Pensamentos de uma Ingênua
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O que fazer quando já estamos comprometidos, quando não podemos fazer nada para mudar nossa situação, quando nos resta apenas chorar e esperar pela compaixão de algum ser divino? O que fazer quando você sabe que de qualquer forma, você não tem tempo? Muitas pessoas, quando pedem tempo, pedem um tempo bom, sabe? Pedem bastante tempo. Eu gostaria de tê-lo agora, eu gostaria de ter um pouco de tempo para resolver tudo o que eu precisava, todos os assuntos pendentes... Peço para que você, agora que está lendo isso, não desperdice o seu. Viva intensamente, não seja insensato, mas não tenha medo de correr perigo. Não perca tempo. Não perca o tempo que te resta, seja melhor que isso. Viva cada segunda como se fosse o último. Sem opção, é o que eu faço agora.
Nas minhas últimas três horas de vida, eu jurava ver todas as imagens de todas as ocasiões que me marcaram bem na minha frente. Via todos os momentos, tanto os bons quanto os ruins. Como se minhas lembranças tivessem se apegado a mim, com medo de morrer do mesmo jeito que morreria. Eu não tinha mais medo, pelo contrário, me sentia destemida por não temer nada do que iria me acontecer. Porém, eu sentia aquela dorzinha lá no fundo, sentia aquele arrependimento por ter feito tantas coisas que eu não me orgulhei, aquele pesar ao saber que poderia tudo ter sido diferente, meus caminhos poderiam ter sido outros... Tudo hoje poderia ser diferente, e eu ficava grata se de fato fossem.
Repentinamente, Marcelo tomou meus pensamentos. Poderíamos ser diferentes. Tinha tudo para dar certo... E hoje, ele nem veio me dizer adeus. Se o Marcelo que eu conhecia soubesse o tanto que estou sofrendo, ele viria me ajudar. Consolar-me e me apoiar, ficar comigo até meu último segundo de vida. Porém, de alguma forma, eu sinto que aquele Marcelo morreu, no dia em que partiu, como se ele tivesse deixado aquele gostinho de quero mais no ar, porém era na verdade, toda a essência que ele ainda possuía. Era, na verdade quem ele era. Ele tinha recomeçado em outro lugar e eu me sentia egoísta e frustrada por não ter recebido ao menos uma ligação nas minhas últimas três horas de vida. Me sentia mal por estar impotente e não ter ele e para me encorajar e dizer que eu botaria uma música no Paraíso e começaria a dançar e fazer as pessoas sorrirem... Era disso que eu tinha falta. Era de todas as palavras sem pensar, todos os sorrisos tímidos, todas as cutucadas, todas as brigas pelo controle de videogame, todas as opiniões alheias... Tinha falta do meu amor, do meu melhor amigo que tinha se tornado um completo estranho. Sabe do que eu realmente sentia falta? Dos beijos na testa, dos abraços, dos afagos, das encaradas... Dos olhares. Sentia falta de algo que eu tinha medo de nunca ter existido da parte dele. E o que preenchia minha mente nos meus últimos momentos, foi a confusão de alguém que amou uma pessoa que poderia ter sido uma farsa.
Não nos víamos por anos, quem saberia se ele ainda sentia algo por mim? Infelizmente, tinha que colocar na minha cabeça que existiam as milagres. Que as pessoas mudavam sempre, elas nunca continuavam as mesmas. Seja por uma doença terminal, como eu, ou por um caminho diferente, como ele. Todos somos milagres e felizmente, todas pessoas precisam de seus momentos no chão para aprender a andar. Se eu gostaria que minha história mudasse? Talvez. Se eu estou chorando agora escrevendo isso, sabendo que daqui 2:45 minutos eu pararei de respirar? Óbvio. É algo tão repentino... E acredite, apesar de eu parecer forte, estou morrendo por dentro. Literalmente e Figuradamente.
Eu preciso desabafar com alguém e esse alguém não pode ser conhecido por mim. Então, querido leitor, preciso de você no momento.
Eu preciso de mais do que eu já tenho. Parando para pensar agora, minha vida foi menos da metade de uma parte da população e o dobro de alguns milhares de indivíduos. Eu não sentia dó deles antes, pois não sabia quão apavorador isso é. E peço para que você, toda vez que ouvir uma história sobre doença, sinta empatia. É o que eu sinto agora, estou morrendo. A pergunta que não quer se calar em meus pensamentos é exatamente essa: “Por que eu?”. Cara, eu tenho apenas 19 anos! Como assim... Não poderei viver minha vida? Eu nunca nem bebi! Nunca fiz sexo com alguém! Eu não vivi o tanto que gostaria. Não viverei o tanto que quero. Durarei menos que um filme.
2:30 para eu deixar tudo aqui, e posso dizer com toda a certeza do mundo que eu não estou preparada. Como eu vou deixar isso aqui assim? Eu seria madrinha da minha melhor amiga! Eu daria netos para meus pais! Meu pai entraria comigo na Igreja! Minha mãe iria colocar meu véu! Eu teria meus filhos, cuidaria deles! Eu seria formada e teria uma profissão que me deixasse feliz! Eu teria a porra de um marido que me recebesse todos os dias com a porra de um sorriso no rosto! Eu o amaria todos os dias! Eu... Eu teria uma vida.
