Pelo Caminho
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.” — Fernando Pessoa.
Nunca pensei que escutaria essa frase na frequência que eu escutei naquele dia. Eram tantas pessoas espalhadas no ambiente, forçando riso, escondendo o desespero, a vergonha, escondendo o medo... Aquilo estava me enjoando. No começo achei tudo uma bobagem, mas a minha curiosidade para conhecer, estar ali, era muito maior, e eu como uma boa fugida de meus pais, aceitei a proposta da escola de trabalhar por um dia numa instituição de câncer de São Paulo. E afinal, ganharia pontos extras na escola.
-Não entendo o porquê disso. Estão praticamente nos obrigando a vir aqui. Não me sinto nada a vontade. –Camila tagarelava sem parar durante o caminho da escola até o instituto. –Eles querem nos mostrar como somos privilegiados por estarmos vivos ou algo assim?
-Talvez. Agora pelo amor de Deus, cala a boca. –Bruno, meu namorado deu um basta nas palavras muitas vezes irritantes da minha melhor amiga.
-Ok, ok. Só estou dizendo. Esse projeto social tem que valer a pena. Estar num lugar assim é o maior baixo astral. –Ela retrucou.
-Estar no lugar deles que é o baixo astral. E adivinha? Eles não estão nem ai. –Quebrei o silencio e me levantei para sair da van, eu estava realmente ansiosa por aquilo.
-Ei, Bia. –Bruno me chamou. –Acho melhor andar comigo, você nunca viu algo do tipo, pode se desestabilizar.
-Minhas crises já passaram. –Retruco. –Eu vou ir sozinha, mas obrigada.
Há cerca de um ano sofri um grave acidente de carro, que me deixou bastante perturbada. Minha família estava comigo, ao contrario do que se pensa quando conto essa historia, saímos todos vivos. Mas os outros do outro carro não. Entrei numa profunda depressão depois disso e das questões familiares envolvidas, Bruno foi meio que um grande amigo na época, desde então estamos namorando. Mas ainda o vejo como um amigo, só não sei como contar ainda. Eu entendo que ele tem medo que se eu ver as pessoas nas situações em que estão –abatidas pelo câncer- eu possa a voltar a me deprimir ou algo assim. Mas essa situação me dá força, me faz querer viver ainda mais.
Ao passar pela porta deixei o celular no silencioso, e tudo que eu me deparei foram paredes brancas e azuis claras, um ambiente bem clean para um lugar com um ambiente tão pesado. Havia muitas famílias na sala de espera, alguns com lagrimas nos olhos quando nos viram chegando repleto de balões, mensagens de apoio ou coisa do tipo. Mal sabem que a maioria esta aqui pelos pontos extras. Algumas pessoas com turbantes passam por nós em sentido a porta de saída, todas muito abatidas, umas forçavam um sorriso e outras só nos lançavam um olhar, calmo e triste. Meu estomago revirou.
-Atenção alunos. –A diretora começou. –Hoje estamos aqui para dar apoio a essas pessoas que tanto precisam de uma mãozinha. Já tivemos muitas aulas e oficinas a respeito do câncer e sabemos como eles mudam a vida da pessoa que possui a doença e da família do paciente. Hoje quero que testem todos os seus conhecimento. Mas não a respeito da doença, isso não é uma prova. Quero que testem seus conhecimentos a respeito da solidariedade. Hoje faremos desse dia o mais importante para eles, daremos a eles um dia para sorrir.
Uma frase um tanto irônica. Mas incentivadora para alguns. “daremos a eles um dia para sorrir”. Cara, eles são humanos, eles vão sorrir. Eles sorriem. Muitos estão achando que apenas hoje eles vão sorrir, vão rir com todas as piadas sem graça. Eles acham que pessoas com câncer são algum tipo de ser extraterrestre que não possui os mesmos hábitos que pessoas saudáveis. Que irritante. Eles são humanos. Danificados, mas humanos.
-Vem comigo. Não quero ficar sozinha. –Camila cochichou em meu ouvido e eu concordei. Uma medica começou a falar sobre todo o cuidado que seria necessário de como teríamos que ser com a questão da higiene e como não deveríamos insistir caso algum deles não quisesse conversar.
Atravessamos o saguão e chegamos aos vestiários, todos naquele mesmo tom pastel de azul e branco, com alguns detalhes marrons e umas frases incentivadoras escritas nas paredes. Guardei minha mochila no armário e coloquei o jaleco que era mil vezes o meio tamanho. No caminho para a área de recreação me certifiquei de ter passado álcool em gel suficiente em minhas mãos. Não queria deixar nenhum germe meu ali pra ferrar com a vida de outros e eu ser a culpada por suas mortes. A ideia me aterrorizava.
-Para com isso. Está me irritando. Já esta limpa o suficiente. –Camila esbravejou enquanto entravamos na sala. Meu corpo foi tomado por um baque. Pareceu que o mundo estava bem em cima de um ombro enquanto a morte estava do outro. Eu me aterrorizei. Fiquei parada na porta, decidindo o que fazer, pra onde olhar. Todos estavam com a cabeça raspada, uma minoria estava com algum cabelo ainda. Todos muito abatidos, todos muito serenos. Segui Camila até uma mulher que estava em uma cadeira de rodas.
