Perdida Em Seu Olhar - (Finalizada)

11 Capítulo dez - São Paulo. De volta ao passado.


Notas iniciais
Demorei para postar porque estava sem inspiração. Tive que me obrigar a escrever cada parágrafo, portanto, não sei se ficou bom.
Ainda assim, espero que gostem.
Desculpe os erros.

Capítulo Dez. – Indo para São Paulo e voltando para o passado.

Aquele havia sido um dia bastante normal. Eu havia acordado ás seis horas da manhã, depois de dormir apenas quatro horas na noite anterior. Tomei café ás seis horas e meia. E deixei o Lucas na casa da minha amiga, Karol, ás sete horas da manhã. Dirigi até o serviço, estacionei e então caminhei tranquilamente para dentro da loja. Vendi muitos produtos e acabei recebendo um elogio da minha patroa no final do expediente, o que aumentou a minha autoconfiança. Depois do serviço voltei para a casa da minha amiga, peguei o Lucas e fomos para a casa. Quando chegou tomei um banho e troquei de roupa e enquanto esperava ele fazer o mesmo, fui fazer o jantar. Fiz arroz, feijão e frango assado. Comemos e depois fomos assistir televisão. Ouvi o Lucas contar como foi o seu dia, enquanto fazia o meu caça-palavras em silêncio. Ele parecia muito enérgico naquele dia. Descobri que ele e a Karol haviam ido ao parque e que ela fez lasanha no almoço. Conversamos, assistimos e reclamos até ás onze horas da noite, quando já cansados, fomos dormir. Deitei na minha cama e em menos de dois minutos já estava dormindo.

No dia seguinte, acordei feliz por não ter que ir trabalhar. Eu estava animada e depois de tomar um banho e trocar de roupa, desci e fui para a cozinha. Quando passei pela sala, liguei o rádio e coloquei uma música. Essa era quase uma tradição no sábado de manhã. Enquanto dançava a minha coreografia maluca, fiz panquecas. Quando terminei lavei a louça e organizei a mesa. Eram quase nove horas quando o Lucas desceu. Ele ainda estava de pijama, reparei. Ele não parecia ter dormido tão bem quanto eu, e acho que sei por quê. Na noite anterior, eu o avisei que hoje teríamos que fazer uma pequena viagem para São Paulo, e o motivo me parece obvio demais para ter que explicar. Comemos as panquecas com café, conversando vez e outra sobre como a música que tocava no rádio era extravagante ou como a voz do cantor era desafinada. Depois que acabamos, fomos para a sala e nos esticamos no sofá. Eu desliguei o radio e liguei a tv. Estava passando um jogo de voleibol na Globo. Assistimos até o final, vibrando sempre que o time brasileiro marcava ponto e reclamando da agressividade do outro time. Eu não consegui não ter inveja das jogadoras... Como podem existir corpos tão atléticos e ainda assim tão sensuais? É quase uma contradição.

– Lucas, você vai ter que separar algumas roupas para levarmos, está bem? Quer dizer, eu sei que você tem roupas lá, mas é que elas estão há tanto tempo guardadas que acho melhor não usá-las. – Falei quando o jogo acabou.

– Ta bom.

Subimos as escadas e fomos cada um para o seu quarto. Eu arrumei uma pequena bolsa de roupas para mim. Depois de alguns minutos, desci e fui até o quintal. Peguei a roupa do varal e levei para dentro de casa.

– Lucas, faz um favor para mim? Pega a sua roupa suja, por favor, e leva para a lavanderia? Eu vou lavar antes de irmos... – Ele estava sentado no terceiro degrau da escada.

Dobrei as blusas que eu havia acabado de pegar do varal e coloquei tudo em cima de uma cadeira. Era pouca coisa, por isso eu iria deixar para passar depois.

Subi até o meu quarto e peguei o meu cesto de roupa suja. O Lucas já havia descido com o dele. Caminhei até a lavanderia, que ficava no funda da casa e liguei a máquina. Enquanto a máquina lavava a roupa, eu varri o meu pequeno quintal, que estava cheio de folhas secas, que caiam da árvore do visinho. Depois eu lavei na mão algumas blusas cujo tecido são muito frágeis e que eu tenho medo da maquina rasgar, igual como já havia feito com um vestido meu antes. Depois que ela enxaguou as roupas, eu as pendurei no varal. Voltei para dentro de casa, o Lucas estava assistindo um seriado na televisão.

– E então, está pronto? – Ele deu um pulo quando escutou a minha voz, parecendo ter se assustado.

– Estou sim... – Falou meio desanimado. Eu me aproximei e coloquei a mão no ombro dele.

– Eu sei que é difícil, mas acho importante você vir junto comigo. Essa pode ser a última vez que você vê a sua casa... – Sussurrei.

– Eu sei, mas é complicado...

