Pela Princesa - Interativa
16 Alys
Notas iniciais
p o n t a d a g a r r a r a c h a d a
Não estava chovendo aquela noite, porém ainda assim era frio como se granizo estivesse caindo do céu escuro. As nuvens cobriam tudo, deixando toda a floresta abaixo dele em tons sombrios de preto e verde musgo, um breu que esconderia viajantes espertos e uma princesa longe de casa. Daeron sabia que Alyssana estava ali, sua mente perturbada por sonhos proféticos latejava como se pudesse tocá-la do alto a qualquer segundo, mas seus olhos violetas caçavam minuciosamente por entre a folhagem compacta da mata densa e obscura.
Havia saído de Pedra do Dragão em uma velocidade terrível em busca de uma pessoa que viajava com a mesma pressa que ele. Sua prima estava em fuga, disso ele sabia de seus sonhos. Sonhos que iam e vinham como ondas agitadas invadindo a areia branca de uma praia deserta, e ele não tinha o controle da maré, mas sabia até onde poderia mergulhar sem se afogar. Sua mente estava um turbilhão sem que ele soubesse se deveria sucumbir aos sonhos lúcidos ou se seguia com o foco que era achar Alyssana. Era difícil se manter acordado por conta da exaustão e não cair no meio de profecias novamente ali mesmo no dorso de seu dragão, entretanto ele continuou firme sabendo que a prima estava ali e que precisava encontrá-la.
Seus sonhos haviam lhe mostrado aquele encontro.
Era curioso de se pensar que todas as pessoas à sua procura estavam tão próximas dela sem ao menos saber, naquela floresta a noroeste de Porto Real. Uma parte de seu interior dizia que deveria ter ido direto até a capital, até seu pai e avisado sobre o que havia acontecido naquela ilha. Todavia, outra parte de si, uma que ele não seguia com frequência e que dizia a respeito de seu emocional, gritava até aquele momento para que continuasse o que estava fazendo. Um sentimento amargo de desobediência e traição tomava conta dele, aquilo assustava Daeron com um propósito terrível, mas ele não o entendia totalmente.
De qualquer forma, duvidava que seu pai fosse acreditar imediatamente no que sua boca pudesse tentar explicar. Era difícil até para ele mesmo, entretanto aquele ainda não era o momento para pensar no que ele era e sim no que deveria fazer.
Era a hora dele tomar rédeas naquela situação.
Continuou procurando enquanto Stormcloud voava cada vez mais baixo, com o peito escamoso arranhando o cume das árvores e fazendo os animais já adormecidos partirem em debandada com a presença do maior predador conhecido naquele mundo. Daeron abruptamente sentiu seus instintos mais primitivos lhe fazerem mudar a rota do dragão, levando a grande fera a virar-se rumo uma pequena clareira e lá encontrar uma caverna. Fazia um sentido doentio toda aquela busca terminar ali, quando tinha verdadeiramente começado em outra com um sacrifício que agora tornara-se pesadelo, pois velha bruxa ainda o assombrava quando pensava em Pedra do Dragão. Sua montaria bateu as asas escamosas levantando folhas secas e posou em frente a pequena entrada de pedra, Daeron desceu e sentiu a garganta seca.
Stormcloud virou a grande cabeça coroada por chifres em sua direção, soltando um grunhido baixo que ele conhecia como sendo de receio. Porém, o Targaryen apenas alisou a face escamosa, sabendo que não haveria como voltar agora.
Tudo se resumia àquele momento, era onde seus sonhos sempre acabavam.
Entrou no pequeno espaço, ouvindo os botões metálicos de seu gibão vermelho sangue arranharem na pedra áspera. Continuou com passos pequenos e receosos, se colocando cada vez mais dentro da rocha que não parecia ter fim, até que ela finalmente se abriu sem ele nem ao menos se dar conta para o que parecia um pequeno salão. Havia uma grande fogueira ardente no chão rochoso que projetava sombras pelas paredes e iluminava os rostos escondidos por mantos. Homens e mulheres vestidos de vermelho olharam para ele, entretanto não mostraram qualquer reação, como se já o esperassem.
E no meio de todos eles estava a princesa perdida.
Existiam protocolos da nobreza que eram ensinados a todos desde tenra idade. Havia regras sobre como se portar, como se sentar, como cumprimentar alguém e principalmente sobre como agir ao redor da família real. Naquele momento o filho da Mão do Rei esqueceu cada um deles, seguindo até a prima e a prendendo em um abraço que representava saudade, medo e felicidade.
Um suspiro de alívio saiu dele.
— Por um momento eu duvidei… — Sussurrou sentindo que os braços dela o apertavam com a mesma intensidade. — Achei que não te veria novamente, pelo menos não…
— Eu também. — Ela confessou enquanto ambos se afastaram para se olharem melhor.
Alyssana não parecia ter nenhum ferimento ou marcas de violência como era esperado de uma pessoa considerada raptada, porém disso ele já sabia. Surpreendeu-se apenas em como ela vestia seda vermelha e nobre, junto de uma grande capa de viagem negra que escondia grande parte de seu corpo, também com os cabelos prateados trançados firmemente e os olhos ametistas tão sorridentes como os lábios dela.
— Eles me disseram que você poderia vir ou não, mas eu sabia que você acabaria encontrando o que deixei na ilha.
Daeron não precisou pensar muito para saber que eles eram os sacerdotes vermelhos que os cercavam naquele momento com olhares apáticos e distantes. Todos pareciam atarefados, guardando e pegando coisas. Alguns homens de armadura dourada e escarlate tinham espadas visíveis presas a cintura, fazendo o Targaryen ficar receoso.
