Pelo Caminho
2 Capítulo 2
Notas iniciais
–Então, aqui chegamos. –Digo a ele quando paramos em frente a uma porta branca com o número 1987 na porta e um quadro escrito Pedro Stortti
Com letra cursiva logo em baixo.
–Obrigado. –Ele agradece enquanto abro a porta para ele entrar com a cadeira de rodas.
–Bem, você quer ajuda para se deitar? –Ofereço numa tentativa de fazer o que supostamente eu deveria estar fazendo.
–Mas que diabos vocês pessoas consideradas normais tem? Eu tenho câncer, mas não estou morto! –Ele diz. –Hipoteticamente estou, mas ainda não. –Ele sorri. Como alguém brinca com algo assim? Cristo!
–Ok. –Digo e me encosto-me a uma parede. Enquanto ele se apoia na prateleira ao lado da cama, eu observo seu quarto. É um azul pastel. A cama alta e reclinável esta no meio do quarto. Ao lado dela há algumas prateleiras. Em uma lateral abaixo da grande janela tem um sofá cinza. Na outra parede na frente da cama tem uma televisão suspensa e um vídeo game. Demoro para reparar nos retratos na estante abaixo da televisão. São fotos dele. Me aproximo mais e pego um porta retrato nas mãos.
–Larga isso. –Ele diz rispidamente e eu me viro.
–Quem são?-Pergunto me referindo a um grupo de amigos que estão na foto com ele.
–Não é da sua conta.
–Sabe que eu não posso voltar de mãos vazias para a escola não sabe? Preciso de uma historia.
–Sinto muito. Não ajudarei. –Ele sorri e inclina a cama, esticando as pernas. Bem, pelo menos as pernas dele se mexem.
Coloco o porta retrato no lugar e me viro para ele, pelo jeito terei mesmo que procurar outra historia depressiva para ouvir. É quando vejo um monte de cartas dentro de uma caixa, todas destinadas para o hospital e com seu nome.
–Nunca pensou em reponde-las? –Pergunto apontando para a caixa.
–Garota, como você é enxerida. –Ele quase ri. –Não. Por isso estão ai. Agora vai embora, quero descansar.
–Sendo assim. –Me aproximo. –Foi um quase prazer. –Sorrio da mesma maneira cínica dele.
–Foi um prazer. –Ele sorri de volta.
Dou uma ultima olhada em seu rosto que esta relaxado. Ele tem traços fortes e serenos. A boca numa linha reta, relaxado. Os lábios de baixo um pouco maiores. Nariz fino, combinando com seu rosto. Maxilar bem traçado. Suas mãos grandes estão cheia de marcas de furos e algumas agulhas. Pela beira da touca vejo um fiapo de cabelo castanho. Assim como vejo também, traços de uma barba fina em seu maxilar. Ele abre os olhos e me pega encarando.
–Você ainda está aqui por que...?
–Desculpa. –Digo e me retiro.
Imagino como seja para ele se ver nessa situação. Ver como sua vida mudou, ver a esperança ir embora. Ver a vida e os amigos irem. Ele não parece ter ninguém. Mas se ele não tivesse ninguém, não existiriam tantas cartas dentro daquela caixa. Ele tem muitos alguéns. É ele que não quer ter ninguém.
No caminho de volta pensei no que escrever sobre meu paciente. Não conversamos sobre sua vida, ele basicamente riu da minha cara e me fez leva-lo até o quarto e barrar qualquer tipo de contato que eu tentei ter. Típico talvez.
Entrei no salão e me deparei com Camila aos prantos, decidi não me aproximar. Fui para a ala medica, queria tentar entender um pouco mais a respeito de diagnósticos e coisas do tipo. Um trabalho cientifico deveria valer mais que o humanitário, ou não.
–Posso ajudar? –Um homem alto me recebe.
–Hm, posso dar uma olhada aqui? –pergunto sem jeito.
–Claro, fique a vontade. Só não mexa em nada! Qualquer coisa é só me chamar. –Ele sorri.
Começo a ver uns equipamentos. São tão modernos. Contem tantos números, tantos códigos. É bem complexo.
–Perdida?- Ele pergunta.
–na verdade não sei o que estou fazendo. –Confesso — Deveria estar fazendo alguém sorrir ou algo assim, mas simplesmente não consegui.
–O pessoal pode ser meio difícil às vezes. –Ele sorri sem jeito. Coçando a barba.
–Eu que o diga. O cara que eu tentei ajudar basicamente riu da minha cara e me explorou para leva-lo até o quarto. –resmunguei.
–Pedro? Adivinhei? –Ele sorria sem jeito.
–Sim, acho que era isso. Como sabe? –Pergunto curiosa enquanto ele me oferece um copo d’agua.
–É meu filho. –Ele diz e eu cuspo a água de volta no copo.
–Oi?
–É. –Ele sorri.
–Com licença. Doutor, emergência no quarto 1001. –Uma mulher passa por nos, ele sorri, acena e vai embora.
