Perdas e Ganhos
5 Laços de Sangue e Fogo
Notas iniciais
Remi chegou muito cedo ao SIOC. O sol mal tinha despontado no horizonte. Um misto de irritação e satisfação lhe roubou o sono durante a noite. A fuga de Weller do bar não era algo que ela esperava e, definitivamente, não parecia ser algo do feitio dele. Aquilo mexeu com seu brio. Em qualquer outra situação semelhante nunca mais o cara teria qualquer chance com ela. Mas Kurt Weller não era qualquer cara. Durante anos ela o estudou: íntegro, leal, honesto, competente, comprometido com seus ideais. O sorriso foi inevitável após relembrar por quantas vezes negou qualquer forma de envolvimento emocional quando questionada por Oscar. Conviver com Weller era mais prazeroso do que ela imaginava. E a resistência dele à ela só o tornava ainda mais atraente por confirmar tudo que as teorias diziam.
“Como Jane pode ter conseguido não se sentir atraída por esse homem? Nossa, eu devo ter ficado completamente patética depois do ZIP se nem percebi o quanto esse cara é tentador.”
Então, as palavras de Patterson vieram à sua lembrança para abalar sua irritação. Persistência foi a dica. As meninas também devem ter percebido que Weller não só correspondeu como criou situações oportunas para flertar com ela na noite anterior.
“Ele deve ter se revirado na cama a noite toda tanto quanto eu.” E sorriu satisfeita. “Pense em me evitar ou em ceder à tentação, Weller, mas pense em mim.”
Se persistência era a chave para abrir caminho até ele, ali estava ela apostando todas as suas fichas que a noite mal dormida o traria muito cedo ao SIOC. Foi quando Remi ouviu o barulho na maçaneta da porta e se virou rapidamente para seu armário, fingindo organizar o conteúdo do interior casualmente.
Kurt congelou assim que a avistou no vestiário. Entre todas as inúmeras formas de abordagem que ele projetou durantes as muitas horas sem dormir, aquela não era nenhuma delas. Ele baixou a cabeça e coçou o pescoço buscando o que dizer enquanto ela permanecia de costas, virada para seu armário. Após alguns segundo de silêncio constrangedor, ela virou apenas a cabeça para a lateral e lançou um olhar de desprezo pra ele:
— Eu tinha certeza que você me evitaria hoje, mas não achei que chegaria ao ponto de sequer me dizer bom dia._ e voltou a olhar para dentro do armário enquanto Kurt absorvia o impacto das palavras numa desesperada luta para articular o “bom dia” que não disse_ Tudo bem. Talvez seja melhor assim. Não posso dizer que estou sentindo vontade de te cumprimentar.
Todos os inúmeros argumentos que justificavam sua saída do bar na noite anterior, cuidadosamente selecionados nas horas de insônia, não vinham aos lábios.
— Eu não esperava te encontrar aqui tão cedo. Me desculpe..._ o pedido de desculpas saiu do âmago de suas emoções.
— Pela falta do bom dia ou por ontem à noite?_ ela questionou ainda sem se virar pra ele.
— Pelas duas coisas._ e a respostas dele veio firme e forte, demonstrando sua determinação._ Acredite, eu não costumo agir assim.
Remi, num movimento rápido, tira a camiseta branca que vestia. Como estava sem soutiem a tatuagem com o nome Kurt Weller ficou completamente a mostra. Então, de forma provocante, ela vira novamente a cabeça para ele:
— Eu vou pensar se te perdoo.
Naquele momento Kurt se vê arrastado pelas lembranças até Veneza, na manhã após tê-la pedido em casamento:
Ao acordar, Jane estava com o corpo recostado lateralmente numa cadeira próxima a janela, com as pernas flexionadas sobre o assento. Ela observava a mão com a aliança contra o sol nascente. O chambre verde que vestia estava desabotoado e tinha formado um drapeado nas costas deixando a tatuagem “Kurt Weller” à mostra. Então ele disse:
— Me desculpe, peguei no sono.
