Pensamentos de uma Ingênua
1 Como começou
Como uma vida começa?
É pela primeira respiração, pelo primeiro choro? Acho que pela primeira experiência em cada um dos casos. O primeiro choro, é a primeira experiência de um bebê. Os primeiros passos, a primeira experiência de uma criança pequena. O primeiro amor, a primeira experiência amorosa e por aí vai... Mas de fato, quando todas as experiências começam? Quando você percebe que está vivo? Posso dizer por lembrar de minhas experiências que a vida começa a partir de sua primeira decepção. Difícil é lembrar qual foi a mesma, nossa vida é movida pelas decepções. São as mais difíceis de serem lembradas, mas elas são o que nos movem. Sem as decepções não saberíamos o que ser, como agir... São por causa delas que nos tornamos pessoas melhores, ou pelo menos pessoas que têm algum orgulho de algum feito.
Eu achava que as pessoas poderiam apenas ser quem são, por isso eu não sou uma pessoa odiada. Eu nunca fui, para ser sincera, uma pessoa que era odiada pela sociedade. Pelo contrário, as pessoas tinham tendências à gostar muito de mim, e portanto, eu adorava ajuda-las. Me disseram uma vez que eu era uma pessoa confiante de quem eu era. Ser confiante e ser destemida possuem diferenças grandes, porém as pessoas se confundem. Eu não sou uma pessoa confiante, pelo contrário, sou uma pessoa cheia de inseguranças e medos que eu me recuso a mostrar. A única diferença é que eu continuo vivendo apesar de meus medos, apesar de todas as coisas que eu luto diariamente para esconder, eu devo continuar vivendo. Não tenho medo de me arriscar pelos outros, não tenho medo de me ferir para fazer alguém que eu amo sorrir. Apenas sou destemida, o que é uma bênção mas também uma maldição. Eu sou uma pessoa que vive sempre frustrada pelo simples motivo de ser uma pessoa que não vive perante os olhares da sociedade.
Uma coisa que você deve saber sobre mim: eu sou uma pessoa que apesar de dizer que sou muito forte e muito brincalhona, sou uma manteiga derretida e estou muito machucada. Eu sou apaixonada pela razão, mas há momentos em que as emoções falam mais alto e são certamente nesses momentos em que me machuco. Como na história que irei conta-los agora.
Conheci Marcelo quando tinha 15 anos e estava no 9º ano. Podem dizer o que quiserem, mas eu era perdidamente apaixonada por ele. Como dizer o que eu vou dizer agora...? Eu não sou bonita para as pessoas. Sou gordinha, baixinha, pálida e tenho cabelos escuros. Não sei se são apenas pensamentos que tenho medo de finalmente aceitar, mas eu sempre soube que era indiferente e feia. Eu já entendi isso e esse fato fere-me cada vez que me olho no espelho.
Digamos que Marcelo possuía um gosto peculiar já que ficou interessado em mim. Ok, ele sabia que eu estava levemente "apaixonada" por ele, mas ele queria-me por causa de suas preferências, não por querer saber mais de mim por que havia feito a mesma coisa que eu, se apaixonado. Eu cedi, e dei meu primeiro selinho com ele. Numa piscina. Lembro-me como se tivesse sido ontem.
Flashback on
Lá estava eu, indo para o MSC (Manchester Social Club) para me encontrar com Marcelo. Eu devo ser muito, mas muito burra para estar fazendo isso. Porra, era uma aposta ele não precisava cumpri-la! A aposta havia sido feita na escola, se ele conseguisse esquecer da sua paquera por míseros 15 minutos ele poderia me beijar. Sinceramente, eu achei que ele iria recusá-la. Apesar de ele estar dando em cima de mim e de eu estar completamente apaixonada por ele, aquele idiota de cabelos escuros era agora meu melhor amigo. Portanto, aqui estou eu, faltando 2 meses para entrar no Ensino Médio indo para um clube, pagar minha aposta! Mereço viu...
