Pelo Olhar de Chrissie
92 Um tempo em Hampton
Paramos um pouco na estrada para comer, com Brian e eu tomando os devidos cuidados e discrições para não chamar muita atenção. Concordamos em não trazer nenhum segurança conosco, já que era uma viagem em família e principalmente, queríamos que as crianças vissem a viagem dessa forma.
Com as energias levemente recuperadas, continuamos nossa jornada, até chegarmos na entrada de Hampton bem ao pôr do sol. Dei uma olhada rápida atrás, já que as crianças estavam quietinhas demais, e como suspeitava, Jimmy e Louisa estavam dormindo profundamente. Brian dirigiu mais uns 15 minutos e, pro meu alívio, avistei a casa dos meus sogros, dando um sorriso, animada e contente por estar ali.
Meu marido estacionou o carro e então descemos, abrindo as portas de trás pra pegar as crianças.
—Pega a Lou que eu pego o Jimmy — instruiu Bri, sendo um cavalheiro, já que nosso filho era mais pesado que nossa filha.
Ajeitamos as crianças no nosso colo e Jimmy despertou aos poucos, já Louisa continuava dormindo. Depois de dar um suspiro, Brian tocou a campainha, esperando com um pouco de ansiedade.
—Brian! — a sra. Ruth deu um abraço no filho — e oi Jimmy! A viagem te cansou, meu menino? E é claro, minhas meninas favoritas! Chrissie, põe a Lou lá no quarto do Brian, já ajeitei tudo pra vocês.
—Ah sim, obrigada — assenti e fiz como ela me pediu.
Logo estava de volta à sala, onde encontrei meu sogro conversando animadamente com Jimmy. Meu menino era uma das raras pessoas que conseguia tirar o jeito sério e bravo do avô por um momento.
—Imagino que a Louisa está descansando — disse Sir Harold estendendo uma mão pra mim — como foi a viagem, Chrissie?
—Tranquila, bem tranquila de verdade — respondi e um tempo depois, enquanto Brian e o pai conversavam, ajudei minha sogra com o jantar.
Antes que eu chamasse, Louisa apareceu na cozinha, ainda com uma carinha de sono.
—Quero um doce, mamãe! — ela pediu com jeitinho, mas estava bem treinada para resistir.
—Não, nada disso — eu a peguei no colo, o que a fez rir — jantar primeiro, depois pensamos na sobremesa.
—Ah, mas eu queria agora... — ela insistiu mais um pouco.
—Mas vai ter que esperar — toquei o nariz dela, mas Lou ainda estava inconformada — se você comer tudo, mamãe promete que faz pão de ló, e deixa você raspar a tigela do recheio.
—Só eu sozinha? — Louisa se empolgou outra vez.
—Não, tem que dar um pouquinho pro Jimmy e pro papai — apresentei as condições.
—Tá bom — ela concordou enfim, beijei sua bochecha e a ajeitei pra se sentar.
Logo toda família se juntou a nós para jantar. Meus sogros falaram muito mais que nós, o que por um lado foi bom, porque não tínhamos que dar alguns detalhes tristes do motivo da nossa visita. Assim que terminamos, não demorei pra começar a fazer meu famoso pão de ló, que com o tempo e, segundo a opinião de todos que comiam, ficou tão bom quanto o da minha mãe.
—Chrissie, descansa um pouco, não parou um segundo desde que chegou — Sir Harold ficou preocupado com uma inquietação.
—Não, eu não me importo, eu quero cozinhar agora, e eu preciso, se não a Lou não me dá sossego — respondi de bom humor e os três sr. May sorriram pra mim.
Lou ficou com a vovó Ruth, me deixando à vontade enquanto eu cozinhava. Senti Brian chegando quase em silêncio, o som dos seus passos eram baixos, mas eu os conhecia muito bem.
—Oi, Bri — me virei rápido pra ele, e logo voltei ao trabalho — veio aqui pra roubar um pouco de recheio?
—Não, mas eu não recuso se quiser me dar um pouco — ele entrou na brincadeira, estava mais cansado do que triste.
—Esse é o recheio mais disputado que eu já vi — disse, um tanto impressionada, rindo — vai ter que dividir com as crianças.
—Pode deixar, prometo — ele se comprometeu — desculpa ficar te atrapalhando, só queria te agradecer, eu... é bom lembrar dessa outra parte da minha vida, às vezes eu acho que esqueço um pouco disso.
