Perdida
1 Taverna Magnos
Notas iniciais

São noites como esta que nos fazem ter certeza de que coisas ruins irão acontecer, de que a noite será péssima, por alguma razão, clima ruim atrai coisas ruins. Noite sem estrelas, luzes piscando, vento forte, rua deserta, presságio de chuva. Aquela sensação de que algo observa cada passo teu e vai atrás... Nada te preocupa mais do que o fato de saber que aquela pode ser sua última noite na Terra.
Meia noite em ponto.
O que diabos eu estava fazendo ali? Com tantos lugares conhecidos, por que justo aquele beco me era tão atraente? A cada passo dado, o roncar das motos surgia mais alto e por fim... O silêncio... Que me permitiu ouvir além, como passos próximos a mim, corri o máximo que pude, precisava encontrar um lugar – qualquer que fosse – onde houvesse gente suficiente para despistar seja lá quem fosse. Quando o soar de uma garrafa sendo arrastada pela parede surgiu, acalmei meu coração e voltei a andar normalmente. Imaginei que fosse um bêbado completamente sem rumo. De qualquer forma, aprecei um pouco o passo me deparando com o bêbado a qual havia mencionado ao virar a rua, tinha aparência de uns 47 anos, estatura mediana, barba por fazer, praticamente nem notou a minha existência, passou direto resmungando algo.
Taverna Magnos
Levei um susto ao me deparar com o imenso letreiro que claramente conhecia os velhos tempos, devido ao desgaste de sua tinta e da iluminação fraca. O lugar não é muito bem frequentado... Tendenciosos suicidas e futuros refugiados são seus únicos fregueses, é claro, sempre há aqueles conhecidos por serem maus elementos.
Existem bêbados e jogadores compulsivos, brigas acontecem frequentemente e mesmo assim... Aquele era o único lugar que eu queria estar – aparentemente. Entrei e a primeira coisa que vi fora um par de olhos castanhos que logo se desviaram de mim para chamar a atenção de seu colega, que chamou a atenção de outro e a de outro... Totalizando um quarteto. O lugar estava vazio, tirando o marmanjo que servia as bebidas atrás do balcão, o quarteto e eu. Caminhei em direção ao bar para pedir alguma informação.
– Oi – chamei sua atenção – Onde está todo mundo? – perguntei
– Lá em baixo – disse sem ao menos olhar pra mim
Antes que eu pudesse chegar à porta que levava ao porão, mãos me pararam segurando-me pelo ombro. Respirei fundo antes de me virar e me deparar novamente com aquele par de olhos castanhos.
– Não iria até lá se eu fosse você – disse – o lugar está cheio e a diversão... Está toda aqui. – sorriu maliciosamente
Olhei ao redor e nada do marmanjo que servia bebidas atrás do balcão, ele havia sumido “maldito”, o ofendi mentalmente. Eu estava nervosa, mas não podia aparentar.
– Eu... Acho que vou tentar a sorte lá em baixo – disse e ele já não sorria.
– Quem disse que é uma opção?
Okay vejamos minhas opções... Ah, claro, eu não as tenho... Estava perdida, sozinha, e em meio aos lobos, mas parabéns pra mim, quem manda seguir intuições... Tentei ganhar o máximo de tempo possível, pelo menos até encontrar uma forma de sumir dali. Soltei suas mãos de meus ombros que agora estavam doloridos devido à força irracional que ele utilizara. E disse...
– Nesse caso... – engoli em seco – O que tem em mente? – perguntei
– Que tal começarmos por uma bebida? – sugeriu
H.N, cujas iniciais estavam tatuadas em seus dedos, caminhou em direção ao bar deixando a passagem livre para o porão, porém, não era tola em acreditar que o destino estava há meu favor... Acabei ficando no mesmo lugar, engolindo qualquer expressão de pânico ou choro, respirei fundo, me virei e fui em direção a mesa mais próxima... Os outros três me observavam de longe. Esperando ordens ou apenas a vez deles. Como qualquer bando eles tem um alfa, e com toda certeza pegariam os restos de seu líder... Tentei arquitetar um plano, mas nada me vinha à mente, e mesmo que viesse, seria um plano falho... Eles são quatro e eu apenas uma. De qualquer maneira eu sairia perdendo, se não fossem eles seriam outros, coisas ruins acontecem com garotas teimosas...
E eu sou muito teimosa.
H.N voltou e sentou-se a mesa entregando-me a bebida. Enrolei demais pra beber enquanto que ele já estava completamente alterado... Não demorou até que me atacasse, forçando-me a beber um líquido sem cor e amargo. Levantei tossindo o liquido que queimava minha garganta e ele não perdeu tempo em tentar me agarrar. Aproveitei-me de seu estado para tentar escapar, esquecendo-me completamente de seus companheiros. Havia pavor e ódio em meus olhos e luxuria junto a desejo nos deles...