Eu cheguei mais perto e o abracei.

– Não se preocupe, eu estou com você.

Antes de sair da cidade, eu enchi o tanque do carro com gasolina. Dirigi por cerca de quatro horas até chegar em São Paulo. O trânsito me assustou, eu nunca tinha visto tantos carros juntos... Mesmo morando no Rio de Janeiro.

– Aqui isso é normal. Você ainda não viu nada. – Ele falou.

Levamos mais duas horas até que finalmente eu encontrei o bairro.

– É essa casa aqui... – Falou.

– Qual? É a branca ou essa do portão azul?

– Nenhuma dessas. É aquela que tem uma árvore grande na frente...

– Ah, acho que achei.

– Sim, essa mesma. – Disse quando eu estacionei em frente à casa certa (depois de ter estacionado em trezentas casas erradas).

Saí do carro. Minhas pernas estavam dormentes de tanto ficar sentada. Ele também saiu.

– Nossa, aqui em São Paulo está um tempo bem bonito, né? Que diferença do Rio... – Murmurei, enquanto olhava para as casas vizinhas. Aquele parecia ser um lugar bem sossegado, nada do que eu havia imaginado.

A casa do Lucas era muito bonita. Sim, muito delicada, porém de aparência simples. Era toda pintada com cores pastéis, com uma cerca de madeira de estatura mediana cercando todo o seu perímetro. Logo na entrada, existia um belo jardim com flores que eu nunca havia visto antes, um arco-íres de cores e formatos, que logo chamou a minha atenção e me fez lembrar da minha infância. Anabela sempre gostou de jardins, e com treze anos de idade, fez por conta própria um canteiro de rosas vermelhas no fundo da minha antiga casa, fazendo minha mãe chorar de tanta emoção ao ver a beleza de cada flor; lembro-me de ter meu dedo cortado muitas vezes pelos espinhos daquelas rosas. Ao fundo do quintal, pude notar uma grande amoreira, lotada de frutos, que de tão maduros, caiam no chão e deixavam uma estranha mancha rocha ressecada no solo. A casa não era grande, mas me passava a idéia de ser confortável para duas pessoas morarem.

Coloquei a mão no bolso e andei até o portão de madeira, passando primeiro pelo pequeno caminho feito de pedras que existia ali, o qual separava a grama verde daquela antiga calçada dos pés dos novos visitantes. Retirei a pequena chave do fundo do meu bolso e a enfiei na fechadura. Lucas observava tudo em silêncio atrás de mim.

– O segredo é empurrar o portão para frente... – Explicou, notando a minha dificuldade. Eu tentei, mas não consegui. Parecia que a chave estava emperrada, então ele se aproximou e tomou o meu lugar. – Deixa que eu te mostro. – Em um segundo, o portão estava aberto. Ele deu passagem para que eu entrasse primeiro e entrou em seguida. Observei atentamente ele andar até a porta de ferro da entrada da casa, se agachar, pegar algo debaixo do tapete e abrir a porta. – Minha mãe sempre deixa uma chave reserva escondida, em caso de algum imprevisto. – Explicou, olhando para mim. Assenti.

– Ela faz bem. – Concordei.

Ele respirou fundo e então entrou, ligando a luz logo em seguida. Senti um frio na espinha quando vi a delicadeza da decoração. Parecia uma casinha de bonecas, daquelas que toda menina sonhava em ter.

“Eu não sei você, mas o meu sonho é morar em uma casa de princesa, dessas que a gente vê em filmes! Quero que ela seja toda cor de rosa e que tenha uma grande estatua no centro.” Lembro-me dela, Anabela, dizer quando éramos pequenas, enquanto tomávamos sorvete na praça. Na época, eu achei graça e cheguei a tirar sarro daquela idéia, dizendo que o tio dela, o senhor Mordinalle, jamais permitiria que ela pintasse a casa de rosa e que isso era maluquice da cabeça dela. Mas agora, eu vejo que ela não estava brincando.

As paredes da casa não eram cor de rosa, mas eram de um tom muito parecido, que nos lembrava cor de roupinhas de neném. E bem no centro da sala, ao lado do sofá, havia uma estatua de uma pequena menina indígena, de tamanho real. Não tinha certeza sobre o que ela queria dizer com aquilo, mas isso me fez sorrir. Na infância, os meninos da nossa rua, sempre zombavam dela, dizendo que ela parecia uma índia e que deveria voltar para o mato da onde tinha saído, mas Anabela nunca deu importância para isso, ao contrário, sempre viu essas provocações infantis como maneiras dos meninos chamarem sua atenção. Ela sempre fora muito confiante sobre o seu poder de sedução e nunca se deixou abater. Ela era fenomenal. Senti a saudade machucar meu peito, mas não querendo preocupar o Lucas, me mantive tranqüila, sorrindo sempre que ele olhava para mim.

