Perdida
5 Você?
Notas iniciais

Dylan olhava-me como se eu lhe devesse explicações, às vezes ele se esquecia de que não dependo mais dele, e é provável que isso o assuste. Deixando-o irritado, não estou defendendo-o ou justificando – bem, talvez esteja inconscientemente – só queria entender suas motivações.
– O que faz aqui?
– Sou seu irmão, o que acha?
Dylan me achou perdida há muito tempo, desde então passou a ser meu guardião, irmão mais velho, e assim nos consideramos. Porém – sempre há um porem – ele é violento, ciumento, chegando a ser possessivo. Boa parte da razão de eu ter vindo pra cá foi pra fugir dele, mas de alguma maneira ele sempre me acha. E isso me atormenta.
– Quem era o cara? – perguntou controlando a raiva
– Ninguém, é só um cara – respondi
– Só um cara Luana? Por que ele te deu carona se é só um cara?
– Já ouviu falar em solidariedade?
– Onde você estava? – perguntou duvidando de minha resposta
– No colégio.
– O que fazia...
– Pode parar com o interrogatório, eu não estava fazendo nada de errado, será que tem como me deixar em paz?! – Não obtive resposta em palavras...
... Ao invés disso, sua resposta fora agarrar meu braço e apertar com força exagerada, provavelmente ficaria marcado, ele estava louco e eu... Estava com medo. Encaramos um ao outro por certo tempo até que ele se pronunciasse...
– Garota eu cuidei de você quando todos te viam como puta, então o mínimo que você me deve é uma explicação. – rosnou
– Eu não te devo nada – disse entre dentes – agora me solta – falei pausadamente.
Sem questionar ele me soltou, imagino que seja por ter escutado um resquício de medo em minha voz. Seus olhos pousaram no chão e antes que ele atacasse novamente me tranquei no banheiro. Meus olhos se encheram de lágrimas e escorregaram pelo meu rosto, evitei qualquer barulho, não daria a ele o gosto de me ver chorar, de me ver fraca.
– Sabe o porquê de eu estar sempre me mudando? – não obtive resposta – Estou sempre fugindo... De você. – gritei o fazendo reagir de forma agressiva, quase derrubando a porta. – Eu tenho medo de você – continuei, mas sem controlar os soluços dessa vez.
Para ele foi a gota d’água, em um estrondo a porta foi partida ao meio, levando-me ao chão. Seus olhos o varreram a minha procura e quando me encontraram prendeu meu cabelo em seu pulso puxando-me para si, ele disse algo, mas tudo em que prestava atenção era em fugir dali. Por impulso, em uma tentativa de fuga, minha mão virou-se e estalou em seu rosto, vi ódio em todo seu ser. A mão dele arqueada... Minha última lembrança. Uma última e forte pontada de dor percorreu meu corpo, me levando ao desmaio.
Na manhã seguinte levantei-me com dificuldade, ele já não estava lá, o que me fez soltar a respiração que até então não notei estar presa, caminhei em direção ao banheiro parando em frente ao espelho. Meu rosto estava marcado com um pequeno corte nos lábios e algumas manchas roxas. Ao tomar banho pude notar o restante dos hematomas deixados, lavei o rosto com cuidado, escondi as marcas com maquiagem, vesti uma blusa de manga longa, um jeans, um cardigã azul e um tênis confortável. Soltei o cabelo com fios desordenados por toda parte.
Peguei minhas coisas e liguei para Savannah – para que viesse me buscar. Esta por sua vez espantou-se com meu estado jurando morte a Dylan. Enquanto tudo o que eu queria era seguir com o dia e pensar em qual seria meu próximo esconderijo.
Não demoramos a chegar e logo nos dispersamos, assim que me vi sozinha subi para o terraço, que normalmente está vazio. Mas não hoje, hoje havia mais alguém ali... E eu o conhecia.
– O que faz aqui? – perguntei.
– Gosto desse lugar, é tranquilo, isolado, já foi mais bem frequentado.
– Engraçadinho o que eu quis dizer é o que faz aqui no colégio.
– Fui transferido, além da diretora você é a única que me viu até agora, e como é a única pessoa que conheço, seja legal.
– Que bom que veio. – disse mais pra mim do que pra ele que aparentemente ouviu. – Queria me ver? – perguntou curioso
– Digamos que pensei que não fosse mais vê-lo. – confessei. Ou tentei me explicar, o que cair melhor.
– Então queria me ver. – concluiu convencido e ri disso
Ele parou de falar por um segundo enquanto avaliava meu braço, após concluir o que queria franziu o cenho.
– O que aconteceu com o seu braço?
– O que? – me fiz de desentendida
– Ta maior que a noite passada, o que foi? – insistiu
Ele pegou meu braço com certa brutalidade – o que me fez estremecer – e levantou a manga para ver por si próprio
– O que é isso? – perguntou indignado
– Acho que devo ter batido em algum lugar. – arrumei uma desculpa
– Ta, é a mesma coisa de dizer que alguém tropeçou dezessete vezes em cima de uma faca – ironizou – o que quero dizer é que uma simples batida não causa isso, alguém bateu em você? – debochou de minha resposta.
Por um instante vi preocupação em seus olhos, até que fora substituído por um sorriso maldoso.
– Se envolveu em alguma briga Harper?
– Como sabe meu sobrenome? – mudei de assunto
– Tenho meus contatos
– Não briguei com ninguém. – puxei meu braço de volta, sentindo outra pontada, porém, menor – Não me envolvo em brigas inúteis, então vê se não enche.
Levantei-me e fui em direção à porta. Parei para olhar para trás, vendo-o olhar o chão preso em seus pensamentos.
– Você não vem? – perguntei libertando-o de seus pensamentos
– Não vive sem mim – disse revirando aqueles olhos azuis, passando por mim, segurando em meu pulso e arrastando-me para fora. – Vamos, vou te levar ao médico, e, por favor... – disse parando e levantando a mão antes que eu dissesse algo – cala a boca.
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