Notas iniciais
olá! perdão pela demora, eu culpo totalmente os joguinhos de celular que estão me deixando viciada XD sem mais delongas, boa leitura!

b a i x a d a d a s p u l g a s

Kyra sabia que existiam duas maneiras simples de se extorquir palavras de um homem. A primeira era com muito dinheiro e boa lábia, a segunda com violência e um pouco de persuasão. Como ela nunca fora uma pessoa rica a ponto de desperdiçar dinheiro para conseguir informações e era conhecida por sempre usar o “preço do ferro”, é fácil de se imaginar a opção pela qual a Greyjoy sempre seguia.

Esse aqui é um pouco resistente, ela pensou enquanto enfiava a cabeça novamente no barril.

O homem puxou o ar com toda a força de seus pulmões quando a mão firme dela o tirou de dentro das águas escuras e fétidas. Piscou tentando adaptar a visão novamente, tentou gritar por socorro, mas não haveria ninguém naquela viela escura que o ajudaria. Não com os homens que guardavam os dois lados e ele também não poderia fugir enquanto Torben e Olyvar o seguravam pelos lados. Choramingou como uma criança de colo e Kyra se irritou, dando um tapa forte no lado da cabeça dele.

— As meninas das Ilhas são mais corajosas do que você, fracote!

Ela exclamou sabendo que não tinha a noite toda para tratar com um idiota que não dava o que ela queria. Não poderia perder tempo agora que havia chegado em Porto Real após dias seguidos velejando o mais rápido que conseguira, levando a tripulação até o limite. Tinha tido bastante sorte, utilizando todas as correntes marítimas que ela já conhecia e o vento havia sido seu amigo em todo momento. As duas tempestades na Baía do Naufrágio também foram de grande ajuda, impulsionando o Serpente Marinha pelos mares tumultuosos e trazendo todos mais rápido rumo ao Água Negra.

Sua primeira ação depois de atracar e ser livre de tarefas banais do porto fora achar respostas, um pouco de perguntas indiretas e insistência dela os levara até aquele comerciante conhecido por seus subornos e de saber mais do que muitos na parte pobre da cidade. Quem sabe não fosse ele o ponto para começar a achar a garota Targaryen que poderia mudar o rumo de sua Casa.

Ela baixou a cabeça no líquido turvo mais uma vez.

— Me diga o que quero saber! — Ordenou quando o homem se levantou já pálido e ofegante. — Diga e poderá sair daqui vivo.

— Eu… não sei… sei de nada… — O homem murmurou entre pausas para respirar e com o queixo batendo por conta do frio.

Também chovia uma torrente pela cidade desde o começo da noite, lavando as ruas sujas e limpando um pouco o cheiro forte que estava impregnado na capital. O mar estava agitado e a Fortaleza Vermelha era apenas um borrão na Colina de Aegon.

— Claro que sabe, você vem pagando para os Mantos Dourados por informações que correm pela cidade. — Os olhos dele pularam de um lado ao outro com a fala dela. — Sabe mais do que muitos e vai me dizer o que preciso.

— Os mantos… eles vão dar por minha falta… — Respondeu ainda lutando por ar.

Kyra riu levemente, se aproximando do ouvido dele.

— É uma pena que eles não estejam aqui para te ver se afogando. — Disse levando a cabeça dela para a água.

Deixou o homem por mais tempo dessa vez, levando ele ao extremo, puxando os cabelos ralos e escuros apenas quando percebeu que as mãos estavam quase parando de se debater. Ele arfou novamente a boca se debatendo e o nariz escorrendo.

— Quem sabe da próxima vez você morra afogado. — A Princesa de Ferro falou observando que aquele homem estava próximo a ceder. Ela sabia quando eles estavam próximos, já havia feito aquilo tantas vezes com fracos como ele. — Vamos ver se estou certa?

Ele gritou antes que ela pudesse levá-lo totalmente de volta à água.

— Eu falo! Eu… falo! — As falas foram abafadas pelos soluços e pelo ar puxado pelos pulmões.

