Pedaços Transformados

115 Ainda não - P A R T E U M


ainda não – P A R T E U M

JULIE, 12 ANOS.

Julie não sabia como descobrir isso.

Ou como começar a falar sem ser... Uma surpresa? Se envergonhar? Chamar a atenção de todos para si? Ela queria falar, ela queria tentar, mas... Tinha receio (não medo, Julie Hemmings não tinha medo) de como todos se comportariam – ela receava que agissem como se fosse tudo e a deixassem envergonhada (e Julie não queria começar agora a ser uma pessoa que se envergonhada por nada) ou, pior, agissem como se fosse nada e ela não soubesse como agir.

Julie não sabia mais como ser ela mesma sem... sem ser... estranha. Sem agir como se tudo tivesse mudado, como se ela não fosse a mesma pessoa de antes, como se não soubesse mais quem era. Quem era ela? Julie tinha me... receio de descobrir.

—Filme – anunciou seu irmão assim que entrou com Calum, abrindo a porta do seu quarto. – Hoje vamos ter filme.

Sorria e acene e diga "Olá", Julie, pensou ela. Seus lábios continuaram colados.

—Não – discordou Calum antes que ela ao menos pudesse tentar falar. – Nós concordamos que iríamos assistir animes.

—Concordamos? – ecoou Luke, cético. – Não me lembro disso.

—Você se lembraria se não estivesse do outro lado da cidade.

Luke parou para encará-lo cético, meio sorrindo.

—Você está assistindo Sherlock da BBC de novo?

Calum não respondeu, encarando-o em retorno.

—Hum-hum – Juliu coçou a garganta, para chamar a atenção, e ambos pararam, como se tivessem lembrado naquele instante que ela estava ali.

Julie abriu a boca para falar... e voltou a fechá-la. Urg, aquilo era tão difícil. Ainda mais com aqueles olhos cheios de expectativa, olhando-a ansiosamente, esperançosamente. Ela odiava esperanças, ainda mais quando era dirigida a si, esperanças só criava mais expectativas e um dia todos se decepcionam – ela ficou calada.

—Você quer água, Julie? – questionou Luke.

—Comida? – sugeriu Calum.

—Falar? – continuou seu irmão, levantando a sobrancelha para ela.

Julie o encarou. Como ele tinha coragem...?

Calum também, balançando a cabeça devagar e decepcionado.

—Cara, isso foi demais. Existe tato. Ta. To – disse, devagar. – Você não o conhece?

—Hum... é... eu... nós... – Luke olhou ansioso para sua irmã, que estava neutra. – Anime! – exclamou ele, escalando a cama para sentar-se ao lado dela.

Calum suspirou, balançando a cabeça ao acompanhá-lo e pegando o notebook das pernas de Julie para colocar o que assistiriam.

—Ei – reclamou ela.

—Não recla... – Calum parou. – Você reclamou – murmurou ele, olhando-a com olhos arregalados.

—É claro que ela... – A ficha caiu e Luke abriu a boca, cético, ao encará-la com os olhos esbugalhados. – Você reclamou?

—Vocês vão fazer uma grande coisa sobre isso? – questionou Julie diretamente.

Seus amigos se olharam por cima dela e Julie esperou o veredito, porque, sinceramente, ela ainda não tinha paciência para ficar pensando e repensando com situações que não tinha controle – ela precisava falar e as reações que mais receava eram as dele e as da sua mãe. Julie estava feliz por precisar fazer isso apenas duas vezes, por Luke e Calum estarem ali, agora, com ela.

—Depende – decidiram eles.

—Você quer que a gente... – começou Luke.

—Faça? – terminou Calum.

—Vocês são tão fofos completando a frase um do outro – respondeu Julie, tentada adiar a resposta inevitável. Ela suspirou quando não deu certo. – Ok, certo, eu quero.

Ela não queria, mas seria mais estranho se eles não fizessem.

Luke revirou os olhos.

—Eu ganhei a aposta, Calum, passe o notebook.

—Você apostou? – repetiu Julie, cética. Seu irmão precisava de uma assinatura do cartório, reconhecimento de firma, para ela creditar que Calum, a-melhor-pessoa-do-mundo-Calum, havia participado de algo desse tipo. – Eu odeio vocês – murmurou Julie, silenciosamente. – Odeio tanto vocês.

—Do tamanho do mundo? – questionou Calum.

—Do tanto que eu te amo? – sugeriu Luke.

—Isso foi um golpe tão baixo – murmurou Calum, sentando-se para encarar seu amigo. – Muito baixo. Quer dizer... cara, não posso nem competir com isso.

—Sente-se, Calum – ditou Julie. – E pare de ficar falando “ca... – A porta se abriu. Sorria e acene e diga "Olá", Julie, pensou ela novamente. Ela tentou, envergonhada, embora não tenha conseguido sorrir. Ainda não. – Oi, mãe.