Pelos Caminhos da Magia
2 Oponente e Rival
O longo corredor escuro, de pedras de mármore, sem portas laterais e piso escurecido pelo tempo, com uma descida um tanto desconfortável, terminava em uma porta arredondada de madeira que só se abria com o toque da varinha do único usuário que passava por ali.
Diego Ryder, o Ministro da Magia, se desviara da teia de aranha no meio do caminho, para não sujar seu rosto. E não importava quantas vezes ele limpasse ou retirasse o pequeno incômodo, a teia voltava para o mesmo lugar no dia seguinte, intacta e desgastada, toda vez que ele atravessava a tal passagem, que ligava o escritório de sua casa diretamente à sala da presidência do ministério.
Diego, por ser mais baixo que a média para homens de meia idade, nunca precisava se abaixar quando a porta redonda se abria para seu escritório. O alto da cabeça já falho de cabelos era sempre coberto por um chapéu elegante esverdeado, simbolizando a cor do atual governo.
Às vezes ele sentia falta de andar em público, ir ao banco, à padaria ou ao mercadão de especiarias mágicas. Andar em vias públicas para o Primeiro-Ministro era sinônimo de alvoroço, mesclando aplausos com vaias, principalmente na atual circunstancia do governo.
– O senhor tem visitas, Senhor-Ministro – cumprimentou-o a mulher gorda pintada num quadro na parede esquerda de sua mesa.
– Diz que não estou, Karolaine – respondeu ele, monotamente.
– Já disse que o senhor havia chegado – resmungou o quadro com desdém.
– Se fizer isso de novo – Diego apontou o dedo para a mulher – vou pintar sua cara de verde. A mulher fez uma cara horrorizada e saiu de vista pela lateral da moldura. Em alguns segundos a porta principal que dava para o resto do prédio do ministério se abriu.
– Senhor Ministro, com sua licença – disse um garoto estagiário entrando no escritório acompanhado por um homem alto, um tanto robusto, com com certa formalidade em sua feição – este é Elvis Klaus, seu oponente nas eleições...
– Eu sei quem ele é, Jurahad.
– É Jared, senhor.
Diego dispensou o garoto fazendo gestos com as mãos enquanto Elvis se aproximava da mesa no centro da sala. Elvis era o único concorrente para o cargo mais alto do mundo bruxo. Também era um dos responsáveis por dividir opiniões do público em relação à atual governança. Depois que o Ex-Primeiro-Ministro pediu demissão do cargo, Klaus agarrou a oportunidade de alvoroçar as eleições e trazer à tona os problemas atuais cujo ministério tem certa parcela de culpa. Desde então tem falado em rádios e palanques, visitado pequenos vilarejos, sempre acompanhado de outros políticos e uma assessoria de imprensa para dar mais audiência a si mesmo.
O candidato sentou-se à mesa, observando detalhadamente a sala do presidente, coberta com bandeiras de comunidades bruxas de todo lugar da Europa, quadros de Ex-Ministros, presentes recebidos de amigos políticos e peças raras do mundo mágico. Elvis jamais entrara ali antes. Poucos já o fizeram.
– Tenho acompanhado seus sermões na rádio – iniciou Diego Ryder.
– Não são sermões, são discursos. Sou político, não padre.
– Roubou a batina de alguém, então? – zombou o Ministro, fazendo menção à roupa toda preta do oponente. De repente os dois começaram a rir forçadamente, na tentativa de acalmar o clima de concorrência. Políticos tinham a mania de dar gargalhadas em momentos que antecipam alguma discussão mais séria que o normal.
– Quem diria – pausou Klaus, se inclinando na cadeira, para trás – você aí e eu aqui, depois de tanta rivalidade no colégio – continuava ele pausadamente, como se relembrasse das situações que a inimizade eterna os colocava ainda quando eram adolescentes.
Diego tirou o chapéu e pegou uma garrafa de vinho espanhol, servindo duas taças. Os dois ficaram num silêncio conservador enquanto cenas do passado vinham à memória.