Kyra soltou a cabeça dele, finalmente ouvindo o começo tão comum quando os passarinhos ficavam finalmente treinados para cantar. Acenou para seus tripulantes, pedindo que deixassem o homem cair de joelhos, o cabelo pingando a frente do rosto e os braços se segurando na terra molhada.

— Pois então?

Ele respirou fundo.

— O filho da Mão… — Murmurou quase em um sussurro e ela se envergou para ouvir melhor. — Ele voou... para Pedra... do Dragão. — A frase cortada veio com extrema dificuldade, mas ainda não foi útil para a capitã.

— Vai precisar me dar mais do que isso, eu não tenho nada o que fazer com um Targaryen numa ilha sem princesa. — Ela estalou os dedos, o que fez com que seus homens dessem um passo para frente, era um gesto apenas para provocar medo e funcionou perfeitamente quando o rico comerciante voltou a abrir o bico em desespero para não voltar ao barril.

— A lista dos nobres que estão na capital, eu sei todos!

Kyra olhou séria para o homem.

— Isso ainda não irá te salvar, eu descubro tão rápido quanto você.

O homem olhou para os dois carcereiros que estavam ainda a postos e para os outros quatro bloqueando a saída. Não havia escapatória e ele finalmente pareceu perceber isso, soltando realmente informações importantes.

— A bastarda Lannister. — Ele murmurou entredentes, a raiva estampada na face agora que o ar estava de volta ao seu corpo. — Ela tem pessoas por toda a cidade, sabe de tudo o que se passa e também está procurando pela garota.

Kyra olhou rapidamente para Torben. A coincidência era demais para ser descartada. Havia ela reencontrado a mulher que lhe havia dado a informação no começo de tudo aquilo? Não deveriam haver tantas bastardas das Terras Ocidentais que fossem filhas do Lorde.

— Ela vai saber mais do que eu!

— E onde posso achá-la?

— Na Rua da Seda, procure pelo bordel dela, todos sabem onde é.

A Greyjoy cruzou os braços, sabendo que tinha conseguido tudo o que poderia daquele homem.

Deu o sinal para seus homens, eles iriam dar um fim limpo ao comerciante e jogá-lo ao mar com pedras, para que seu corpo nunca mais fosse encontrado, já que ela nunca deixava pistas do que havia feito. Virou-se ignorando os pedidos de clemência do homem, os passarinhos das terras verdes sempre cantavam a mesma música no final.

Ela olhou para Torben que seguia ao seu lado pela viela chuvosa enquanto fechava mais seu sobretudo para se proteger dos pingos grossos.

— Tem certeza que ele não serve mais?

— Ele mesmo disse, a bastarda vai saber mais. — Os gritos do homem já não existiam mais.

— E se ela não quiser dizer nada? — Torben questionou com os olhos focados nela e em seu semblante pensativo. — Se for mesmo a mesma mulher de Lannisporto? Ela não era qualquer uma e o homem disse que tinha pessoas aqui em Porto Real.

Kyra suspirou, dando um tapa forte na nuca do bravosi.

— Pare com essas falas bobas, sou uma nascida de ferro, Filha do Kraken e irei conseguir o que preciso. — Foi o suficiente para fazê-lo se calar com uma pequena carranca. Ela sorriu logo depois, para mostrar a ele que não estava sem seu bom humor afinal. — Agora venha marido de sal, temos uma leoa para caçar.

Torben murmurou um xingamento.

n i n h o d a á g u i a

O sol estava pronto para sumir por entre os picos gelados do Vale. O tempo estava mudando desde os últimos meses e Arthur conseguia ver isso da janela de seu escritório com as cores mudando pelo mundo lá embaixo. Sabia que havia ficado tempo demais cuidando de papéis e documentos da administração de suas terras, negligenciando alguma pausa ou até mesmo sem ter ido comer algo durante as horas preso entre paredes brancas.

