Pensamentos de uma Ingênua
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Os anos que se passaram depois desse foram apenas fortalecendo o que eu sentia, comecei a priorizar o que ele me dizia, o que ele sentia do que meus próprios problemas pessoais. O único problema de Marcelo é que ele era como eu. Intenso. Em 4 anos de amizade posso dizer que ele apaixonou-se apenas 2 vezes. A primeira vez por Lisa, a segunda vez por Cameron. Ajudei-o a desistir de Lisa, por que ela era uma vadia e sinceramente, ninguém merece se apaixonar por vadias. Não que vadias não mereçam amor, elas apenas não sabem como agir com ele.
Os anos passavam e eu me apaixonava cada vez mais por ele, a cada dia mais um pouquinho. Se eu me decepcionei mais vezes com ele? Foram inúmeros gritos e lágrimas. Inúmeros pedidos de desculpas. Inúmeras retaliações. Inúmeros conselhos. Inúmeros socos. Inúmeros "Eu te amo". Inúmeros "Filha da puta, mentira eu amo tua mãe". Inúmeras as vezes em que eu pensei em me afastar e até mesmo o fiz, mas de qualquer maneira, parei para pensar nesse meu último dia em como eu não teria mudado nada. Todo o sofrimento, tudo o que passei me fez ser uma pessoa boa. Sou grata por isso, ao menos morrerei de consciência limpa. Meus familiares estão todos reunidos em volta de minha cama, apesar de ser 3:30 da manhã. Minha mãe chora de um lado, ruidosamente, enquanto meu pai derruba algumas lágrimas com suas próprias palavras de consolo. Summer, minha melhor amiga olha para mim de 5 em 5 minutos, ela sabe que lágrimas não são bem vindas no momento. Olho a janela lá fora, não irei dormir nessas próximas 20 horas de vida, quero aproveitar o máximo o resto de tempo que ainda tenho. De alguma maneira, me apetece sorrir. Um sorriso puro e grato por todas as coisas que pude fazer nesses 19 anos de vida, um sorriso para todo o sofrimento que passei. Um sorriso para cada lágrima que derramei. Um sorriso especialmente para todas minhas decepções. Um sorriso para todos os momentos em que minha vida terminou e recomeçou novamente. Um sorriso.
Se ainda sou e estou apaixonada por Marcelo? Não sei. Nunca mais tocamos no assunto de nosso beijo. Penso sobre ele todos os dias, todos os momentos em que o vejo relembro o sabor único de seus lábios. Eu lembro que eles tinham gosto de baunilha e morango, meu sabores favoritos. Lembro com a mesma intensidade de seu olhar frustrado. Isso dói tanto...
"Quero ligar para ele." Disse para minha melhor amiga. Se eu tinha medo de ele desligar na minha cara? Nenhum. Vou morrer daqui menos de 19 horas, eu mereço. O tempo está passando relativamente rápido. As dores são quase insuportáveis, mas eu tenho que resistir. Por ora, não penso em abandonar tudo. Minha amiga assente com a cabeça e me entrega seu celular com o número já discado. Coloco o aparelho em meu ouvido e espero pacientemente pela voz do outro lado da linha. "Oi Sum! Como você está? Quanto tempo!" Ele diz, aparentemente ele está bastante feliz do outro lado do mundo. "Ham, não é a Summer. Eu só preciso falar com você. Você poderia me dar um minuto?" Eu pergunto, hesitante para o garoto que não falava comigo há mais de um ano. "Nossa, oi Blair... Quanto tempo. Eu... Sinto saudades de você." Ele diz, assustadoramente eu não sinto mais meu estômago dando aquelas voltinhas. Não sinto as borboletas. Eu simplesmente não sinto. Se eu sinto falta dele? Muita, a cada minuto, a cada segundo eu me convenço mais de que meu lugar seria ao seu lado. "Eu também, Ma... Eu preciso te falar uma coisa, mas você deve me escutar até o final ok?" Perguntei, já sentindo as lágrimas embaçarem minha visão. A família olhava para mim, agora eu finalmente diria para ele o quanto eu o amei, o quanto eu sofri, o quanto eu quis algo que ele não queria. "Hm, ok... Está tudo bem?" Antes que eu começasse a chorar, prossegui. Porém eu sabia que minha voz não era a mesma.
"Bom, há um ano e meio atrás, dois meses após você começar a namorar Cameron eu descobri que eu tinha leucemia." Eu ouvi um suspiro e eu engoli em seco, não podia dar para trás agora. "Eu não podia atrapalhar ninguém, portanto tive que parar a faculdade. Eu tive depressão, tentei suicídio, mas nada aconteceu. Me curei da depressão, porém a doença ficava cada vez mais comprometedora. Comecei a ter náuseas, dores nos ossos... Começou a ficar cada vez mais difícil. Eu resisti bem até a semana passada. Três dias atrás o médico disse que eu já estava comprometida, eu vou morrer." Minhas lágrimas e meus soluços tomavam todo o quarto, a enfermeira pediu para todos se retirarem, menos minhas melhor amiga. Todos me olhavam confusos e com pena, e sinceramente, eu merecia-a. Eu chorava tudo o que eu não tinha chorado três dias atrás, e eu ouvia as lágrimas e soluços de meu melhor amigo do outro lado da linha. "Eu vou morrer Marcelo! Tenho menos de 19 horas de vida! E eu te amo. Eu preciso te falar isso senão eu não vou poder morrer do jeito que eu deveria, sem nada na minha cabeça. Preciso te dizer que eu sempre te amei, não como um mero amigo, mas como um homem! Eu sempre te amei, caralho! Eu não quero morrer agora..." Minha voz oscilava de maneiras indescritíveis, impressionantes. Eu gritava e sussurrava repentinamente. Já havia dito tudo o que podia, estava na hora de desligar. "Blair! Não desliga. Preciso te ver, você só pode estar brincando..." Ele dizia com amargura e dor em sua voz. "Eu te amo, não se esqueça disso. Adeus." E desliguei.
