Pedaços Transformados
101 Solitário, sozinho
solitário, sozinho
LUKE, 12 ANOS.
Luke não conseguia dormir.
Três dias – e Luke não conseguia dormir.
Três dias – e Julie não tinha acordado.
Três dias – e...
O que ele estava fazendo ali?
Não era para ele estar em casa, sozinho em casa, enquanto sua mãe estava no hospital, andando de um lado para o outro, esperando que Julie acordasse, estivesse bem... ou tão bem quanto ela estaria, tendo visto o acidente, o carro capotando, e seu pai...
Morrendo.
Luke esperava que ela não tivesse visto essa parte.
Talvez, alguma parte dele, também esperasse que sua irmã tivesse amnésia e não se lembrasse de nada, mas talvez fosse melhor saber de uma vez, talvez fosse melhor esquecer tudo, talvez... Luke não queria contar e nem desejava isso para ninguém, ele não tinha coragem para isso e sua mãe já estava tão destruída e...
Ele não conseguia dormir.
Ele se sentia estranho.
Ele estava sozinho.
Luke nunca estava sozinho – ele sempre tinha Julie ou Calum ou... mas nunca sozinho.
Olhando mais uma vez para o lado, para ter certeza de que não havia ninguém lá (talvez estivesse cego, enlouquecendo? Luke aceitava qualquer negócio), ele não avistou ninguém.
Nada de corpo quente.
Nada de sua irmã.
Nada de Julie.
Está deitado naquela cama nunca pareceu tão errado, tão... solitário. Julie não estava no outro quarto, ela não escorregaria para sua cama, não encaixaria a mão na sua... Talvez por um bom tempo. Talvez nunca mais.
Um soluço engasgou Luke, que de repente se sentiu claustrofóbico. As paredes encolhiam e o engolia, seu quarto diminuía cada vez mais, nunca... nunca Luke se sentiu assim, pequeno e minúsculo e fraco. E sem ar.
Arfando, Luke jogou as pernas para fora da cama e saiu correndo. Ele queria ficar longe. Longe da sua cama, do seu quarto, de qualquer lugar próximo ao quarto de Julie, de qualquer lugar...
Luke só parou de tentar fugir quando percebeu que não tinha para onde ir.
E que não podia fugir do que queria.
E por causa da chuva.
A água gelada de súbito o forçou a respirar – uma rápida respiração irregular e entrecortada por lágrimas, que se mesclaram com os próprios pingos de água.
Luke estava perdido, ele percebeu, encolhendo-se no chão. Ele não queria ficar perdido. Ele não queria ficar sem Julie. Mas era o que acontecia. Ele estava sem sua irmãzinha e se sentia perdido por causa disso.
Julie...
Julie era sua irmã.
Julie era a pessoa que ele mais amava.
Luke não saberia viver sem ela – ele já não sabia viver sem ela, ele nem conseguia ficar dentro do seu quarto sem sentir que tudo era demais, mas... era... era muitas coisas para que ele pudesse lidar.
E Luke se sentia tão, tão perdido.
Luke começou a rir e tremer, talvez pela chuva, talvez pelas lágrimas, talvez por estar sozinho e por tudo ao seu redor ser quente e brilhante e colorido, só... não ele.
Luke estava sem cor.
Pálido, gelado, frio.
Sozinho.
Luke tentou passar a mão nos olhos úmidos, mas... percebeu que não sentia seus dedos. Ele levantou a cabeça, encarando-os, impressionado, e tentou fazê-los se dobrar, todavia seus olhos não os viam se dobrando. Ele mandava a mensagem "curvem-se", mas eles não se curvavam.
Era impressionante na opinião de Luke.
Ele tentou levantar-se mesmo sabendo que não conseguiria, que não sentiria as pernas, e riu quando ralou suas mãos contra o asfalto, porque se sentiu tão bem, tudo estava tão bem. Tudo estava tão limpo. E quente. Seu sangue era quente. Tudo era tão brilhante (menos ele), que nem sua irmã era...
