Pequenas coisas, grandes janelas
7 Tudo tem um porque...
Notas iniciais
O prédio meio irregular, meio vermelho, meio laranja e meio caindo aos pedaços nunca pareceu tão aconchegante e terrivelmente estranho como hoje, ao passar pelo arco de entrada provençal com arabescos bonitos que não se encaixam nem um pouco na estética do resto da construção, Hayley já é capaz de escutar as discussões calorosas e engraçadas dos moradores sobre fraudes no jogo de dama ou xadrez, ou sobre alguém que anda roubando um certo tipo de remédio, pois ele ajuda na potência de algo que eles se referem como “taco de beisebol”. Ao ver Mark, sentado em frente a uma enorme pilha de livros irregular e tão torta como a torre de Pisa, ela sorri e corre até o idoso bem vestido de cabelos brancos lustrosos cobertos por uma fina e praticamente imperceptível camada de gel e um par de óculos marrons redondos sobre o nariz fino e comprido, abraçando seus ombros largos e ainda fortes de um ex-militar.
– Mark!
Sua voz já não é mais anasalada, também pudera, depois de um par de embalagem de balas efervescentes de vitamina c e uma quantidade de suco de laranja capaz de dar conta do café da manha de toda costa leste, seria impossível que sua voz ainda se parecesse com a da mulher que faz propaganda de um remédio que promete aguçar a memoria de velhinhos desmemoriados.
– Lille Brand!*
Hayley se lembra de sempre se lembrar desse cheiro maravilho de Mark, algo incomparável, como se todas as lembranças olfativas dela tivessem sido postas em um frasco e alguém, então, banhou Mark nele, o que seria estranho, e provavelmente o cheiro seria no minimo ruim, mas de alguma forma não é. Ela poderia ficar ali para sempre se fosse possível, a passagem do tempo é uma coisa que realmente desagrada a menina dos cabelos curtos e rebeldes que o velho Mark sempre adorou. “ Porque as coisas boas parecem durar tão pouco e as ruins uma eternidade? É algum tipo de maldição idiota, ou o que?”. Na maioria das vezes Hayley tem ou teve uma opinião formada sobre algo e sobre alguém, bem, essa é uma delas.
– Ei, Lille Brand, eu não vou morrer agora, você pode me soltar…
A voz calma, mas firme de Mark a tira dos pensamentos desvirtuados e desgrenhados “e parece que o velho do mar ainda é capaz de ler mentes”, ela se senta respirando fundo e ele sorri carinhoso e amável deixando o livro de lado. “é como se ele não se importasse com o motivo de eu estar aqui, ele sabe o porque de eu estar aqui. É claro que sabe!”.
– Eu não posso te abraçar?
Ela contorce os dedos uns nos outros e parece ser capaz de dar nos em suas juntas, o medo e a tristeza de dizer o que quer, o que na verdade precisa, a deixam nervosa e isso irrita a ela porque são muitos sentimentos juntos… Medo, tristeza, nervosismo e irritabilidade… As pessoas não deviam poder ter tantas sensações juntas assim, não na opinião de Amyliana.
– É claro que pode.
Mark age como se não se importasse, mas talvez seja mais um quadro da doença que está levando sua memoria para longe, mesmo assim ela ter certeza que ele sabe… E tem vontade de lhe socar, porque ela assim como ele é humana e ele assim como ela devia estar no minimo profundamente triste pelo que aconteceu
– Você cresceu… — A analise parece ser uma obvia tentativa de desviar o assunto, sorrindo cansada Hayley entra no jogo de Mark porque tem tempo de sobra, porque não quer dizer o que precisa dizer, porque ama Mark, assim como amava Mary, e porque está com saudades, principalmente isso. Porque está com saudades. — … Faz quanto tempo? Seis? Oito meses?
– Quase três anos.
