Pegadas No Destino
19 Capítulo 19
- Porque...
-Porquê? Max...eu estou farta que as pessoas me escondam coisas...estou farta, cansada...
- Porque há coisas que uma pessoa não consegue controlar. Quando eu te conheci eu queria ver-te apenas como uma amiga mas eras a rapariga mais bonita que eu alguma vez vi que eu sempre tentei estar a teu lado. Quando começamos a sair eu nem queria acreditar que estava a dar-me tão bem com a irmã do meu melhor amigo mas...
- Mas?- perguntei já nervosa.
- Mas o tempo passou... e maneira como colocavas as madeixas soltas atrás da orelha; como te rias; como gostavas de ajudar os outros. A maneira como fazias tudo fez-me reparar um pouco mais em ti. Reparar de uma forma para lá de física. Eu acabei por gostar de ti. Por me apaixonar por ti. Por te amar...- Max concluiu rapidamente.
- Desculpa...eu não sabia.- respondi confusa
- Só vais dizer isso?
- Fui apanhada de surpresa, o que esperavas? Que no meio de todos os meus problemas eu corresse para o teu colo e me dedicasse a ti? Desculpa, não estou com cabeça para isso.
- E o que pensas fazer? Em relação ao João?
- Lutar por ele, lutar por uma família que, do seu jeito desajeitado e bruto, sempre se amou.- conclui com um sorriso
- Vais precisar de ajuda, sabes disso?
- Sei....sabes o que quero agora? Ir para casa..preciso de relaxar, acordar e pensar que tudo isto não passou de um pesadelo. Importas-te de me levar a casa?
- Claro que não. Mas tens de me prometer uma coisa: vais cuidar de ti na minha ausência e não vais cometer loucura nenhuma, certo? prometido?
- Prometido não...mas vou tentar.- respondi enquanto lhe dava um abraço daqueles bem apertados.- Só estes abraços ainda me fazem sentir em casa...
- Desculpa ter sido tão bruto. Estava com ciúmes. E desculpa não ter ido falar contigo este tempo todo.
- Isso deixou de ter importância.
(...)
Quando, finalmente, Max me deixou em casa eu tive um pouco receio da minha mente. Podia fazer asneiras, não? Mas era uma má ideia. Beber estava fora de questão, nunca fora pessoa de me embriagar e cometer parvoíces não estava na minha lista de loucuras.
- Max?- assim que Max se virou de costas para mim eu tive pena. Afinal de contas ele tinha se dedicado a mim de uma maneira tão dele, tão linda...
- Sim?
- Não desanimes. Eu só não tenho cabeça para ter uma relação agora. Pelo menos enquanto não souber onde está a minha mãe e o meu irmão. Tudo aquilo que disseste? Foi...bom demais. Tu és bom demais para mim...não te vou dizer que não estou apaixonada por ti. Estava a mentir...mas..
- Como em tudo há um mas....- ele interrompeu desapontado
- Sim, e quem sabe se esse mas é bom? O que eu ía dizer era...
- Não digas nada! Talvez um dia mo digas, está certo? Por hoje, só isto....
Max aproximou-se de mim rapidamente e sem que eu tivesse tempo de reacção beijou-me. Porém aquele beijo era diferente, tinha um outro sentido...e parecia mais uma despedida do que simplesmente um beijo.
- Vemo-nos por aí?
- Vemos...espero...- conclui pensativa que talvez não o veria durante algum tempo.
- Vou ter jogo. Vou passar uma semana fora, mas alguma coisa liga! Prometo que venho logo...está bem?
- Está, não te preocupes!- sorri involuntariamente.
- Até amanhã pequena...
- Até amanhã Max.
(...)
- Mãe? Mãe? O que fazes aqui? Onde está João?
- Lamento Mary, tivemos um acidente e...e...ele não foi capaz...eu estava lá e ele não...eu não sei...eu simplesmente...sou um monstro!
- JOÃO???? ONDE ESTÁS PEQUENINO???- gritava cada vez mais alto, mas aquela voz de menino não me respondia e as minhas forças esgotavam-se a cada palavra que gritava.
