esse tipo de coisa? – ela riu. – Ele ainda me perguntou se eu havia usado a luz natural do ambiente ou se havia usado algum refletor ou coisa parecida para dar esse ar “melodramático” ás fotos. Você acredita nisso? Esse menino é fabuloso! Você tem idéia de como foi difícil para mim, como paisagista, conseguir deixar o buquê de flores com esse aspecto sombrio e incomum? Poxa, eu mostrei para o Felipe milhares de vezes e expliquei o sentimento mais vezes ainda e ele não percebeu! Mas esse garoto, esse garoto de NOVE anos de idade, apenas colocou o olho na fotografia do meu buquê e sentiu exatamente a profundidade do abismo que eu quis proporcionar!
- Você tem consciência de que eu não estou entendendo nem uma palavra do que você está dizendo, não é mesmo? – Perguntei séria.
- Viu! É exatamente isso que eu estou tentando dizer. Se nem você que é a rainha do sentimentalismo consegue perceber, como esse menino conseguiu? Ele deve ser muito especial... – Ela estava falando comigo ou estava falando sozinha? Bom, eu não sei...
- Você é mesmo maluca, né? Do que exatamente você está falando? – Ela me olhou feio.
- Da minha fotografia que está pendurada no meu escritório há quatro anos...
- Que fotografia?
- Ai, eu desisto! – Eu ri.
- Estou brincando. Eu sei qual é. Mas sinceramente não sei como você pode chamar aquilo de buquê... Parece que você pegou um taco de beisebol, acertou várias flores com ele e depois juntou todas elas e amarrou. É horrível.
- Não é horrível, é profundo! – Se defendeu.
- Profundamente horrível... – Provoquei.
- Você é tão insensível! – Gritou emburrada. Eu ri mais alto ainda.
- Nossa, como você é indecisa... Você acabou de me chamar de “rainha do sentimentalismo” e agora já está me chamando de “insensível”... Decida-se mulher! Ou eu sou uma coisa ou sou outra... – Gargalhei.
- Ai, por favor, você pode pegá-lo logo e ir embora? Você me irrita! – Falou sorrindo.
- Tudo bem... E você pode chamá-lo logo ou está realmente acreditando que eu vou subi essa escada com esse salto?
Ela olhou para os meus pés e então revirou os olhos.
- Acho que mudaram o significado da palavra “salto”... – Resmungou enquanto subia as escadas.
“Sim, eu sou folgada. Mas ela não trabalhou o dia inteiro como eu. Além disso, exercício faz bem para a gravidez”. Ri do meu próprio pensamento egoísta.
Depois de alguns minutos ela e o Lucas desceram as escadas. Sorri quando o vi.
- Que ótimo! Você ainda está inteiro...
- Não seja desagradável. – Retrucou Karol. – Se não quem vai sair dessa casa sem uma parte do corpo vai ser você.
Nós duas rimos.
- Lucas, eu te adorei. Você é um encanto. Foi muito divertido ficar com você. – Disse quando andamos até a porta. Ele sorriu um pouco envergonhado. Ele ficava muito fofo assim, reparei. – Amanhã eu te vejo então, está bem? Vou comprar aquele filme que eu te falei para nós dois assistirmos. Vai ser muito legal.
- Obrigado de novo. – Falei.
- Ah, para com isso, não foi nenhum favor. Foi como se eu tivesse recebido a visita de um velho amigo... – “um velho amigo de nove anos e que quase não fala” pensei – Você vai vir amanhã na mesma hora, não é?
- Sim.
- Hoje não deu tempo, mas amanhã eu vou acordar um pouco mais cedo para fazer o café...
- Não, não precisa. Eu sempre faço antes de ir trabalhar. Não precisa se preocupar.
- Ta bom.
- O Felipe chega amanhã?
- Não. Ele só vai voltar sábado. Até lá eu vou ficar nessa casa grande sozinha, quer dizer, agora eu arrumei uma companhia. – Disse sorrindo para ele.
- O Felipe vai morrer de ciúmes quando souber que você colocou um homem na sua casa enquanto ele está viajando... – Brinquei.
- É bom mesmo que ele fique. Quem sabe assim ele não para de viajar tanto á trabalho e começa a me dar mais valor...
- Aiai... Bom, te vejo amanhã então maluca. Tchau. – Falei.
- Tchau. Tenha uma boa noite.
- Você também.
- Tchau Gracinha! Até amanhã...
- Até. – Ele falou timidamente. O sorriso no rosto da Karol dobrou de tamanho.
Caminhamos debaixo da garoa até o carro. Quando já estávamos lá dentre eu disse calmamente:
- Lucas, coloque o cinto. – Ele obedeceu. Eu também coloquei o meu.
- Ela é mesmo muito legal. – Ele falou assim que viramos a esquina.
- Sim, é mesmo. Mas então, o que vocês fizeram de legal hoje?
Ele refletiu por um momento.
- Ela me mostrou as fotografias dos jardins e dos buquês que ela fez. São incríveis. Você já viu algum desses jardins de perto?
- Ela não te mostrou a estufa que ela tem no fundo da casa?
- Sim... Mas como choveu o dia inteiro, a maioria das plantas estavam encharcadas, machucadas por causa das gotas da chuva e os botões das flores estavam fechados. Não é a mesma coisa de observá-las em um dia de Sol...
- Entendi o que você quer dizer... E sim, eu já vi alguns jardins que ela fez. São muito bonitos. Ela é bem talentosa. Quando você está dentro de um lugar como esse, é como se você estivesse dentro da mente do artista. É uma sensação única.
Ele ficou em silêncio durante um certo tempo, e quando eu já estava quase esquecendo o assunto, ele disse:
- Essa é uma boa percepção. – outra vez silêncio. – Quando eu for pintor profissional, eu... Eu posso pintar um quadro seu?
Eu quase perdi o controle da direção.
- O que?
- Quando eu for pintor profissional eu posso-...
- Eu escutei o que você falou, mas... Porque você quer pintar um quadro meu?
- Porque quando uma pessoa o ver, saberá exatamente o que está na minha mente... Você.
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