Sua irmã.
Luke parou de rir por um momento antes de recomeçar. Ele já não se sentia tão bem e limpo quanto antes, mas ele não queria deixar de lado esses sentimentos.
Ou parar de rir.
Luke sabia que se parasse de rir, começaria a chorar e ele não queria ser fraco, ele queria ser forte. Ele queria estar completo de novo. Ele queria Julie. Ele queria tanto sua irmã que doía. Ele queria tanto que as coisas fossem como sempre que daria qualquer coisa por isso, ele faria qualquer coisa.
Ele só queria Julie.
—Luke? – ele ouviu alguém lhe chamando, mas não levantou a cabeça. Nem reagiu aos braços que lhe rodeou.
Eles dois apenas ficaram ali.
Aproveitando.
Tentando.
Congelando.
Calum era quente, mas estava frio. E Luke sentiu mais frio ainda, porque era sua culpa o fato do seu amigo estar frio, porque... algo deveria ser. Seu pai não podia apenas ter morrido sem uma explicação, porque isso significava que o mesmo podia acontecer com a sua irmã.
E não podia.
—Ela não merece isso – disse, engasgando.
—Eu sei – concordou Calum.
—Julie pode parecer egoísta. Ela é egoísta – corrigiu-se Luke, apertando a camisa de Calum em suas mãos – mas ela sempre ajuda os outros.
—Eu sei.
—E-eu não sei o que fazer, Calum – sussurrou, encolhendo-se com sua confissão e levando seu amigo junto. – E-eu não sei. Eu me sinto...
—Sufocado – completou Calum quando Luke não pode, tão devastado quanto o seu amigo. – Eu sei.
—E todos só querem que eu...
—Seja forte, mas não sabem o quanto você está sendo forte. Está tentando.
—Mas esse é o problema – discutiu Luke, levantando a cabeça do ombro dele para poder encará-lo e então fechando os olhos, porque não queria ver pena, porque não aguentaria ver o quanto era fraco. – Não é para eu tentar, é para eu ser forte.
—Não, Luke – discordou Calum, balançando a cabeça com tristeza. – É para você dá o seu melhor e está ao lado de Julie, deixá-la saber que ela não está sozinha. E você não está sozinho. – Calum apertou seus braços ao redor dele. – Eu estou com você, Luke. Agora vamos – disse, ajudando-o a se levantar e puxando-o para dentro de casa. – Precisamos te secar.
—S-secar?
Luke começou a rir. Por nem uma razão. Porque queria. Porque doía. Porque a casa estava quente e ele tremia. Porque não podia acreditar que aquelas paredes o sufocavam há poucos minutos e agora estavam lá, quietas. Porque ao menos significava que estava fazendo algo, e não apenas seguindo Calum pelas escadas, entrando no seu quarto, sentando em sua cama e deixando-o que secasse seus cabelos.
—Luke? – chamou Calum, cauteloso, parando por um momento e olhando-o de perto, porque seu amigo estava quieto por muito tempo.
Eles estavam perto, percebeu. Muito perto. Perto o bastante para que Calum pudesse ver que os olhos de Luke estavam vermelhos, os lábios ressecados, a pele mais pálida que o normal e rugosa. Perto o bastante para que Calum pudesse ver as gotinhas de água nos cílios de Luke e as manchas de lágrimas misturadas com chuva em suas bochechas. Perto o bastante para que Calum quisesse passar os dedos por sua pele e retirar sua dor.
Ele deu passo para trás.
E Luke pulou em seus braços, surpreendendo-o ao abraçá-lo e apertando-o tão apertado, como se temesse que ele fosse e deixasse-o, sozinho; tão apertando que Calum sentiu as costelas do seu amigo; tão apertado que se sentiu consciente do seu corpo; tão apertando que não se sentiu sozinho.
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