Pdv do Izzy

O cara novo era um alemão estranho, parecia um espaguete cru. Seu cabelo era muito loiro, mas dava para ver a raiz marrom, que era a cor natural do cabelo dele. Ele era estiloso, não bonito. Definitivamente, era feio que dói! Seu nariz era muito grande e seus olhos, de um azul calmo, eram pequenos demais para seu rosto. Ele tinha uma pinta estranha na linha do maxilar e seus lábios eram finos e grandes. Ele usava uma camisa social branca, um coturno de couro preto sujo e desgastado e uma calça jeans boca-de-sino rasgada nos joelhos. O punk alemão era bem diferente do punk inglês. Eu tentei falar com ele no intervalo.

–Oi. – eu me aproximei dele, que estava sentado no chão de concreto, sozinho – Por que você tá sozinho? Não quer se sentar com a gente?

Ele sorriu e balançou a cabeça positivamente, se levantando. Eu o levei até o banco onde eu e Axl estávamos sentados.

–Eu sou Jeffrey, mas você pode me chamar de Izzy. – eu disse – Esse é o William, mas todo mundo chama ele de Axl.

–Ooooooi. – Axl disse, rindo – Você não fala, loirinho?

–Ah, eu... Eu me chamo Christian, mas podem me chamar de Flake. – ele disse em voz baixa.

–Flocka? – Axl disse.

–Não, Flake. – Flake pronunciou corretamente.

–Fla-kuh? – eu tentei pronunciar.

–É, quase. – ele riu e levantou os ombros – Izzy e Axl... Beleza. Do que vocês gostam?

–Como assim? – eu ri.

–De música.

–A gente gosta de Zeppelin. E você?

–Eu gosto de Ramones, Sex Pistols. Mas Zeppelin é uma ótima banda. – ele passou uma mão por seu cabelo. Achei aquele movimento quase charmoso.

–Então você é mesmo punk? – tentei puxar assunto. Ele riu envergonhado.

–Acho que sim. Mas eu não pareço um. Eu descolori o cabelo antes de vir para cá, porque minha Mutter nunca ia me deixar fazer uma coisa dessas, ou fazer um piercing... – ele parou de falar abruptamente. Eu estranhei, mas decidi deixar quieto. Ele não parecia confortável em falar daquelas coisas também.

–Mas você é estiloso, Flake. – Axl disse, pronunciando o nome como “Flocka” de novo. Eu ri.

Danke. – Flake disse timidamente – Você... Vocês também são.

Sorri e passei meu braço sobre os ombros dele. Ele não se mexeu ou reclamou. Apenas tentou engolir um sorriso e corou de vergonha.

–Você devia se abrir mais. Você parece um cara legal. – eu disse – Como era sua vida em... De onde você veio mesmo?

–Berlim, Alemanha Oriental. Bem, as coisas lá eram... – ele hesitou – Ah, as coisas lá oscilavam. Era um lugar bonitinho, com casinhas bonitinhas. O povo de lá é quieto, também. Nada acontecia lá, mas quando acontecia... – ele parou de falar a mordeu os lábios.

Me arrependi profundamente de ter tocado no assunto. Eu estava morrendo de curiosidade e de vergonha. Tirei o braço dos ombros dele.

–Me desculpa, Flake. Se você não quiser falar no assunto eu vou entender.

–É melhor não reviver certas coisas... – ele sussurrou com os dentes cerrados.

–Quer vir em casa hoje? – Axl disse e seus olhos verdes faiscantes pousaram em mim – O Izzy também vai.

–Ok. – ele disse, sorrindo – Só tenho que avisar a Beth.

–Beth?

–É a fräulein que concordou em me deixar ficar na casa dela.

–Achei que você estava aqui com seus pais...

–Ah, eu só estou aqui para estudar. Meus pais estão em Berlim. Eles querem que eu vire médico... Mas eu não sei se eu quero isso... – ele sorriu envergonhado.

–E o que você quer?

–Eu queria ser músico.

–Você toca?! – eu exclamei – Toca o que?!

–Teclado.

–Ah, eu toco guitarra, o Axl canta. A gente podia formar uma banda!

–Tudo bem... – Flake sorriu.

Quando o intervalo acabou, nós três fomos para a classe juntos.

–Aula de religião agora. – Axl resmungou – Uma beleza... Você acredita em Deus, Flake?

–Não muito... – Flake disse, se jogando em sua carteira.

–Nem eu. O que você tá lendo? – Axl se inclinou para perto de Flake.

–Goethe... – os olhos de Flake foram parar no livro. De repente, ele arrancou o livro de cima da mesa e gemeu tristemente – Ach!

Sua mesa estava toda rabiscada com suásticas tortas. Ele suspirou e balançou a cabeça negativamente. Me aproximei dele e pousei a mão em seu ombro.

–Não fica triste, eles só estão querendo te provocar porque você é novo. – eu disse, tentando sorrir.

–Eu já imaginava que seria assim. Sabe, as pessoas lá em Berlim não gostam muito disso daí. Eu não gosto, pelo menos.

–Isso vai parar...

–Nazista! – alguém gritou e eu vi uma bola de papel aterrissar na cara do Flake. Ele se levantou enfurecido e avançou no cara.

Hast du ein Problem, Arschloch? – ele grunhiu.

–Pára de falar essa língua de nazista! – o menino, duas vezes maior do que o Flake, o empurrou.