Se recostou na cadeira entalhada e alta, deixando os músculos das costas se aliviarem após o tempo debruçado perante papéis de letras minuciosas. Se perguntava caso o pai dele, o falecido Lorde Robert, também era tão dedicado quanto ele ao governo do Vale de Arryn. Arthur não sabia ao certo quanto a governar, porém conseguia se lembrar do fato dele gostar de caçar e foi numa dessas caças de que tanto gostava que morrera num acidente. O atual jovem lorde tinha apenas nove dias de seu nome na época e as memórias que tivera com e do pai foram se degradando com o tempo até o ponto dele não saber onde o passado e possíveis sonhos se misturavam. Ele poderia perguntar coisas para a mãe, porém a matriarca pouco gostava de tocar em tal assunto.

Ele piscou os olhos azuis-esverdeados tirando os pensamentos de seu foco, trazendo sua atenção para as batidas pacientes na porta.

Pediu que entrasse, quem quer que fosse.

Dois pares de olhos azulados parecidos com os dele apareceram com a cabeça que se colocou para dentro.

— Você pode entrar Brynden. — Arthur falou com um verdadeiro sorriso na face por ver seu irmão mais novo.

Ele obedeceu com passos calmos e hesitantes, as mãos pequenas presas a frente do corpo.

Brynden era o mais novo, a última criança Arryn, nascido logo após a morte do pai deles. Muitos disseram que tinha sido um mau presságio, pois o garoto nascera enfermo e fraco, tão pálido que o meistre acreditou que ele não sobreviveria muito. Porém, com as poções medicinais e muito cuidado da mãe deles foi que o menino crescera até os dez dias de seu nome, ainda que com dificuldades e precisasse de cuidados diários. Onde Arthur, suas irmãs ou a mãe dele não toleravam nenhum comentário maldoso em relação a Brynden.

Artie apontou para a cadeira à frente de sua mesa, onde o garoto se sentou calado.

— O que veio fazer aqui? — Questionou já que não era do feitio dele estar perambulando pelo Ninho aquela hora, o pequeno tinha o costume de se retirar cedo.

— Queria te ver. — O pequeno respondeu dando de ombros enquanto observava os papéis sobre a mesa.

Ele era sempre muito observador.

— O meistre já lhe deu suas poções? — Arthur perguntou sobre tudo o que Brynden tinha de tomar todos os dias para afastar-se das doenças e não pegar gripes ou resfriados que o deixariam acamado por dias seguidos.

Ele respondeu com um aceno rápido.

— E o que você fez essa tarde?

— Sharra me levou para ler na bi-bi-bi-biblioteca. — Respondeu com a fala ainda com resquícios da gagueira que o atormentava desde que aprendera a falar, embora agora na maioria das vezes apenas tivesse uma fala mais hesitante.

— E o que vocês leram? — Arthur questionou interessado no que o irmão tinha a dizer, já que Brynden era sempre tão calado e o jovem lorde gostava de passar tempo com sua família. Artie adorava o irmão mais novo na mesma intensidade que era adorado pelo pequenino. Ele sabia que o irmão gostava de ler e era um devorador ávido das palavras, exercitando a mente enquanto o corpo continuava frágil como quando viera ao mundo.

Os pequenos olhos brilharam de empolgação.

— Sobre as escrituras do Septão Barth sobre os dragões, você sabia que ele acreditava que os dragões não eram machos nem fêmeas?

Lorde Arryn segurou o incômodo quanto ao assunto, não gostava que o irmão estivesse interessado em dragões ou na Casa que subjugaram toda Westeros apenas por conta das feras que apenas eles podiam montar. A única coisa que ainda unia os Sete Reinos sob o domínio rígido de Aegon era o medo de suas feras cuspidoras de fogo, e o Arryn sentia dentro de si um incômodo por ser mais vassalo de um rei corrupto como aquele Targaryen. Entretanto, conseguia ver a admiração de Brynden e sabia que o mesmo não ficava animado daquela forma tão facilmente, não seria ele a chatear o irmão mais novo ou acabar com sua alegria.

— Eu estou ciente deste fato, já li as escrituras do Septão Barth quando era mais novo.

Brynden concordou com mais um aceno.

— Artie, será que um dia eu poderia ir até Porto Real para ver um dragão de perto?

