Perdida
2 1 ano depois...
Notas iniciais

Haviam árvores por toda parte, com certeza uma floresta, os sons de tambores preenchiam meus ouvidos, eu tentava escapar, era disso que eu me lembrava, corri desesperadamente por entre galhos e espinhos que não me machucava, qualquer coisa doeria menos que ser pega. Sem olhar pra trás e indo para todos os lados contrários de onde vinham àqueles sons me senti encurralada, uma presa sendo observada pelo caçador. Quando me dei conta estava sem saídas, apenas duas opções, ambas eram horríveis. Ficar e lutar para no fim perder tudo o que mais prezava... Ou simplesmente cair... Sim cair... Era a floresta ou o penhasco. Apenas uma me era garantia de sobrevivência...
Tomei distância para enfim me jogar e quando dei por mim, estava sendo segura por alguém que a muito chamei de amigo... “Desculpe-me”... Sussurrou. Assim concretizando o ato mais terrível que um amigo poderia fazer...
A traição.
Desolada e perdida fui enxotada para fora, em direção ao penhasco que antes parecia tão acolhedor e agora... Desesperador. Havia sangue em minhas costas, lágrimas em meus olhos e quando estava próxima às rochas minha mente apagou-se, levando-me a outro lugar... Tão escuro quanto à morte.
(...)
Levantei-me com dor no peito e lágrimas nos olhos, meu coração levemente descompassado e perdido... Corri para o banheiro e como toda vez que me sentia mal, me estômago depositou todas as frustrações no vaso sanitário... Após tudo voltar a clarear olhei para o espelho e escovei os dentes. Ouvi o toque da chamada de vídeo tocar e corri para atender.
– Nossa você ta horrível, o que houve? – perguntou Savannah
– O mesmo de sempre... Mas... O que quer? – tentei mudar o foco da questão
Conheço Savannah há anos pra saber que aquilo não iria parar por ai, e como previsto passamos meia hora enrolando com ela tentando arrancar informações de mim enquanto me bronqueia por trabalhar demais e não ir a um psicólogo.
– Eu to dizendo, vai acabar louca deste jeito.
– Sarah, por favor, pra que me ligou?
– Bem é que os meninos querem ir a um pub novo que abriu na cidade e pensamos em te chamar mesmo sabendo que não vai e...
– Eu vou – disse interrompendo-a
– Como? – surpreendeu-se
– To precisando sair, como você disse, onde vai ser?
Ela disse que em meia hora viria me buscar, olhei para fora e já havia anoitecido, ultimamente tenho perdido muito tempo dormindo e não me alimentando. Tomei um banho rápido hidratando todo o meu corpo, sequei meus cabelos cacheando as pontas, vesti um conjunto de lingerie rendada preta que entrava em contraste com minha pele branca. Encarei o guarda-roupa por um tempo escolhendo por fim meu vestido favorito, azul desbotado de mangas compridas e botões no peito. Ele cobria metade de minhas coxas e junto a ele calcei meu bom e velho coturno. Um delineador cobria meus olhos de leve, meus lábios ficaram nus, os preferia assim... Não demorou até que Sarah buzinasse do lado de fora, um toque único apenas dela – código nosso – peguei meus documentos e celular carregado de cima da bancada e tirei algum dinheiro de dentro do cofre. Corri até o elevador e a encontrei do lado de fora.
– Finalmente – exclamou
– Não demorei tanto assim... – me defendi
– Ah, não é isso, é que já faz um tempo que to tentando te apresentar um amigo, mas você nunca ta disponível.
– Ta me arrumando um encontro às cegas? – tentei parecer séria
– Mais ou menos... Foi ele quem insistiu que eu a chamasse – sorriu maldosamente.
– Nesse caso... Não vamos decepcioná-lo não é?
Ao dizer isso, corremos até o carro de Savannah e fomos o mais rápido possível. O lugar estava cheio, não gostava de lugares assim, são completamente sufocantes. Preferi ignorar o lado que insistia que eu deveria ir embora. Entrei e segui Savannah até o bar onde dois caras nos esperavam... Um eu conhecia era Nicholas, o namorado dela... O outro supus que era Liam Gauthier. Cabelos castanhos e brilhantes de aparência sedosa, olhos verdes esmeralda e músculos de tirar o fôlego. É, deveria ter saído antes.
– Fecha a boca – sussurrou Savannah em meus ouvidos, fiquei vermelha instantaneamente e ele aparentemente ouviu, pois sorriu sem graça.
– Oi Nick... – O cumprimentei com um abraço
– Até que enfim saiu da toca... – sempre piadista
– Digamos que tive um bom motivo dessa vez. – disse olhando nos olhos de Liam que novamente sorriu sem graça.
– Bem... Já vi que rolou um clima... – insinuou Nick – Liam esta é Luana Harper, Lua este é Liam Gauthier. – nos apresentou.