-Oi! Será que podemos ficar aqui? –Camila começou enquanto eu travei.
-Claro. –Ela deu um sorriso amarelo, aparentemente era contra.
-Bem, você sabe por que estamos aqui não sabe? -Camila começou. –Podíamos fazer algumas perguntas? Claro se não for incomodo.
-Podem sim. –Ela relaxou na cadeira. Deveríamos nos divertir com eles, não fazer um questionário ridículo.
-Como se chama?
-Amélia Flory.
-Idade?
-32.
-Qual a sua... Doença?
-Tive inicialmente câncer de mama. –Ela franziu o cenho. –Mas agora infelizmente ele se espalhou para meu intestino e pulmões.
Meu estomago revirou na mesma hora. Assim como Camila se calou.
-Não fique tão assustada. Eu estou bem! –A morena sorriu. –Amanhã volto para a casa. Viver meus últimos dias com minha família. É importante pra mim. Me deram três meses, tenho que aproveitar.
Camila sorriu amarelo. Enquanto eu só queria chorar e abraçar aquela mulher. Ela era, é tão corajosa, e eu aqui sendo covarde. Camila anotava tudo com muita atenção. A família dela era do tipo filantropa vivia fazendo programas considerados humanitários durante o ano. E visitar esse hospital entre outros de câncer, era um dos programas dele.
Conforme Amélia foi falando a respeito de sua vida, e de como detectou seu primeiro tumor, me senti grata por estar viva. Como supostamente eu havia falado que não me sentiria. Mas ai a historia foi piorando, ela contou do namorado que a largou dos amigos que nunca a visitaram e eu quis correr. Correr para esses malditos e espanca-los. Como eles puderam deixa-la?
A cada frase era uma lagrima minha que queria saltar para fora dos olhos. Era um grito que eu queria dar. Foi ai que ela contou da hereditariedade maligna. Que seu irmão havia morrido de câncer, e de como sues pais choravam por ver o irmão partir e agora ver ela no mesmo estado. Foi meu basta. Educadamente pedi licença e caminhei para o jardim. Minha respiração estava ofegante e eu queria gritar. Minhas lagrimas escorriam pelo meu rosto. E me repreendi algumas vezes por não ter escutado meus pais. “Beatriz, o clima é pesado, não deveria ir”. Retirei minha bomba respiratória do bolso do jaleco e respirei nela algumas vezes. Até que eu conseguisse voltar ao normal. Sentei-me no chão de pedra e encarei o céu, agradecendo por não estar naquela situação e agradecendo por meus pais não terem que passar por isso.
Foi quando eu o observei ali. Naquele calor que fazia em São Paulo ele vestia uma calça de moletom, um blusão da universidade e uma touca. Ele também estava numa cadeira de rodas e me observava com um certo riso no rosto.
-O que foi? –Esbravejei. –Nunca viu ninguém chorar?
-Nunca viu ninguém com câncer? –Ele retrucou com a voz grave e continuou a dar risada. Fiquei sem resposta. Virei o rosto. –Supostamente você não deveria me ignorar, deveria conversar comigo e me fazer sentir bem.
-Supostamente. –Comentei e ele sorriu. Me senti bem por ter dado a ele aquele sorriso, mesmo a minha custa.
-Por que estava chorando? –Ele se aproximou não o bastante para eu poder reparar em seus olhos como eu faço de costume, mas o suficiente para eu ver sua palidez.
-Por que me desesperei. E tive uma crise. –Mostrei a bombinha e ele sorriu, apontando para o tubo respiratório em seu nariz.
-Câncer pulmonar?-Perguntei.
-Não, só acho isso um charme. –Ele disse rindo e eu me desesperei. –Estou brincando. Tenho outra espécie de câncer.
-Qual?
-Você deveria me animar.
-Nossa...
-Pedro. –Uma mulher o chamou. –Precisa ir lá para dentro. Vejo que já esta melhor. –Ela sorriu para mim. –Agora Pedro.
-Gloria, não quero participar daquele circo todo. Me leve para outro lugar.
-Você não tem muitas escolhas a não ser o seu quarto no momento. Sabe que não posso te deixar sair nesse estado. –Ela sorriu fraco.
E imediatamente lembrei-me de Amélia falando dos seus poucos meses de vida. E imaginei que ele tivesse o mesmo tempo. Imaginei como seria a vida dele sem o câncer, ou se os amigos dele haviam o abandonado também. Meu estomago revirou novamente.
-Ela pode me levar. –Ele disse me acordando os devaneios.
-Eu o que?- Espantei-me.
-Supostamente deveria me ajudar.
-Mas eu...
-Só me leve para meu quarto, por favor. Faça algo de útil em vez de ficar correndo de problemas que nem seu são. –Ele disse e eu com um sorriso falso e com as mãos tremendo me apoiei em sua cadeira de rodas.
-Ele pode ser meio difícil às vezes. –A tal da Gloria, uma senhora simpática e grisalha disse torcendo o nariz.
-Notei. –Sorri amarelo e comecei a caminhar com ele pelo pátio, rumo aos dormitórios.
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