Ele cerrou o maxilar sem saber como responder aquela pergunta, já que tudo o que menos queria era ver alguém de sua família se envolvendo com a capital, ainda mais nos tempos conturbados em que estavam. Já bastava Erinya seguindo até lá e a promessa que ele havia feito a ela. Todavia, não precisou dar uma resposta para o irmão quando a porta se abriu sem qualquer aviso pela mãe deles.

Jeyne Arryn olhou surpresa para os dois filhos juntos.

— Oh, que bom que está aqui Brynden, me poupa tempo de procurá-lo depois. — A mulher comentou e abriu os braços para receber um abraço do caçula, acariciando o cabelo castanho escuro tão comum aquela Casa.

Lorde Arryn olhou para aquela cena e não conseguiu conter uma parte dentro dele mesmo de sentir um pingo de ciúme egoísta do irmão, por conta da proximidade que tinha com a mãe, coisa que Arthur nunca teve verdadeiramente. Para Jeyne sempre fora a educação e a preparação dele para ser o Senhor do Vale que viria primeiro, ele tinha que suprir todas as vontades dela e ser perfeito em todo o seu treinamento, ainda mais depois da morte de Robert que a abalou profundamente.

De toda forma, ele não levou tal ciúme adiante, sabendo que era um sentimento injusto.

Jeyne sentou-se com o filho mais novo no colo, colocando uma carta já aberta em cima da mesa para que o filho lesse em seguida. Artie olhou de relance para o selo quebrado pelas mãos de sua mãe, percebendo que se tratava do brasão da Casa Shett, os senhores de Vila Gaivota. O rapaz leu o conteúdo com rapidez, percebendo a caligrafia torta do lorde.

— Sacerdotes Vermelhos?

Lady Jeyne concordou com um aceno austero, aparentemente desgostosa do assunto em questão.

— Estão em grande número em Vila Gaivota, os fiéis dos Sete estão raivosos com a chegada crescente deles desembarcando vindo de Essos ou de outras partes de Westeros. — Ela comentou o que já estava expresso na carta. — O que me intriga e me preocupa é o que eles querem com você.

Arthur sentia a mesma dúvida crescer diante de si.

Eles querem ver você, dizia as palavras de Lorde Shett.

O motivo da vontade deles ainda era um grande mistério não mencionado nas palavras daquela carta.

— O que você me aconselha? — Ele perguntou deixando o pergaminho na mesa.

Era comum que as opiniões e ideias entre mãe e filho fossem divergentes em muitos assuntos, porém ele ainda assim a respeitava muito e sabia que Jeyne fora uma grande Lady ao lado do marido. Além de ter sido ela a cabeça do concelho do Vale enquanto Arthur não tinha idade para governar. Assim, Artie sempre dava ouvidos ao que a mãe dizia, por mais que nem sempre seguisse suas vontades.

— Vá até Vila Gaivota, leve sua pequena comitiva, se mantenha protegido enquanto estiver tratando com os seguidores do deus vermelho. — Jeyne expressou sua opinião rapidamente, provavelmente já tendo aquilo na cabeça antes mesmo de entrar ali. — Deixar eles crescendo na nossa maior cidade seria inadmissível, só criaria problemas.

Arthur moveu a cabeça em concordância, seguindo o olhar para Brynden que observava tudo calado.

— Pelo visto terei que deixar você novamente tomando conta do Ninho, enquanto eu desço a montanha.

Brynden mostrou um de seus raros sorrisos com o comentário.



r u a d a s e d a

A noite não tinha nada de serena naquela parte da cidade.

Toda a chuva já havia passado, mas ainda estava frio e nem isso impedia mulheres seminuas ou ainda desnudas de se debruçarem em parapeitos, acenar de portas ou andar pelo meio dos transeuntes oferecendo tudo o que seu corpo, fosse ele velho ou novo, pudesse dar em minutos ou numa noite inteira. Ali o dinheiro era a única verdadeira moeda e aquelas mulheres eram conhecidas por serem as melhores em conseguir extorquir até a última moeda dos mais tolos.

Kyra abria caminho com Torben e Davos ao seu lado.