Minhas lágrimas não paravam de cair, meu coração doía cada vez mais, sentia-me ficar asfixiada. Comecei a agarrar minha garganta e tentar buscar ar de algum lugar, porém ele não entrava. Via tudo em câmera lenta, minha melhor amiga chorando e gritando, as pessoas correndo para dentro do quarto, as enfermeiras tentando me alcançar, as pessoas choravam e gritavam meu nome, porém eu não ouvia direito. Fechei meus olhos, estava cansada.
Quando abri meus olhos novamente, estava em um quarto maior, porém apenas meus pais e o médico estavam lá. O médico olhava para mim e sussurrava para meus pais, via minha mãe tremer, seus olhos quase pulavam para fora de tão inchados por causa do choro. Meu pai tinha a dor expressa em sua face, sua expressão era de mágoa.
Eu vou morrer. Era a única coisa que eu pensava, quando olhei pela janela, estava claro. Tinha no máximo 10 horas de vida. Não queria mais chorar, estava apenas procurando aceitar, como a psicóloga dizia. O céu deve ser bonito, ninguém nunca voltou para reclamar. Não para mim. As pessoas que eu amo iam continuar suas vidas, e eu, lá em cima iria estar ajudando-as. Observando as superações de cada dia. Eu pensava em como seria a vida de minha melhor amiga, que tinha 5 anos a mais que eu, ela estava noiva. Já havíamos escolhido seu vestido, eu seria a madrinha. Não pensamos que a doença poderia me condenar tão rapidamente. Ela ia se casar daqui apenas um mês. Apenas 30 dias a mais. Por que tão pouco tempo? Menos de 15 horas, mas por que? Nada estava claro, apenas o sofrimento. Jurei para mim mesma que eu iria observa-los e orar por eles durante toda minha vida lá em cima, jurei que eu nunca os deixaria. Abri um sorriso, sentia-me feliz. Eles iriam continuar a vida sem mim, mas eu sempre estaria lá. Numa paisagem, numa palavra, numa comida... Eu nunca os deixaria. Isso pode soar macabro, mas é triste quando você é a pessoa em questão. O médico se aproximou e eu já me antecipei. "Quantas horas?" Eu não possuía nem uma amargura em minha voz, nem uma dor, nem uma tristeza. Era a minha condição, não havia mais nada a fazer. "A traqueia fechou, tivemos que fazer um procedimento de emergência. Seu coração parou por aproximadamente 2 minutos, mas conseguimos ressuscita-la. A senhora dormiu pelas últimas 15 horas, Srta. Whinston." Me choquei ao ouvir tudo o que seus lábios proferiam. Eu tinha mais ou menos 4 horas de vida. Apenas mais quatro. Depois eu iria. O que eu pensei no momento? Hm, ok. É o que eu tenho para hoje.
Assenti e tentei sorrir, mas aparentemente eu falhei, pois minha mãe apenas me abraçou e começou a soluçar. Meu coração doía apenas por vê-la daquela maneira, sofrida e vulnerável. Poxa, ela perderia sua filha única, meu pai nunca me levaria para o altar, minha mãe nunca cuidaria de seus netos, nunca veria sua família crescer, porém eles eram novos, apenas 36 anos. Não poderia permitir aquilo.
"Hey, mãe, pai... Posso falar com vocês?" Minha mãe assente, olhando-me com carinho. "Eu quero que vocês vivam após minha morte." Minha mãe começa a chorar, contraindo seu corpo num impulso de dor. "Quero que vocês façam algo por mim. Quero que vocês adotem uma criança, sei que você não pode ter filhos mãe. Não mais e pai..." Suspirei, eu sempre fui estranhamente conectada, ligada ao meu pai. "Cuida dela e de Ammy. Sim, eu quero uma garota, uma irmãzinha! Você vai leva-la para o altar pai, mesmo que não seja eu, você vai leva-la para o altar, vê-la crescer... Mãe, ela vai te dar netos e vocês verão que eles vão ser umas pestes. Mas por favor, quando fizerem isso, não se esqueçam de mim. Contem-na sobre mim, sobre quem eu fui. Quero que ela escreva para mim, converse comigo... Não se esqueçam de mim, mas tenham uma família, por favor." Eu já estava chorando, porém de felicidade. Eles continuariam sem mim, não queria vê-los sofrendo. Abri um sorriso e minha mão resolveu se pronunciar. "Filha, nós nunca vamos esquecer de você. Nunca, vamos falar de toda a sua história para ela. Nós te amamos tanto..." Meus pais me abraçaram e nós três ficamos lá chorando, esperando a minha hora sem nada para fazer, além de relembrar nossos momentos juntos.
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