Perdida

4 ‘Where the Streets Have no Name'


Notas iniciais
Obrigada Miss Bells e Celestte Loschiavo por me incentivarem a continuar e principalmente a você Miss Bells por ter me feito postar (na boa, eu realmente não ia postar, mas...) O link da música está nas notas finais.

Mas que ótimo – pensei comigo mesma – a chuva cobria cada pedaço de chão e a escuridão da noite escondia as nuvens tortuosas. Havia ficado até tarde no colégio e fui pega de surpresa pela chuva. Minha carona havia faltado e duvido que o guarda-chuva que eu carregava na bolsa iria agüentar. Peguei meu celular na tentativa desesperada de pedir um táxi, mas as forças maiores do universo não estavam ao meu favor, ele estava descarregado. Respirei fundo e decidi ir a pé. São apenas 52 km de distância.

– Maravilha – disse em um sussurro

No primeiro passo afundei meu pé na lama, deixando meu livro, cuja leitura ainda estava pela metade, cair. Abaixei-me para tentar resgatar algo, mas era tempo perdido então o larguei frustrada.

– Drácula de Bran Stocker? Que pena, era uma boa leitura – ouvi aquela voz rouca seguida da visão de um belo par de olhos azuis.

Fiquei em silêncio por alguns instantes, parcialmente hipnotizada.

– O que faz aqui? – saiu sem que eu percebesse

– Só de passagem – respondeu normalmente

Arqueei uma das sobrancelhas duvidando de sua resposta.

– Que? – Aparentemente ele notou – Não acredita em mim? Sinto-me ofendido.

Seu rosto mantinha tal expressão me fazendo rir sem humor.

– Te conheço de algum lugar? – perguntei sendo direta, mas sem intimidá-lo

– Provavelmente – respondeu ainda tranqüilo

– O que quer dizer?

– Que já deve ter me visto

Até então mantinha os olhos na grama molhada, com esta resposta foi à primeira vez que olhara em minha direção, o que não durou muito tempo.

– Qual o seu nome? – tentei mais uma vez – Talvez tenhamos aulas juntos

– Pouco provável.

– Por quê?

– Acabei de chegar

– Novato?

– Se prefere assim...

Silêncio constrangedor até voltar ao interrogatório.

– Qual a sua idade?

– Acredite sou velho o suficiente – sorriu sarcasticamente

– Pra... – incentivei-o

Sem dizer nada sorriu de canto, o que me tirou a concentração por alguns instantes.

– Não vai tirar informações de mim sem algo em troca.

Eu estava frustrada por ele ser completamente irritante e não cooperar com simples respostas. Olhei ao redor e a chuva já havia amenizado.

– Não é bom em ser simpático não é?

– Não é como eu imaginava

– O que? – perguntei sem entender direito

– Quer saber, to indo nessa okay? – perguntou sem realmente querer uma resposta.

– Eu também já vou – disse levantando da escadaria – sabe me dizer que horas são?

– Quinze pra meia noite

– Não devia ter ficado aqui – disse mais pra mim mesma suspirando em frustração. – Por acaso não saberia dizer se passa algum ônibus há essa hora, saberia?

– Talvez, mas pode demorar.

– Acha que consigo chegar antes da meia noite se eu for a pé?

– Depende de pra onde vai. De qualquer maneira é perigoso pra uma garota andar sozinha à noite, pode haver assassinos em série, ladrões, estupradores...

– Se queria me deixar assustada, bom trabalho – o interrompi.

– Não tem por onde – sorriu debochadamente – Por que ficou aqui?

Sorri ignorando sua pergunta

– Não tenho muitas opções, estou sem carro, e como você mesmo disse... Sozinha.

Ele riu como se toda aquela situação fosse divertida e balançou a cabeça afastando uma idéia absurda.

– Se quiser te dou uma carona

–Não obrigada – neguei de imediato – você é um desconhecido que até onde sei pode ser um dos caras que citou.

– Se eu quisesse algo com você já teria conseguido. Vamos combinar que não é lá muito forte.

– Acho que prefiro sua versão torta de simpatia de agora a pouco, mesmo que falsa.

– Se quer ficar, à vontade, eu to indo nessa.

Concordei com a cabeça, ”ótimo, mais uma vez estou só.” – pensei comigo mesma. Não demorou até que uma picape Ford F-150 Flareside enferrujada escura de vidros igualmente escurecidos parasse bem a minha frente, fiquei preocupada pelo fato de que normalmente carros assim não querem dizer boa coisa. A porta do carona abriu revelando o motorista – o cara que a pouco havia me largado.

