silêncio

CALUM, 9 ANOS.

O silêncio era acolhedor, era confortável... era. Calum sempre se sentiu melhor no silêncio, consigo mesmo, em algum local na sua mente que pudesse ser quem realmente era, sem negar quem era, mas não mais, não naquele momento.

O silêncio não era acolhedor, não era confortável... não era. Calum sentia-se sufocado, mal; preso com pensamentos que não eram seus, que queria que não fossem seus, mas que eram.

Estar sozinho consigo mesmo nunca foi tão ruim quanto naquele momento. Calum não queria estar sozinho – não mais, nunca mais. Ele queria seus amigos, ele queria Julie e Luke, ele queria pessoas que o amavam por quem ele era, como era. Ele queria tantas coisas, mas constantemente aprendia que querer não era poder, porque se fosse... nada seria assim.

As coisas mudavam rápido, Calum sabia.

Num momento ele era Callie e em outro Calum.

Num momento ele estava triste e em outro feliz.

Num momento sua irmã estava bem e em outro não.

Num momento ele estava feliz e em outro triste.

As coisas mudavam rápido, Calum sabia. E ele não sabia o que fazer, o que devia fazer, como agir. Sua irmã estava morrendo... E não tinha nada que ele podia fazer, não tinha nada que pudesse ser feito.

Ela iria morrer.

Ela iria morrer e nada poderia impedir isso – o silêncio ao seu redor não fazia com que sua mente pudesse esquecer disso; o silêncio ao seu redor não estava na sua mente barulhenta e caótica; e Calum precisava de algo mais barulhento e caótico para que sua mente não fosse ouvida.

Calum não podia ficar em casa.

—Calum?

Luke parecia surpreso por vê-lo ali – e realmente estava, não era Calum quem ele esperava quando abriu a porta.

Ignorando todos os avisos que sua mente soou de que não deveria abrir a porta quando estava sozinho em casa, Luke abriu a porta, porque tinha certeza que era sua mãe do outro lado, perguntando mais uma vez se não queria ir, e era Calum.

Calum estava ali. Calum estava ali quando era tão tarde da noite. Calum estava ali, mas Luke... Luke não conseguia acreditar, porque Calum não era o tipo de criança que andava no meio da rua tão tarde, seus pais não deixariam que ele saísse aquela hora e, mesmo que tivesse fugido de casa, Malia estaria ao seu lado. Contudo o pior, o fator mais importante para Luke, era que Calum não parecia ali, ele não o enxergava, olhando através de si.

—Calum? – Piscou Luke, surpreso. – O que você está... fazendo? – murmurou vagamente, observando-o entrar na sua casa. Sem ser convidado. Praticamente o empurrando para o lado. – Pode entrar – disse ele, olhando para a entrada vazia. – Sinta-se em...

—Luke – interrompeu Calum. E Luke parou, porque era isso que seu amigo parecia suplicar, mas principalmente porque ele olhava-o nos olhos e Luke não pode desviar os seus. – Cadê todo mundo?

—Eu estou só – disse, devagar. Algo definitivamente estava errado.

Calum não era mal educado desse jeito – nem de qualquer outro. Ele não entrava na casa dos outros, ele não interrompia as pessoas quando elas estavam falando e, por mais que odiasse admitir, Calum não era um lunático. Não, Calum era a pessoa mais sensata que conhecia – não que fosse difícil encontrar uma quando se vivia cercado por doidos.

—Você...

—Eu estou bem – interrompeu Calum, respirando fundo, arregalando os olhos e mordendo os lábios. – Eu estou maravilhosamente bem.

—Certo – assentiu Luke, devagar.

Maravilhosamente bem? A sirene de algo-está-errado de Luke começou a tocar, porque era impossível que isso fosse verdade. Luke sentia que não era. Tinha algo em Calum que passava essa sensação de que algo (algo grande, algo enorme) acontecia; algo que não estava bem.

—Você não está bem – afirmou Luke mais para si do que para ele, fazendo Calum parar enquanto o observava avançar, porque ele não estava bem? Ele não estava maravilhosamente bem? Ele não estava conseguindo passar a única coisa que sua irmã não estava? Ele estava... tremendo?

—Eu não estou bem – concordou Calum, sentindo os braços igualmente trêmulos de Luke o abraçando, como se soubesse que Malia não estava bem apesar de não ter dito nada sobre isso, de estar focando tudo em si para que pudesse se esquecer que era sobre ela.

Malia que tinha tido uma recaída como se fosse uma drogada, que foi levada para o hospital tremendo de febre, que... que não estava bem.