Narrador em 3ª pessoa

Os olhos da garota abriam e fechavam em uma lentidão sufocante, seus batimentos haviam perdido o compasso e agora encontravam-se lentos e desregulados. Ela sabia o que a esperava, tudo aquilo que ela estava vivendo iria passar me apenas uma hora. Seria apenas mais uma hora naquele mundo, mais uma hora naquele sofrimento. Seu coração estava confuso, e por mais que ela quisesse gritar, o sentimento de agonia não queria deixa-la. Sua morte se aproximava cada segundo mais um pouco, e no momento, ela desejara apenas parar. Parar de respirar, parar de viver, parar de sofrer, parar de pensar em todas as escolhas malfeitas e em todas as lágrimas derramadas, parar de pensar na pessoa que ela mais amava, mas ela simplesmente não queria pensar.

Há 40 minutos de onde a garota, em seu estado lastimável se encontrava, Marcelo, com seu terno e gravata, aguardava ansiosamente a chegada ao aeroporto. Seu coração batia descompassado, porém definitivamente mais veloz que o de Blair. Os corações deles estavam interligados, apenas eles não sabiam. Os pensamentos do garoto alternavam em questionar-se sobre todas as escolhas que o tiraram do caminho dela e em todas as vezes em que desejou voltar mas apenas tomou outro rumo, escolheu um caminho diferente. Naquele dia, ele percebeu que quando Blair fosse, uma parte dele iria junto. E por mais que doesse pensar em todo o sofrimento que ele passaria, ele arcaria com as consequências, pois ele sabia que todas as escolhas erradas partiram dele. Ele, infelizmente, sabia que todas as lágrimas, todas as decepções dela foram por causa dele.

Uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho direito, seus lábios tremendo, procurando de alguma forma, libertar toda a dor que ele passaria. Ele pensou em um final diferente, se tudo tivesse dado certo, hoje eles estariam juntos. Ele observou pela janela, a cidade lá embaixo. O aeroporto se aproximava e ele pensava no que iria falar para ela. A cada batida que seu coração dava, com mais intensidade sua alma era dilacerada. Suas mãos tremiam, e seus olhos, agora inchaados, insistiam em não querer parar de derramar lágrimas.

Ao pousar, agradeceu o piloto e desceu, correu o quanto pôde até achar um táxi. Pagou o dobro para ele chegar em 5 minutos.

Como a vida dá voltas, não? Como ela insiste em dar uma moral para todas as nossas histórias, não é mesmo? Poderia deixar que você descobrisse qual é o final dessa história. Poderia deixar que você fantasiasse seus pensamentos com coisas felizes, com ideias de que ela ainda teria salvação ou que ele poderia consertar todos seus erros. Porém, essa é uma coisa que não irei fazer. Gostaria que os dois jovens tivessem suas vidas unidas, juntas por todos os tristes acasos. Mas, assim como temos garantia de que nossa vida é limitada, devemos cogitar a hipótese de poder morrer a qualquer instante. Devemos fazer tudo o que nos apetece, na hora que nos apetece. Nenhum dos dois jovens haviam aprendido essa importante lição. A vida, por mais que não nos pareça, é curta. Devemos nos arriscar um pouco.

As lágrimas apenas escorriam, querendo ou não, seria de fato, difícil se desapegar de toda a história que havia escrito. Blair pensava em Marcelo. Assim como ele, na entrada do Hospital, pensava em Blair.

“Alguém, por favor?! Preciso do número do quarto de Blair Whinston!” –Ele disse, seus olhos suplicando por compaixão. A secretária, percebendo toda sua angústia, pediu para que ele se acalmasse, e assim que o fez, deu-lhe o número do quarto. 324. Ele correu, gastou todo seu fôlego, enquanto abria espaço no corredor 2, no 3º andar, do lugar em que ele julgava guardar possuir as piores lembranças. Ao ver o número do quarto, seu coração saltou para fora. Ele parou de correr e passou a andar, numa lentidão considerada crucial para toda a hesitação e tristeza que o acompanhava. Ao aproximar-se do quarto, viu-a lá. Deitada numa cama de Hospital, sua pele clara havia perdido quase toda a cor, seus olhos escuros, pareciam agora afundar em sofrimento. Mas ainda assim, ela estava maravilhosa aos seus olhos. Ele temia por ela, gostaria de estar em seu lugar. Morreria milhares de vezes se fosse preciso, apenas para vê-la seguir com sua vida, apenas para arrancar mais um sorriso dela. Ele queria desistir. Desistir de sua caminhada, desistir de seu destino. Mas de alguma forma, ele sabia que o correto era ficar lá com ela; aproveitar para ter um último momento com ela, nem que se fosse para chorarem juntos.

Ele bateu, desajeitadamente, na porta e entrou. Seus olhos focaram-se na única pessoa que ele julgava importante na sua vida. Os lábios de Blair entreabriram-se e seu rosto adotou uma expressão chocada. Ela não esperava por ele, sua hora estava realmente perto. Primeiramente, ela se sentiu aliviada, pois ele realmente havia ido. Ele não havia desistido dela. Por outro, ela sentia-se confusa. Ele não podia fazer aquilo com ela! Passou tanto tempo sem se importar e agora apareceria? Suas dúvidas, tristezas e medos desapareceram quando ele saiu correndo e a abraçou. Chorando em seu cabelo. E assim passaram os próximos 10 minutos. Ambos chorando, consolados pelo sofrimento compartilhado. Ele sabia que não estava sendo fácil para ela, ela morreria tão cedo... Ele deveria aproveitar a chance de tê-la com ele por mais alguns minutos. E ele queria que ela fosse com ele no coração, que se ela realmente morresse, soubesse de toda a verdade ocultada por tanto tempo.