–Você vai mesmo mexer com ele?! – Axl se meteu no meio da briga, ficando entre Flake e o cara.

–Axl! – eu tentei afastá-lo, mas ele me empurrou e deu um soco na cara do menino. Axl era magrelo, mas não era nem um pouco fraco. Ele voou em cima do cara e começou a surrá-lo de um jeito inacreditável. Uma coisa que eu admirava era que Axl sempre ia ficar ao lado de seus amigos, mesmo Flake, quem ele conhecia há duas horas apenas.

Flake começou a chutar as costelas do menino, caído no chão, com suas botas Dr Martens. De alguma maneira, o cara conseguiu agarrar a perna do Flake e trazê-lo para o chão. Agarrou a gola de sua camisa de flanela e deu alguns socos no rosto dele, que começou a gritar de dor. Eu estava em choque, mas meti um chute na nuca do cara, que caiu desacordado em cima de Flake. Eu e Axl o tiramos de cima dele, que se levantou, cambaleando.

–Você tá bem? – eu perguntei, segurando-o para que ele recuperasse o equilíbrio. A quantidade de sangue que saia de seu nariz e boca era alarmante.

–Claro... – Flake disse, cuspindo um pouco de sangue no chão – Alles gut, Axl?

–É... – Axl disse, sem entender o que Flake falou – Vamos pro banheiro te limpar...

Verdammt nochmal... – ele sussurrou, cuspindo mais sangue – Acho que quebrei o nariz. Aliás, belo chute, Izzy.

–Não foi nada... – eu sorri.

–Me deixa ver isso. – Axl se colocou na frente do Flake e segurou seu rosto. Ficou observando o nariz de Flake no meio do sangue escuro – Você consegue respirar pelo nariz?

Flake tentou e fez uma careta de dor.

Nein. – ele disse, se inclinando sobre a pia para fazer o sangue cair nela.

–Vamos pro hospital. – Axl puxou cuidadosamente o cabelo de Flake para trás.

–Es gibt zu viel Blut... – Flake disse, jogando água no rosto. Só aí eu notei o quanto o rosto dele estava pálido.

–Flake, você não tá bem. Vamos... – eu disse, segurando o braço dele.

–A Beth vai me matar. – ele cobriu o nariz com a mão.

Nós o levamos para um pronto-socorro perto da escola. Tivemos que esperar por bastante tempo para sermos atendidos.

–Tá doendo isso? – eu perguntei. Flake estava com a cabeça encostada no meu ombro e tinha os olhos fechados.

–Só doeu na hora do soco. Depois não dói tanto. Meu nariz já era feio, não vai fazer tanta diferença. – ele riu e eu também.

Depois de um tempo, Flake foi atendido e saiu de lá com o nariz enfaixado. Axl explodiu em risos.

–Não é engraçado! – Flake disse, com sua voz totalmente nasalizada.

–É sim, mano! – Axl disse, rindo muito. Eu não agüentei, tive que rir também – Bem... Acho que a gente não vai mais para minha casa. Você precisa descansar...

–Tem razão. – Flake disse, tristemente – Mas amanhã eu vou, prometo. Agora eu tenho que ir. Ainda não sei como eu vou explicar o nariz quebrado para Beth. – ele sorriu.

–Ok. Eu e o Axl vamos indo. Tchau, Flake! – eu o abracei

Tschüss! – ele disse, sorrindo.

Eu e Axl tomamos rumo para casa.

–Acho que eu vou ter que aprender alemão. – Axl disse, enquanto andávamos – O inglês desse cara é horrível! – ele riu.

–Pára, Axl! – eu disse, rindo e empurrando-o de leve – Não é tão ruim e ele ainda está aprendendo!

–É horrível mesmo assim. – Axl riu – Mas ele é um cara legal.

–Ele é fofo. – me arrependi quase instantaneamente do que eu disse. Axl parou de andar e me olhou com sua melhor cara de “WTF?”.

–Que gay... – ele disse.

–E aí? Qual é o problema em ser gay? – eu cruzei os braços. Claro que eu não era gay, nunca tinha beijado um homem. E mesmo se eu tivesse, isso não me faria gay.

–Nenhum problema. – Axl corou, não sei se foi de raiva ou vergonha – É que... Eu não consigo ver vocês dois juntos.

–Você tá com ciúmes. – eu o provoquei, sorrindo malignamente.

–Não estou! – ele me deu um soco no ombro. Eu ri.

–Me beija então.

Axl ficou ainda mais vermelho.

–Não! Não vou fazer isso! Eu não tenho que provar nada pra você!

–É gay demais pra você, Bill?

Eu consegui sentir o ódio queimando nos olhos verdes dele. Ele agarrou minha camisa e me beijou furiosamente nos lábios. O beijo não durou nem cinco segundos, era só um selinho. Axl me soltou e cruzou os braços.

–Te vejo amanhã, Isbell. – ele apressou o passo para chegar em sua casa.

Eu ri, tomando caminho para a minha. É, aquilo tinha sido só uma desculpa. Eu realmente sentia algo por ele além de amizade.



Notas finais
Reviews?
GLOSSARIO:
Mutter - mãe
Fräulein - moça
Ach - Ah
Hast du ein Problem, Arschloch? - Você tem problema, imbecil?
Alles gut - tudo bem
Verdammt nochmal - maldição
Danke - obrigado
Nein - não
Es gibt zu viel Blut - Tem muito sangue
Tschüss - tchau