O caminhão que iria levar os móveis para o Rio chegará ás sete horas da amanhã, por isso, passamos a tarde inteira separando coisas. Eu fiquei encarregada de separar as louças da cozinha e os móveis da sala, enquanto ele separava tudo do seu quarto que queria levar. Como a minha casa é pequena, combinamos de só levar o essencial. Tudo que não fossemos usar, eu separei para doar ou vender. Durante o decorrer da tarde, alguns vizinhos apareceram para prestar as suas condolências e perguntar se precisávamos de ajuda.

– Vocês têm caixas? – Eu perguntava.

Nessas caixas eu guardei as louças e os vasos. Depois fui para o próximo cômodo e comecei a separar novamente os móveis. Eu me sentia muito estranha fazendo aquilo. Como se eu fosse um ladrão, assaltando a casa de um desconhecido. Eu jamais havia estado ali, e na primeira chance que tenho, vou para escolher os móveis que eu quero levar para a MINHA casa, como se tudo ali me pertencesse. Eu não paguei por nada disso, não tenho o direito de levar nada para a minha casa. Com esse pensamento, logo a garagem — onde eu colocava os móveis que iria doar — encheu.

– Eu só vou levar o que o Lucas realmente precisar, e o resto eu comprarei. – Disse para mim mesma no final da tarde.

De repente percebi que desde que nós chegamos, eu não havia mais o visto. Ele passara a tarde inteira trancado no próprio quarto. Foi então que pela primeira vez, percebi que havia cometido um erro.

Subi as escadas correndo e segui direto para o seu quarto, mas não encontrei ninguém. O móvel estava vazio, com exceção de algumas caixas de papelões cheias de coisas. Ouvi um barulho vindo do cômodo ao lado e marchei para lá. O medo tomando conta de mim. Parada na frente da porta daquele quarto – o antigo quarto de Anabela –, eu vi o que estava acontecendo. Ele deitado na cama, agarrado á um álbum de fotografias, chorando baixinho, como se cantasse uma música de ninar. Meu coração se partiu ao ver aquela cena. Aquela foi a primeira vez que o vi chorar, mas certamente não seria a última.

No dia seguinte, logo pela manhã, fomos acordados pelas palmas do motorista do caminhão. Lucas e eu havíamos terminado de organizar tudo á noite, e estávamos exaustos. Passamos o resto da manhã enchendo o caminhão com as mudanças. Alguns visinhos apareceram para nos ajudar e um deles nos convidou para almoçar na casa dele, mas eu não aceitei, dando uma desculpa qualquer para que ele não ficasse magoado. Sabia que não iria fazer bem para o Lucas ter um conhecido enchendo-o de perguntas, por isso, decidi que iríamos almoçar em um restaurante, como havíamos feito no dia anterior. Mesmo não demonstrando, eu sabia que ele não estava bem. Isso estava estampado no seu olhar. E pela primeira vez, o vi como o menino de nove anos que ele era.

Passei a noite toda refletindo se realmente havia feito certo em trazê-lo junto comigo. Talvez estivesse esperando muito dele. Por mais maduro que ele demonstre ser, no fundo continuava sendo apenas uma criança. Uma criança assustada e carente, que está dando o seu máximo para ser forte, mesmo que isso o arrase por dentro.

Ele era igual à mãe. Não só por fora, como também por internamente. Ele tinha herdado a sua coragem e perseverança. Eu sempre a admirei por isso e agora vejo que ele é igual. Minha melhor amiga sempre pensou em mim, e até mesmo no seu último minuto de vida, ela havia me deixado um presente maravilhoso. De agora em diante, ele é meu. Meu filho, e meu exemplo. Vou cuidar dele e protegê-lo de todo o mal, como se a minha vida dependesse disso. E nunca mais quero vê-lo chorar. Ele vai ser feliz, nem que eu tenha que atravessar o Atlântico a nado para que isso aconteça.

– Lucas, eu tenho que ir para a sua escola hoje, para resolver a sua situação escolar. Você quer ir junto comigo? – Perguntei para ele, depois que pedi para o garçom a conta do almoço.

Ele me olhou com dúvida, mas acabou decidindo que seria melhor me acompanhar. Por dentro, eu fiquei aliviada. Não queria deixá-lo sozinho naquela casa.

Saímos do restaurante, caminhamos até o estacionamento e entramos no meu carro. Procurei dentro da minha bolsa o endereço da escola, que o advogado havia me passado. Demorou, mas depois de quarenta minutos mais ou menos, consegui achar o colégio. Já na recepção, fui atendida por um senhor educado, que me informou ser o coordenador.

– Olá Lucas. – Falou sorrindo para o menino cabisbaixo ao meu lado. Ele não respondeu. – É uma pena o que aconteceu com a sua mãe. Ela era uma mulher adorável. – Sua voz estava triste.