— Não se preocupe. — A mão de Alys veio até seu antebraço, fazendo o primo se acalmar. — Ninguém aqui vai te machucar, estamos seguros, pelo menos por esta noite.
A princesa o puxou para perto do fogo, onde se sentaram em toras de madeira enquanto observavam uma das sacerdotisas vermelhas preparar algum tipo de guisado. O gostoso cheiro enchendo a caverna acabou lembrando Daeron do quanto ele estava faminto, porém sua fome poderia ficar para mais tarde, já que tudo o queria era respostas.
— Vou precisar perguntar alguma coisa? Ou você irá me contar o que está acontecendo?
O semblante antes de felicidade de Alyssana por ter visto o primo ali foi se dissipando, à medida que ela fitava o chão pedregoso. Havia algo de diferente nela, uma melancolia e cansaço que o herdeiro de Solarestival nunca havia visto ela deixar transparecer, nem mesmo em seus dias mais difíceis. Havia muito mais acontecendo do que ele havia imaginado e isso o deixava ainda mais ansioso.
— Eu sinto que nenhuma explicação seria suficiente para recontar todos os últimos acontecimentos de minha vida. — Ela respondeu com um pesar que antes não existia em sua voz e face. — Eu tive que fazer tantas escolhas em tão pouco tempo, confiar em pessoas que não conhecia totalmente. Ter fé, acima de tudo ter fé.
Alys tocou num colar dourado em seu pescoço, joia que guardava um rubi em sua ponta.
— Você se juntou a eles? Aos seguidores de R’hllor? — A pergunta veio com uma ponta de acidez incomum a ele, por conta de sua incerteza quanto à índole de tais pessoas e o que eles queriam com sua prima.
— Eles me salvaram, me livraram da morte e me mostraram um caminho quando ninguém mais poderia me ajudar. — Ela olhou para ele, mostrando no olhar o quanto havia sofrido, chorado e sentindo, coisas que ele ainda estava ansioso para saber como haviam acontecido. — Nem mesmo você.
— Alys, me conte! — Ele quase implorou com o tom de voz arranhado.
Ela suspirou novamente, deixando os ombros caírem pelo pesar e olhando para as chamas.
— Você nunca se perguntou realmente o verdadeiro motivo de eu ter partido para Pedra do Dragão? — A princesa questionou e levantou o rosto para encarar a mulher que cuidava da comida em frente deles, Daeron percebeu que havia segredos entre as duas, coisas que ele não deveria saber. Por isso a prima mudou de assunto drasticamente. — Antes, você deve estar com fome, porque não comemos primeiro?
Ele realmente estava, porém queria respostas como muitos outros e sua paciência quase infinita estava começando a se esgotar. Todavia, não teve como discutir quando a sacerdotisa vermelha lhe entregou a tigela com o guisado, o cheiro fazendo a barriga dele se revirar. Por fim, ele comeu a contragosto, estava delicioso.
— Eles sabem muito, primo. — Alyssana explicou enquanto se referia aos sacerdotes. — Veem nas chamas os que muitos ignoram e descobrem o que estava escondido, além de terem vislumbres do futuro vindos do deus deles.
— Eu duvido muito.
Alys sorriu levemente.
— Você, mais do que todos, deveria acreditar devido aos seus sonhos.
Ele bocejou sem se conter, contrastando com sua surpresa.
— Você sabe de meus sonhos?
— Como eu disse, os servos de R’hllor sabem muito. — Ela deixou um suspiro escapar, se voltando para o primo. — Sabiam como você não concordaria com o que estou prestes a fazer, por isso me avisaram que eu deveria separar nossos caminhos, por enquanto.
Daeron piscou, sentindo as pálpebras pesadas.
— O que quer dizer, Alys? — Questionou com a voz letárgica.
— Você já deve saber, deve ter sonhado.
— Eu vi esse encontro, eu vi nos dois nesse mesmo momento. Sonhei com guerra, com dragões e com muitas outras coisas. — Ele parou para bocejar novamente. — Eu sonho com um lobo, sempre com um lobo.
A Targaryen olhou para sua sacerdotisa com o cenho franzido e Daeron percebeu como sua visão estava começando a ficar turva.
— Alys… — Ele murmurou enquanto tentava se apoiar na prima, mas se desequilibrou e caiu no chão gelado da caverna. Os membros não o obedeciam mais e sua mente começava a vaguear por caminhos de que ele tentava escapar. — O que você fez?
— Não se preocupe. — A prima repetiu o que tinha dito tempos atrás, colocou a cabeça dele debaixo de peles e continuou a observá-lo de cima. — Eu nunca te faria mal, apenas fizemos você dormir. — A voz dela começava a ficar cada vez mais distante. — Quando acordar eu já terei partido e você não deve mais me procurar, não até ser o momento certo…
Ele queria impedi-la, mas não tinha forças restantes para lutar.
— Volte para Solarestival, fique lá e me espere Daeron, espere o estopim…
Daeron foi tomado pelos sonhos novamente, as visões que não pararam de atormentá-lo. Viu Alyssana num barco com gaivotas em volta, um falcão no ombro dela. Viu dragões, um grande campo cheio deles e carne queimando. Uma criança morta e uma farsa, uma rainha com a boca costurada e um rei em decadência. Por fim, viu o lobo correndo para o caminho errado, o lobo deveria vir até ele.
Daeron precisava encontrar o lobo.
Precisava encontrar ela.
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