– É um prazer – dissemos ao mesmo tempo rindo logo em seguida.
À noite até que foi mais do que eu esperava, dançamos, bebemos, comemos marshmallows, sim, havia marshmallows. Liam e eu ficamos cada vez mais próximos, ele não tentou me beijar e agradeci mentalmente por respeitar meu espaço, ele era um cara legal, estava no segundo ano de engenharia mecânica. No fim da noite resolvemos ir a um restaurante Italiano que estava localizado bem próximo de onde estávamos. Sarah e Nick se agarravam em qualquer lugar, mas não nos constrangemos com isso, até achamos engraçado. Liam era um cara engraçado. Ele tinha 20 anos e eu 17, pra mim era estranho sair com um cara mais velho, mas a experiência estava sendo incrível.
O restaurante era sossegado, não tinha muita gente. Duas famílias à direita e alguns casais no centro, nos sentamos à direita onde as famílias estavam, pois era o único lugar onde cabiam mais de duas pessoas. Liam chamou o garçom que nos entregou o cardápio, escolhemos pizza, pois nada combinava mais que pizza e vinho. – Na verdade o vinho é só por causa do restaurante Italiano – Não demorou até que nossos pedidos chegassem, mas quem nos entregara era completamente diferente de quem nos atendeu. Olhei em seus olhos e sem perceber eu o encarava, mas não conseguia desvencilhar-me daqueles olhos que me lembravam de algo. Seus olhos passaram rapidamente por mim e vi um sorriso maldoso surgir em seus lábios antes que partisse. Passei meu tempo tentando lembrar-me que nem ouvi quando Liam chamara minha atenção.
– O que? Desculpe, poderia repetir? – disse sem graça, saindo de meus devaneios.
– Algum problema com aquele cara? – perguntou sério e ao mesmo tempo preocupado.
Olhei por cima de seu ombro e ele ainda me olhava, por que não consigo me lembrar?
– Não eu só... – comecei tentando formular algo – Acho que o conheço de algum lugar.
– De onde? – perguntou curioso
– Não sei... E isso é frustrante
Liam tocou em minha mão, fazendo com que meus pelos se arrepiassem e me deixasse tranqüila, sorri para ele e voltamos a conversar, Nick pediu a conta e aquele mesmo par de olhos azuis vieram nos atender estendendo a conta para Nick que estava com nosso dinheiro. Assim que estendeu seu braço senti novamente o aroma do mar salgado invadir minha narina, tornando as lembranças do passado recentes, me fazendo sussurrar – “eu conheço você” – o suficiente para que ele parasse o que estava fazendo, mostrasse teu sorriso ardiloso e abaixasse perto de mim.
– Ainda bem que se lembrou da próxima, vê se não esquece minha camiseta, eu a quero de volta. – disse alto o suficiente para que todos que estavam a minha volta ouvissem.
Ele estava prestes a ir, quando se lembrou de algo e sussurrou em meu ouvido – “A propósito, eu prefiro você de vermelho” – isso me fez corar instantaneamente e aquele arrepio pela espinha retornara. Não o impedi de chegar perto de mim, àqueles olhos, algo nele me manipulava de tal forma que eu não conseguia reagir. Pensei em perguntar quem era ele, mas já havia sumido todos me encaravam como se quisessem explicações, e eu não as tinha, portanto, peguei minha bolsa e caminhei até a saída seguida por todos eles. Ninguém perguntou mais nada, Nick havia levado Savannah no carro dela pra casa e Liam se encarregou de deixar-me na minha. Ainda em silêncio caminhamos até a porta. Eu sabia que aquilo havia chateado ele, e muito. Provavelmente mil coisas se passam por sua cabeça acreditando que eu havia dormido com aquele cara... Por Deus.
– Eu não dormi com ele... – disse sem pensar – Se é o que esta pensando.
– O que? Não to, eu só... Achei estranho... Tudo isso.
– Eu estraguei tudo não foi? Sabia que não seria uma boa idéia e... – disse rapidamente
Eu estava muito eufórica por tudo o que houve, me calei apenas quando senti seus lábios tocarem os meus. Eles eram macios e doces. Não pensei em nada alem de corresponder, senti seu corpo aproximar-se mais juntando os dois e envolvendo seus braços em torno de minha cintura. Sua língua pediu passagem e eu cedi, foram quinze segundos no paraíso – o que posso dizer ele beija bem – depois disso não dissemos nada e seguimos cada um seu caminho. Entrei em meu quarto e esse beijo logo se esvaiu, não o sentia mais. E isso estava errado, eu queria mais, queria algo mais profundo e intenso como se já houvesse sentido antes. Instantaneamente a imagem de um par de olhos azuis me veio à mente, corri até o cesto e resgatei aquela camiseta, a vestindo novamente, eu não sei o porquê, mas isso me fez sorrir.
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