– Sim. Ela era insubstituível. – Falei. O coordenar olhou para mim e assentiu.

Fiquei a tarde inteira resolvendo a papelada da matricula dele, enquanto o mesmo esperava sentado no canto, lendo algumas revistas. Logo, o céu já estava escurecendo e o tempo esfriando.

– Então é só eu pedir a transferência e mostrar esses papéis para a diretora? – Perguntei.

– Isso mesmo.

– Eu tenho que assinar mais alguma coisa?

– Não.

– Ok. Obrigado então, senhor Francisco. – Sorri.

– Foi um prazer ajudá-la, senhorita.

– Tchau. – Me virei para ir embora.

– Façam uma boa viajem... Tchau Lucas.

– Tchau... – Sussurrou.

Saímos da escola, atravessamos a rua e entramos novamente no carro.

– Você está com frio? – Perguntei, colocando o cinto de segurança. Minhas bochechas estavam congeladas e meus olhos doíam toda vez que eu piscava.

– Mais ou menos.

– Acho que vou ficar gripada... – Liguei o carro.

– Nós vamos embora hoje ou amanhã?

– Eu não quero pegar a estrada á noite, mas tenho que ir trabalhar amanhã... – Ele ficou quieto. – Mas se você quiser, podemos ir só amanhã... – Murmurei.

– Não. Eu quero ir hoje mesmo.

– Tudo bem. – Ficamos em silêncio por um tempo. – Agora deve ser umas sete horas, não é? – Não esperei que ele respondesse – Você está com fome?

– Não...

– Bom, mas eu acho melhor passar em um mercadinho e comprar alguma coisa... A viagem vai ser longa. – Uma pausa – Tem um mercadinho perto da sua casa, não é?

– Tem sim...

– Bom. Poderemos comprar algumas bolachas e alguns salgadinhos... — Ficamos o resto do percurso em silêncio, até que eu estacionei em frente à casa de Anabela. – Você quer entrar? – Questionei. – Eu só vou pegar a minha mala. A sua você já pegou, não foi?

– Já peguei sim. Eu prefiro esperar aqui, tudo bem?

– Tudo. Eu não vou demorar. – E sai do carro. Tive um pouco de dificuldade para abrir o portão, mas com um pouco de persistência eu consegui. Depois peguei a chave de debaixo do tapete e abri a porta. – Preciso levar essa chave comigo... – Sussurrei para mim mesma, colocando-a dentro do bolso. Liguei a luz e andei até a cozinha, peguei a minha mala de cima da mesa e desliguei a geladeira. Depois, fiz o caminho de volta para o carro. – Espero que não tenha esquecido nada. – Falei quando entrei. Liguei o carro e dirigi até a pequena mercearia no final da rua. – Alguma preferência ou eu posso comprar o que eu quiser? – Perguntei, estacionando o carro no meio fio.

– O que você quiser.

– Ok. – E sai do carro. Comprei alguns salgadinho de marcas conhecidas, duas bolachas e voltei para o carro.

– Você comprou algo para bebermos? Acho que vamos ficar com sede... – Falou assim que eu abri a porta do carro.

– Esqueci. – Voltei para o mercadinho e comprei duas garrafinhas de refrigerante. – Pronto. – Disse, me sentando no banco do motorista. – Você quer comer agora? – Perguntei, o entregando a sacola com as compras.

– Não. Só vou tomar com gole do refrigerante.

Coloquei o sinto, liguei o carro e comecei a dirigir.

– Só espero que não peguemos transito... – Murmurei depois de alguns minutos.

– Quem você disse que ia receber o caminhão? – Ele questionou.

– Eu pedi para a Karol.

– Ah.

– Sabe, eu estava pensando... O que você acha de doarmos os móveis da sua antiga casa para alguma constituição carente? Existem tantas pessoas precisando...

– Acho uma boa idéia. Se nós não vamos mais usá-los, não há necessidade de guardá-los.

– Imaginei que você ia dizer isso. – Hesitei por um momento. – Mas... Bom, não sei como perguntar isso... Sabe, Lucas, a sua mãe tem tantas roupas, imagino que você...

– Não se preocupe, Susan. – Olhei para ele. – Eu estou bem quanto a isto. Sinto falta da minha mãe sim, e sempre vou sentir, pois como você disse: Ela é insubstituível. Mas isso não significa que eu vou ficar preso ao passado. – Ele me olhou profundamente, como se tentasse ler os meus pensamentos e desvendar a minha alma. – Minha mãe ficaria feliz se doássemos os objetos dela e é isso que eu vou fazer. – Respondeu por fim. Eu quase chorei, mas me forcei apenas a sorrir.

– Você é um garoto especial. – Disse, voltando a olhar para a estrada.


Notas finais
Então, o que acharam? Devo continuar?