Pelos Caminhos da Magia
1 Carta do Ministério
O sol ainda nem começara a clarear o céu, tudo ainda dormia no castelo. Uma fina barreira nebulosa fazia parte do cenário como uma pintura em tela de artista, mas já se ouvia passos apressados atravessando a ponte de entrada que atravessava o lago até a entrada principal da escola. Cinco sombras de casacos longos se aproximavam do pátio quando a porta gigante se abre, clareando o chão à frente. Quatro dos homens desaceleram o passo e param um do lado do outro, com a visão ofuscada pela luz que os recebia de dentro; o quinto homem começou a subir os poucos degraus que o separava do diretor de Hogwarts, que acabara de abrir a porta principal do castelo.
A expressão de todos eles não era de felicidade, estavam todos rígidos e com cumprimentos e posições formais. Poucos eram os encontros entre o diretor da maior escola de magia do mundo e o Auror-chefe do ministério atual, já que a segurança do castelo nunca dependeu de politicagem, como dizia o diretor. Mas desta vez o assunto era mais específico. O lugar não estava em perigo, mas uma preciosidade que muitos acreditavam estar no castelo podia mudar o rumo das próximas eleições partidárias e o destino das comunidades bruxas.
- Richmond — cumprimentou o auror assentindo com a cabeça e um aperto de mão.
- Noah Rochfeller, é bom revê-lo — respondeu o diretor.
O sobretudo de tecido leve rastejava pelo chão quando se movimentava, ele parecia não sentir o frio do inverno. Convidou formalmente os cinco para dentro e a porta se fechou sozinha assim que passaram por ela, cortando o vento que apavorava as luzes internas do corredor. Ninguém falou mais nada até que chegaram ao gabinete do diretor. Fazia anos que não pisava naqueles corredores, ou subia aquelas infinitas escadarias de pedra, imutáveis, nem mesmo o tempo as desgastara.
- Temos uma carta do Ministro — começou Noah, o auror-chefe, retirando um pergaminho enrolado do casaco, enquanto os outros tomavam seus lugares na sala do diretor.
- Achei que não tínhamos mais um ministro – devolveu o diretor Richmond, um tanto áspero.
- Olegário abandonou, mas ainda temos o vice, pela lei. Diego Ryder ganhou direito ao cargo quando o ex-ministro assinou sua retirada.
- Ninguém quer aquele fraco no poder, convenhamos.
- Não estamos aqui para discutir direitos e leis, Diretor. Está além disso.
- Não posso autorizar uma caçada ministerial dentro dos terrenos do castelo, se é o que vai me propor, Noah – sentou-se o diretor em sua cadeira, atrás da mesa, deixando os dois frente a frente.
- Não estou pedindo autorização – declarou o auror, abrindo um pergaminho com selo do ministério.
As sobrancelhas grossas e quase esbranquiçadas do diretor se uniram numa careta destemida. Nem sequer olhou para o papel.
- Pouquíssimos bruxos sabem que os pedaços da Varinha das varinhas foram jogados no lago de Hogwarts, Noah. Se eu autorizar uma busca, a notícia vai se espalhar.
- E o que pretende fazer? Esperar até que o bruxo errado descubra o paradeiro da varinha? – atacou Daniel, abandonando a intenção de ler a carta do ministério.
- Não existe mais ‘A Varinha’. Apenas seus pedaços – corrigiu-o o diretor
- Com tanto poder quanto ela intacta, se for bem utilizada...
- Há décadas – interrompeu o diretor – a varinha mais poderosa do mundo fora quebrada ao meio na mesma ponte por onde os senhores caminharam hoje. Cada pedaço jogado em qualquer direção imaginável, exatamente para que não causasse mais sangue derramado. Durante todo esse tempo a varinha foi esquecida! Invernos rigorosos se passaram, assim como a correnteza do lago se alterou diversas vezes conforme o clima! Acha mesmo, Noah Rockfeller, que consegue prever onde estaria cada pedaço depois de tanto?
O ar endureceu na sala. Os quatro aurores sentados logo atrás mal respiravam, sentindo a autoridade de cada palavra que o diretor expelia. Dizem que o castelo é quem dá autonomia para os regentes da escola, e os aurores acreditavam nisso.
- Steven – aproximou-se Noah, chamando o diretor por seu primeiro nome. A Sonserina nos fez irmãos. Você me conhece desde os onze anos de idade. Esqueça o Ministério e sua forma política de resolver as coisas. Como irmãos de Casa, vamos resolver isso. Não sabemos até quando teremos um ministro que joga a nosso favor. Temos um tempo enquanto Diego Ryder fica no poder! Achamos os restos da varinha e ninguém saberá.
O diretor se aprumou em sua cadeira e abriu o selo da carta enrolada. Um leve sorriso surtiu enquanto lia o texto.
- Você está aqui com uma carta do corpo ministerial, Noah, como pretende burlar o sistema quando pedirem resultados das buscas?
- Eu vivo entre eles, Steven. Sei como as coisas funcionam por lá – disse ele mais baixo que o normal, dando uma piscadela nada discreta ao diretor.
- Essa sua piscadinha com o olho esquerdo – comentou rudemente Richmond, causando certo suspense – já fez mais sucesso entre as garotas.
Noah se levantou sorridente, quando percebera que ganhara a discussão, juntamente com os outros quatro aurores atrás dele. Um aceno companheiro do Auror-chefe fez a despedida entre ambos.
- Sejam discretos – sentenciou Steven, vendo os aurores saindo de sua sala, um após o outro. O diretor ficou imaginando se eles eram treinados para andar em ritmo.
- Senhor, – chamou um dos quatro acompanhantes, quando já estavam descendo as escadas do saguão de entrada – o que diremos ao ministério, caso a Varinha seja achada? — O sol já estava clareando o lago e a neblina havia desaparecido juntamente com a escuridão.
- Às vezes, Angelo, temos que dar a informação que os ouvidos querem ouvir, mesmo não sendo a verdade.
- Por algo maior – respondeu Angelo.
- Por algo maior – repetiu Noah sorrindo, vendo que sua frase mais repetida na semana justificava qualquer ato.
Os cinco aurores pararam no meio da ponte de pedra e vislumbraram a visão do lago. Dois para cada lado da ponte, um para cada lado do lago. Assim os quatro aurores cobririam uma parte sucinta dos arredores.
Com a permissão mágica do diretor, um manto de ilusionismo sobre todo o lago disfarçaria a presença dos aurores para quem olhasse de cima.
E assim, uma nova busca pela varinha mais poderosa do mundo começava.
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