A tripulação do Serpente Marinha vinha em seguida, chamando mais atenção do que ela gostaria, porém não havia muito o que a capitã pudesse fazer. Havia limites no quanto poderia segurar aqueles homens nascidos de ferro dentro de um navio e não havia qualquer dúvida de que nenhum deles perderia a chance de ir até a rua de Westeros mais conhecida pela luxúria e prazer. Entretanto, isso fazia com que a maioria dos olhos das pessoas, ainda lúcidas e não bêbadas, virasse para o grupo distinto de piratas das Ilhas de Ferro com suas roupas esfarrapadas e donos das aparências mais distintas.

Ela mesma era uma das que menos chamava atenção com seu sobretudo que escondia as curvas de seu corpo tão bem quanto suas armas. O chapéu surrado trazia sombras para seu rosto longo e de linhas marcantes, também deixando apenas algumas das mechas ruivas e despenteadas visíveis.

Todavia, Torben conseguia facilmente atrair o dobro da atenção que ela não trazia para si.

Os cabelos longos e tingidos, junto do andar gracioso de um dançarino de águas e as jóias douradas ao redor do pescoço, orelhas e dedos faziam com que fosse o primeiro alvo das meretrizes que andavam por aquela rua como gatos atiçados atrás de pombas. Ele recusava a todas e a Greyjoy não podia deixar de sentir um pingo do ego crescer ao saber que seria ela na cama com Torben e não nenhuma daquelas consideradas mais bonitas por quase todos.

— Você está deixando um séquito de moças furiosas ou de coração partido em seu caminho esta noite. — Kyra sussurrou, já que ele estava próximo o suficiente para ouvi-lá por cima do ombro.

Conseguiu ver o sorriso brotar nos lábios que já havia beijado tantas vezes.

— Eu poderia me redimir caso minha capitã não se importasse de dormir com a cama vazia. — A resposta do bravosi tirou uma risada baixa dela.

— E qual sua garantia de que eu não acharia ninguém para me fazer companhia também?

Os lábios dele se aproximaram de seu ouvido, o tom baixo e a proximidade foram capazes de lhe causar um arrepio.

— Porque eu tenho certeza que não acharia ninguém que fizesse o que eu sei fazer…

Ela molhou os lábios, mas não o rebateu.

Haviam chegado até o famigerado destino, a toca da leoa.

O grupo foi barrado por um homem grande demais.

— Quem são vocês? — O pequeno gigante questionou com os braços cruzados sobre o peito e com os olhos de águia vasculhando todos parados ali. — E o que querem aqui?

Kyra tomou a dianteira antes que algum de seus marujos cabeça dura começasse uma confusão antes mesmo de encher a cara.

— Somos clientes! — Ela praticamente rugiu entredentes, criando uma cena de contraste entre uma pirata e um homem parrudo na frente de um bordel. — Por acaso esse lugar costuma recusar quem vem trazer dinheiro?

— Pode acreditar que não. — Ele afirmou olhando a Greyjoy de cima. — Mas, vocês cheiram a problemas e meu dever é evitar todos eles.

Kyra perdeu a paciência, dilatando as narinas e se perguntando se teria que matar mais um homem aquela noite. O tal “protetor” do bordel fez com que ela se conte-se quando estalou os dedos em sinal para que mais quatro homens visivelmente armados com adagas se aproximassem vindos de onde ela nem sabia. A vantagem ainda seria dela e de sua tripulação, porém uma confusão daquelas provavelmente traria os Mantos Dourados até ali e ela não queria criar uma cena.

Se manter nas sombras ainda era o melhor a se fazer, por isso que levantou as mãos em rendição.

— Tudo bem. — A capitã disse a contragosto, mas mostrou um sorriso sarcástico. — Apenas me deixe ir sozinha então, preciso falar com a bastarda Lannister, apenas isso.

O nome das Terras Ocidentais pareceu chamar mais atenção do homem que ponderou rapidamente, abrindo espaço para que ela pudesse passar pela porta. Kyra fez um sinal com a mão para Torben e seu imediato, pedindo para que os dois ficassem de olho na tripulação agora frustrada e com raiva.

