Pegadas No Destino
20 Capítulo 20
Passei o resto do dia serena. Pensei em mil e uma formas de descobrir onde estava a minha mãe. Coloquei os motivos dela num lado e os meus motivos de a procurar do outro e decidi pedir ajuda a Ricardo, um amigo que trabalhava na PSP.
Procurei rapidamente o número dele na velha agenda de Leandro e tive esperança desde o primeiro toque, que ele atendesse.
- Sim?- ouvi uma voz rouca do outro lado da linha.
- Ricardo?
- Eu mesmo...quem fala?
- Lembras-te da Mary? A irmã do Leandro?
- Tenho uma vaga ideia de ti mocinha.
- Acho que preciso da tua ajuda...- respondi quase em lágrimas.
- Ainda moras na mesma casa?
- Ainda...
- Vou tomar um banho para acordar e vou já para aí, mas acalma-te pode ser?
- Sim, eu aguento...
- Beijo.
- Até já.
Eram quatro da tarde e eu imaginava que Ricardo tinha trabalhado toda a noite, por isso é que estava a dormir. Burrice minha! Ele tinha uma vida, quem era eu para ir importunar o seu descanso? Mas por outro lado, ele é quem me podia ajudar...
Cerca de meia hora depois ouvi o jipe dele a aproximar-se. Era difícil confundir aquele som....
Abri a porta mesmo antes de ele bater e aquilo que me ocorreu foi abraçá-lo. Não tínhamos assim tanta proximidade, era algo como um oi e um adeus. Basicamente ele vinha a minha casa para falar com o Leandro e eu era apenas a irmã mais nova que lhes ia buscar as cervejas ao frigorifico.
- Desculpe?- uma loirinha de olhos azuis mostrou-se presente.
- Desculpe eu...deve ser a namorada do Ricardo não?
- Algo como isso.- ela sorriu.- espero que não se importe que eu tenha vindo.
- Esteja á vontade. Entre...
Ela entrou primeiro e quando Ricardo passou eu apercebi-me do quão gigantesco ele estava. Desde a última vez que o vira ele tinha ganhado massa muscular e parecia agora um armário. Claro, sempre com a sua postura militar...
- Servidos com alguma coisa?- perguntei mais por educação do que simpatia.
- Se não for incomodar eu precisava de um café...- Ricardo pela primeira vez me falara.
- Não é incomodo. Vou para a cozinha, fiquem á vontade...
Enquanto estava na cozinha á espera do café olhei pela janela. Lembrei-me das horas e horas que eu ficava ali, naquela posição vendo o João a brincar no jardim e sem eu dar conta as lágrimas começaram a rolar.
- Não chores...- ouvi Ricardo da porta.
- Desculpa, mas eu...não sei...
- Não sabes.....?
- Não sei se aguento mais tempo. Se vou ser capaz de te pedir ajuda, se um dia tudo voltará a ser feliz e...ah sei lá...
- Nada dura para sempre...- Ricardo abraçou-me, tal como milhares de vezes tinha visto Leandro a fazer-me quando eu chegava da escola triste.- Nada dura para sempre....
- A tua namorada?
- Não te preocupes com ela. Ela tem ciúmes mas sabe que eu nunca a trocaria. Preocupa-te contigo...conta-me o que aconteceu....
- Então é assim, a minha mãe- contei tudo- e é por isso que eu quero a tua ajuda. Quero descobrir onde é que ela está. Percebes?
- Acho que sim...mas o Leandro? Porque é que ele não está aqui a dar-te apoio? Ele sempre me pareceu um irmão protector...
- Não falais?
- Falamos mas não nos vemos há muito tempo. Ele deixou de ir ter com o pessoal á esquadra.
- Senta-te aí e toma.- disse enquanto lhe entregava o café e o sentava numa das cadeiras á volta da messa.- Ele foi para o exército. Acho que foi a maneira dele de se ausentar de todos estes problemas.
- Mas ele sabe?
- Sim, soube primeiro do que eu.
- Como é que tu soubes-te?- Ricardo tinha o olhar focado no meu. Tinha olhos castanhos, cor de mel, e davam a impressão de que me queriam proteger, eram demasiado carinhosos.
- A minha mãe deixou-me uma carta antes de ir embora...
- Maneira antiga....- ele riu.
- É a minha mãe gosta disso...- sorri de volta.
- E como é que tu estás com isto tudo?
-Estou quase a...
- Temos de ir embora amor!- a namorada dele interrompeu a conversa.