Por onde quer que eu olhasse só via sangue, e quando dava um passo a mais, esse sangue duplicava...a minha visão estava a ficar turva e sentia todo o meu corpo a tremer...
- MARY?- a voz de Max entoou nos meus ouvidos acordando-me brutalmente.- Foi só um pesadelo, já estou aqui....
- Foi horrível...mas...o que estás aqui a fazer?- perguntei um pouco atordoada pelo sono, enquanto os braços dele me abraçavam como quando eu era pequena e o meu pai corria a me acalmar.
- Vim despedir-me, daqui a meia hora parto para o aeroporto.
- Obrigada.
- Porquê?
- Por estares sempre presente quando preciso; por me protegeres mesmo quando eu não acho necessário ou não sei que é aquilo que eu necessito; por te portares como se eu fosse única...obrigado por me amares. Não sei se algum dia serei capaz de retribuir todo esse sentimento, mas quero que saibas, que eu sinto algo por ti. Não sei bem o que é e estou interessada em o descobrir, mas não depressa. Quero levar as coisas com calma e descobrir se isto dá em alguma coisa.
- Onde está a rapariga de ontem?
- Saiu pela janela mal deram as 24h... -sorri
- Bem, então eu acho que vou correr atrás dela porque é dela que eu gosto.
- Pode sempre voltar se quiseres....
- Estou a brincar, esta aqui é perfeita para mim.
- Não tinhas de ir para o aeroporto?- sorri com ar de vitória- Os teus colegas vão acabar por te comprar um relógio!
- Não queres vir comigo e depois trazes-me um carro?- Max respondeu enquanto um biquinho aparecia nos lábios dele.
- Idiota. Claro que não quero...mas dá-me a cópia que tens da chave que eu vou lá buscá-lo.
- Como sabes que tenho uma cópia comigo?
- Tu e o meu irmão usam o mesmo método: chave original e chave cópia, quando vos dá jeito trocam a cópia um com o outro.! Não sou cega, observo as coisas...- sorri
- Esta bem... Mas trata com muito amor o meu menino.
- Está certo.
- Posso fazer-te uma pergunta assim um pouco besta?
- Claro que podes Max!
- Como ficamos nós os dois?
- Não sei...não tinha pensado nisso.
- Mas tentamos alguma coisa? Sei lá...uma relação?
- Vai-te embora...vai, olha as horas!- sorri enquanto o empurrava para fora do meu quarto.
Fechei a porta o mais depressa possível e consegui ouvir Max a lamentar-se em voz alta enquanto descia as escadas.
»Até é um querido..« pensei e encostei-me na janela de maneira a ter visibilidade para o carro dele mas sem ele me ver.
E quando ele ía a entrar para o carro fez o que eu esperava: olhou para a janela. Eu mostrei-me e ele abriu um sorriso de orelha a orelha.
Era isso que eu queria. Em breve as coisas iam mudar. As muitas coisas iam mudar...aquilo que entretanto me desaparecera iria voltar. E a Mary Maria-rapaz ia desaparecer durante algum tempo para dar espaço à Mary sentimental.
Mas isso era mau? Não...isso era bom demais. Uma muda de ambientes por vezes faz bem...muito bem...
Assim que Max deixou de estar no meu ponto de vista atirei-me para a cama e olhei para o tecto. Tinha o tecto cheio de fotografias minhas com Leandro. E pela primeira vez eu senti vontade de o esganar. Como é que ele tinha sido capaz de me esconder uma coisa destas? Pensei durante horas em vários "se's" e alguns "porquê's" e cheguei á conclusão de que ele sempre fora assim. Desde miúdo que deixava as coisas sérias para os outros contarem. Ele preferia coisas com adrenalina, mas claro, sobrava para mim, eu é que tinha de contar as consequências porque ele nunca era capaz de as dizer. Tinha medo de magoar as pessoas com tudo o que saía daquela boca.
Mas era meu irmão. Fazer o quê? Eu amava-o incondicionalmente e para além de Max, ele teria de ser o meu segundo aliado. Eu tinha de trazer João e a minha mãe de volta. Era isso eu a minha sanidade mental!
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