Entrou e pareceu ingressar em um mundo totalmente diferente.

O cheiro forte e adocicado de incenso invadiu suas narinas sem pedir permissão, fazendo ela soltar o ar rapidamente para se livrar do odor embriagante. Mexeu as pernas passando por cortinas de seda que escondiam cenas obscenas com pessoas tomadas pelo álcool ou completamente lúcidas de suas ações. Ela ignorou mulheres seminuas e garotos jovens demais que se exibiam enquanto atravessava o bordel. Também não fez mais do que dar um olhar rápido para o pequeno grupo de músicos que tocavam uma melodia sensual, mas ao mesmo tempo contagiante, cheia de euforia por mais e por muito.

Sua mente voltou até a memória do dia em que encontrou a mulher que procurava, o tempo havia feito com que esquecesse muito de suas feições, porém foi fácil perceber quem era a dona daquele lugar quando a viu novamente. Os traços estavam borrados pela seda que a escondia, dando a seus cabelos dourados e curtos um tom avermelhado e que seus olhos verde esmeralda não tivessem o brilho natural. Estava sentada com outra mulher em uma mesa separada do resto do bordel, entretanto ainda assim era fácil de perceber as duas logo ali.

Kyra abriu a aba do pano e entrou sem qualquer convite.

Tilda olhou para a intrusa, percebendo que a já a conhecia de algum lugar.

— Estava te procurando… — A nascida de ferro comentou sem rodeios.

A mulher de longos cabelos cacheados e negros que acompanhava a loira Lannister olhou para Kyra desconfiada, mas não disse nada prontamente, voltando seu olhar para a dona daquele lugar que piscou surpresa.

— Você! — Tilda exclamou surpresa, mas já curiosa com o fato de encontrar tal pessoa novamente. — É a pirata de Lannisporto. Que mundo pequeno.

Ela se sentou sem ter sido convidada, de frente as duas mulheres.

— Pelo contrário, ele é muito grande, mas como disse, eu estava te procurando.

A expressão da filha de Lorde Lannister se intensificou, assumindo sua faceta de negócios e percebendo que ali com certeza haveria um. Aquela mulher obviamente queria algo dela, porém o que teria ela a oferecer?

— Aceita vinho?

— Aceito, mas se tivesse cerveja preta eu ficaria ainda mais grata. — Respondeu tirando o chapéu da cabeça e jogando as botas gastas sobre a mesa. Roubou um pedaço de pernil da mesa antes de continuar. — Você anda bem falada por essas bandas. Tilda, não é esse seu nome?

Tilda fez o pedido a uma das mulheres que a servia e se inclinou para frente, interessada nela.

— Isso mesmo. — Respondeu sem ver motivos para tentar esconder sua verdadeira identidade quando aquela mulher já sabia bastante. — Porém ainda não sei qual seria o seu?

A Greyjoy lambeu os dedos gordurosos antes de responder.

— Kyra, neta de Lorde Greyjoy. — Ela disse percebendo que a outra não reagiu como queria, se mantendo quieta.

A bastarda sabia que aquilo era verdade, pois os fatos eram visivelmente incontestáveis. Aquela mulher tinha todos os trejeitos de alguém vindo das pedras áridas que eram as ilhas, além dela já ter ouvido falar sobre a neta do Velho Kraken e sua fama nos mares. A aparência junto da personalidade apoiavam a fala dela.

— Como pode ver, estamos entre a nobreza, uma bastarda e uma neta de lorde. E você, querida? Também é parente de alguém?

A moça com traços dorneses negou com a cabeça para a pergunta da ruiva, os lábios ao encontro do cálice pela metade com vinho e os cílios negros piscando em sua beleza estonteante.

— Uma pena. — A capitã aceitou o caneco com sua bebida escura e tomou um gole longo, sentindo o álcool descer rasgando por sua garganta. — Essa daqui é das boas.