O tal doutor simpático tem um filho carrancudo e com câncer. Cara não pode ser. Sorrio pensando na ironia de tudo aquilo. Mas não descarto o tópico de que como essa situação é triste.
Caminho de volta para o saguão. São 11 horas ainda. Sairemos daqui às 17h. Vejamos onde mais eu posso explorar. Decido ir para a área de reabilitação. Péssima ideia.
O corredor cheira a desinfetante. E diversas pessoas totalmente pálidas passam por mim. Eu me assusto com facilidade e decido sair. Acabo entrando em outra área, a área infantil. Meu coração aperta ao ver algumas crianças brincando com seus respectivos enfermeiros e pais. Corro para fora. Estou de volta ao jardim, aos prantos usando minha bomba de ar. Olho para o céu pedindo pela vida dessas pessoas.
Achei que seria mais fácil. Minha mente é bastante aberta, assim como meu coração. Mas aquilo ali estava me consumindo. Talvez tenha haver com ser à primeira vez que eu pise em um lugar assim.
–Beatriz? –Bruno me chama.
–Eu estou bem. –Já disparo antes que ele faça um auê a toa.
–Vamos embora. –Ele diz passando seu braço pela cintura.
–Que saco Bruno, eu estou bem. — Digo enxugando as lagrimas.
–Não. Não está. Vamos.
–Para de me dizer o que fazer. –Digo e ando para o lado oposto ao dele.
–Outra crise? –procuro alguém, mas só o que tem é... Mato. – Aqui em cima. –Olho para a janela e lá está Pedro, sorrindo as minhas custas.
–Acho melhor eu ir. –Digo.
–Pode me fazer companhia enquanto não vai embora. –Ele sorri sem jeito enquanto coça sua cabeça por cima da touca.
–Posso?
–Mas sem perguntas.
–Ok. –Digo sorrindo e correndo em direção as escadas.
–O que te fez mudar de ideia? Pergunto assim que entro no quarto.
–Sua solidão naquele jardim. –Ele sorri.
–Bem, já que não posso fazer perguntas o que faremos?
–Você eu não sei. Eu vou dormir.
–Como assim?
–Te chamei sendo piedoso e dar um refugio a você agora fica quieta. –Ele diz e coloca os fones arrumando o travesseiro. Inacreditável.
–O que esta escutando? –Pergunto me sentando no sofá, mas ele não me responde. Decido não conter minha curiosidade e retirar um fone seu. Ele me olha assustado enquanto eu o levo a meu ouvido.
–The Script? Tá brincado que VOCÊ escuta?
–Eu escuto sim. Algum problema?
–Você é homem!
–Bela observação. –Ele ri.
–Como assim!- Pareço chocada.
–Qual o problema com o fato de eu ser homem e curtir The Script?
–Meu namorado odeia. Os amigos dele também.
–É uma boa banda.
–É uma ótima banda! –Meu coração de fã acelera.
–Ah, sem faniquito vai. Devolve meu fone. –Ele diz pegando da minha orelha.
–Ligo seu vídeo game e me sento na ponta de sua cama para jogar.
–Qual é você é péssima. –Ele debocha. –Me passa esse controle.
–Agora quer travar um dialogo? –Pergunto rindo.
–Fica quieta e me deixar jogar.
–Pede, por favor. –Seguro o controle nas mãos.
–Garota chata. Me dá.
–Menino mimado. Não.
–Insuportável. –Ele diz colocando o travesseiro sobre a cabeça e eu começo a rir.
–Toma. –Me aproximo dele e entrego o controle. Ele logo começa o jogo, e joga uns xingamentos quando perde.
–Eu disse que era melhor que você. –Ele debocha.
–Você perdeu!
–mas fiz mais pontos.
–Vá se ferrar. –Digo sorrindo.
Uma enfermeira entra no quarto e se surpreende com a minha visita.
–Não sabia que tinha visitas Pedro. –Ela diz sorrindo enquanto coloca um café com bolachas e Danone em cima da mesa lateral. –Pode comer também querida.
–Obrigada. –Agradeço.
–Ela vai descer com os amigos dela. –Ele diz.
–Ainda não. –Sorrio.
–Vai sim.
–Deixa ela ficar Pedro. –A mulher diz sorrindo e sai do quarto.
–Então senhorita... –Ele aperta a visão para enxergar o nome em meu jaleco. – Senhorita Párvéau? –Ele tenta acertar meu sobrenome, mas eu reviro os olhos.
–Se diz Parvô. –Reviro os olhos.
–E você é um pavor mesmo. –Ele gargalha com a piadinha ridícula.
–Engraçado você.
–Pega um Danone e cala a boca. –Ele diz estendo um Danone.
Ele até que era educado. Ele conseguiu quebrar todo aquele clima que eu estava. Mas ele conseguiu deixar a oração em meus lábios pedindo para que ele vivesse para sempre.
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