Pelo Olhar de Chrissie

91 Um tempo com a família


Depois da entrevista fomos direto pra casa e, durante o caminho, apesar de eu ainda estar encantada com a forma delicada e linda que Brian falou sobre mim na entrevista, ainda estava preocupada com a repercussão dela.

Chegamos em casa, encontrando Jimmy e Louisa numa conversa animada com Gracey, meus filhos contavam alguma história comprida enquanto a babá prestava atenção.

—Bom, a história está muito boa, mas seus pais chegaram — a srta. Moore os avisou, eles desanimaram um pouquinho, mas logo retomaram à animação porque eu e o pai deles estávamos de volta.

—Oi, meus pequenos! — beijei a bochecha dos meus filhos, um de cada vez — o que é que estavam contando de tão interessante pra Gracey?

—Quando soltamos pipa em Leeds! — explicou Jimmy, contente com a memória.

Me lembrava bem disso, quando passamos o último fim de ano na casa dos meus pais, as crianças tinham gostado muito.

—Pode terminar de contar a história outro dia, Jimmy — recomendou Gracey — agora eu preciso ir.

—Está bem, Gracey — meu menino entendeu e aceitou a condição.

Damos tchau para ela, sentando os quatro juntos. Louisa quis sentar um pouco no meu colo, enquanto Jimmy se sentou entre eu e Brian. Logo as crianças se atentaram mais na televisão do que em nós.

—O que você achou? — Brian finalmente perguntou.

—Ótimo, de verdade, Bri — olhei pra ele com convicção, mas ainda refletindo um pouco mais sobre a entrevista — você foi vago, sem dar detalhes específicos, mas deu a entender que vocês ainda estão bem ocupados, ou seja, pra todos os efeitos, o Queen continua produzindo a todo vapor.

—É, mesmo que isso seja uma meia verdade — sua expressão caiu um pouco — estou quase certo que... quando voltarmos a tocar juntos, vamos fazer tudo como sempre fizemos, só resta saber quando exatamente isso vai acontecer... Isso que ainda me deixa...

Ele não conseguiu terminar, apenas deu um suspiro. Trazer toda a questão da iniciativa independente de Freddie semlre nos deixava triste. O problema não era ele gravar trabalhos solo, mas a maneira como ele decidiu isso e anunciou aos meninos. Fazia muito tempo que não tínhamos notícias dele, por mais que a vontade de entrar em contato com ele fosse grande, mas ainda tínhamos receio, por causa de tudo que tinha acontecido.

—Pelo menos, a imprensa vai nos dar um tempo agora — tentei consolá-lo, ainda pensando em outras coisas, tendo uma ideia que poderia ser a melhor ideia naquele momento — sabe quem precisa dar um tempo de tudo isso? Nós.

—É, eu sei — Brian assentiu — tudo que eu vejo me lembra a briga, simplesmente não consigo evitar.

—E se a gente fosse pra casa dos seus pais, hein? — sugeri — dá pra aproveitar as férias do Jimmy, podemos ficar as férias inteiras lá? Claro, se seus pais não se importarem.

—É claro que não se importam, você conhece eles — o rosto de Brian se iluminou — sou totalmente a favor disso.

Terminando de falar, ele sorriu e me encarou por um momento, com o olhar perdido no meu rosto, o que sempre me deixava constrangida.

—Que foi? — perguntei, rindo baixinho.

—Eu amo você e as suas ideias incríveis — ele respondeu e não hesitou em me beijar logo em seguida, me pegando um pouco de surpresa.

—Ai... — Jimmy disse, um pouco constrangido.

—Desculpe meu amor, mas a culpa é do seu pai — falei pro meu filho.

—Não, Chrissie, você que começou com essa ideia de irmos pra Hampton — Brian riu.

—Vamos ver o Sir Vovô? — Louisa se animou — eba!

—E a vovó Ruth também! — Jimmy lembrou a irmã — que legal, faz tanto tempo que não vamos lá. Vamos poder ir à praia dessa vez?

