Pequenas coisas, grandes janelas
15 Natal adiantado e rabanadas celestiais
Notas iniciais
Eu devia escutar Casssie e parar de andar por ai pegando sereno, os espirros começam a voltar e eu já me preparo para toneladas de suco de laranja e balas de vitamina c pra aumentar essa desgraça de imunidade.
As luzes estão acesas, mas não vejo o carro de Cass e fico feliz por Joe ter conseguido voltar do Rivers são e salvo da morte por congelamento. Está tão frio que minha língua aos poucos se torna um picolé de carne na minha boca e minhas pernas salsichas refrigeradas.
Eu sou a garota que não se contenta com o calor, nem com o frio, sou aquela que tem que reclamar de tudo porque sempre quer o contrário daquilo que está sendo oferecido, sou aquela que não gosta de coisas com carne moída, mas adora macarronada.
Depois de quase me tornar uma estátua de gelo em frente a porta por ter perdido a chave da entrada em um de meus trocentos bolsos, finalmente, consigo adentrar no antro do senhor do molho de tomate canadense.
Quando o cheiro de Natal me envolve como um cobertor quentinho, repasso meu relógio mental para ter certeza de que não pulei três meses em um dos meus atrasos de tempo e fui direto para dezembro. Procuro algo que me diga que dia, mês e ano estamos e quando leio no cabeçalho do jornal que ainda é sete de outubro apenas uma coisa é capaz de responder o porque do Natal adiantado.
–Jace…
Caminho até a cozinha seguindo o cheiro de canela, chá, nozes e uma porção de coisas que me fazem lembrar do Natal. A TV está ligada e o telejornal regional das nove começa com aquela musiqueta que mais parece uma cantiga velha sobre bruxas. Não me pergunte o porque dessa comparação, eu apenas acho, e ponto.
Ele está em frente a bancada, vestindo uma de suas camisas polo com bolso, para os pacotinhos transparentes com seus remédios diários e seus tênis converse, mesmo que essa combinação não faça sentido. Os cabelos sempre desarrumados, arrumados da mesma forma e a distração completamente irritante.
– Você é a última pessoa que eu queria ver hoje… Ou a primeira, mas isso depende do ponto de vista. — Digo largando meu aglomerado de casacos em cima da poltrona ao lado da enorme porta da cozinha, parecendo aqueles caras que chegam com um “ querida, cheguei!”
– De quem?
Ele se afasta da bancada e caminha até o forno passando por mim como se não fizessem quase três anos desde de a última vez que nos vimos pela última vez, quando eu fui embora sem dizer nada. Sim, eu fui, sem dizer nada, nadica de nada.
– Do seu? É bom ou ruim eu estar aqui?
– Bem… — Com passos largos ele se coloca a minha frente com uma bandeja, eu não preciso nem olhar pra saber o que é. Jace sabe como me convencer a fazer coisas que eu não quero fazer. Mesmo que ele não tenha dito ainda, eu sei que esse é seu objetivo nefasto de gênio do mau. — … Veremos.
– Ah é, Lawrence? — Finjo um ressentimento arqueando minhas sobrancelhas e sem desviar o olhar estico minha mão na direção da bandeja cheia do melhor doce já inventado, mas Jace, como já dito aqui em cima, é malvado e levou o manjar dos deuses para longe de mim. — Ah, vamos, me dê isso, Jace!
– Quieta, Holtti! Não vai ganhar nada sem antes me dar explicações… — Encho minhas bochechas de ar e reviro os olhos com impaciência. — … Deixa de ser criança! — Ele ri apertando meu rosto fazendo todo o ar ir direito na sua cara. — Você…
– Não… Pelo amor da rabanada celestial que está nessa bandeja, não comece algum discurso motivacional, ou de desculpas… — Jace arqueia as sobrancelhas de desenho a dar inveja a qualquer mulher e eu entendo a indireta. Eu devo entender, musa das indiretas, presente. — … Ou de acusação. Eu dirigi por cinco horas, apenas pra ter um conselho de alguém que não tem a sanidade questionável, eu não preciso disso.