Tilda Hill normalmente teria mais tempo para brincar e dar voltas com aquela ali tentando conseguir o que queria com sua boa lábia, ela era conhecida por ser ótima nisso. Entretanto, aquela mulher das Ilhas de Ferro havia atrapalhado sua noite de folga, logo quando ela tinha passado dias presa na corte em suas roupas pomposas e se passando por uma pessoa que não era. Tentando descobrir o que podia e trabalhando com o que já havia conseguido.

Além de ter o problema Tyrell...

Agora era ela quem queria respostas e algo direto.

— O que você quer comigo Greyjoy?

A pergunta direta tirou um riso de Kyra.

— Não é óbvio? Eu quero o que todos querem no momento, a princesa.

Tilda voltou a se recostar em seu divã, aproveitando do sabor doce do vinho que dividia com Lyla.

— É um fato, muitos querem a recompensa e se casar para entrar na realeza. — A bastarda Lannister riu olhando para Kyra. — Não vai me dizer que quer se tornar uma princesa?

O comentário irônico tirou um sorriso da Greyjoy também.

— Pelo contrário, eu quero distância do Trono de Ferro. — Respondeu bebendo mais de sua cerveja. — A recompensa que quero é outra, algo que vai ajudar minhas terras.

— A guerra civil. — Tilda concordou com aceno e percebeu que havia um objetivo real ali, algo que faria com que aquela pirata fosse até o fim para conseguir o que queria. Nem que tivesse de passar por cima dos próprios aliados, ou dela mesma.

A filha de Lorde Lannister encarou a ruiva quando ela voltou a falar.

— Eu não estou na vantagem aqui e preciso de alguém para me aliar, um jogador forte que vai me levar até meu prêmio. — Kyra explicou seus pensamentos na tentativa de ganhar um pouco de confiança daquela mulher. — Recompensa que obviamente vai ser dividida.

— E o que você teria a me oferecer em troca de meu apoio?

— Eu tenho uma tripulação de homens de ferro que vão matar quem eu mandar, guerreiros preparados para a batalha. — Ela respondeu orgulhosa das pessoas que tinha sob seu comando. — Um navio veloz e é claro, eu mesma.

— Isso será o suficiente? — Tilda perguntou, mas já via uma oportunidade ali.

A mulher de olhos esmeraldas sabia que precisaria de mais homens para que seus planos dessem certo, logo agora quando tinha tanto a ganhar e perder. Nascidos de ferros preparados para a luta sanguinária seriam uma boa opção, porém ainda era difícil de confiar neles quando eram tão traiçoeiros e donos de uma má fama em cumprir promessas.

— Você sabe tão bem quanto eu que achar a garota pode não dar certo, talvez tudo o que precisamos é roubar ela de quem achá-la primeiro e você vai precisar de espadas para isso, eu te dou as minhas, aceite-as e venha logo firmar uma aliança.

Kyra estendeu a mão por cima da mesa.

Tilda Hill gostava de ponderar os riscos que seus planos e negócios sempre traziam. Sabia que aceitar aquela proposta traria muitos e que ela teria de abrir o olho com aquela mulher, porém o que tinha a oferecer era útil e prático, homens para matar quem estava na frente dela.

Por isso apertou a mão da capitã.



A pequena mansão de Tilda ficava próxima ao Portão do Dragão, próxima o suficiente de seu bordel para que pudesse resolver seus negócios e também em uma posição boa para fuga caso tudo desse errado. Essa última opção era quase nula, mas ainda assim transpassava sua cabeça quando ela brincava tão perto do fogo e apenas esperava não sair queimada.

Era nessas coisas ruins que pensava enquanto olhava para o jardim que era visível da janela de seu quarto.

— Volte para a cama… — Lyla murmurou com a voz carregada de sono após bocejar. — O sol ainda irá demorar para se levantar.

Tilda se virou para ela, sem sair do lugar. A luz da lua que vinha de outra janela a iluminava dando um brilho a sua pele escura e bronzeada, o cabelo caindo como castaca de fios sobre as costas e os seios visíveis sem a cobertura dos lençóis brancos. Era uma bela mulher e Tilda sabia em seu interior que nunca encontraria ninguém em quem confiasse ou amasse tanto. Havia conhecido-a há muitos anos, num dos bordéis de sua mãe em Lannisporto e havia tirado ela de lá, para que ficassem juntas e estavam desde então da mesma maneira. Por ela sentia um sentimento puro e longe das malícias que envolviam sua vida em quase todo o momento.

