Pensamentos Voadores

19 Anabelle e Carlito


A história daqueles dois era longa, muito, muito longa. Anabelle e Carlito. Dois amigos bagunceiros, barulhentos, encrenqueiros e tantos outros adjetivos que dá até preguiça de escrever. Mas acima de tudo eram honestos. Sim, a honestidade era o sobrenome daqueles dois e várias situações podem demonstrar isso, como por exemplo o dia em que eles colocaram bolinhas de gude — poucas, mas o suficiente para fazer qualquer um que pisasse nelas cair — no chão da escola. Eles ficaram escondidos olhando quem teria o azar de passar por ali, mas foi quando eles viram Bruno — o ‘temido’ do colégio — obrigar um garoto a entregar o dinheiro que trouxera para o lanche. Anabelle e Carlito chamaram o valentão bem em direção das bolinhas e o resultado foi o grandalhão Bruno caído no chão, Carlito pegando o dinheiro e devolvendo ao dono.

Ah, eles se adoravam! Não pararam de se ver quando o pai de Anabelle tinha falecido, na verdade, Carlito era um dos poucos que conseguia arrancar um sorriso de Anabelle. Não pararam de se falar quando Carlito teve que fazer uma viagem de quatro meses com os pais para o outro lado do país. Não pararam de pensar um no outro quando os pais do garoto gostaram até demais da cidade onde estavam. E então a viajem temporáriavirou um adeus completo.

Os dias passavam com um vazio impreenchível. Anabelle ia à escola todos os dias, sorria como sempre sorriu, permanecia a mesma de sempre, mas sentia que algo estava errado. Céus!, seu melhor-amigo tinha ido embora! Ela nunca mais veria seu confidente, a pessoa que ela mais amava depois de sua família! Um amor sincero, de amigos. Sem essa de marido ou mulher… Só a amizade.

Carlito sentia o mesmo em relação a Anabelle. A pessoa mais sincera que já tinha conhecido! Não havia um dia sequer que ele não pensasse em sua amiga. E jurava para si mesmo e para ela: Vamos nos ver novamente, Anabelle, eu prometo!


E, decerto, se viram. Muitas e muitas vezes. Todos os dias, quase. Carlito voltou para a cidade em que sempre viveu quando atingiu os seus sonhados dezoito anos. Os dois não ficaram nem dois anos sem se ver. E a amizade permaneceu intacta, acho até que aumentou ainda mais!

Anabelle casou-se aos vinte e seis, o padrinho de casamento foi Carlito. Ele também foi padrinho de Carlinhos, filho da Ana, o nome foi em homenagem ao amigo (ah, qual é?, você percebeu a semelhança!). Carlito casou com vinte e nove anos e a mulher era uma grande amiga de Anabelle que se conheceram no trabalho. Os cônjuges não sentiam ciúmes, pelo ao contrário, eles admiravam esta amizade. A amizade mais sincera que eles já tinham visto na vida.