- Vai lá Ricardo. Mas ajudas-me?
- Logo, á hora de jantar eu passo aqui e vemos isso. Se tudo correr bem depois vens comigo para a esquadra e cuidamos de saber onde ela está. Mas preciso de saber uma coisa, confias em mim?- perguntou enquanto me esticava a mão, pacto que apenas eu fazia com Leandro. Tinha aprendido com eles os dois.
- Confio.
- Vamos?
- Vamos.- Ricardo sorriu com o ciúme da namorada.- Até logo. Tem calma as coisas vão se resolver.
- Até logo.
- Ah, achas que te consegues arranjar de uma maneira diferente. Como se fosses minha secretária?
- Vou tentar, mas porquê?
- Logo explico.- sorriu e saiu- Não preciso que nos leves a porta.
(...)
Sentei-me algumas horas em frente á televisão e decidi, por fim, ir tomar um banho. Quando terminei enrolei a toalha á minha volta e fui mexer no armário.
- Aqui não tenho nada que me faça parecer uma secretária...- pensei alto.
Acabei por ir remexer no armário da minha mãe, sendo ela uma empresária tinha muitas roupas que me serviam e com certeza não tinha levado tudo na sua fuga.
Acabei por dar com um vestido lindissimo, e este tinha um bilhete.
"Para quando a minha menina crescer e se tornar uma empresária. Mário"
Mário, o nome do meu pai. O sonho dele era que eu me tornasse uma pessoa chata e embirrenta como a minha mãe? Com a mania de que posso pagar tudo na vida? Não...eu agradecia mas não... de qualquer das formas o vestido era o meu número e servia para a ocasião.
Arrumei-me num estante e pouco depois ouvi Ricardo bater na porta.
- Boa noite.- ele sorriu enquanto me olhava dos pés á cabeça.- Estás perfeita para o meu plano.
- Achas?
- Tenho a certeza.
- E vais dizer-me agora qual é o teu plano?- sorri um pouco envergonhada.
- Já jantas-te?
- Não.
- Vamos jantar então, eu conto-te tudo.
Saímos com calma e o caminho foi silencioso.
- Qual é o plano?- perguntei impaciente.
- Vamos á esquadra. eles lá têm a mania de assediar as raparigas da tua idade e com a tua forma física, então vais ser apresentada como a minha nova secretária. Depois vais ligar á tua mãe no meu gabinete, e eu vou tentar localizar a chamada.
- Não te vou causar problemas?- perguntei enquanto o empregado do restaurante segurava os nossos casacos.
-Achas mesmo?- ele sorriu
- Não sei...
- Mary, temos de marcar um ponto. Pedis-te a minha ajuda, tens de confiar em mim. Eu sei que temos quase 10 anos de diferença mas confia em mim. Imagina que eu sou um antigo amigo teu. Lá eles vão perguntar-te porque me tratas por tu.
- O que digo?
- Que sou um amigo teu.
- Combinado.
Quando acabamos de jantar. Ele levou-me com ele para a esquadra e como ele avisou os colegas começaram logo a "comer-me" com os olhos e a mandar bocas fuleiras.
- E quem é esta senhora?- uma agente perguntou á entrada
- A minha nova secretária.- respondeu Ricardo.
- Eu sei bem para que é que queres essa secretária!- um agente gritou do fundo do conjunto de escritórios.
-Olha lá, queres calar essa boca? Que merda de agente és tu?- Ricardo enervou-se.- Aqui não és mais do que ninguém. Não és mais do que eu. Não és mais do que ela. Não és mais que a mulher que limpa a merda que tu fazes! Deixa de ser otário.
- Calma Ricardo...onde é o teu escritório?- tentei acalmar a luta que se podia vir a desencadear
- 2º a contar do fundo. Vamos ter de aturar aquele ignorante ao longo da noite...
- Sem problemas, eu sei defender-me. -sorri
- Não duvido!
Quando chegamos ao escritório ele abriu a porta e ordenou-me que me sentasse.
- Vou colocar tudo á tua ordem, fala á vontade com a tua mãe.
- Como se estivesse sozinha?
- Sim, se conseguires...
- Acho que sim.
- Começa agora
Aguardei alguns minutos até o telefone começar a dar sinal de vida.
-Sim?- ouvi a voz cansada da minha mãe
- Mãe?- chamei triste.
- Mary?
- Eu mesma.
- Como estás? Como está o teu irmão?
- Onde estás? Onde está João?- perguntei ignorando as perguntas dela.