E ela voltou a cabeça para ele exatamente como Remi fez agora e disse:
— Eu vou pensar se te perdoo.
Kurt volta ao presente com a voz de Tasha ecoando nas suas lembranças: “É ela: a mesma mulher...” e de Patterson “Ela é sua esposa”. Quando ele percebe já está a centímetros dela e sua mão está prestes a tocá-la:
— Eu não sou nenhuma garotinha inocente que você pode dispensar num bar._ Remi diz e fica frente pra ele segurando a camiseta cobrindo os seios_ Teria sido muito melhor perder essa noite de sono juntos ao invés de separados. _ sua postura intimidadora deixou Weller novamente sem ação _ Se você quer realmente se desculpar por suas escolhas erradas, é hora de me deixar ver meu irmão.
— Assim que todos tiverem chegado você poderá ver Roman. Temos algum tempo até lá.
Remi olha para o lado e esboça um breve sorriso inconformado:
— Aproveite bastante. O chuveiro frio será uma ótima companhia._ e se vira novamente para o armário pegando o resto de suas coisas para se vestir no box privado.
Nos corredores do SIOC
Patterson anda em direção à sala de interrogatórios. Com uma pasta na mão e o iPad por cima, ela tem pensamentos tem um foco bem definido: o prisioneiro especial no andar inferior. Na verdade, fazia muito tempo que não se sentia assim, ansiosa para falar com alguém. Apesar de tudo que havia acontecido no passado, ela não conseguia vê-lo de forma negativa. Roman era uma pessoa muito especial, cheio de traumas e cicatrizes causadas pela vida violenta que teve, mas ainda havia uma essência lá, algo que ela não era capaz de descrever racionalmente, apenas sentia a esperança de sua redenção toda vez que olhava nos olhos dele.
— Patterson, Patterson, porque você sempre gosta dos bad boys? Ela interrompe a fala quando percebe que havia transpassado o pensamento em voz alta.
Ela entra no elevador e aciona o botão que a levaria até o andar de baixo. A porta se abre, ela continua andando até acessar o corredor de acesso à cela. Sim, aquele corredor... ela nem percebeu seu passos acelerando tão rápido quanto a vontade de chegar. Como que por um instinto, ousado talvez, e que nem ela podia controlar, abre os dois primeiros botões da blusa cetim preta que estava e prossegue andando. O que aconteceria naquela visita ela ainda não sabia, mas mudaria para sempre a sua vida.
Cela de Roman
Roman abre os olhos depois de uns minutos de reflexão. Ele ainda está mentalizando tudo que aconteceu, desde a notícia da volta repentina e inesperada de Remi a esse sentimento que ele não sabia como lidar. De alguma forma a recepção dada pelo team após sua chegada o fez se sentir acolhido. Ainda era uma cela, mas as visitas de Tasha e Patterson tiveram um efeito inesperado sobre ele. Especialmente Patterson, como aquele jeito nerd dela, o fez se sentir uma pessoa melhor. Foram instantes rápidos, mas pareceu que o pequeno Ian voltava à tona após ter sido submergido pelas horríveis experiências naquele orfanato e com Shepherd. E Roman queria isso de novo, queria provar desses momentos com as amigas de sua irmã porque aquela sensação boa era algo que valia a pena se repetir.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de passos. Não era qualquer tipo de passo, era um pisar já conhecido que fazia seu coração saltar:
— Olá Roman! Dormiu bem?_ A pergunta pareceu casual, mas ela não ousou olhar para ele.
— Olá, Patterson, minha querida... eu posso te chamar assim?_ ele não conseguiu conter seu tom irônico e provocativo.
— Sim, claro! _ ela respondeu ainda sem fazer contato visual, mexendo no Ipad. Recobrando a lucidez, olhou para ele reagindo_ Quero dizer, não! Não é muito usual entre uma agente especial e um ... prisioneiro do FBI esse tipo de tratamento. Podemos estimular a conversa de forma mais informal entre nós sem tanta..._ e gesticulou no ar como quem não quer dizer a palavra, mas cedeu_ intimidade.
