Pequenas coisas, grandes janelas
16 Conversas e perguntas de carro
Notas iniciais
Ela parece se esconder sob a sombra projetada pela luz da televisão. Seu rosto inexpressivo e impossível de ser lido encara a tela enquanto Judy Karmilke anuncia o rumo das investigações. Eu sei que não consigo fingir surpresa, sei que ela já notou que a morte de Phillip não novidade para mim, mas o que eu posso fazer, a maior parte do tempo eu sou mais transparente que a merda do Blue Lake.
— Jace...
Prendo minha respiração como se isso fosse capaz de me fazer desmaiar pra fugir dessa situação, espero pela continuação da frase, mas Hayley caminha para longe agarrando seu casaco com força.
— Vamos, Jace… — Ela ordena mesmo que eu não entenda para onde devo ir. Sua mão magra e pequena de dedos compridos indica a bandeja em cima da bancada e em seguida a porta. — Vamos, eu não posso ficar mais um segundo aqui… Leve a rabanada, por favor.
Dentro do carro ela balança seu corpo de um lado para o outro como contra sua vontade, a música no minimo felizinha que toca no rádio dita seus movimentos e tenho medo do que ela vai fazer a seguir.
O aquecedor está no máximo e o ar quente se esforça para limpar os vidros praticamente congelados, o ar que respiramos sai por nossas bocas como vapor e controlo meu impulso de parar o carro para fumar. Imagine, o que a Hay vai dizer de mim.
— Hay?...
Seus olhos desvirtuados tentam focar em mim, mas ela simplesmente não parece querer obdece-los e encara a rabanada a levando em pequenos pedaços para a boca com a ponta dos dedos.
— Vamos, Lawrence… — Ligo o limpador de para-brisas que desliza de um lado para o outro com o som como de um sopro extremamente forte. Vruuush… Vruuuush… — Pergunte o que quer perguntar, antes que eu desista de te responder.
— Está com raiva de mim?
Observo a estrada com persistência, porque não sei para onde estamos indo, principalmente porque tenho medo de olhar para ela quando as palavras saem de seus lábios, e claro, não menos importante, porque o asfalto teima em me jogar para fora da estrada.
— Porque eu estaria?... Por você já saber que Phillip morreu? — Concordo num aceno e só percebo que o fiz depois de já tê-lo feito. — Porque eu estaria com raiva de você?... Não, Jace, eu nunca ficaria com raiva de você. Nunca.
Não consigo parar de pensar no quanto isso soa falso e no quanto eu estou tentado à acreditar. “ Eu te odeio!... Você… Eu não achei que fosse possível sentir tanta raiva de alguém, mas, Deus, como é…”
Odeio quando meu cérebro tenta me sabotar me lembrando de coisas assim. Nós éramos crianças, e ainda somos, mas na época não sabíamos de coisas que sabemos agora. Eu não tenho certeza se Hayley se lembra de ter dito, ou melhor, gritado isso para mim. Não importa agora, de qualquer forma.
— Certo, próxima pergunta.
Me impressiona a facilidade que ela tem em tornar tudo irônico de alguma forma, dizer isso como se estivéssemos em um programa de auditório, não torna menos dramática a cena toda, mas pelo menos mais suportável.
— Como está em relação a Mary?
— Bem… quer dizer. Bem, agora.
— O que aconteceu?
Eu sei o que aconteceu. Eu quis ir até ela enquanto acontecia, mas não me deixaram, de qualquer jeito, ela está aqui agora e eu quero e preciso ouvir dela os fatos. Eu preciso ouvir ela dizer que está tudo bem, para que eu fique bem também.
— Você sabe o que aconteceu…
Ela troca a estação de rádio com impaciência por que parece não achar uma que realmente gosta, seus dedos estão melados de açúcar e canela, mas acho que Joe não vai se importar por ter sido Hayley a fazer isso. Todos a desculpamos sempre, e acho que ela acaba fazendo coisas apenas para nos provocar, porque quer e precisa que alguém seja duro com ela e não apenas aja como se nada tenha acontecido com um sorriso no rosto e lhe de um pirulito azul de tutti frutti.
— Cassie não falaria “ ela precisa de você” pro Joe… Ou pra qualquer um que não fosse você… — Ela continua no seu tom de voz baixo e pragmático. Eu senti muita falta disso devo admitir.
— Hay, eu preciso escutar isso de você. Além de que, Cassandra só chorou e soluçou, eu não entendi quase nada do que ela disse.
Ela ri, ri de verdade, e lamento que não tenha conseguido ver e apenas ouvir, porque estou ocupado mantendo o carro no meio da rua.
— Está bem. Certo, eu fiquei dentro do meu quarto por três semanas, esperando que Mary me ligasse, como ela sempre faz.. zia... Como ela fazia. — Escuto sua respiração vacilar como se seus pulmões tivessem esquecido de puxar o ar e sei que ela fez aquela cara, queria muito poder olhá-la agora. — Eu… eu na verdade não acredito até agora, eu tenho a impressão de que quando eu for visitá-la… Ela vai estar lá, com seus suéteres de cores bonitas, mas de pontos errados, pra me dar de presente… E.. — Hayley respira hesitante de novo e desacelero o carro por alguns segundos apenas para ter um vislumbre de seus ligeiramente úmidos. Ela nunca chora, é contra seus princípios ou algo assim. — … E suas frases de efeito. Ai, Deus.
Eu não consigo dizer nada, escuto a chuva lá fora começando e Hay respirar como se estivesse gripada e chorando. Paro o carro e percebo que tudo o que eu fiz foi dar a volta por uma parte da cidade e que agora estamos de volta a frente da casa de Joe.
— Hay? — A chamo e recebo uma fungada engraçada como resposta. — Qual foi a ultima vez que chorou de verdade?
Nos encaramos e ela está seria de volta, com um leve sorriso cínico no rosto, mais magro e adulto do que da ultima vez que a vi, suas quase imperceptíveis sardas estão apagadas e os cabelos castanho escuro curtos como sempre foram. O nariz redondinho na ponta está vermelho, como se ela fosse o Rudolph a rena, por causa do frio, ou, do choro eminente, ou até mesmo, por causa do resfriado que ela está pegando. Cass vai matá-la por isso.
— A quase três anos…
Paro e penso, quase três anos, fazem quase três anos desde que ela foi embora, quase três anos que quase morremos mais uma vez. Quase três anos que eu bati em alguém até quase matá-lo.
— Foi, quando foi…
— É, eu… não podia dizer adeus, eu não...
Gostaria de entender o porque temos essa dificuldade imensa de terminarmos nossas frases. Penso que talvez seja, pelo fato de que, nos entendemos muito bem, e para bom entendedor meia palavra basta.
As luzes estão acesas e um carro estranho está parado em frente a garagem, então Joe e Cass estão em casa, quase entro em falência ao pensar no resultado do encontro de sobrinha e tia.
Ela sai do carro e caminha pela chuva de volta para dentro de casa, levando a bandeja agora vazia junto consigo. Eu vou atrás e apenas rezo mentalmente para o todo poderoso Morrissey que ele não a deixe ir.
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