- Estamos seguros e bem.
- Não foi isso que perguntei...
- Porque me estás a fazer isto? Porque me queres tirar o João?- a minha mãe gritou.
- Não! Porque é que tu estás a fazer isto a mim? João ser adotado não muda em nada a relação que nós temos...quantas vezes tu o foste buscar á escola? Quantas vezes ficaste deitada na cama dele á espera que a febre baixasse ele adormecesse? Quantas vezes brincas-te com ele ou viste os desenhos animados com ele? Tu não tens direito de levar o João para longe de mim...eu fui mais mãe dele do que tu. Nunca...nunca terás o direito de o levar para longe de mim!
- As coisas não são bem assim...
- Não me digas que tinhas de trabalhar. Tudo desculpas!- eu estava aos gritos e Ricardo tinha saído para me dar privacidade.
- Mas...
- Mãe, arranja-se sempre uma solução. Tu estás louca, completamente louca! E sabes o pior? É eu estar perto de me atirar de cabeça. Não queres isto a bem? Eu estou disposta a lutar pelo João. A bem ou na justiça.
Ricardo fez-me sinal. A chamada tinha resultado. Sabíamos a onde a minha mãe estava!
- Querida, eu adoro-te...mas...não me faças isso.
- Há sempre uma solução. Desculpa.
- O que fizeste?
- Fui á procura de uma solução...
- Estás bem?- Ricardo perguntou no momento em que desliguei a chamada.
- Vou ficar. Diz-me o que descobriste.
- Eles estão nesta morada. Conheces?
Olhei o ecrã no computador. A morada coincidia com a morada dos meus avós.
- Conheço...é a casa dos pais dela.- fiquei surpresa, eles não se falavam...- e agora? Tens algum plano?
- Agora vamos esperar um ou dois dias e vamos lá fazer uma visita. Costumar ir ver os teus avós?
- Não. Mas eles estão quase a fazer anos de casados.
- Quando?
- Para a semana, porquê?
- Vamos lá vê-los aí. Temos um motivo.- Ricardo sorriu
- Obrigado por tudo o que estás a fazer...- disse exausta enquanto me punha de pé e caminha até á janela meio aberta.
- Sem stress. Queres ir para casa? Tens ar de cansada...
- Não... não sou a tua secretária?
- Nada disso. Anda, eu vou levar-te a casa.
(...)
Tinha-se passado uma semana e Ricardo tinha levado muito a sério o plano.
- Vamos amanhã de manhã?- perguntou no dia anterior á nossa partida.
- Tudo bem.- respondi.
E depois de ele se ter ido embora liguei a Max.
- Tudo bem?- atendeu imediatamente
- Está tudo...só queria ouvir a tua voz e avisar de que provavelmente não vou estar em casa quando chegares.
- Porquê?
- Vou com Ricardo visitar os meus avós...na verdade vou resgatar João que está lá em casa. Sabes quem é o Ricardo, certo? O meu irmão já te deve ter falado nele...
- Não sei...como é que ele é?
- Grandalhão...jeito militar. É PSP.
- Sim...eu sei de quem falas.- Max parecia cansado.
- Cansado?- perguntei
- Um pouco. Estou na saída do balneário. Tivemos jogo bem cedo e de tarde tivemos de treinar...
- Tu tens força como um boi. Isso não é exactamente nada.- sorri.
- É tudo isso... Mas tens a certeza do que vais fazer? Tem cuidado, não quero que sofras mais...
- Mais é impossível- interrompi.- Olha para mim Max. Dediquei a maior parte da minha vida a cuidar daquele rapaz. Acho que mereço saber dele e estar com ele. Não achas?
-Acho.
- Eu não sei...
- o quê?
- Tenho saudades tuas...
- Também tenho tuas Mary, mas eu estou quase de volta e depois quando voltares podemos estar juntos e resolver algumas coisas.
- Parece-me bem.
- Agora, se não te importas vou dormir...
- Está certo Max. Adoro-te. Dorme bem.
- Eu também te adoro. Tu também...
Desliguei a chamada e sentei-me na cama. Tanta coisa tinha mudado..de repente a minha vida tinha dado uma volta de 180º graus e eu sentia-me mais cansada do que uma mula de carga (comparação estranha).
Deitei-me para trás e mais uma vez vi as fotografias no tecto. Mas desta vez não tive muito tempo para as apreciar. O cansaço apoderou-se de mim e rapidamente adormeci.
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