A certeza de que ele está fingindo e sabe exatamente quanto tempo se passou é mais uma prova de que tudo isso é apenas perda de tempo. No rosto de Mark transparece uma calma e algo como aceitação, um pequeno sorriso levanta os cantos de sua boca fina e tudo isso remexe a irritação dentro do peito de Hay, é a vontade de chorar, ela reconhece essa sensação e gosta dela, não está acostumada a ter algo do tipo, nem mesmo quando soube sobre Mary. “ Hayley Amyliana Holtti, é incapaz de chorar!! Venham! Venham ver essa incrível atração!” O garoto, melhor amigo e confidente de Hayley, costumava a brincar com ela sobre isso, desde a época em que sua cabeça era maior do que o corpo e ele sempre caia para os lados simplesmente do nada.
– Poxa vida! Três anos! Nossa senhora como o tempo passa, não é Lille Brand? — Com um aceno leve ela concorda, não sabe o que dizer, sua boca está seca como aquela estrada da Califórnia durante o dia e seu rosto tão quente que seria capaz de fritar ovos, um em cada pálpebra. Mark? Bem, Mark está como um velhinho costuma estar, tirando o cheiro de naftalina. — Que bom, mesmo depois de três anos você não esqueceu de mim. Não é como os outros, infelizes e preocupados de mais com a própria vida para visitar o velho aqui… Sabe, você e o Lawrence já me fazem feliz o suficiente, não preciso desses bastardos…
– Lawrence?! — A menção do nome faz as vísceras da garota se mexerem como se estivessem dançando Macarena e expulsando a vontade de chorar aos chutes, seria estranho e incrivelmente revelador se a presença de Lawrence não a preocupasse a ponto de fugir dele sempre que possível. — Jace esteve aqui?
– Ele vem Lille, sempre que possível, acho até que vem de mais. Sabe? Eu digo a ele que deve fazer mais coisas que um garoto na idade dele faz em vez de… — Com uma pequena fisgada na ponta de sua língua Mark interrompe sua fala rápida ao perceber a feição extremamente preocupada e confusa da Garota Incêndio, ele se inclina para frente e solta o ar de um jeito engraçado, talvez ela risse, se não estivesse ligeiramente tonta. — … Mas você não sabia que ele está aqui, sabia?
O grande corpo do ex-marinheiro cai como um saco de batatas na poltrona, azul escura de tecido macio a vista e provavelmente ao toque, visualmente Mark, o velho do mar, parece muito indignado, o que reflete os sentimentos atuais de Lille.
– Não fazia ideia.
As palavras caiem meio atropeladas e murmuradas, Hayley está preocupada de mais olhando para o magnifico tecido da poltrona para conseguir emitir algo descente, em vez, de fazer o que quer, gritar, ela realmente gostaria de fazer isso agora.
– Cassidy?
– Cassidy.
Bem, não há como defender Cassandra Pill Holtti, ela mentiu de novo.
Hayley levava suas mala para o carro, com os fones no ouvindo escutando algo indie e provavelmente desconhecido, enquanto Cass caminhava de um lado para o outro da sala, já vazia, com o celular prateado como uma arma em seu ouvido, seria capaz de abrir um buraco no chão se continuasse nesse ritmo por mais um tempo, mas simplesmente do nada ela correu para fora e gritou o nome de Hayley de um jeito estranho, não estava animada, nem irritada, nem nada assim, não havia muitas opções além dessa, Cassie certamente não é uma pessoa que possa ser descrita como volúvel.
– Tenho boas noticias, pelo menos acho que é… É difícil dizer, você muda de uma hora para outra e… — Certamente Hayley é alguém que pode ser descrita como volúvel.Com uma balançada leve de sua cabeça, e consequentemente de seus cachos, Cassie percebeu como estava saindo do foco. — … Bem, eu estava falando com a Susan, ela disse que não está…
– Não diga! — Novamente, a aversão, ao nome da Tal Cidade, veio a tona e Cass mais uma vez balançou a cabeça para conseguir voltar ao seu foco.
– Certo, eles não estão na Tal Cidade, estão em Long Island, podemos ficar um tempo lá… Nos mudamos depois se você quiser.
O complemento da frase não pareceu, lá muito verdadeiro, na realidade a frase em si não pareceu muito verídica, mas por hora era o que Hayley tinha, era melhor não questionar.
Agora ela entendia, a frase de Cassie, o telefonema de Jace e toda essa presa pra voltar. Tudo tinha um porque.
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