Me sinto agora sem vida, eu sinto todas minhas energias se esvaindo. Sinto meu corpo dando a bandeira branca. A dor é quase insuportável, mas eu recuso-me a dormir; a pior sensação do mundo é saber que se você dormir, você nunca mais irá acordar. Você percebe que seu tempo está chegando. Estou tossindo loucamente, meus ossos estão estalando a cada movimento que eu faço, estou pálida e com olheiras. Meus olhos denunciam a dor que sinto.
Pedi um tempo sozinha aqui no quarto. Pedi para que retirassem minha família e minha melhor amiga do andar em que estou, pois irei retirar tudo o que estou sentindo do meu peito. Pedi para a enfermeira fechar as cortinas, peguei o travesseiro em que estava deitada, coloquei-o em meu rosto e gritei. Gritei meu pulmão para fora. Se estava doendo? Incrivelmente, eu estava me sentindo até mesmo melhor. Eu chorava, molhava todas as coisas que tinham em volta de mim. Por que comigo?! Por que agora?! Por que?! O que eu fiz?!
Não sabia se as perguntas alguns dias seriam respondidas, se todas minhas perguntas ficariam na parte mais escura de minha história... Eu queria tanto... Sabia que deveria aceitar minhas condições. E é o que eu iria fazer agora.
Um dia, minha mãe me disse que Deus tinha as respostas para tudo. Eu não sabia se acreditava ou não, mas eu sempre acreditei Nele. Sinto muito se você não acredita e parará de ler essa história apenas por ser um ignorante e não aceitar que todos temos opiniões divergentes. Eu não sei se você é, mas deixe-me continuar? Só tenho mais 2:20 de vida, eu mereço pelo menos uma tentativa de me explicar.
Minha mãe dizia para mim quando era pequena, que Deus nos emprestava tudo. Porém um dia Ele iria pegar de volta as melhores coisas que Ele nos emprestou. Sorri com meu pensamento, talvez eu fosse uma coisa ótima, não uma coisa terrível, afinal. Eu decidi que pela primeira vez na vida, eu iria confiar. Confiar em alguém que eu acreditava que existia, apesar de nunca ter visto antes.
O que tenho a perder?
Entreguei tudo e rezei, coisa que não fazia havia muito tempo. Pedi apenas para que Ele deixasse a vida de todos mais feliz com a minha partida, que eles não se esquecessem, mas que não vivessem um luto eterno. Me entreguei, mas eu sabia que estava fazendo aquilo especialmente por mim.
Eu deveria aceitar que não duraria para sempre, na verdade, não duraria por um dia. Dizem que a parte mais difícil de aceitar algo, é quando você se remete a ser aquela coisa. Muda tudo, de verdade. Depois de ter aberto meu coração para mim mesma, senti uma paz que nunca havia sentido. Como se eu entendesse que aquele não era meu lugar, como se meu coração finalmente percebesse, que eu iria partir. Quando você não tem o poder de mudar algo, aceite. Realmente, dói menos.
Se Marcelo irá no meu enterro? Não sei.
Será que algum dia eu ao menos tive uma ideia básica de quem ele era? Será que ele já mostrou uma parte verdadeira de alguém que ele já foi? Será que a pessoa que eu tanto amei e amo, já existiu? Será que ele se lembrará de mim, algum dia?
Será que o certo, será que meu milagre não tenha sido ser o milagre dos outros? Eu não sei, mas decidi que essa é a posição que irei tomar. É meu destino, e ele será o melhor para mim. Eu espero.
Marcelo Narrando:
Após ouvir suas palavras, eu quis me matar. De verdade. Eu sempre tinha amado-a e nunca tinha dado valor para meus sentimentos. Eu posso ter sido uma pessoa horrorosa, mas juro por tudo o que é mais sagrado, que não havia ao menos um dia em que eu não pensasse nela. Eu queria voltar, mas infelizmente, toda minha vida já estava aqui. Como poderia deixar tudo para trás? Meu consciente me torturava, dizendo “Você já deixou uma vez, não lembra?”
As palavras que saiam da boca dela eram puramente sofridas, doíam de se ouvir. Dilaceravam minha alma sem piedade. Eu implorava por mais tempo, assim como ela deveria estar implorando agora. Eu precisava vê-la, dizer quanto amava-a, apesar de sentir que seria tarde.
Sem pensar mais uma vez, liguei para uma companhia de jatinhos particulares, que poderiam me levar ao meu destino o mais rápido possível. Levariam mais ou menos 3 horas para me levar até minha antiga cidade, até minha antiga vida. Até a pessoa que eu mais amava.
Chegando na companhia, empurrei todos e expliquei minha condição para o piloto livre. Ele sorriu com compaixão e me indicou o jato que me levaria ao meu destino. Durante a viagem eu apenas pensava em como eu havia sido burro de nunca ter dito nada para ela, de nunca ter me aberto de verdade, de nunca ter me declarado. Nunca falei um terço do que eu realmente queria dizer. Agora, estava chorando. Peço para que você não me odeie. Eu errei. Pode me chamar de otário, de idiota, burro... Do que quiser, mas eu apenas senti que era certo começar minha vida em outro lugar e assim o fiz. Tente me compreender antes de me julgar, por favor. Se fui egoísta? Muito! E infelizmente, hoje eu sinto na pele o que é ser deixado e não ter nada para fazer além de ver a pessoa se esvair diante de seus olhos.
Eu chorava descontroladamente, de alguma maneira eu queria que Deus me devolvesse todo o tempo que eu tinha perdido sem dizer todas as palavras que estavam entaladas em minha garganta. Queria ver seu sorriso, sentir seu cheiro... Era a minha noção de Paraíso.
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