– E agora estamos aqui... Rivais – disse Diego fazendo menção a um brinde com sua taça.
– Rivais – brindou Elvis, entornando o copo.
– Por que veio até mim, Elvis?
– Preciso saber se está mesmo disposto a concorrer nessas eleições no lugar de Olegário – começou Elvis, tomando um tom mais formal quando cruzou as pernas.
– É pra isso que estou aqui, Klaus. Ganhamos a primeira eleição...
– Olegário foi quem ganhou a eleição. Você não fez absolutamente nada, como vice.
– Mas eu estou aqui, sentado na cadeira do chefe, e você aí, na esperança de que eu abra caminho para sua vitória – disse ríspido o Ministro, dando brecha para um breve encontro duro de olhares.
– A Noruega está do meu lado, Diego, e metade da Inglaterra.
– Não existe comunidade bruxa apenas na Noruega.
– Mas é o segundo país mais populoso.
– Onde você quer chegar, Elvis?
– Uma aliança, talvez!
– Já fui casado, obrigado – sentenciou Diego, dando mais um gole no vinho espanhol. Sua mulher era falecida, mas ele jamais a esquecera, nem se casou novamente; ainda usava a aliança de casamento em sua mão esquerda.
– Você não tem mais mulher – provocou Elvis, sabendo que estava indo longe demais. O político conhecia a esposa do Ministro desde o colégio, mas nunca se afeiçoou ao casal. Diego se levantou da cadeira e tirou todo seu sarcasmo do rosto, que agora estava robusto, como pedra.
– Não insulte a memória dela – grunhiu o ministro. Sua expressão estava dura, parecia mais velho – Você já pode sair, nosso assuntou terminou aqui.
Os dois se entreolharam por um longo instante. Elvis se levantou calmamente e se virou em direção à porta, que se abriu sozinha com o sinal da mulher gorda do retrato.
– Nós dois estamos atrás do mesmo objetivo, Diego Ryder, não se esqueça!
Diego permaneceu imóvel como pedra até o candidato sair de sua sala, e continuou fitando a porta, mesmo depois de fechada. O que Elvis quis dizer com aquilo?
Ser Primeiro-Ministro não era o objetivo, e sim o que fazer quando se ganha o cargo. Diego estava ali, cuidando de todo processo democrático da comunidade bruxa, atendendo a chamados de ordem nacional e delegando outros ministros e chefes de departamentos, cada qual responsável por um assunto em específico.
Agora Diego se lembrara de Noah: o Auror-Chefe estivera nesta mesma sala há alguns dias, mas não por solicitação do Primeiro-Ministro; ele viera por conta própria pedindo permissão para cuidar de um caso em especial021/2MO 300ANTO E Sr de da, divisa. foi s Varinhas.
seu marido, principalmente agora que estrueguesa. apesar o diretor.
perava, do qual só se ouvia sussurros, mas ninguém falava abertamente sobre o assunto. A menção a Varinha das Varinhas assustava a maioria dos cidadãos bruxos, que não queria ser vista falando do assunto.
Porém Noah pedira uma audiência em particular com Diego Ryder exatamente para especular sobre o assunto. Poucos eram os chefes de setores que já pediram uma audiência com o Ministro para pedir a responsabilidade de algum assunto do governo.
– Se há mesmo algum bruxo unindo forças e reunindo tropas para qualquer que seja seu objetivo, o ministério deve agir – dizia Noah há alguns dias, em sua audiência com o Ministro, naquela mesma mesa.
– Qual sua sugestão, Auror-Chefe? – questionou Diego, incomodado com a presença do estagiário de Noah, que estava ali, em pé, imóvel, como um cão de guarda.
– Quando temos alguém atrás de algum objeto valioso pertencente ao ministério, nós protegemos a peça e aniquilamos o oponente – começou o auror, virando uma ampulheta para baixo, fazendo a fina areia cair, iniciando sua monótona contagem do tempo, então ele continuou: Porém se sabemos que existe alguém procurando um objeto valioso que seria perigoso em mãos erradas, mas que o Ministério ainda não o possui, certamente a primeira posição é adquirir a preciosidade, já que ainda não sabemos quem é o oponente para aniquilá-lo, correto?