– Vai entrar ou não? – perguntou impaciente

– Não obrigada – continuei negando

– Sério? – perguntou como se eu testasse sua paciência

– Vou esperar a chuva passar e ir a pé – mantive minha decisão.

– E correr risco de sobrevivência?

– Possivelmente – disse ainda sem entender o motivo de tanta insistência.

O cara saiu do carro e aproximou-se, em segundos não senti meus pés tocarem o chão, literalmente, eu estava sendo carregada, feito saco de batatas, igualmente fui lançado ao banco de carona, antes que eu pudesse protestar já estava presa ao sinto de segurança.

– Precisava disso? – Perguntei incrédula

– Precisava ser tão teimosa? – respondeu com outra

– Isso é seqüestro

– Não se eu não pedir resgate – sorriu torto

– Pra onde ta me levando?

– Pra casa

– Sabe onde eu moro?

– Talvez – bancou o misterioso, o que ele fazia bem.

Permaneci calada por certo tempo, observando o pouco que lá havia, anotando tudo mentalmente. Meu coração estava disparado e minha cabeça confusa, “eu deveria parar de confiar tão facilmente nas pessoas”, pensei comigo mesma.

O tempo ia passando e parecia cada vez mais lento, peguei uma caneta – que misteriosamente aparecera em minhas mãos – e comecei a batucar uma música que ouvira a pouco tempo na rádio, automaticamente me lembrei que havia baixado a música no mp3 que ganhara há muito tempo, vasculhei a bolsa atrás dele até encontrá-lo preso ao fone de ouvido, dei uma olhada e pra minha sorte ela era a primeira música da lista, poucos a conheciam – ao menos não havia conhecido tal figura. Virei-me em direção a janela onde me deparei com a chuva que aos poucos se tornava garoa fina, depois virei-me em direção ao motorista, aqueles olhos azuis oceano que me hipnotiza toda vez que cruza com os meus tanto ao ponto de me impedir de notar seus outros atributos. Seus lábios eram rosados e sempre molhados, seu rosto aparentava maciez, e não havia sinal de acne ou barba por fazer, seus braços eram... Desviei minha atenção de volta a garoa ao menor sinal de que ele estava prestes a se virar.

– O que ta ouvindo?

O som estava baixo, pois eu queria poder escutá-lo caso falasse comigo. Coloquei o fone em seu ouvido para que ele obtivesse sua resposta, não sabia se ele a conhecia, ele parecia estar curtindo a música, mas não acreditava que ele soubesse o nome e se me perguntasse duvido que eu saiba responder, não me lembro exatamente qual o nome da banda, muito menos o da música. Fiz um pequeno esforço para me lembrar até ele dizer...

– U2?

– Acho que sim

– Legal

Seu braço esticou-se até o aparelho de som e em poucos segundos ‘Where the Streets Have no Name‘ espalhou-se pelo veiculo. Sorri ao conhecer um cara que apreciasse o mesmo som que eu. Minha cabeça recostou-se no vidro ainda com o sorriso nos lábios, estava apenas apreciando a música e então o ouvi cantar, baixo, mas ainda assim... Não era ruim, apenas um trecho: ‘We're still building and burning down Love. Burning down love. And when I go there I go there with you (It's all I can do).’ porém, meu coração descompassou, e então fechei os olhos, ouvindo apenas a rouquidão de sua voz repetir o mesmo verso. O vento aumentou e a estrada estava deserta, aos poucos a música e o carro foram parando, até enfim cessarem.

– Obrigada

– Disponha, foi um prazer quase raptar você – soltei uma risada nasalada – vê se não se mete em encrenca – pediu

– Difícil... – respondi e este sorriu de canto – Mas vou tentar

Bati a porta do carro e andei em direção ao prédio, percebi que as luzes do meu apartamento estavam acesas, mas eu havia as apagado antes de sair. Alguém observava da janela, imediatamente o reconheci. “Estou encrencada”, pensei. Respirei fundo antes de entrar e finalmente tomei coragem.

– Está encrencada mocinha

– Me diga algo que eu não saiba

Acho que depois dessa piorei dez vezes a situação, me deixando em uma situação pior do que já estava.

Notas finais
' Nós ainda estamos construindo e queimando amor. Queimando amor. E quando eu ir para lá eu vou lá com você ( É tudo o que posso fazer). ' https://www.youtube.com/watch?v=3FsrPEUt2Dg