Roman dá um meio sorriso malicioso e se mantem olhando firmemente pra Patterson.
— Uou, me desculpe. Foi um equívoco da minha parte. Vou evitar novas formas de “intimidade” daqui pra frente e pra provar que serei um bom menino, não vou comentar o quanto você está bonita e sensual nessa blusa.
Percebendo que seu rosto corava, ela decide redirecionar o diálogo para seu foco inicial:
— Eu prometi trouxer algo para ajudar nos seus momentos de tédio aqui nessa cela. E você se comprometeu a nos ajudar com Jane/Remi, enfim, com sua irmã, evitando abordar assuntos mais delicados com ela. Então, aqui está. Esse iPad tem uma versão off-line de um aplicativo que desenvolvi: o WizarVille. Espero que isso te distraia._ e mostrando a tela para ele continua_ Os seus personagens podem interagir com os meus porque sua versão está diretamente ligada à minha.
— Isso é interessante. Você poderá me fazer companhia mesmo sem estar presente aqui... Engenhoso.
Patterson abre um sorriso convencido:
— É, eu sou boa!
— Sim, você é.
A forma direta como ele disse isso a desconcertou de vez. E ela começa a dedilhar o iPad, como em uma tentativa frustada de não olhá-lo fixamente e deixar transparecer a cor rosada de suas bochechas:
— Bem... eu vou deixar o iPad aqui. E, talvez possamos interagir mais quando eu não estiver trabalhando.
— Com certeza, Patterson. Eu adoraria que isso acontecesse. Noites solitárias são horríveis.
Ela colocou o iPad na gaveta de acesso a cela e ele continuou:
— Eu só tenho uma dúvida.
Ela tentou parecer profissional e voltou a olhar para ele:
— Claro. Pergunte.
— Digamos que eu faça exatamente como me pediram com minha irmã. E aceite sua proposta de interação através desse jogo com um ambiente bem diferente do FBI. Quais serão as regras lá, Patterson?
— As regras.. _ ela sentiu completamente traída pela sua própria estratégia. Roman era inteligente e perspicaz. Então, respirou e continuou sem conseguir se mostrar convicta_ As regras estão no tutorial do jogo, obviamente. Você vai ter cuidado com o que vai dizer a Jane, quer dizer, Remi, e nós vamos... jogando.
Sem esperar mais nada nem conseguir encarar o sorriso no rosto dele, ela se virou e saiu da cela parando por um minuto do lado de fora para respirar.
Roman pegou o iPad e teclou no ícone do jogo:
— Então será assim, Patterson? _ e bateu o dedo na tela_ Aqui eu não sou um prisioneiro nem você uma agente especial do FBI._ e sorriu satisfeito.
Menos de uma hora depois , Kurt e Jane adentraram a porta que dava acesso à cela de Roman.
— Wow! Olá, Kurt. Bom dia! _ foi a recepção sarcástica de Roman.
Kurt sugou o ar buscando a calma necessária e deu passagem a Remi.
— Bom dia, Roman. _ ela cumprimentou no lugar de Kurt. _ Por favor, perdoe Weller. Ele está pouco aberto à cumprimentos nessa manhã.
— Sis! Confesso que esperava te ver antes. Você está perdendo suas habilidades?
— Engano o seu. Eu só estava... ocupada.
Roman sorri lendo as entrelinhas:
— Irritar Weller parece estar valendo mais a pena do que me visitar...
Weller balançou a cabeça e disse:
— Ele é todo seu. _ e se retirou dando privacidade aos irmãos.
Assim que Kurt se retirou, Remi mostra um minúsculo dispositivo entre os dedos e o aciona.
— Isso vai adulterar som e imagem ou apenas som? _ Roman questiona.
— Apenas o som. Adulterar as imagens seria chamar uma atenção desnecessária para nós.
