Pequenas coisas, grandes janelas
9 Eu sou o fantasma do Joe perturbado*
Notas iniciais
Não fazia sentido aquelas chaves serem todas iguais e cada uma abrir uma porta diferente, isso o fazia perder um certo tempo, todos os dias, em frente a porta, sem exceção, a procura daquela, a chave, a poderosa, a escolhida que uma hora irá de abrir a portal mágico no sobrado da rua Baron Brecht.
– Finalmente!
A chave gira no tambor e a porta abre com um rangido, ele larga as botas e o casaco ao lado do aparador e caminha a passos pesados em direção a cozinha. Iluminado pela luz do sol acizentado a cena é propícia para a gravação de um video clipe indie, de qualquer forma, ele prefere os clássicos... the smiths, the cure e a maior parte das bandas antigas com the na frente.
– I am the ghost of troubled joe**.... Pa pa ra… — Com a cabeça dentro da geladeira ele resmunga a música sobre café e dominação do mundo, ele é muito dramático, na maior parte do tempo. — Qual é o problema em se ter algo que não seja congelado, é pedir de mais? Depois que eu entro em depressão não se sabe o porque… É só colocar algo nessa geladeira que não seja um bloco de gelo!
E ai está: “Como ser dramático em dois passos com Jace Lawrence.”
– Pelo amor Jace Samuel Lawrence! Pare de ser dramático!
Amarrando os cabelos loiros enferrujados num coque parcialmente perfeito Susan desce as escadas e para em frente a porta aberta da geladeira, ela parece algo fantasmagorico a maior parte das vezes, como se sua existência fosse uma mera ilusão. Talvez, se fosse, não seria uma grande surpresa, afinal, Jace não é lá muito correto das ideias.
– Eu sou seu filho, você trabalha em outra cidade e me abandona com esses lixos congelados. Como quer que eu reaja? A escuridão é minha única solução… — Fechando a porta da geladeira com o pé, Jace analisa um pote transparente cheio de um liquido cremoso com pedaços de algo roxo boiando. — … O que seria isso?
– Um iogurte natural… — Com um par de grampos entre os lábios ela toma o potinho das mãos do garoto Lawrence.- … Meu por sinal. Com licença.
Com sua rápida refeição, sua bolsa e um lenço vermelho sangue ela caminha com elegância e rapidez para a porta, Jace vai logo atrás, com as mãos em seus bolsos deslizando com suas meias no chão de madeira escura polida, como se tivesse cinco anos.
– Quando volta? — Apoiando seu corpo com preguiça no batente da porta Jace analisa a rua vazia e fria com Susan como uma miragem parada um degrau a sua frente.
– Duas semanas, depois quatro dias de folga. Podemos ir ao lago se quiser, antes que tudo aqui congele… — Sua mão de dedos pálidos e compridos acaricia o rosto de Jace até que ele deixe de lado a expressão de decepção. — … Está bem Jace?
– Claro, eu só não sei o que se passa por essa cabeça… — Susan segura o lenço que é levado pelo vento e mesmo que não devesse Jace se sente aliviado por ela deixar de tocá-lo. Sente, mas não demonstra, de qualquer forma. — ... Pra você deixar um adolescente sozinho por duas semanas. É loucura… Eu posso colocar fogo na casa.
– Olha, ela não está aqui, então, o risco dessa casa pegar fogo é muito pequeno… — Apesar de, certa forma, isso soar como um insulto à Ela, ele não consegue deixar de sorrir. — … E você nem gosta de festas, acho que sou a mãe mais sortuda do mundo.
– É, talvez. — Ficando na ponta dos pés ela beija a testa de Jace o que reforça o sentimento de ainda ter cinco anos. — Ainda não me acostumei… Em ficar sozinho. É tão… Solitário.
Bem, ai está… idade mental:5 anos e o mais alto nível de dramaticidade do estado.
– Você é quem insiste em morar aqui e eu gosto de trabalhar, mesmo que não precise… e nessa cidade não há trabalho, então…
– Susan, chega, não precisa se explicar toda vez que vai trabalhar… — Ele puxa o casaco do gancho ao lado da porta e enfia seus braços nas mangas. — … Eu só estou… brincando.
Ela o encara desconfiada e por um momento suas pequenas rugas nas laterais de seus olhos verdes a fazem parecer quase idosa. Numa tentativa falha de acalma-la ele desfere um sorriso forçado
– Eu te amo, seu péssimo ator.
Ela sorri e caminha rapidamente para o carro vermelho estacionado de qualquer jeito em frente a garagem, joga a bolsa no banco de trás e sorri confiante para seu filho. Ela sempre o deixa com medo borbulhando na parte mais selvagem de seu cérebro, não é bom o deixar sozinho… Não é recomendável. Jace sabe como sua mãe se sente e, apesar de se manter superior a qualquer sentimento extremamente humano, lá no fundo, naquele cantinho entre o diafragma e os pulmões, o tal medo aparece. O porque de ele não gostar de festas está relacionado a isso, claro, remédios e bebidas não devem andar juntos.
Tipo, nunca.
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