Perdida
3 Querido diário...
Muito clichê uma garota ter um diário? Sempre acreditei que a vida servia para ser vivida e que boas memórias ficariam pra sempre em minha mente e coração. Mas conversei com a orientadora sobre meus constantes pesadelos e ela sugeriu que escrevê-los seria uma boa idéia, meio que um desabafo... Então aqui estou... Sentada em baixo de um carvalho no pátio do colégio, sentindo a brisa de uma manhã amena bater em meu rosto e o sol aquecer minha pele... E totalmente enrolando para escrever o que deveria...
Sexta-Feira, biblioteca, vozes, elas me perseguiam, eu não enxergava mais nada, apenas uma forte luz, uma dor na cabeça me perturbava, eu já não tomava conta do meu próprio corpo, estava morta e atordoada, completamente apagada no chão e ao mesmo tempo em lugar nenhum. Vagava a procura de respostas, até mesmo de ajuda, mas nada e ninguém apareciam, um carro estava a minha frente, tentei ligá-lo, mas não funcionava, minha garganta estava seca e meu estômago vazio, havia sangue em minhas costas e centenas de corvos mortos ao meu redor. A figura de um homem ajoelhado a minha frente escondido através da névoa aparentava estar em prantos, mas não encontrava significado em nada.
Um longo vestido preto cobria meu corpo, ele estava rasgado e meus pés descalços, a sujeira empreguinava a mim enquanto que meus longos cabelos negros voavam junto ao vento e a areia. Meus olhos fechados impediram-me de prosseguir causando minha queda...
Queda.
Vazio...
Algo estava errado, sentia que algo estava faltando. Olhei para trás e vi meu corpo caído no chão. Agora eu era este corpo, a silhueta do homem aproximara-se e estendera-me a mão, porém, suas intenções eram outras, eu não estava segura, estava perdida e confusa, sua mão tocara minha mente e tudo não passara de um grande borrão, um grande espaço vazio, fazendo com que eu despertasse com a mão no peito. Completamente assustada.
Eu tenho um segredo, desde que me lembro, venho tido sonhos, e na maior parte deles pessoas morrem, incendiadas, degoladas, decepadas, envenenadas ou então estranguladas, muitas vezes ocorrem em épocas diferentes. Não importa onde, como ou quando estou sempre presente, presenciando a cada passo que dão desde o momento que saem de suas casas até a hora de sua morte. A princípio achava que eram apenas sonhos mórbidos, até que em uma manhã de verão assistindo ao noticiário descobri que um prédio havia sido incendiado, matando cerca de 10 pessoas. Savannah estaria lá se eu não houvesse feito manha suficiente para convencê-la de que deveria ficar comigo, ela já sabia de meus sonhos, mas assim como eu, nunca acreditou muito no poder que eles tinham. Tinha contado o sonho para ela e ambas nos olhamos espantadas. Nas semanas seguintes as premonições aumentaram, sempre despertava com o som da sirene da ambulância e de viaturas ao redor. Até pensei em ajudar, mas o que diria? “Olha, tive uma premonição em um sonho de como houve o incidente” no mínimo me mandariam para o manicómio, no máximo... Deteriam-me como suspeita. Entre um e outro preferi sofrer calada. Por sorte já faz um ano que nada mais acontece, e fico aliviada por não mais carregar este fardo... Ou quase...
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