– É fácil aconselhar, quando este conselho lhe trás o que quer, Noah. Sei que quer sair caçando os pedaços da Varinha.
– Senhor-Ministro, a Varinha das Varinhas não é um assunto que pode ser deixado de lado nas atuais circunstâncias, principalmente sabendo que tem mais gente interessada. Peço permissão para iniciar as buscas e trarei para o senhor, quando as encontrar.
Alguma coisa se movera na parede de trás de Noah, e Diego notara Karolaine assistindo atenta à conversa, acenando alguns gestos para o ministro, que de imediato percebeu o que a mulher gorda do retrato queria dizer.
– Faça o Voto Perpétuo – sentenciou o político, observando as reações de Noah – Prometa que trará a varinha para o Ministério assim que a encontrar, e a tarefa é sua.
O Voto Perpétuo não era uma mágica muito comum em nenhuma comunidade bruxa. A grande maioria dos bruxos nem sequer presenciou um ato. Dentro da sala havia três bruxos. Diego Ryder, firme em sua posição, com sua varinha já em cima da mesa; Noah Rochfeller, o auror determinado a obter permissão para caçar a Varinha; e Matthew Longstride, o melhor estagiário do auror, ainda no último ano da escola de Hogwarts.
– Com sua licença, Ministro – disse Matthew, notando o sinal que o auror-chefe fizera para ele agir assim, sacando sua carinha, se posicionando entre os dois ministeriais com uma pequena centelha luminosa na ponta da varinha, aguardando para iniciar o feitiço do Voto Perpétuo.
Diego ficara surpreso com a ação do garoto, e fez menção em perguntar se ele saberia conjurar um bom feitiço para o Voto, mas não fez questão, percebendo a segurança que Noah transpassava. O Ministro sabia que seu Auror-Chefe não os colocaria em risco se não confiasse em seu estagiário.
– Assim seja feito — os dois se levantaram e apertaram as mãos um do outro. A sala escurecera como se as luzes ali presentes diminuíssem, dando destaque à pequena centelha na ponta da varinha do estagiário.
– Noah Rochfeller – iniciou o ministro; uma pequena centelha branca vagou da varinha de Matthew e se entrelaçou no braço dos dois – Diante deste Voto Perpétuo, você jura manter fidelidade a mim em todo o processo de caça à Varinha das Varinhas...
– Eu juro – respondeu ele, e o fio da centelha pulsou em brilho em volta do aperto de suas mãos.
– Jura trazer a esta sala do Ministério os pedaços da Varinha assim que os encontrar, ilesa, imutável e em segurança, antes de levarmos a um lugar considerado seguro o suficiente para tais peças...
– Eu juro – repetiu o auror, sentindo o calor do feitiço nos olhos.
Diego finalizou o feitiço e o validou assim que soltou a mão do auror. A varinha do estagiário deu um tranco para cima e, após um breve silêncio ele sussurrou:
– Feito.
Diego lembrava o quanto o feitiço exigira do rapaz. Nunca vira um estudante capaz de conjurar algo desta complexidade. Agora, mais do que nunca, ele gostaria de obter notícias da caçada de Noah aos restos da Varinha pelos arredores de Hogwarts. A conversa com Elvis Klaus, seu oponente ministerial, o preocupara. Seria possível o candidato estar atrás da Varinha das Varinhas? Seria ele o interessado no objeto? E por que ninguém mais avistava Olegário e sua família desde que deixou o cargo de primeiro-ministro? Férias foi o que dissera à mídia. Porém o histórico de ministros que foram afastados e nunca mais foram vistos é longo. A família do primeiro-ministro sempre fora o alvo para atingir o ministério em tempos de rivalidade.
Diego se levantou e saiu pela porta, deixando recado com a mulher do retrato:
– Vou à Hogwarts!
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