fim

LIZ, 34 ANOS.

Era o fim.

Liz olhou para Andrew sendo enterrado – ou a casca dele, seu corpo ainda não deteriorado, suspenso no ar, no limbo.

Vazio.

O conceito fundamental da física era energia e energia não podia ser criada nem destruída, apenas transformada, e Andrew não podia ter desaparecido.

Liz recusava-se a acreditar nisso.

Era o fim.

Mas todo fim era um começo.

O universo foi criado numa explosão e seria destruído da mesma forma – e seria recriado novamente, porque não tinha como tanta energia... desaparecer.

Andrew não podia ter desaparecido.

Não Andrew.

Liz lembrava-se tão bem quanto hoje quando conheceu Andrew há... há mais de dezesseis anos, quando tinha dezoito e tudo o que mais queria era ir para longe da sua pequena cidade sem nada e de suas meias-irmãs irritantes e do burburinho a cada esquina, contando a todos sobre a bastarda que ela era...

Liz lembrava-se quando a fofoca mudou para o órfão misterioso, velho demais para ser adotado e novo demais para ser colocado para fora do orfanato.

Liz lembrava-se de estar trabalhando no único lugar que pagava bem e que era claramente proibido para menores quando... o conheceu.

Andrew.

Deus, ele era irritante.

Liz lembrava-se de todas as noites que ele aparecia e ficava até tarde, pedindo mais e mais café, dela precisar esperar que ele terminasse para poder ir embora.

Liz lembrava-se da noite que havia realmente conversado com ele, de como havia percebido que ele era irritante (e lindo, mas principalmente irritante), e de que havia dado uma carona a ele e...

Liz riu, meio chorando, esfregando os olhos com força para arder, ao lembrar-se de quando tentou "matá-lo", de como foi fofo quando Andrew disse vire a direita e ela virou o volante rapidamente, para não perder a entrada, quando na verdade ele quis dizer a entrada há alguns metros a frente. E a esquerda.

Liz lembrava-se de todas as noites depois dessas que...

Eles conversaram.

Conheceram-se.

Ela se apaixonou.

Liz lembrava-se de todas as dificuldades que passaram juntos, do quão difícil foi para estarem juntos, de como sua mãe foi contra, porque ele era um ninguém e não tinha nada e sua filha merecia tudo, o mundo.

Liz lembrava-se do seu casamento simples e do sorriso feliz dele quando a viu, como se não existisse nada mais bonito do que ela no vestido antigo da sua mãe.

Liz lembrava-se de todos os segredos que ele a contou, de todas as lembranças que tinha de Andrew, do quanto o amava.

E, agora, era o fim.

Era o fim.

Andrew estava morto.

Mas todo fim era um começo.

E sua filha estava viva.

Julie estava viva.

E Liz precisava se lembrar de que também estava.

Notas finais
O fim do fim não é o fim.