“Blair... Eu sei que agora já é tarde, mas eu preciso te dizer que...” –Ele tomou fôlego, aquilo estava sendo difícil para ele. Querendo ou não, aquilo era uma despedida. “Eu te amo. E eu posso ter demorado anos para te dizer isso, eu posso ser um idiota por ter pensado tantas vezes e ter simplesmente recuado. Eu... Eu gostaria de outra chance, se a vida pudesse me dar outra chance eu ficaria grato. Se eu pudesse morrer nessa cama de Hospital por você, com você... Seria uma chance de ficar próximo de você como eu já fui. Eu sei o quanto dói lembrar de tudo o que nós já tivemos. Demorou um tempo, mas eu tive de me afastar de você. Eu não queria me apaixonar por você, e por mais que custe dizer tudo isso, essa é a verdade! Você merece alguém melhor que eu, você merece alguém que te dê mais do que posso... Você mereceria tudo isso Blair, e me mata te ver aí! Você é simplesmente tão cheia de vida, que te ver aí, me parece impossível... Eu cheguei tarde Blair. Mas saiba que se eu tivesse que viver de novo, nossas histórias seriam diferentes. Elas seriam interligadas. Eu seria seu e você seria minha.” -As lágrimas caiam pelo seu rosto e pousavam no chão, as lembranças de todos os sorrisos e segredos compartilhados simplesmente os torturavam. Havia um sorriso no rosto de Blair. Um sorriso belo, porém melancólico. A morte tiraria a chance de ter toda uma história ao lado dele. Por mais que suas palavras fossem boas e reconfortantes, não havia mais nada que se fazer. Não havia caminho de volta. Uma última lágrima escorreu por suas bochechas e chegou à sua boca. O gosto salgado aguçando seu sentido. As palavras não saíam e eles ficaram lá, entreolhando-se por meros 30 segundos.

Quando ia responder, Blair sentiu uma pontada em seu coração. Ela ficou em choque, assim como uma mãe dava luz, sentiu-se surpresa. Porém, não era algo agradável. Aquele era seu fim. Todos olhavam para ela na expectativa que dissesse algo. E ela disse. “Amo vocês. Não se esqueçam.” E assim, o aparelho começou a apitar mais rápido, seu coração, a bater mais devagar; tudo passava em câmera lenta. As enfermeiras entraram no quarto e pediram para todos se afastarem, e assim o fizeram. Sua mãe no canto da sala, gritando por ajuda. Seu pai, tentando consolar a esposa, por mais que estivesse desamparado. Sua melhor amiga, chorava silenciosamente. Porém aquilo durara pouco tempo, logo seus soluços também preencheram o ambiente. Marcelo, agora, passava as mãos pelos seus cabelos freneticamente, desejando que tudo fosse diferente. O que Blair pensava? “Cuide deles.” E assim, quando seus olhos piscaram, não se abriram mais.

Anos depois

“Ammy?!” John, batia os pés incessantemente no chão, seus braços cruzados e em sua face, uma expressão zangada. Esther vinha com duas malas na mão, que ele logo apressou a apanhar.

“Gente, onde se meteu essa garota? Ammy, já estamos indo, venha!” E da casa, saiu uma garota. Seus cabelos loiros e olhos claros contrastavam com sua pele clara e sardas naturais. Era incrível como a vida de todos que cercaram Blair havia mudado. Sua irmã, tinha apenas 5 anos. E haviam se passado 5 desde sua morte. Marcelo agora estava casado, porém nunca esqueceu Blair. Por mais que quisesse, não conseguia tirá-la de seus pensamentos. Portanto, decidiu não o fazer. A pequena Blair, sua filha, havia nascido poucos meses atrás. E agora, o sofrimento já não era tanto ao ver o rosto tão angelical quanto o de sua antiga amada.

Summer também havia se casado, mas semanalmente ia ao túmulo de sua amiga contar como estava a vida. Atualizava-a de todos o “baphos” como elas costumavam chamar e fala para ela da vida de todos.

O sofrimento estava presente, mas não era tanto. Eles guardavam mais aquela saudade, aquele gostinho de quero mais... Blair continuava presente. E isso se tornava visível em cada brisa, em cada suspiro, em cada flor que eles viam no jardim. Tudo era Blair. Sua felicidade estava instaurada em seus corações, era o lugar em que ela deveria ficar. Ela deveria viver dentro deles até o dia em que morressem, e isso não tardaria a falhar. Ela sempre se abrigaria em alguma parte deles.

Prometeram uma coisa para si mesmos, não deixariam de viver por causa daquilo. Nos meses após sua morte, seus pais costumavam ir até seu quarto e acordá-la, porém a realidade os chocava quando viam que não havia ninguém na cama. Seu cheiro pairava no ar, seu sorriso em todos os retratos, seus dons em todos seus quadros...

Eles viajam uma vez por ano, todos juntos, todas as famílias para conversar... Relembrar dos antigos tempos e falar. Falar sobre tudo, falar sobre nada...

O sofrimento sempre permanecerá, porém, de uma maneira boa. Pois nada morre para quem quer acreditar na Vida.

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