—Sim, sim, se o tempo colaborar — respondi meu menino — e vamos passar as férias lá.

—É sério? — Jimmy se animou mais — obrigado, mamãe.

Ele me deu um abraço, que eu retribuí.

—De nada, meu amor — sorri, acariciando seus cabelos.

Esperamos mais três semanas para finalmente deixarmos a agitada Londres e ficarmos um bom tempo na litorânea Hampton. Como sempre, eu e Brian fizemos as malas juntos, e discutimos um pouco quando quis colocar agasalhos a mais nas malas das crianças.

—Chrissie, nós vamos pra praia, o clima é muito mais quente do que frio — ele comentou quando pus os casacos com as outras roupas.

—Eu sempre fiz isso na sua mala e você nunca reclamou — rebati, mas não fiquei brava — além disso, é melhor prevenir do que remediar. Aliás, vou por um casaco a mais na sua mala também.

—Eu sei que agora tá brincando — ele riu — mesmo se precisar, lembra que a minha mãe deve ter uns casacos meus guardados lá também.

—Tá certo — revirei os olhos, mas acabei rindo também.

Sairíamos num sábado de manhã, acordei as crianças, tomamos um café da manhã reforçado. Enquanto eu e Brian arrumávamos a bagagem no porta-malas, as crianças se ofereceram pra ajudar.

—Não precisa, meus anjos, isso aqui tá meio pesado pra vocês carregarem — Brian explicou a eles.

—Ah, mas pai, posso ver uma coisa na minha mala? — Jimmy pediu e estranhei a pergunta.

—Pode, Jimmy — Brian deixou, mas também estava confuso.

—Quero ver se não tá faltando nada — meu menininho explicou ao perceber nosso espanto.

—Ah Jimmy, sua mãe já checou sua mala três vezes, acho que não precisa — Brian disse, dando um sorriso que queria se transformar numa risada.

—Mesmo assim — insistiu nosso filho — preciso ter certeza.

—Tá bom — seu pai cedeu rindo de vez, pegando a mala de Jimmy, o deixando abrir e verificar o que queria.

—O que é tão engraçado, sr. Brian? — eu cruzei os braços, já tendo uma noção do motivo da graça.

—Jimmy é definitivamente seu filho — ele assentiu, fazendo uma cara de sério com um quê de deboche.

—É, eu sei, agora para de ser bobo — dei um tapinha de leve no seu braço.

—Tudo certo, Jimmy? — Brian perguntou a ele.

—Agora sim — ele mesmo fechou a mala e o ajudei a colocá-la de volta no lugar.

Louisa e Jimmy se sentaram no banco de trás, enquanto eu e Brian fomos dar uma última olhada na casa. Mais cedo naquele dia, já tinha avisado a todos os nossos amigos que ficaríamos um bom tempo fora.
Olhamos todos os cômodos, até eu encontrar meu marido na sala em que guardava seus instrumentos. De repente, todo seu bom humor de agora pouco tinha sumido.

—Não dá pra eu me despedir direito, mesmo que seja só por um tempo — ele me explicou, quando notou minha presença.

—Eu sei, nem é possível — entendi o que ele estava sentindo — música faz parte de quem você é, sempre fez, e mesmo com tudo isso, não deixa de fazer.

—É, é — Brian assentiu, me dando um sorriso melancólico.

Esperei um pouco em silêncio, vendo o que ele faria. Seu olhar pousou na sua querida Red Special, seus dedos encostando de leve nela.

—Quer levá-la? — perguntei, baixinho.

—Até que eu quero, mas não acho que seja apropriado — Brian respondeu, ainda pensativo — talvez, só dessa vez, é melhor ela ficar. Até mais, velha dama. Vamos indo, Chrissie, as crianças vão ficar impacientes.

—Ok- beijei sua bochecha e segurei sua mão.

Eu sabia que a saudade dos tempos em que a banda estava unida bateu em Brian naquele momento. Era uma coisa que ainda nos afetava, mas depois que trancamos tudo e pegamos a estrada, Brian se concentrou em aproveitar a viagem com a nossa família.