Pedaços Transformados
28 Por enquanto
Notas iniciais
por enquanto
MALIA, 9 ANOS.
—Olá – disse Malia, testando a maçaneta. Livre. Destravada. – Alguém aí? – tentou novamente quando não houve respostas.
O quarto estava vazio, o banheiro estava vazio, ela estava vazia.
Malia tropeçou para dentro e apertou os lábios e por mais que dissesse, soubesse, que não tinha razão para querer chorar – não era como se todos tivessem saído da casa e deixado-a sozinha, eles apenas... não estavam ali, agora – ela sentia a vontade de deixar as lágrimas caírem e apertou a beirada da pia tão forte que esperava que ela quebrasse em suas mãos.
Malia sabia como seu irmão se sentia ao fazer isso – ao fazer constantemente isso de morder os lábios – porque era como se apertar os lábios fosse se impedir de dizer o que queria, como se impedir de dizer o que queria fosse impedir que ela chorasse... Malia não sabia se era ou não verdade, mas talvez fosse e ela preferia o talvez ao não e colocou o punho na boca para o sim, para impedirem de ouvi-la se ela começasse a chorar.
Mesmo sem se enxergar, Malia se viu no espelho ao levantar o rosto e... e sentiu as lágrimas deslizando. Seu cabelos, suas mãos deslizaram pelo que restavam, estava menor. Suas unhas, seu corpo, quebradiço.
Ela estava quebrada.
Ela estava tão feia, feia, feia.
E viva.
(Por enquanto.)
(Por enquanto?)
—Eu não quero morrer – chorou ela agarrando-se a quem a segurou, a quem pegou nos braços e parecia que nunca iria soltá-la.
Malia não queria ser solta, ela queria ser pega e nunca deixada ir.
Ela queria estar viva.
Ela estava, mas por quanto tempo?
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