– Aonde pensa que vai? – perguntou o cara mais baixo
Eles me bloquearam, me segurando e arremessando contra a mesa de bilhar, como se meu peso não fosse nada mais que papel, estes me cercaram e nesse momento me senti igual a uma presa encurralada...
– Tira a blusa – ordenou
– Não – disse espantada, a essa altura já não fazia questão de esconder o pânico que havia em mim
Mal terminei de responder e senti minha garganta apertar e meu rosto arder, aquilo queimava, mas logo a dor se dissipara deixando apenas uma marca vermelha em pele branca.
– Tira a blusa – disse pausadamente, porém, mais feroz.
Com receio do que pudesse vir depois eu o obedeci, deixando meu colo exposto para o deleito do quarteto tarado.
– Ao natural – disse um loiro com sorriso malicioso, que agora prendia meus braços, deixando que os outros dois segurassem minhas pernas para que eu ficasse tanto imóvel quanto a mercê de H.N
H.N ao qual tanto me refiro acariciava-me por toda parte, subindo suas mãos por minhas coxas, chegando a atravessar a saia que estabelecia certos limites. Minhas meias estavam rasgadas e minha blusa aos trapos no chão. Sempre achei que se isso acontecesse um dia, acharia extremamente sexy, mas nada semelhante me vinha à mente... Seus lábios passeavam por meu corpo e quando estava prestes a ir mais longe a porta se abrira e uma sensação de alivio dominara tanto meu corpo quanto mente e alma.
Vi dois caras que conversavam animadamente saírem do porão, mas o tempo fechou ao verem toda a cena que estava ali presente.
– O que ta acontecendo aqui? – um dos caras perguntou com sua voz rouca
Meus olhos estavam embaçados por conta das lágrimas que estavam prestes a cair, então tudo o que pude enxergar fora um par de olhos azuis oceano... H.N virou-se em sua direção para tentar explicar enquanto o loiro tapava minha boca...
– Só um pouco de diversão, nada que ela não queira – mentiu descaradamente
Olhos azuis me olharam fixamente como se esperasse contradição, mas não consegui me mexer o suficiente para pedir ajuda...
– É verdade? – perguntou diretamente a mim
– Não acredita em mim parceiro? – insinuou H.N
Se eles se conhecem então qual o sentido de tentar me ajudar?
– Henry, o conheço tempo suficiente pra saber que essa garota não quer nada com você, se quisesse, seus parceiros não estariam a segurando. – disse o cara ao seu lado
– Não se mete Adam... – disse ferozmente
Não ia esperar essa discussão sem fim terminar, mordi a mão do loiro o mais forte que pude e na menor distração dos outros dois levantei-me da mesa, caindo no chão e machucando meu joelho.
– Espera. O que é isso?
Ouvi sua rouquidão aproximar-se tocando meu ombro, senti um arrepio percorrer toda minha espinha com este simples ato, mas em segundos minha mão virou-se em um soco próximo a seu rosto, impedido de chocar-se por sua mão que a segurara.
– Normalmente eu não me meteria, mas não pode machucar essa garota
– Por quê? – perguntou confuso
– Porque se fizer... – olhou ameaçadoramente – Mando você pro inferno – disse com toda a convicção
Não sei o que houve a seguir, sei que meu corpo gelou e minha mente apagou-se... Levando-me da escuridão a luz que vinha da janela em meu quarto – que por sinal estava aberta – Levantei-me um pouco tonta e senti o cheiro de água salgada invadir minhas narinas, olhei para baixo e estava vestida com uma camiseta branca que batia no meio das minhas coxas. Não era minha, então de quem era? Meus pés estavam quentes, eu estava de meias? Levantei-me da cama, tombando levemente para o lado, foi então que me deparei com um curativo em meu joelho. Seja lá quem me salvou tratou de cuidar de mim, mas o pior é que eu não me lembro de nada... Absolutamente nada. Tudo o que sei é que algo ruim aconteceu, ou ia acontecer... E que aparentemente eu estava bem e segura em meu próprio quarto.
Direcionei-me ao banheiro, olhei para o espelho, a cara de quem tinha tomado todas estava refletida ali, meus cabelos negros desgrenhados, minha cara ligeiramente amassada e meus olhos vermelhos... Ao tentar lembrar-me da noite passada, lembrei-me do toque do desconhecido e subitamente aquele mesmo arrepio retornara. Virei-me para ver o porquê dele ter me tocado e vi minha marca de nascença no ombro.
Sempre me perguntei qual era o meu problema, por que tenho olhos vermelhos? Por que minha marca de nascença se assemelha a uma lua minguante? Seja o que for eu sabia que não era nada bom, nada bom mesmo...
Fale com o autor