– Está bem… — Suas mãos sobem para o lado de sua cabeça em sinal de redição e as palmas das minhas começam a coçar aperto as unhas contra elas pra que parem.- … Você ainda tem essa coisa de não gostar de ser tocada?...
– Essa mesma coisa que você tem?
Seus olhos se comprimem em duas fatias de azeitonas e ele sorri nervoso, ao fundo a vinheta que anuncia o quadro sobre a previsão começa “ ta ta na... ta ta ta ta ta na na na… ta ta na”.
– Podemos esperar um prazo de pelo menos seis horas antes de começarmos a nos insultar?
Suas mãos seguram as minhas de uma forma estranha, é como se eu fosse fria de mais e seu corpo absurdamente quente tivesse medo de ser repelido. “Nos vamos virar o vapor do chá da tia Mary”....
Gostaria de entender o porque de eu sempre criar essas frases aleatórias mentalmente, eu seria uma ótima poeta alcoólatra, tirando a parte do álcool e da poesia.
– É claro… E respondendo a sua pergunta…
O abraço e só agora percebendo o quão alto ele está, e o quão… não magro, esquelético, anoréxico ele está. Os anos fizeram bem ao pequeno Jacinto. Ele sempre foi uma criança miúda, magra e frágil. Acreditem ou não, eu, Hayley, a sagaz e forte, já o livrou de inúmeros valentões.
Hayley, quase uma super-heroína. Sou uma droga pra dizer a verdade… heroína.
– Se você for embora, por favor, me avise, deixe um recado num papel grudado na geladeira, sei lá… Mas me avise.
Sua voz rouca entra abafada nos meus ouvidos afundados em sua polo e tudo o que eu consigo fazer é rir na sua barriga, escapo do abraço e roubo um pedaço da rabana cheira de açúcar e canela.
– Perdeu, Lawrence! Você não é um guarda de rabanada muito bom.
Ele gira na sua orbita espacial de planeta Jace Samuel Lawrence, se senta ao meu lado numa das cadeiras altas e vermelhas em frente ao balcão e, assim como eu, começa a comer rabanada quente da bandeja com a ponta dos dedos.
– Você vai ficar?... — O jornal agora fala sobre esportes e como nosso time estadual venceu o time de N.Y. Vai, time! — Não vai me responder?
Minha garganta fecha e sinto como se tivesse sido picada por uma abelha, e aos poucos fosse inchando que nem um balão de festa de aniversario, um balão em forma de bichinho Hayley.
– Não quero.
– Me responder, ou, ficar?
Com uma faca que surgiu provavelmente durante um de meus atrasos temporais ele cutuca o fundo da bandeja tirando a casca de açúcar e pão. Eu disse que ele me faria fazer coisas que eu não quero fazer. Gostaria de não ser subornada tão facilmente com rabanada e um sorrisinho sarcástico no rosto de Jace.
– Ambos. — Roubo um pedaço de açúcar que pula da vasilha e o coloco para derreter entre meus dentes. Jace tirou o aparelho móvel e não fala mais como um pato.
– Disse que foi falar com alguém…
– Rose. — Respondo antes mesmo de a pergunta ser feita, sua boca forma um “oh”, mas nada sai dela e acabo tendo que lhe fazer um pedido. — Não diga nada para Cass, por favor.
– Não vou… — Comercial de pasta de dente, prometendo que o seu amor platônico vai te notar se você tiver o halito de mental maravilhoso que a marca oferece. — Ela disse pra você ir?
– Não, você sabe que não. Ela quer que eu fique por perto…
Vinheta de musiqueta das bruxas e o jornal volta com a âncora bronzeada artificialmente dizendo as seguintes palavras: “ está confirmado pelas autoridades locais a morte do jornalista Phillip Poulei…” encaro Jace que não parece tão surpreso, de repente a rabanada não parece tão boa assim, de repente ficar não é mais a melhor opção, de repente ele sorri irônico dizendo:
– Bem vinda de volta?
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