O Manchester Social Club era um lugar onde apenas as pessoas de uma classe social levemente alta compareciam, por isso sempre íamos lá, digamos que as pessoas que frequentavam os outros lugares eram "barra pesada". O clube era enorme, haviam em torno de 15 campos e quadras no clube e 5 piscinas. Adentrei à piscina número 3 com meu passe de sócia, e fui colocar minha roupa de banho. Mais propriamente: meu maiô.
Quando já estava pronta, me olhei no espelho e vi uma pessoa diferente, uma pessoa em que eu até gostaria de ser. No fundo de meus olhos, eu vi felicidade e por um momento eu pensei em poder ser feliz comigo mesma, talvez eu estivesse exagerando quanto meu corpo. O garoto que eu amava gostava dele, por que não eu?
Flashback off
O meu único problema era ser ingênua. Ele havia parado de dar atenção à Lisa havia alguns dias, eu pensei que ele havia esquecido-a. Erro meu.
Flashback on
Subi em direção as piscinas. Aquilo era uma paixão minha: água. Amava nadar, me sentia livre, sem nenhum problema até chegar do outro lado da piscina. Havia nadado por alguns anos antes, mas infelizmente não pude continuar, escolhi o ballet, que é uma paixão ainda maior. Avistei-o e ele sorriu para mim, fez um gesto com a mão para que eu mergulhasse e assim eu o fiz sem hesitar. Estava um clima demasiado frio e estávamos numa piscina não muito grande. O lugar estava basicamente vazio se não fosse um senhor um pouco mais velho e um ou dois casais com seus filhos bebês. Quando mergulhei, me senti viva. Uma chama acendeu em mim. Algo que há muito tempo eu não sentia, não sabia se era por estar lá com ele, mas acho que estar com as coisas que eu mais amava me fazia sentir completa. Cheguei perto dele e o cumprimentei. Naquele momento éramos apenas nós dois, não lembrava de mais ninguém a minha volta. Tinha olhos apenas para ele, só enxergava a pessoa que eu tinha me apaixonado tão repentinamente. Conversamos sobre muita coisa, inclusive sobre vlogers que ele havia me apresentado, sobre algum desafios que o vloger havia feito e que ele havia assistido e queria me mostrar. Era nojento portanto ele ouviu um belo "Não!" seguido de uma cara de nojo feita pela minha pessoa.
Zoamos um com a cara do outro por mais de uma hora, até que ele resolveu me pegar no colo. Comecei a gritar e rir, bati na suas costas e ele me soltou na piscina. Ele começou a rir até eu chegar perto dele. "Você vai pagar." Eu disse e pulei em cima dele, afogando-o lá em baixo. Deixei-o assim por aproximadamente dois segundos e saí de cima dele. Ele voltou e olhou para mim, com aquele olhar de "Você não fez isso né?" Chegou perto de mim e me abraçou, agarrou meus braços também, portanto estava sem saída, não podia fazer nada para me libertar.
"Essa seria uma bela hora para pagar a aposta." Disse, chegando perto do meu ouvido. Ele virou, me olhou e quando vi, nossos lábios já estavam colados um no outro. Ele soltou meus braços, que foram em direção de sua nuca, o puxando para mais perto de mim e seus braços enrolaram-se em minha cintura. Não o beijei de verdade naquele dia, apenas o selei. Quando descolamos nossos lábios, ficamos a nos olhar e ele abriu um sorriso. Tal como eu, porém meu sorriso não era apenas um sorriso qualquer, só havia me dado conta que estava sorrindo quando nos beijamos novamente. Mostrei e entreguei minha alma para ele naquele dia. Não sabia que estava sorrindo por que minha alma e meu coração tinham sorrido antes de meu cérebro ter se dado conta do que acabara de acontecer. Da mesma forma que ele me abraçou, nossos corpos se afastaram.
"Ó meu Deus, a Lisa! Eu não acredito que fiz isso com ela!" Ele disse, segurando sua boca com uma mão. Seus olhos carregavam uma ansiedade e uma decepção que me cortaram por dentro. Antes de perceber, eu já estava saindo do clube com lágrimas nos olhos e uma sensação nunca antes conhecida. Eu tinha de algum modo, apodrecido por dentro.
Flashback off
Se começamos a viver a partir do momento em que nos decepcionamos, meu coração havia batido pela primeira vez naquele dia.
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