Por isso que foi sincera em sua fala seguinte.

— Estou sem sono, não consigo parar de pensar e pensar.

Lyla piscou, coçando os olhos e saindo da cama com seu andar sensual mesmo sem que tivesse tal intenção. Os braços dela a cobriram e sua cabeça se recostou em seu peito, já que ela não alcançava seu ombro totalmente em sua estatura baixa.

— No trato que fez com a capitão Greyjoy?

— Também, ela é algo que vou resolvendo com o tempo.

Lyla suspirou, sua face envolta em sombras se voltando para uma quase careta.

— Não gosto dela e também não confio em suas palavras.

Tilda riu levemente.

— Me conhece bem para saber que também não confio nela, mas a situação exige que eu a aceite. — Explicou alisando as costas dela. — Além de já termos lidado com pessoas muito menos confiáveis do que aquela mulher.

— E a maioria dessas pessoas eram homens tolos e fáceis de manipular, ela não me pareceu nem um pouco tola.

A loira concordou em silêncio, aquela mulher a trairia assim que uma oportunidade melhor surgisse e conseguisse o que queria. Precisava ser cuidadosa e contar apenas o mínimo de seus planos para que ela não soubesse demais.

— Vai mesmo seguir com o que quer fazer?

O cenho dela se fechou e sua mão parou de alisar Lyla.

— Sabe que preciso, pela memória de Loren.

Lyla a apertou com mais força, a segurando para que não fugisse de seus confrontamentos.

— Você nunca foi próxima dele, não como é de Edwin.

— Mas ele não merecia morrer daquele jeito, na própria cama após se casar. — Tilda esbravejou com as memórias daquele dia de volta em sua mente. Ela estava em Rochedo Casterly no dia do casamento, havia visto o irmão mais velho se casar e morrer no mesmo dia. Viu a garota Tyrell gritar e acusar outra pessoa pela morte do marido, mas ela sabia que não teria como aquele homem ter matado Loren, não quando ela tinha visto o mesmo antes do acontecimento. Uma pessoa não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo, a culpa não fora do homem que morreu. — A culpa é daquela cadela Tyrell.

— Eu sei, eu sei. — Lyla cochichou, agora de frente a ela. — Mas o que você irá fazer? Sequestrar a irmã de Lorde Tyrell e esperar que não haja consequências, você sabe o que será obrigada a fazer no fim. Ela já conhece sua voz e seu rosto de suas idas à corte disfarçada, você terá de matá-la, matar a irmã do Senhor da Campina.

— Será o mínimo pelo que ela fez com Loren. — Respondeu tomada pelo ódio que havia aumentado nela desde que havia visto aquela mulher nos jardins da Fortaleza Vermelha.

Ódio que dissimulava seus pensamentos e que deixava a companheira preocupada.

— O festejo em comemoração ao dia do nome do Príncipe é em três dias. — A mulher relembrou com a preocupação crescente. — Você acha que terá tudo pronto em tão pouco tempo?

— Você sabe que sim. — Tilda deixou a mágoa para trás, colocando a mão na bochecha de Lyla. — Com a garota Tyrell não terei apenas vingança, mas um fantoche na corte. Se o garoto Tyrell quiser a irmã de volta ele terá de fazer como irei ordenar, pena que ele terá apenas um cadáver.

Notas finais
perdão por qualquer erro, eu espero que tenham gostado :) foi mais um capítulo de desenvolvimento e apresentando mais dos personagens, mas o próximo será outro bem importante para a trama geral! não sei quando será a postagem por conta do natal e ano novo estarem chegando, mas espero que seja logo logo. irei respondendo os comentários aos poucos, mas já li todos, obrigada sempre pelo apoio! também temos o segundo conto sobre a erinya escrito por cloto, vão lá dar uma olhada no tumblr! beijinhos ♥