Pedaços Transformados

116 Ainda não - P A R T E D O I S


ainda não – P A R T E D O I S

LIZ, 34 ANOS.

—Oi, mãe.

Liz ouviu e pareceu o sino dos anjos, o coro celestial, uma música divina.

Há quanto tempo ela queria ouvir isso?

Há quanto tempo ela esperava por aquilo?

Mais tempo do que queria que fosse, mas sua filha estava falando.

Sua filha estava falando.

Sua filha estava falando.

Liz queria chorar, rir, correr para abraçá-la e dizer o quanto a amava e o quanto sentia muito por ela ter passado por tudo aquilo, mas ela viu os lábios quase sorrindo forçadamente, sem força para realmente sorrir, os olhos sem vida, os ombros caídos, as mãos apertadas em punho e não fez nada disso, porque ainda não era a hora, porque...

Liz temia quebrar-se na frente da sua filha, ela apertou a mão na maçaneta para não correr e...

Liz sorriu, sentindo as lágrimas no canto dos olhos, e a saudou:

—Oi, filha.

—Oi – repetiu ela.

—Oi, Calum – continuou Liz, para não fazer aquele momento mais difícil para sua filha. – Tchau, Luke.

—Mãeee... – reclamou seu filho.

—Tchau, Luke – repetiu, sem brecha para discussões.

—Mas...

Liz queria saber onde estava seu filho obediente e estava feliz por saber que ele estava ao lado da irmã, apoiando-a, mas aquele não era o momento para ele estar ali, ela tinha deixado claro isso antes.

—Não era nem para você ter vindo hoje, eu te disse para ir diretamente para a escola. Você ao menos trouxe sua mochila?

—Mãeee – reclamou ele novamente, embora soubesse que não faria diferença.

—Te dou dez minutos e então estamos indo para casa, pegar suas coisas e depois para escola, Luke. Dez minutos – repetiu, fechando a porta. – Dez minutos – murmurou ela, olhando para sua mão branca, sem sangue, de tanto que apertava a maçaneta, e então arrastou seus pés para longe enquanto expirava e inspirava e finalmente, longe o bastante para não ser ouvida, Liz chorou.

Quebrou-se.

Reergueu-se.

E riu, porque sua filha havia falado, porque sua filha não estava bem, ainda não, mas chegaria lá.