— Quase perfeito. Mas existiam outras duas escutas aqui, deixadas há algum tempo atrás por Nas, uma amiguinha sua da ASN._ então ele coloca a mão no bolso e exibe discretamente os dois dispositivos destruídos para Remi._ Parece que seus amigos do FBI não se incomodam de ser passados para trás por outras agências.
Remi sorri:
— Eles talvez. Eu não fui com a cara dessa tal Nasja apesar do conto de fadas recheado de sacrifício pessoal que me contaram. Por isso, não ouse chama-la de “minha amiguinha” de novo. Estou orgulhosa de você, Ian. A eliminação dessas escutas, as novas tatuagens, o plano para derrubar Crawford. Parece que meu irmãozinho finalmente cresceu.
— Eu sempre disse que você me subestimava.
Remi se aproxima e põe a mão no vidro da cela.
— Ian, eu vou te tirar daí, prometo! Só preciso de mais um tempo. Vai ser logo._ ela diz com os olhos marejados de lagrimas enquanto tenta ler a expressão facial do irmão e o ambiente da cela.
— Muita coisa aconteceu desde que nos separamos, Sis. Você já fez muitas promessas e também já quebrou outras...
— Eu sei o quanto deve estar sendo difícil, mas acredite, bater de frente não vai adiantar. Eu já tenho um plano...
Roman ri convencido.
— Você tem um plano? Ok. Posso arriscar um palpite? Seu plano passa por Weller!
— Sim, mas como você deduziu isso? _ Remi se surpreende com aperspicácia do irmão.
— Não importa. É um bom plano, vá em frente. Seu único objetivo é ajudar seu irmãozinho e isso é tão comovente.
— Ian, não estou entendendo sua ironia.
— Você vai entender, Sis. Você vai entender..._ Roman diz arqueando a sobrancelha.
— Mas eu não vim até aqui apenas pra verificar como você estava e te tranquilizar...
— É claro que não. _ ele se afasta e senta na cama._ Diga logo o que quer.
Remi fechou os olhos e respirou fundo:
— Você planejou tudo muito bem. Foram quase três anos desde que me afastei... e eu sei que se você conseguiu tudo isso, não deve ter deixado de procurar por ela. Você conseguiu alguma informação? Qualquer coisa que seja...
— Sabe, Sis, para amadurecer, para um menino crescer e se tornar um homem, ele precisa deixar muitos de seus traumas para trás. Você fugiu para a marinha afogada na sua dor sem nem se importar com o que aconteceria comigo. Você morreu em Orion e, quando voltou, concordou em me apagar completamente da sua vida com o ZIP. E você ainda acha que posso te amar o bastante para concentrar meus esforços unicamente em encontrar a sua filha... irônico.
— Você sabe que eu não tinha escolha... era a única forma de mantermos a esperança de um dia sermos uma família de verd...
— Cale a boca, Remi! _ e então ele tenta se concentrar e se acalmar _ Remi ou Jane ou Alice...chega!
— Você a ama, eu sei disso!
— Amo? Não é o que a Dra. Sun diz._ e Roman sacode a cabaça negativamente, com as mãos apoiadas na beirada da cama, olhando para baixo._ Vamos fazer assim: você segue seu plano com Weller e me tira daqui, depois conversamos sobre Avery.
A expressão de Remi se endurece imediatamente e seu olhar fuzila o irmão por alguns instantes. Então ela respira tentando conter um ataque de cólera:
— É justo. Eu volto em breve.
— Bye bye, Sis.
Remi se retirou pisando firme e passou direto por Weller pelo corredor. Imediatamente, Kurt foi até a cela de Roman:
— O que você disse à ela?
Ainda sentado na cama, Roman olhou para o cunhado com um olhar completamente inocente:
— Absolutamente nada. Não foi isso que vocês me pediram? Se não quiser acreditar em mim, pode você mesmo perguntar à sua esposa mais tarde, Kurt. _ e não consegue mais conter o riso.
Weller dispara pelo corredor tentando alcançar Remi.
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