Pequenas coisas, grandes janelas
12 Faça um pedido
Notas iniciais
Eu cantei Wolf Alice a plenos pulmões até ficar sem voz e perceber o quanto Wednesday é depressiva e faz as quartas-feiras serem dias realmente dias pensativos e filosóficos. Adivinhem que dia é hoje?
O carro do Joe e extremamente tecnológico, então, não faço esforço algum para dirigi-lo o que me dá tempo pra pensar sobre o que fazer, mas na verdade a única coisa que vem na minha cabeça são frases cliché que eu escutava o dia todo em Saragota Springs, como: “ O ser humano é seu próprio demônio” e “ pensamentos felizes te faz mais feliz”.
– Pensamentos felizes… eu queria uma pizza de bacon agora…
Pondero o tempo de viagem e o horário do encontro marcado quando decido de uma vez por todas parar no primeiro posto que aparecer pra comer alguma coisa. Pago a gasolina e uma completa refeição de salgadinhos, refrigerante de gengibre, chicletes e mais alguns tipos de alegrias em pacotinhos com o cartão de Cass.
Eu espero, impaciente e levemente irritada. Estou cogitando a hipótese de entrar no carro, ligar o ar condicionado e voltar pra casa esgoelando wolf Alice como fiz no caminho pra cá. No carro é quente, é seguro. Aqui fora sentada em frente a uma franquia do Rivers eu estou exposta a mim mesma, isso não é seguro. Queria saber o porque de as pessoas entrarem em colapso e não serem capazes de segurar certas coisas, digo mentalmente falando. Eu sou fraca mentalmente, e provavelmente fisicamente, mas isso não vem ao caso, e eu não faço ideia do porque.
Ele me disse que certas pessoas são sensíveis de mais para suportar certas experiencias, mas logo depois todo esse pensamento filosófico bonito de sensibilidade foi deixada de lado quando ele gritou que odiava ser fraco de mais. Eu odeio ser fraca de mais. Um dia eu gostaria de conseguir carregar nos dois, como ele fez muitas vezes, e não somente meu corpo e mente magras e frágeis.
“Faça um pedido...”
Minhas entranhas ardiam como se houvessem borboletinhas saltitando por ali, eu sentia algo estranho dançando na minha mente. Eu sempre pensei de mais. Pensar de mais sobre si mesmo não é algo muito bom, advertem médicos especialistas.
Sua presença estava se tornando, rapidamente, algo muito raro e tinha medo de que se tornasse inexistente. Eu tinha medo de uma porção de coisas e tenho certeza de que se parar para pensar, hoje em dia tenho um número ainda maior de temores.
Meu maior medo tem nome, data de nascimento e rg. Meu maior medo é real.
A vela tremulava como uma folha de papel no vento, a luz avermelhava esquentava o meu espírito e o sorriso dele fazia com que eu me sentisse a pessoa mais sortuda do mundo, apesar dos pesares e dos fatos demonstrarem outra realidade
Meu nariz um pedaço de gelo enfiado no meio de minhas bochechas resfriadas, minhas mãos tremulas encaixadas dentro de luvas vermelhas de lã seguravam o bolinho de limão coberto com glacê rosa e eu pelo canto do olho o via me observando com atenção.
– Vamos, faça um pedido... A vela não vai aguentar por muito tempo.
– Não me aprese... Não sei o que pedir nada do que eu realmente quero é capaz de acontecer, você sabe disso.
– Então... – Puxando a gola do meu casaco pra cima e a colocando sobre o meu nariz ele se apertou ao meu lado no degrau da escada de tijolos laranja. –... Eu faço o pedido por você. O que acha?
– Não acho que vá funcionar, mas é o que temos pra hoje.
Sua risada fônica encheu meus ouvidos e eu desejei, pela milésima vez, que esse momento durasse para sempre. Já com o bolinho em mãos ele fechou os olhos e eu analisei cada pequena veia que riscava em roxo fraco suas pálpebras brancas. Ele era um alien nessa terra de pessoas bronzeadas artificialmente.
– Certo, escolhi... Posso?
– Só se me contar antes. Vamos, me conte! – Disse apoiando meu queixo em seu ombro e os cantos de seus lábios subiram em um micro sorriso.
– Você sabe. Se eu contar não acontece.
– É algo bom?... – Ele acenou positivamente com a cabeça e abafei minha risada em seu casaco, era estranho rir de mim mesma. – É, claro que é. Então... Faça.
– Pronto.
Um assopro depois e o bolinho foi devolvido a mim, seus lábios estalaram em mim bochecha.
– Espero que aconteça.
– É. Eu também.
Quando esperar se tornou tedioso de mais eu entrei no ambiente climatizado cheirando a canela iluminado por aquelas luzes amarelas e comprei um bolinho de limão com cobertura de glace rosa, e num mercadinho da esquina com uma atendente estranhamente feliz de mais uma caixa de velas pequenas brancas e vermelhas e um esqueiro.
Sentada de volta numa das mesas em frente ao falso Rivers eu acendo a vela posicionada sobre o bolinho e fecho os olhos com força torcendo pra que a fada madrinha que concede os pedidos das velas de aniversario não perceba que ainda faltam praticamente cinco meses pra que eu realmente tenha esse direito. Sem perceber viajo nos meus pensamentos e quando abro meus olhos de volta ao mundo dos humanos percebo que a vela já está meio deformada e que a cera cobriu a superfície do doce como a raiz crescente de uma arvore.
– É melhor apagar isso logo, querida….
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