—Não, você não esquece — tive que parar, automaticamente acariciando o rosto de Brian — você é um excelente filho, um pai maravilhoso e um marido amoroso. E não está me atrapalhando!
Eu beijei sua bochecha, dando ênfase no que disse, e ele sorriu de volta, sentando na mesa pra me observar trabalhando, perdido num mundo em que só eu existia, me fazendo me sentir sem graça e amada ao mesmo tempo.
Quando terminei e avisei Louisa que a tigela de recheio era toda dela, ela veio rápida como um raio, mas deixou que seu pai e seu irmão lambessem o recheio com ela.
Na hora de dormir, deixamos as crianças dividirem a velha cama de Brian. Ao colocá-los pra dormir, achei adorável nossas crianças dormirem justo na cama que o pai deles dormia na idade deles. Eu e Brian dormimos num colchão no chão, podia até parecer desconfortável, mas quando senti seus braços ao meu redor, tinha certeza de que ali era o melhor lugar do mundo.
Assim, foi nosso primeiro dia das férias em Hampton, e muitos mais vieram, até chegar o dia perfeito para irmos à praia. Decidimos ir na noite anterior, o que deixou Jimmy super empolgado e Louisa curiosa. Ela era muito bebê quando foi a primeira vez.
Então, antes que um de nós acordasse, ouvi alguém me chamando.
—Mãe... — sussurrou Jimmy, não querendo acordar o pai ou a irmã, mas com certeza querendo me acordar.
—Oi, Jimmy... — murmurei, ainda com sono.
—Nós vamos mesmo pra praia, né? — meu filho quis confirmar.
—Aham... — respondi com um bocejo.
Não era uma resposta muito grande, mas consegui convencê-lo, já que ele ficou quietinho, esperando toda família acordar.
E depois do café da manhã, lá fomos nós à praia. Jimmy quis ir correndo até o mar, e até correu um pouco, mas virou pra trás pra ver como Louisa estava. Minha menininha era sempre muito corajosa, mas aquela imensidão azul e bela a intimidou um pouco. Ela segurou ainda mais no pescoço de Brian, já que estava no colo dele o tempo todo.
—Você não vem, Lou? — Jimmy veio chamá-la.
—Papai e mamãe tem que vir junto — foi a condição que Louisa pediu, numa vozinha baixa.
—Está tudo bem, Lou, nós vamos, mas deixa o Jimmy segurar sua mão? — Brian sugeriu a ela.
—Ok — ela aceitou e deixou o pai a colocar no chão.
Nosso filho logo pegou a mão da irmãzinha, e juntos, caminharam até a beira do mar, deixando as ondas molharem seus pés. Brian e eu sentamos na areia, os observando. Lou então perdeu o medo e até arriscou jogar um pouco de água no irmão. Nós rimos por ver nossos filhos tão descontraídos, se divertindo.
De repente, eles quiseram nos incluir na brincadeira, Lou jogou um punhado de areia em Brian, que pensou em se vingar pela cara dele, mas não fez isso. Ele fez algo pior, trocou um olhar cúmplice com Jimmy, que jogou areia bem na minha cabeça.
—Ei! O meu menininho não é assim — fiquei indignada, mas ri e corri atrás dele.
Jimmy acabou escapulindo de mim, mas eu aproveitei que Brian ainda estava sentado, senão, não teria como eu também jogar areia molhada na cabeça dele.
—Ah não, Chrissie! — ele reclamou — você vai ter que lavar e pentear meu cabelo depois.
—Não tem problema, eu amo fazer isso — disse num tom de provocação, bem na cara dele.
Brian aproveitou que eu estava muito perto dele e me beijou.
—Aqui não! — Louisa reclamou perto de nós.
—Certo, certo, Lou — Brian acabou concordando com ela.
Pra tirar toda aquela areia da cabeça, só nos restou dar um mergulho, nos revezemos olhando as crianças quando fomos pra mais fundo, um de cada vez.
No resto da tarde acabamos fazendo um castelo, catando conchinhas, observando gaivotas, e um pouco antes de irmos embora, perto do pôr do sol, Brian se ausentou por um momento.
Não havia sinal de tristeza nele, só uma empolgação, bem como quando ele tinha uma ideia. Ele voltou um tempo depois, trazendo consigo uma caderneta minha, que eu costumava deixar no carro. Ele se sentou quietinho, ainda perto de nós, mas concentrado. Deixei que ele ficasse a sós no seu momento de criação, fazer uma música novamente era um bom sinal.
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